Inteligência Competitiva Empresas: Patentear um produto pode levar mais de dez anos

Arquivo de pedidos de marcas e patentes no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual, no Rio. Foto: Ana Carolina Fernandes/Folhapress

A criatividade dos inventores pode esbarrar no desconhecimento do mercado e de uma pesquisa frágil sobre a viabilidade do novo produto, segundo a consultora do Sebrae Sandra Fiorentini.

Vale começar a busca no serviço Google Patents, que faz um levantamento global em escritórios de patente e informa se a ideia é nova.

Quem não faz essa lição de casa tem chances de ver o pedido rejeitado pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), após um processo que pode levar mais de dez anos.

O órgão atribui a morosidade ao baixo número de profissionais responsáveis pelas análises.

“Por ano, conseguimos avaliar apenas 11 mil requerimentos porque temos 300 encarregados, contra 8.000 nos EUA e 12 mil na China”, explica o diretor de patentes do INPI Júlio César Moreira.

É possível iniciar a venda do produto só com o requerimento. Mas não adianta pedir a patente quando o item, já à venda, é copiado. Isso porque ganha o registro quem fizer primeiro a solicitação.

O físico Claudemir Lopes, 51, ainda não conseguiu patentear sua invenção, a Thermo-X, argamassa térmica que diminui o calor e o barulho do ambiente. Mas o pedido foi feito há três anos.

“Já trabalho no ramo há 25 anos e vi que não havia um produto com essas características. Passei três anos desenvolvendo a massa, para uso em residências e prédios comerciais”, afirma.

Para criar a Thermo-X, Lopes investiu R$ 1,5 milhão. Ele não revela o faturamento, mas planeja crescer 8% em 2017 e calcula ter vendido cerca de 100 mil sacos do produto, comercializado em lojas de construção de grande porte.

O físico atribui o sucesso à experiência no setor. “Sem conhecimentos de processo industrial e de construção, não teria sido possível desenvolver a argamassa”, diz.

O professor de empreendedorismo do Insper Thiago de Carvalho recomenda que o inventor privilegie ideias em um setor que já conheça.

“Do contrário, corre-se o risco de ignorar questões importantes de público-alvo, custo de produção e precificação, pois o conhecimento do ramo é elementar.”

Uma pesquisa deste ano da Global Entrepreneurship Monitor, que levantou dados econômicos de 64 países, aponta que 66% das empresas brasileiras que fecham as portas o fazem pela baixa lucratividade de seus itens.

“Além de mostrar o produto para colegas e amigos que poderiam se interessar, dá para entrar em contato com pontos de venda, como grandes lojas, e colher opiniões ali”, afirma Fiorentini.

Carvalho, do Insper, diz que, sem um investidor profissional que cobre resultados, é preciso ter cuidado para não se endividar.

“Muitos gastam todo o dinheiro que têm sem muita supervisão. É preciso ser criativo para encontrar formas de abrir a empresa com alguma folga no orçamento.”

Fonte: Folha de S.Paulo, SÃO PAULO, 22/05/2017, 02h00

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