Inteligência Competitiva: “Redes sociais têm de responder pela polarização que causam”

ARQUIVO 20/04/2017 ECONOMIA / NEGÓCIOS – Paul Mihailidis, especialista em educação para a mídia da Emerson College, da Universidade de Boston Crédito: Salzburg Global Seminar

Os algoritmos das redes sociais criaram uma situação em que as pessoas vivem em uma “bolha” de informação na qual não há espaço para opiniões contrárias. O objetivo das redes de agradar o usuário acabou por criar um ambiente polarizado. Cada grupo fica em um canto, preferindo ouvir inverdades que lhe agradem do que uma visão contrária (e real).

Segundo Paul Mihailidis, professor da Emerson College (de Boston, nos EUA) e diretor de uma academia global de estudos sobre mídia, as redes sociais têm de ser responsabilizadas por seu papel nessa polarização, pois deram a todos o “poder” de espalhar informações falsas ou unilaterais.

“As redes sociais se dizem companhias de tecnologia, e não de mídia. E usam isso para se abster da responsabilidade sobre como as pessoas agem politicamente e civicamente dentro de seus espaços”, afirma Mihailidis.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Estado: O quanto a capacidade em discernir fontes de notícias está ligada à educação?

Paul Mihailidis: Na realidade, não está. Nos anos 1970, um famoso pensador dizia o contrário: que os mais ricos eram mais suscetíveis a inverdades e a argumentos enviesados porque viviam desconectados da realidade. Acho que colocar a culpa na educação é uma saída fácil. Não é o que temos visto em nossas pesquisas. Por causa da evolução tecnológica, todas as pessoas, de todas as classes sociais e níveis educacionais, são suscetíveis à distribuição de narrativas falsas e unilaterais. É um problema apartidário, pois tanto a direita quanto a esquerda usam a estratégia de polarização. Por isso, mais importante do que discutir educação é entender melhor como funcionam as redes nas quais as pessoas compartilham informações.

As redes sociais servem às pessoas notícias que pensam que elas querem ler. Isso influencia nesse processo?

Acho que, desde a fundação da imprensa, buscamos informações que nos agradam. É por isso que escolhemos uma estação de rádio, em vez de outra. Sempre houve essa disposição. Mas agora não estamos apenas consumindo informação; também estamos compartilhando notícias. As comunidades, além de apresentar informações de nosso interesse, também nos dão o poder de compartilhá-las com nossa rede de amigos. A diferença é de escala. Toda a vez que uma pessoa compartilha algo e recebe um bom feedback, a tendência é que ela continue a repassar conteúdo semelhante adiante. E nem sempre vai conferir se essas informações são verdadeiras ou não.

E qual é o papel da mídia tradicional? Na busca de conteúdo ‘compartilhável’, a mídia está ‘esquecendo’ seus padrões?

Muitas vezes, na busca por cliques, a mídia tradicional acaba legitimando notícias falsas. Neste sentido, dá para dizer que a mídia está reduzindo seus padrões. Nos Estados Unidos, notícias falsas também foram legitimadas pelo fato de que se acreditava que qualquer coisa relacionada à eleição deveria ser coberta. Em alguns casos, tanto por causa do assunto envolvido quanto pela audiência que os boatos atraem, as empresas de mídia decidiram cobrir certos temas.

Os jovens de hoje acessam informação de um jeito diferente?

Sim. E acredito que as novas gerações têm discernimento. Elas sabem que o New York Times é uma fonte confiável, embora tenha seu viés. Também sabem que o Wall Street Journal tem credibilidade, assim como sabem, por falta de opção melhor, que a CNN também é séria. Mas os jovens não usam apenas essas opções. Eles leem uma reportagem, prestam atenção no que a rede de amigos diz sobre elas, veem um post em um blog, assistem a alguns vídeos. Hoje, as pessoas estão em busca de camadas de informação.

Buscar diferentes fontes, em teoria, é algo bom.

Constatamos que existe discernimento e pensamento crítico. Porém, somos enviesados na maior parte do tempo, porque a mídia está se tornando mais segregada – e os algoritmos das redes sociais direcionam as pessoas a essas bolhas de informação. Não é que não tenhamos capacidade de desconstruir narrativas falsas. O problema é que estamos apenas escutando o que nos agrada e passando adiante. Uma pessoa pode achar que Donald Trump cometeu o erro A, B ou C, mas continuará a compartilhar o que ele diz se, de forma geral, o discurso dele a agradar.

E qual é a solução?

As redes sociais fazem algo interessante: elas se dizem companhias de tecnologia, e não de mídia – e usam isso para se livrar da responsabilidade sobre a forma como as pessoas agem politicamente e civicamente dentro de seus espaços. Acho que precisamos questionar e responsabilizar essas organizações que estão usando algoritmos que reforçam a polarização de ideias.

E a educação para a mídia também precisa evoluir?

Sim. Precisamos sair apenas da análise das informações para entender como as notícias impactam as comunidades, as cidades. É necessário saber como a produção de notícias tem impacto nas relações do dia a dia, como é usada nas decisões de uma comunidade e como constrói ou destrói pontes entre os pontos de vista. A partir disso, existe a oportunidade real de usarmos a tecnologia como uma facilitadora na aproximação das pessoas.

Fonte: Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo,  24 Abril 2017 | 05h00

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