Inteligência Competitiva – Educação Executiva: Aula prática

Tempos de crise nem sempre são períodos de vacas magras. Ao menos no caso das escolas de negócios, o contrário é muito mais provável: em momentos de incerteza, as instituições de ensino executivo recebem mais profissionais interessados em atualizar seu currículo para ganhar visibilidade no mercado.

A turbulência econômica no Brasil vem causando esse efeito nos cursos de MBA: nas grandes escolas locais não há sinal de crise, nas internacionais o número de candidatos brasileiros aumenta de forma constante.

Mas as mudanças do mercado de educação executiva não se resumem à demanda crescente por MBAs e cursos de pós­-graduação. A velocidade e a intensidade das transformações no ambiente de negócios vêm se refletindo nos currículos, metodologias de ensino e no investimento em tecnologia das escolas em todo o mundo.

As instituições têm buscado inserir disciplinas mais conectadas com o que o mercado demanda e promover atividades práticas, que desenvolvam mais competências comportamentais do que apenas conhecimentos técnicos.

“Nos últimos dois anos, houve uma mudança estrutural no perfil do profissional demandado pelas empresas”, afirma Luiz Wever, CEO da Odgers Berndtson, empresa de recrutamento especializada em posições de alto escalão.

A substituição de executivos nesse nível, segundo ele, mostrou que o mercado valoriza pessoas com forte estilo de liderança, capacidade de resistir à pressão e, principalmente, de “pensar fora da caixa”.

“Trabalhamos muitas posições que pediam executivos preparados para buscar o novo, seja explorando diferentes maneiras de negociação, canais diversos de distribuição ou alternativas para reestruturar a companhia”, diz.

O sócio­-diretor da consultoria de recrutamento Exec, Carlos Eduardo Altona, destaca a busca das empresas por profissionais com competências de empreendedorismo, inovação digital e visão estratégica, independentemente de indústria ou área de atuação.

Elas vêm investindo no desenvolvimento de habilidades comportamentais, respondendo a críticas do mercado de Wright, da FIA: colaboração de executivos experientes em consultorias que os alunos saem pouco preparados para os desafios reais do mundo dos negócios.

Foi com base nessa percepção que a Fundação Getulio Vargas (FGV) implementou, no currículo de 2017 , uma avaliação das competências dos alunos de MBA, conhecida no mercado como “assessment”.

De acordo com o diretor de programas e processos acadêmicos da FGV, Gerson Lachtermacher, os participantes têm seu perfil avaliado no começo do curso e traçam um plano de desenvolvimento de competências.

“Ao final do MBA, eles terão também uma disciplina de gestão de carreira, onde precisam planejar seu futuro profissional a longo prazo”, afirma. A nova abordagem tem como objetivo implementar aprendizados não teóricos, que fogem da sala de aula tradicional.

“As empresas não querem um aluno que saiba toda a teoria do mundo, mas que olhe para um problema e vá atrás da solução. É o empreendedor interno que ativamente busca respostas”, afirma.

A FGV também focou na digitalização ­ o chamado learning management system dá acesso remoto à biblioteca dos cursos, enquanto novas tecnologias conectam professores e alunos em fóruns de debates on­line.

O método chamado de “learn by doing“, na tradução livre para o português, aprender fazendo, vem sendo adotado recentemente nas principais escolas de negócios.

Uma delas é a Harvard Business School, mais conhecida por ter criado o método do estudo de caso, mas que em 2011 mudou seu currículo para incluir mais atividades práticas em seus MBAs.

Na THNK, escola de negócios holandesa que iniciou suas atividades em 2012, o “aprendizado experiencial”é a principal linha de ensino desde o começo. Com foco em desenvolvimento de liderança criativa, a instituição recebe cada vez mais candidatos com perfil executivo.

Segundo o reitor Berend­Jan Hilberts, as competências­-chave desse método são explorar para descobrir novas oportunidades, arquitetar novos conceitos sustentáveis, conduzir para explorar o poder da equipe e dirigir com resiliência.

“Elas são essenciais no mundo imprevisível e complexo em que vivemos”, diz. No método de trabalho da THNK, grandes corporações compartilham seus desafios com os alunos para que eles ajudem a resolvê­los, em tempo real.

Em abril deste ano, a escola organiza pela terceira vez um programa de curta duração em São Paulo ­ o Brasil vem se mostrando um mercado promissor e pode ganhar um escritório em breve.

“Há demanda no país para esse tipo de aprendizado. Os brasileiros têm um grande apetite por educação continuada”, afirma Hilberts. A FIA também vem investindo em turmas de MBA que trabalham projetos reais em conjunto com escolas internacionais parceiras, afirma o coordenador James Wright.

“Usamos simulações de Harvard em tempo real nas aulas e tivemos a colaboração de executivos experientes em consultorias nas empresas”, explica. O modelo de cooperação internacional, segundo ele, trouxe a vantagem de promover uma experiência de diversidade para os alunos em 2016 ­ no ano, participantes de dez nacionalidades diferentes conviveram durante 12 meses no Brasil.

Outra tendência observada pelas escolas é a ascensão dos programas ‘blended’, que misturam ensino presencial e on­line. Depois da expansão acelerada dos cursos pela internet, muitas escolas chegaram à conclusão de que um modelo misto é mais eficiente.

“No MBA, o aluno escolhe como quer fazer: ele pode começar em um tipo de curso e terminar no outro. Independentemente da plataforma, a instituição quer prover soluções educacionais”, afirma o diretor da Fundação Getulio Vargas.

A Fundação Dom Cabral (FDC) foi uma das escolas pioneiras nesse modelo misto, afirma a professora Marta Pimentel. “Já começamos na origem do MBA com essa ideia. À medida que a tecnologia avançou, as facilidades digitais foram trazendo mais possibilidades”, conta. A instituição não oferece, porém, cursos abertos 100% on­line.

“Hoje, apenas os programas customizados têm essa opção, principalmente quando se trata de uma demanda da empresa”, conta. Marta acredita que, sozinhos, os programas de educação executiva têm uma longevidade cada vez mais curta. “É preciso ter a consciência de que um MBA feito hoje pode estar desatualizado daqui a um ano”, diz.

A estratégia da escola, segundo ela, é ir além dos conteúdos técnicos e promover uma plataforma de conhecimento e relacionamento ao longo da vida. Ela cita como exemplos a rede de contatos de professores, alunos e ex-­alunos, a possibilidade de voltar à escola atualizando disciplinas novas que vão sendo incorporadas ao programa e a mentoria, serviço oferecido pela instituição para acompanhar e desenvolver habilidades comportamentais.

“Antes, o participante concluía o curso e ia trabalhar. Hoje a proposta é que os programas de educação executiva sejam portas de entrada sem saída. Para estar atualizado, é preciso estudar a vida toda”, afirma.

Fonte: Vívian Soares, Valor Econômico, 31/01/2017 ­ 05:00

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