Inteligência Competitiva Entrevista: Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, Valor Econômico

Assis Moreira/Valor

Trabuco: departamento econômico do banco projeta que, no último trimestre, país estará crescendo até 2,5% na margem. Foto: Assis Moreira/Valor

O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, usa as previsões meteorológicas de ­15ºC nesta semana em Davos para estabelecer um contraste com as perspectivas globais. “Em termos de temperatura, será um dos encontros mais frios”, diz ele, que participa todos os anos do Fórum Econômico Mundial, na Suíça. “Com relação ao mundo, nunca foi tão aquecido, tão beligerante. Parece que ficou mais mal humorado comparado a anos anteriores.”

A mensagem que Trabuco carrega na bagagem para Davos, como executivo muito procurado por investidores estrangeiros, é que “o Brasil está em um momento de virada”e “o estoque de pessimismo dos últimos três anos está se esgotando”. Na avaliação dele, em 2017 haverá dois anos em um só: o primeiro semestre carrega uma recessão inercial; o segundo termina com crescimento na margem de até 2,5% do Produto Interno Bruto, em termos anualizados, inflação controlada e juros de um dígito.

Contido nos elogios ao governo, mas demonstrando apoio à agenda de reformas do presidente Michel Temer, Trabuco vê dois “pactos não anunciados e correlacionados” como efeito da crise. Um é a crescente articulação entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Outro é uma harmonia maior entre Estado e mercado. Ambos giram em torno da necessidade de reformas. Leia os principais trechos da entrevista.

Valor: Qual é a mensagem que o sr. e os empresários brasileiros vão trazer para Davos?

Luiz Carlos Trabuco: O Brasil está em um momento de virada. Em 2017 , teremos dois anos em um só. O primeiro semestre está contratado: a recessão inercial ainda provoca desaceleração na economia. Para de piorar, mas ainda vamos ver dados negativos, principalmente na atividade econômica. No segundo semestre, a expectativa que tenho ouvido ­ e eu também acredito nela ­ é de um outro ano. Teremos concluído a agenda de reformas propostas e a redução da Selic já estará dando resultados, do ponto de vista de mudar o custo de capital, além de uma consolidação na queda da inadimplência. Os créditos problemáticos estão sendo limpados na carteira dos bancos, seja por “write off” [baixa contábil], seja por renegociações com aumento das garantias. O crédito irrecuperável você lança como perda e vira a página. Mas, quando o cliente pode dar uma melhoria nas garantias, os bancos ­ e nós em particular ­ temos alongado e reperfilado. Os problemas da inadimplência em 2016 não vão se repetir em 2017 .

Valor: Pesa sobre o presidente Michel Temer o risco de cassação da chapa pelo TSE. O sr. conta com uma normalização do cenário político ou há risco de mais turbulências?

Trabuco: Os riscos sempre existem, mas as turbulências que vimos no ano passado foram muito intensas e são impossíveis de acontecer em 2017 . O tom neste ano é de pragmatismo e uma visão realista do presente. Existe consciência de que o tempo é curto, não cabe nada mirabolante ou heterodoxo, mas de que o futuro vai depender de um trabalho feito agora. Há uma expansão da consciência, por parte da sociedade brasileira, de que a agenda proposta pelo governo é necessária. Não é a agenda possível, é a agenda necessária.

Valor: Então o sr. aposta na aprovação da reforma da Previdência e da minirreforma trabalhista?

Trabuco: Não temos alternativa. Chegamos a um grau de consciência de que isso é absolutamente necessário. Caso contrário, não haverá crescimento sustentável. Se não for isso, é voo de galinha. Quando digo que 2017 vale por dois anos, é lembrando que 2018 também é um ano eleitoral. As reformas precisam ser feitas agora. Mas esse futuro depende de fechar as portas para o passado. O que passou, passou. Esse estoque de pessimismo dos três últimos anos, principalmente em 2015 e 2016, está se esgotando. Ele amarra a mudança de expectativas. Há um certo momento em que existe a chamada fadiga de material. O clima de pessimismo fica para trás. Estamos vivendo um momento de transição. O novo governo propôs uma agenda importante, pesada, mas fundamental para retomar o crescimento e a geração de emprego.

Valor: A redução em 0,75 ponto percentual da taxa Selic marca uma mudança de ânimo na economia?

Trabuco: Essa é uma questão pontual. O novo ciclo de afrouxamento monetário estava contratado. O ciclo anterior, de aperto monetário, foi extremamente intenso. Esse rigor foi necessário, principalmente para estabelecer credibilidade nas metas de inflação. Mas, eternizado, traria um custo insuportável para a dívida pública. O comunicado do Copom já sinaliza novas reduções de 0,7 5 ponto. Não foi uma decisão com base em relatórios. Foi uma conclusão sólida: nós conquistamos a oportunidade de reduzir os juros de maneira mais acelerada. Isso tem a ver com a queda da inflação. Há uma unanimidade de que a inflação futura está comportada e manter os juros tão altos seria inócuo para reduzir os índices para um outro patamar.

Valor: Qual é a expectativa do sr. para a trajetória da Selic?

Trabuco: Ela vai em direção a um dígito.

Valor: Chega a 9%, como preveem alguns analistas?

Trabuco: Não saberia dizer se chega a 9%, mas algo um pouco abaixo de 10%, provavelmente. A direção é positiva, o cenário é benigno para essa trajetória. Valor: O sr. diz que 2017 terá dois anos em um só. Qual será o ritmo de crescimento no fim do ano?

Trabuco: Nosso departamento econômico projeta que, no último trimestre, estaremos crescendo entre 2,3% e 2,5% na margem [em ritmo anualizado]. Não subestimemos a capacidade que o ciclo de afrouxamento monetário tem na economia brasileira. A própria expectativa com a pauta do governo é de uma revisão do custo de crédito no país. Até abril, existe o compromisso do sistema bancário de redesenhar os instrumentos do cartão de crédito, como o rotativo e o parcelado. Sou otimista com a agenda colocada. Não esperamos desvalorização do real face a outras moedas. O fluxo de capitais é grande, a balança comercial surpreendeu, o déficit em conta corrente está ao redor de 1% do PIB.

Valor: A redução dos juros é suficiente para garantir o crescimento no 2º semestre ou isso depende da combinação de juro e reformas?

Trabuco: Os juros, isoladamente, não garantem. Junto com as reformas, e também com o programa de concessões, permitem retomar o crescimento. É verdade que, depois de um processo recessivo tão longo, a retomada não gera emprego em um primeiro momento. A economia cresce em cima da capacidade ociosa. Quando a confiança se sedimenta, transforma-­se em geração de emprego. A novidade é que estamos construindo um modelo de governança em torno de dois pactos não anunciados e correlacionados.

Valor: Quais são?

Trabuco: Existe um elo entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Em momentos de dúvida, os poderes acabam se articulando. Por que isso aconteceu? Porque a crise ficou tão manifesta e a visão futura da economia ficou tão comprometida que a maioria da sociedade brasileira está procurando o caminho do centro, do meio, em que não cabe ideologia. Existe outro pacto não escrito que é uma espécie de avanço na convivência entre Estado e mercado. Esse modelo de governança já rendeu uma agenda positiva, que está em curso e tem como item prioritário tirar o Brasil da rota de insolvência. Um país insolvente com dívida social tão intensa é algo catastrófico.

Valor: O sr. comentou no início que espera uma consolidação na queda da inadimplência. Poderia explicar melhor isso?

Trabuco: Quando a crise acelerou, a partir de 2014, as empresas estavam extremamente equilibradas e com geração de caixa favorável. Sentimos uma redução no nível de endividamento das empresas naquele momento. A ausência de crescimento do crédito se deve a dois fatores: a menor necessidade de financiamento para multiplicar os negócios, mas também pela liquidação de compromissos financeiros. A inadimplência da pessoa física demorou para aparecer. Isso aconteceu primeiro com as empresas, que entraram em crise. Em 2016 e talvez no primeiro semestre de 2017 , teremos muitos reperfilamentos, mudanças de patamar em prazos. A redução da Selic vai ajudar. Renegociar o crédito com um custo de capital tão elevado pode onerar ainda mais as empresas. A questão é criar um perfil de endividamento que caiba no bolso e na geração de caixa das pessoas e das empresas. Já tivemos retomada do crédito em momentos piores. Só 80% do estoque global de crédito vencido era renovado. Hoje está ao redor de 90%.

Valor: Como está o processo de sucessão no banco?

Trabuco: O processo sucessório estava inicialmente previsto para acontecer em 2017 . Por uma proposta do conselho de administração, ratificada pelos acionistas, eu continuo na função pelos próximos dois anos ­ até 2019. A sucessão vai acontecer com os valores do Bradesco: aqui se valoriza a prata da casa, o processo de carreira, a identidade com o banco. É um caminho natural.

Valor: Qual é o desafio no tempo que lhe resta à frente do banco?

Trabuco: Temos desafios enormes e a minha presença na presidência foi um voto de confiança para executar o nosso grande objetivo em 2017 e em 2018, que é a integração do banco adquirido [HSBC], a maior aquisição da nossa história, equivalente a 20% do nosso tamanho e justamente no momento mais duro da economia. Em qualquer cenário favorável, os ganhos de sinergia dados por essa operação agregam valor ao acionista. O desempenho do banco no ano passado mostra que estamos preparados, mesmo em um cenário adverso do crédito. O balanço da organização até o terceiro trimestre mostra que temos um bom modelo de negócios: somos um banco de crédito, mas também de prestação de serviço e temos a maior seguradora da América Latina, além de um banco de investimentos e bem segmentado. No ano passado, nossas ações tiveram alta de 62% na Bovespa, o que significa um reconhecimento do mercado.

Valor: O Bradesco fez questão de defender a conclusão do mandato de Murilo Ferreira na Vale. Houve mal­-estar com o governo?

Trabuco: Esse é um assunto sempre discutido na Valepar ­ com Previ, Mitsui, BNDES e Bradespar. O mandato do Murilo está em andamento e há uma relação extremamente respeitosa entre as partes. Aquela discussão ocorreu durante o mandato, mas o mandato vai até maio e está preservado. Valor: Espera um desfecho em 2017 das acusações que pesam contra o sr. no âmbito da Operação Zelotes?

Trabuco: Nós ­ o Bradesco e eu em particular ­ temos um respeito imenso pelas instituições: a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário. O processo existe, fizemos a defesa e estamos confiantes em que haja um entendimento em relação ao que aconteceu e ao que não aconteceu. Tenho uma confiança grande na Justiça.

Fontes: Assis Moreira e Daniel Rittner | De Davos (Suíça, Valor Econômico, 17/01/2017, 05:00

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