Inteligência Competitiva Telecomunicações: Operadoras arrastam para este ano velhos problemas

O setor de telefonia passou por transformações importantes em 2016, mas arrastou para 2017 velhos problemas. A reforma da Lei Geral de Telecomunicações (LGT) ainda não foi aprovada e a recuperação judicial da Oi ainda tem um longo caminho a percorrer.

Ainda assim, o cenário é mais amistoso, segundo analistas. O ambiente competitivo é um dos mais moderados desde a privatização e a expectativa de uma nova legislação, que tende a ser definida no primeiro trimestre, pode tornar as operações mais eficientes e os investimentos mais racionais.

A torcida não só das operadoras, mas também de investidores, é que seja aprovado um projeto que permite alterar a LGT para que as atuais concessões de telefonia fixa sejam convertidas em autorizações. O projeto foi aprovado pelas comissões do Senado e seria assinado pelo presidente Michel Temer. Mas, a pedido de um grupo de senadores, está sob análise no Supremo Tribunal Federal. Os políticos pedem a devolução ao Senado para votação em plenário.

Essa discussão também se arrastou ao longo de 2016 e respingou sobre o mercado de capitais. As ações de telefonia encerraram 2016 com desempenho abaixo do Ibovespa ­ o índice teve valorização de 39% ­, mas sustentaram altas. Entre as três principais empresas do setor listadas na BM&FBovespa, a Telefônica, dona da marca Vivo, teve o melhor desempenho, com alta de 28,5% no ano, para R$ 43,7 6. A ação da TIM Brasil subiu 17 %, passando de R$ 6,68 para 7 ,83. O papel com direito a voto da Oi avançou 9,6% e a ação preferencial subiu 15,4%, para R$ 2,25 e R$ 2,63, respectivamente.

A trajetória de alta ocorreu após quedas intensas para todo o setor em 2015. A líder de mercado Telefônica havia perdido 17 % em valor há dois anos, depois de gastar um bom dinheiro na aquisição da GVT. O valor da TIM caiu 41%, enquanto o mercado alimentavas expectativas de que a companhia participasse de uma fusão no setor, mas acabou frustrado com a falta de interesse da controladora Telecom Italia em firmar um acordo com a Oi e o grupo russo LetterOne. Já o caso da Oi foi emblemático. A ação se desvalorizou mais de 7 0% em bolsa após a companhia se desfazer do ativo da Portugal Telecom na esteira do escândalo do Grupo Espírito Santo e de uma situação financeira complicada.

A Telefônica mostrou recuperação ao longo de 2016 ao adotar um posicionamento racional em preços, enquanto TIM e Oi começaram 2016 com a igualdade de tarifas para clientes dentro e fora da operadora, tentando surfar a consolidação do uso em só um chip. Em julho, a dona da Vivo informou que a economia de custos decorrente da integração com a GVT foi revista para R$ 25 bilhões, superior aos R$ 22 bilhões pagos na aquisição. Em outubro, a renúncia do presidente Amos Genish derrubou o papel, mas a queda não demorou a ser vista como uma barganha para novas compras.

Nenhuma das quatro principais operadoras do país tem incentivos para ser agressiva em preços neste momento, diz o analista Carlos Sequeira, em relatório do BTG Pactual. A América Móvil, dona do grupo Claro, está focada em preservar seu caixa. A Vivendi, acionista controladora da Telecom Italia, mudou a estratégia da TIM, e a geração de fluxo de caixa parece ser a atual prioridade. A Oi está em meio a uma recuperação judicial e um complexo processo de reestruturação da dívida. E a Vivo, líder de mercado, não tem razão para ser agressiva se os competidores não são. “De forma geral, todas as empresas estão ajustando seus preços para cima e reduzindo investimentos, de olho em tornar as operações mais lucrativas”, diz Sequeira.

A Vivo permanece a preferida de analistas para 2017 , principalmente pela capacidade de melhorar o retorno sobre investimento se a mudança do modelo de concessão para autorização for concretizada e porque, como líder, pode surfar a recuperação da atividade econômica esperada para o segundo semestre.

O aumento das receitas, mesmo que pequeno, a expansão da margem e a diminuição de investimentos podem levar a um salto no fluxo de caixa livre para as operadoras brasileiras. Segundo o BTG Pactual, o indicador pode subir 26% no caso da Vivo, em 2017 , para R$ 6,8 bilhões. No caso da TIM, o fluxo de caixa livre poderia avançar 125% neste ano, para R$ 1 bilhão, após queda de 40% em 2016, o menor nível em cinco anos.

Para a equipe de análise do Bank of America Merril Lynch, as medidas tomadas pela TIM em 2016 para reposicionar a marca estão dando resultados. “Assim como na Itália, a nova administração incutiu uma nova cultura de controle de custo e foco em investimento”, diz a equipe de análise em relatório publicado neste mês. “Assim como ficou mais exposta à crise devido ao segmento pré­pago, agora a TIM deve ser mais beneficiada pela recuperação econômica.”

Já para Célson Plácido, analista da XP Investimentos, a TIM precisa de mais esforços para reposicionar a marca, antes focada em baixo custo e alvo de queixas sobre a cobertura. “A melhora de imagem não deve acontecer em 2017 .”

Para a Oi, apesar do risco elevado, “todas as mudanças levam a um cenário mais favorável para a empresa se recuperar”, diz Rafael Ohmachi, analista da Guide Investimentos. “A mudança da Lei de Telecomunicações e o interesse de investidores estrangeiros em capitalizar a Oi podem beneficiar investidores. A diluição dos acionistas é o principal fator a pressionar o papel, mas em parte está precificada.”

No entanto, restam questões importantes: “A Oi sai da recuperação judicial e caminha sozinha? É vendida a um investidor estrangeiro? Desmembrada entre as demais operadoras? São perguntas extremamente difíceis de responder”, diz Plácido.

Segundo os especialistas, a reforma da LGT é crucial para esperar desempenho melhor das empresas, em seus balanços e em bolsa. O BTG estima que a Telefônica possa economizar R$ 641 milhões por ano com a mudança de regulação, enquanto a Oi teria ganhos de R$ 1,298 bilhão. “A mudança da concessão para autorização pode gerar significativas melhoras de eficiência e melhor uso do capital das operadoras”, diz Sequeira.

Fonte: Tatiane Bortolozi, Valor Econômico, 10/01/2017, 05:00

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