Inteligência Competitiva Cenários: Aula magna com Professor Antonio Delfim Netto: Boas notícias

m14041716

Gregos e troianos comemoram, respectivamente, com maior ou menor entusiasmo, a rápida redução da taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE.

Ela caiu de 10,7 % em dezembro de 2015, para 6,3% em dezembro de 2016. Como em economia não há almoço grátis, discute­-se qual foi o custo do óbvio benefício. Os gregos têm a tendência de minimizá-­lo.

Teria sido produzida por uma mudança nas expectativas de inflação, decorrente da firme clareza demonstrada pelo Banco Central, que afirmou que seu único objetivo é a meta de 4,5%.

Os troianos, por sua vez, têm a tendência de maximizá-­lo, atribuindo-­o à “perversão”da política “austericida” iniciada no governo Temer, ignorando que esta não chega nem perto da que Dilma fez, em 2015.

Há um claro exagero de ambas as partes. Por um lado, é evidente que a firmeza do Banco Central, somada ao reconhecimento da sua autonomia operacional pelo governo Temer, acompanhadas do programa de controle das despesas que pouco a pouco foi se tornando crível, exerceu um impacto positivo sobre as expectativas da inflação.

Estudos empíricos mostram ser esta importante fator sobre a sua concretização “ex­post”. Por outro, se tomarmos o período entre agosto e dezembro, verificaremos que o grupo “alimentação e bebidas”, cujo peso no IPCA é de cerca de 26%, caiu do máximo de 13,9% nos últimos 12 meses em agosto, para 8,6% em dezembro.

É hora de aprovar as necessárias medidas microeconômicas Grosseiramente, portanto, em torno de metade da queda do IPCA nos últimos cinco meses foi devida ao grupo “alimentação e bebidas”.

A safra 2015/16 foi muito prejudicada pela evolução do El Niño: a produtividade (toneladas/hectare) caiu quase 11% em relação à de 2014/15. O mais provável que a “oferta”de alimentos só tenha crescido depois que a safra estava completamente colhida, e as incertezas climáticas, já conhecidas, o que eliminou, nos agentes, o estímulo para controlar seus estoques.

Este é um velho hábito dos especuladores, conhecido por célebres exemplos desde a antiguidade grega, e produtor da “fome”ainda no século XVIII. Aliás, foi uma das justificativas do “laissez­faire, laissez­passer”.

O efeito do clima foi também destruidor da infraestrutura rodoviária, que exigirá uma maior atenção sobre o investimento necessário para reduzir o efeito no custo do transporte.

No curto prazo, a demanda de alimentos depende, basicamente, do valor real da massa salarial. Se tomarmos a pesquisa de amostra por domicílios contínua centrada em junho e em dezembro, podemos estimar que o pessoal ocupado registrou uma queda de 0,65%, mas o salário real (o rendimento habitual do trabalho) cresceu 1,35%, do que resulta que a massa salarial real cresceu muito pouco, em torno de 0,7 %.

Não é difícil conciliar esse número com a queda registrada na inflação dos alimentos e, consequentemente, da taxa de inflação medida pelo IPCA. A hipótese da redução da demanda fica mais plausível se uma parte do aumento da massa real de rendimentos tiver sido dirigida para a redução das dívidas, em resposta à altíssima taxa de juro real “ex­ante”estabelecida pela Selic (que cresceu desde o início do governo Temer), e, principalmente, as estabelecidos no do mercado financeiro livre.

O seu custo talvez não tenha sido menor do que a queda de 0,4% do PIB e o consequente aumento do déficit primário (com o dispêndio de juros) e a piora da relação dívida/PIB.

É preciso aceitar um fato insuperável: o voluntarismo populista irresponsável praticado a partir de 2012, ajudado pela expansão do crédito (interno e, pior, externo) com aval da União às unidades federadas, que os tomavam para “investimento”, mas os usavam para pagar “pessoal”, colocou em estado falimentar a Federação (a União e os maiores Estados e municípios).

A recessão iniciada no 2º trimestre de 2014 completou o quadro: a queda das receitas pôs nas mesmas condições até os que se comportaram adequadamente.

Nas condições objetivas de junho de 2016: déficit primário de 2,5% do PIB e dívida bruta/PIB de 68,6%, não restava ao Banco Central outra alternativa. Se tivesse titubeado e cedido à pressão para começar a redução da taxa de juros, ela não seria crível e, provavelmente, todo o programa de restabelecimento de um relativo equilíbrio fiscal como preparação para a volta ao crescimento fracassaria.

Quando ficar claro que um bom avanço no equilíbrio da previdência social está garantido, poderemos avançar mais na queda da taxa de juros real, que será importante fator coadjuvante para a volta mais rápida do equilíbrio fiscal. A situação é hoje muito melhor.

É hora de nos concentrarmos na aprovação de pequenas, mas necessárias, medidas microeconômicas que impactam diretamente o aumento da produtividade do trabalho que é, por definição, o próprio desenvolvimento econômico.

A cooptação do competente economista João Manoel Pinho de Mello para a equipe econômica do governo reforçou essa esperança.

Fonte/autor: Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA­USP, ex­-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-­feiras para o Valor Econômico. 17/1/2017. E­mail: ideias.consult@uol.com.br

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s