Inteligência Competitiva – Educação Executiva: Aula prática

Tempos de crise nem sempre são períodos de vacas magras. Ao menos no caso das escolas de negócios, o contrário é muito mais provável: em momentos de incerteza, as instituições de ensino executivo recebem mais profissionais interessados em atualizar seu currículo para ganhar visibilidade no mercado.

A turbulência econômica no Brasil vem causando esse efeito nos cursos de MBA: nas grandes escolas locais não há sinal de crise, nas internacionais o número de candidatos brasileiros aumenta de forma constante.

Mas as mudanças do mercado de educação executiva não se resumem à demanda crescente por MBAs e cursos de pós­-graduação. A velocidade e a intensidade das transformações no ambiente de negócios vêm se refletindo nos currículos, metodologias de ensino e no investimento em tecnologia das escolas em todo o mundo.

As instituições têm buscado inserir disciplinas mais conectadas com o que o mercado demanda e promover atividades práticas, que desenvolvam mais competências comportamentais do que apenas conhecimentos técnicos.

“Nos últimos dois anos, houve uma mudança estrutural no perfil do profissional demandado pelas empresas”, afirma Luiz Wever, CEO da Odgers Berndtson, empresa de recrutamento especializada em posições de alto escalão.

A substituição de executivos nesse nível, segundo ele, mostrou que o mercado valoriza pessoas com forte estilo de liderança, capacidade de resistir à pressão e, principalmente, de “pensar fora da caixa”.

“Trabalhamos muitas posições que pediam executivos preparados para buscar o novo, seja explorando diferentes maneiras de negociação, canais diversos de distribuição ou alternativas para reestruturar a companhia”, diz.

O sócio­-diretor da consultoria de recrutamento Exec, Carlos Eduardo Altona, destaca a busca das empresas por profissionais com competências de empreendedorismo, inovação digital e visão estratégica, independentemente de indústria ou área de atuação.

Elas vêm investindo no desenvolvimento de habilidades comportamentais, respondendo a críticas do mercado de Wright, da FIA: colaboração de executivos experientes em consultorias que os alunos saem pouco preparados para os desafios reais do mundo dos negócios.

Foi com base nessa percepção que a Fundação Getulio Vargas (FGV) implementou, no currículo de 2017 , uma avaliação das competências dos alunos de MBA, conhecida no mercado como “assessment”.

De acordo com o diretor de programas e processos acadêmicos da FGV, Gerson Lachtermacher, os participantes têm seu perfil avaliado no começo do curso e traçam um plano de desenvolvimento de competências.

“Ao final do MBA, eles terão também uma disciplina de gestão de carreira, onde precisam planejar seu futuro profissional a longo prazo”, afirma. A nova abordagem tem como objetivo implementar aprendizados não teóricos, que fogem da sala de aula tradicional.

“As empresas não querem um aluno que saiba toda a teoria do mundo, mas que olhe para um problema e vá atrás da solução. É o empreendedor interno que ativamente busca respostas”, afirma.

A FGV também focou na digitalização ­ o chamado learning management system dá acesso remoto à biblioteca dos cursos, enquanto novas tecnologias conectam professores e alunos em fóruns de debates on­line.

O método chamado de “learn by doing“, na tradução livre para o português, aprender fazendo, vem sendo adotado recentemente nas principais escolas de negócios.

Uma delas é a Harvard Business School, mais conhecida por ter criado o método do estudo de caso, mas que em 2011 mudou seu currículo para incluir mais atividades práticas em seus MBAs.

Na THNK, escola de negócios holandesa que iniciou suas atividades em 2012, o “aprendizado experiencial”é a principal linha de ensino desde o começo. Com foco em desenvolvimento de liderança criativa, a instituição recebe cada vez mais candidatos com perfil executivo.

Segundo o reitor Berend­Jan Hilberts, as competências­-chave desse método são explorar para descobrir novas oportunidades, arquitetar novos conceitos sustentáveis, conduzir para explorar o poder da equipe e dirigir com resiliência.

“Elas são essenciais no mundo imprevisível e complexo em que vivemos”, diz. No método de trabalho da THNK, grandes corporações compartilham seus desafios com os alunos para que eles ajudem a resolvê­los, em tempo real.

Em abril deste ano, a escola organiza pela terceira vez um programa de curta duração em São Paulo ­ o Brasil vem se mostrando um mercado promissor e pode ganhar um escritório em breve.

“Há demanda no país para esse tipo de aprendizado. Os brasileiros têm um grande apetite por educação continuada”, afirma Hilberts. A FIA também vem investindo em turmas de MBA que trabalham projetos reais em conjunto com escolas internacionais parceiras, afirma o coordenador James Wright.

“Usamos simulações de Harvard em tempo real nas aulas e tivemos a colaboração de executivos experientes em consultorias nas empresas”, explica. O modelo de cooperação internacional, segundo ele, trouxe a vantagem de promover uma experiência de diversidade para os alunos em 2016 ­ no ano, participantes de dez nacionalidades diferentes conviveram durante 12 meses no Brasil.

Outra tendência observada pelas escolas é a ascensão dos programas ‘blended’, que misturam ensino presencial e on­line. Depois da expansão acelerada dos cursos pela internet, muitas escolas chegaram à conclusão de que um modelo misto é mais eficiente.

“No MBA, o aluno escolhe como quer fazer: ele pode começar em um tipo de curso e terminar no outro. Independentemente da plataforma, a instituição quer prover soluções educacionais”, afirma o diretor da Fundação Getulio Vargas.

A Fundação Dom Cabral (FDC) foi uma das escolas pioneiras nesse modelo misto, afirma a professora Marta Pimentel. “Já começamos na origem do MBA com essa ideia. À medida que a tecnologia avançou, as facilidades digitais foram trazendo mais possibilidades”, conta. A instituição não oferece, porém, cursos abertos 100% on­line.

“Hoje, apenas os programas customizados têm essa opção, principalmente quando se trata de uma demanda da empresa”, conta. Marta acredita que, sozinhos, os programas de educação executiva têm uma longevidade cada vez mais curta. “É preciso ter a consciência de que um MBA feito hoje pode estar desatualizado daqui a um ano”, diz.

A estratégia da escola, segundo ela, é ir além dos conteúdos técnicos e promover uma plataforma de conhecimento e relacionamento ao longo da vida. Ela cita como exemplos a rede de contatos de professores, alunos e ex-­alunos, a possibilidade de voltar à escola atualizando disciplinas novas que vão sendo incorporadas ao programa e a mentoria, serviço oferecido pela instituição para acompanhar e desenvolver habilidades comportamentais.

“Antes, o participante concluía o curso e ia trabalhar. Hoje a proposta é que os programas de educação executiva sejam portas de entrada sem saída. Para estar atualizado, é preciso estudar a vida toda”, afirma.

Fonte: Vívian Soares, Valor Econômico, 31/01/2017 ­ 05:00

Inteligência Competitiva: Indústria de SP demite meio milhão de pessoas em três anos

SERTAOZINHO, SP, BRASIL, 05-07-2013. Operarios na linha de montagem da industria de caldeira Caldema em Sertãozinho. A falta de projetos de novas usinas de açúcar e álcool causa reflexos nas empresas de máquinas e equipamentos em um dos principais polos do setor, em Sertãozinho. A ociosidade média nas fábricas chega a 60%, de acordo com cálculos do Ceise Br (centro nacional das indústrias do setor). Na Caldema, em 2013, houve apenas um pedido para fabricação de caldeira.( foto silva junior/folhapress ) REGIONAIS

Operário na linha de montagem de fabricante de caldeiras em Sertãozinho (SP). Foto: Silva Junior – 5.jul.13/Folhapress

A indústria paulista espera voltar a ter um saldo positivo sólido de empregos apenas em 2018. Para este ano, a expectativa da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) é ficar no “zero a zero”.

“Em 2017 devemos ter até 10 mil contratações. Não é um resultado bom, mas é positivo após três anos consecutivos de saldos negativos”, diz Guilherme Moreira, gerente do departamento de estudos econômicos da entidade.

Segundo ele, o setor concluiu o corte necessário na mão de obra para adequá-la ao nível baixo de produção e deve começar a recontratar caso a expectativa de expansão de 0,8% do PIB se concretize neste ano.

“Por agora, o mercado de trabalho deve começar com uma dinâmica ruim, mas isso deve melhorar no segundo semestre”, afirma.

A característica gradual dessa recuperação é reflexo da continuidade da política de redução da taxa básica de juros pelo Banco Central, de modo a incentivar a retomada do crédito e do consumo.

MEIO MILHÃO DE DEMISSÕES

Desde 2014, foram fechadas 518 mil vagas no Estado de São Paulo, segundo levantamento da Fiesp divulgado nesta quinta-feira (19).

O pico de cortes foi em 2015, que concentrou 45,5% dos empregos encerrados no período, ou 236 mil postos. Em 2016, foram de 153 mil.

FRENTE CONTRA O DESEMPREGO

A crise na indústria motivou sindicatos paulistas a criar na quinta-feira (19) uma “frente contra o desemprego”. O objetivo é apresentar propostas para o desenvolvimento econômico da cidade e do Estado.

Na avaliação dos sindicalistas, as soluções até agora trabalhadas, como a reforma da Previdência e da CLT –ambas apoiadas pela Fiesp–, vão agravar o quadro social.

“Dependendo da situação, ou o trabalhador aceita a imposição da empresa ou vai para a rua. Também não temos uma política que garanta emprego até os 65 anos e o trabalhador não conseguirá se aposentar”, diz, em nota, Miguel Torres, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi.

Fonte: FERNANDA PERRIN, FOLHA DE S.PAULO, SÃO PAULO, 20/01/2017,   02h00

Inteligência Competitiva – Saúde: "Mais importante que saber operar é saber quando não operar": as confissões de neurocirurgião best-seller

Capa do livro Sem Causar Mal

“É preciso três meses para aprender a fazer uma cirurgia, três anos para saber quando é preciso fazê-la e 30 anos para saber quando não se deve fazer uma operação”, diz, por telefone, em um tom meio sério meio jocoso, o renomado neurocirurgião britânico Henry Marsh.

Essas palavras, na verdade, são de um antigo ditado que costuma circular entre cirurgiões ingleses, mas sintetizam com perfeição sua visão após 35 anos de experiência.

“Quando se é jovem, o médico quer operar todo mundo. É otimista, entusiasta. Depois, começa a acumular resultados ruins e a entender que uma operação não é solução para tudo.”

Henry Marsh

O renomado cirurgião britânico Henry Marsh, autor do livro “Sem Causar Mal”, sobre histórias de vida, morte e neurocirugia

Os fracassos vão parar no “cemitério que todos os cirurgiões carregam consigo”, citação do médico francês René Lariche que abre o livro de Marsh, Sem Causar Mal – Histórias de Vida, Morte e Neurocirurgia (Editora nVersos). Lançado em 2014, foi escolhido como um dos melhores livros do ano pelos jornais The New York Times,Financial Times, Washington Post e pela revista The Economist.

“Quanto mais se pratica, maior é o cemitério”

No “cemitério particular” de Henry Marsh há muitas pessoas. Ali vive, por exemplo, uma menina ucraniana que, embora tenha sobrevivido a uma complicada cirurgia no cérebro, saiu da sala de operação em más condições e com tão pouca chance de recuperação que Marsh chegou a questionar se era hora de parar de trabalhar.

O neurocirurgião, que ainda acompanha à distância a evolução do quadro de saúde da menina, admite que cometeu um erro de “excesso de confiança” em si mesmo.

Mas, embora esse caso o tenha afetado profundamente, ele conseguiu não se deixar paralisar. “Se martirizar pelo que aconteceu é inútil”, afirma o médico.

A franqueza com que Marsh narra em seu livro casos reais com os quais já lidou em sua carreira é fascinante e ao mesmo tempo aterrorizante.

Os detalhes de cada história, os relatos das conversas com pacientes e as anedotas sobre o que acontece num hospital, às vezes até com uma pitada de humor, são descritos com precisão, graças a um diário que o médico manteve por uma década.

Por vezes, quando a mulher de Marsh, a escritora e antropóloga Kate Fox, lhe perguntava o que tinha feito naquele dia no trabalho, o médico costumava abrir o computador e ler para ela fragmentos do diário.

Foi Kate quem disse: “isso podia ser um livro”.

Erros médicos

De acordo com Marsh, a maioria dos erros médicos ocorre fora da sala de cirurgia.

“Muitas vezes as pessoas têm a impressão de que erros estão relacionados à estabilidade do pulso do cirurgião, o que é uma bobagem”, diz categórico. “As coisas não caem da sua mão nem você corta o que não deveria… isso acontece, mas é muito, muito raro”, complementa.

Quase sempre, explica o médico, erros ocorrem na tomada de decisões anteriores, quando tratam de questões sobre operar ou não o paciente, ou que tipo de operação será feita e como ela vai ser executada.

“Pela minha experiência, quando algo vai mal, quase sempre é porque se tomou a decisão equivocada”, avalia o médico.

É durante o processo de decisão que os cirurgiões enfrentam grandes dilemas. Às vezes, têm de optar por aquilo que no jargão médico é chamado de “sacrifícios”: causar algum dano para evitar danos ainda maiores.

Em seu livro, Henry Marsh descreve, por exemplo, o caso de uma mulher que teve extraído um tumor cerebral benigno, mas, no processo, a deixaram com dor facial crônica.

“Isso é um tipo de decisão que você faz antes da operação”, explica ele.

Adrenalina

O livro de Marsh também traz dados curiosos sobre a textura do cérebro, que se parece uma massa branca gelatinosa, sobre o melhor amigo de um neurocirurgião – não é o bisturi, mas um aspirador – e explica que muitas cirurgias cerebrais são feitas com anestesia local, com o paciente acordado enquanto tem a cabeça vasculhada.

Mesmo com 35 anos de experiência no currículo, Marsh admite que ainda fica nervoso antes de uma operação, especialmente se algo deu errado na última cirurgia similar à que está prestes a fazer.

Ele conta que tudo é muito tenso e exige uma concentração absoluta. “E isso, de muitas formas, é viciante”, admite.

“A gente faz cirurgia porque é emocionante, é emocionante!”, enfatiza, destacando a adrenalina, emoção e ansiedade como partes importantes de se operar.

Henry Marsh na sala de operação

Henry Marsh supervisiona um médico durante uma operação: erros normalmente acontecem foram da sala de cirurgia, segundo o neurocirurgião 

Médico tem que ser bom ator

Do ponto de vista do paciente, contudo, o que se espera de um médico é algo diferente dessa explosão de sentimentos.

“É muito importante aparentar calma e mostrar que está seguro. Não há nada mais assustador para um paciente que um cirurgião ansioso”, diz ele. “E isso é um dos problemas de ser um médico: você tem que ser um bom ator, para os pacientes e para si mesmo.”

Tradicionalmente, os cirurgiões não falam sobre seus erros. Na verdade, acredita Marsh, não seria possível ter escrito esse livro com a mesma honestidade em outro momento de sua carreira.

Sem Causar Mal foi publicado quando Marsh estava se aposentando como neurocirurgião sênior no Hospital Universitário de St. Georges, em Londres, onde trabalhava há mais de três décadas.

O médico, que ainda trabalha como professor, admite que a cultura a respeito do nível de honestidade que se espera dos médicos está mudando. “Eu mesmo mudei”, diz ele. “Nós afastamos da ideia de que os médicos são deuses e sempre sabem mais e melhor.”

Verdade aterrorizante

Questionado sobre quanta informação realmente pode ser dada a um paciente ou aos familiares quando algo é realmente grave, Marsh responde que não pode dizer toda a verdade. “É muito difícil. A verdade é aterrorizante”, afirma.

Ele se defende dizendo que não há certezas absolutas na medicina e que tudo o que os médicos fazem é baseado em probabilidades.

“Se você diz a um paciente que há uma chance de 10% de morrer, vai aterrorizá-lo e ainda vai ter que fazer a operação. A maneira como apresenta a informação é muito importante porque você tem que preservar a esperança e confiança, e também a honestidade, e isso é muito difícil.”

“Eu sempre tentei ser honesto. Mas… Eu tenho certeza que, em algum momento no passado, eu menti um pouco”, ele admite. “Há grandes mentiras e pequenas mentiras”.

Marsh observa que os médicos muitas vezes não sabem o que as famílias e os pacientes acharam da forma como a notícia lhes foi repassada e, por isso, é muito difícil de aprender passar bem as informações mais complicadas.

No caso de Marsh, ajudou muito estar do “outro lado”, como paciente, e também quando seu filho fez uma cirurgia para tirar um tumor no cérebro. O menino ainda era um bebê e ele um médico residente.

Arrogância

Marsh responde com um robusto sim quando perguntado se já teve que dizer a algum paciente que cometeu um erro.

“Eu digo às pessoas para me denunciarem quando acho que cometi um erro grave. Eu fiz isso três vezes”, ele admite.

Uma dessas situações está no livro. “Não é fácil fazer isso”, diz ele.

Por lei, no Reino Unido, hospitais têm que respeitar “dever de sinceridade”, no qual é necessário informar e pedir desculpas aos doentes se houve erros que causaram danos significativos.

Mas, em países Reino Unido e Estados Unidos, médicos não são responsabilizados financeiramente se houver denúncia. Mas, de acordo com Marsh, eles têm medo sim de admitir erros. É uma questão de vergonha.

“Se você entrar na sala de operação cheio de dúvidas, você não pode operar”, diz ele. Talvez por isso, de acordo com Marsh, tradicionalmente, cirurgiões normalmente são arrogantes e têm um “ego grande”.

“Em parte, é um mecanismo de auto-defesa, para enfrentar a incerteza e poder fazer um trabalho perigoso. Mas é o paciente que está em risco, não você”, observa.

Fonte: 28 janeiro 2017

Tesarac?

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Alfredo Passos e Teresa Dolores Mota Ferreira em seu livro Tesarac – O Livro da Inteligência Competitiva, explicam:

A palavra “Tesarac” foi um neologismo criado pelo escritor Sheldon Allan “Shel” Silverstein.

Sheldon, nasceu em 1930 e faleceu em 1999. Natural de Chicago (Estados Unidos da América).

“Tesarac” passou a representar uma espécie de “parto histórico” um momento de devir (do latim devenire, chegar) que permite o nascimento de novos paradigmas – sociais, culturais e econômicos.

Enquanto o “Tesarac” está ocorrendo, a sociedade mergulha no caos e na confusão, até que uma nova ordem a recomponha.

A palavra foi incorporada ao livro “The Guru Guide to Marketing: A Concise Guide to the Best Ideas from Today’s Top Marketers”, dos autores Joseph H. Boyett e Jimmie T. Boyett, 2002.

O conceito como parte do título deste livro pretende representar a consciência de estarmos a vivenciar um momento de grandes mutações quer ao nível da ordem fenomênica quer ao nível da ordem mais profunda do homem enquanto Ser – Sujeito. Trata-se de um estado de embriaguez que concilia, ao mesmo tempo, o que existe e o que ainda não existe de uma forma nítida e está em estado evoluível.

Mais informações sobre o livro aqui

Inteligência Competitiva e Davos: O que é a 4ª revolução industrial – e como ela deve afetar nossas vidas

Desenho do sistema ciberfísico

Os sistemas ciberfísicos capazes de se comunicar entre si e com os humanos estão no centro da revolução em ascensão. Foto: THINKSTOCK

No final do século 17 foi a máquina a vapor. Desta vez, serão os robôs integrados em sistemas ciberfísicos os responsáveis por uma transformação radical. E os economistas têm um nome para isso: a quarta revolução industrial, marcada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas.

Eles antecipam que a revolução mudará o mundo como o conhecemos. Soa muito radical? É que, se cumpridas as previsões, assim será. E já está acontecendo, dizem, em larga escala e a toda velocidade.

“Estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes”, diz Klaus Schwab, autor do livro A Quarta Revolução Industrial, publicado neste 2016.

Os “novos poderes” da transformação virão da engenharia genética e das neurotecnologias, duas áreas que parecem misteriosas e distantes para o cidadão comum.

No entanto, as repercussões impactarão em como somos e como nos relacionamos até nos lugares mais distantes do planeta: a revolução afetará o mercado de trabalho, o futuro do trabalho e a desigualdade de renda. Suas consequências impactarão a segurança geopolítica e o que é considerado ético.

Então de que se trata essa mudança e por que há quem acredite que se trata de uma revolução?

O importante, destacam os teóricos da ideia, é que não se trata de um desdobramento, mas do encontro desses desdobramentos. Nesse sentido, representa uma mudança de paradigma e não mais uma etapa do desenvolvimento tecnológico.

“A quarta revolução industrial não é definida por um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas, mas a transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital (anterior)”, diz Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial e um dos principais entusiastas da “revolução”.

“Há três razões pelas quais as transformações atuais não representam uma extensão da terceira revolução industrial, mas a chegada de uma diferente: a velocidade, o alcance e o impacto nos sistemas. A velocidade dos avanços atuais não tem precedentes na história e está interferindo quase todas as indústrias de todos os países”, diz o Fórum.

Também chamada de 4.0, a revolução acontece após três processos históricos transformadores. A primeira marcou o ritmo da produção manual à mecanizada, entre 1760 e 1830. A segunda, por volta de 1850, trouxe a eletricidade e permitiu a manufatura em massa. E a terceira aconteceu em meados do século 20, com a chegada da eletrônica, da tecnologia da informação e das telecomunicações.

Ilustração da Primeira Revolução Industrial

HULTON ARCHIVE.A primeira revolução industrial deu origem à produção mecanizada graças a novidades como o motor a vapor

Agora, a quarta mudança traz consigo uma tendência à automatização total das fábricas – seu nome vem, na verdade, de um projeto de estratégia de alta tecnologia do governo da Alemanha, trabalhado desde 2013 para levar sua produção a uma total independência da obra humana.

A automatização acontece através de sistemas ciberfísicos, que foram possíveis graças à internet das coisas e à computação na nuvem.

Os sistemas ciberfísicos, que combinam máquinas com processos digitais, são capazes de tomar decisões descentralizadas e de cooperar – entre eles e com humanos – mediante a internet das coisas.

O que vem por aí, dizem os teóricos, é uma “fábrica inteligente”. Verdadeiramente inteligente. O princípio básico é que as empresas poderão criar redes inteligentes que poderão controlar a si mesmas.

Os números econômicos são impactantes: segundo calculou a consultora Accenture em 2015, uma versão em escala industrial dessa revolução poderia agregar 14,2 bilhões de dólares à economia mundial nos próximos 15 anos.

No Fórum Mundial de Davos, em janeiro deste ano, houve uma antecipação do que os acadêmicos mais entusiastas têm na cabeça quando falam de Revolução 4.0: nanotecnologias, neurotecnologias, robôs, inteligência artificial, biotecnologia, sistemas de armazenamento de energia, drones e impressoras 3D.

Mas esses também serão os causadores da parte mais controversa da quarta revolução: ela pode acabar com cinco milhões de vagas de trabalho nos 15 países mais industrializados do mundo.

O que é a 4ª revolução industrial – e como ela deve afetar nossas vidas

Revolução para quem?

Os países mais desenvolvidos adotarão as mudanças com mais rapidez, mas os especialistas destacam que as economias emergentes são as que mais podem se beneficiar.

A quarta revolução tem o potencial de elevar os níveis globais de rendimento e melhorar a qualidade de vida de populações inteiras, diz Schwab. São as mesmas populações que se beneficiaram com a chegada do mundo digital – e a possibilidade de fazer pagamentos, escutar e pedir um táxi a partir de um celular antigo e barato.

Obviamente, o processo de transformação só beneficiará quem for capaz de inovar e se adaptar.

“O futuro do emprego será feito por vagas que não existem, em indústrias que usam tecnologias novas, em condições planetárias que nenhum ser humano já experimentou”, diz David Ritter, CEO do Greenpeace Austrália/Pacífico em uma coluna sobre a quarta revolução industrial para o jornal britânico The Guardian.

E os empresários parecem entusiasmados – mais que intimidados – pela magnitude do desafio, uma pesquisa aponta que 70% têm expectativas positivas sobre a quarta revolução industrial.

Angela Merkel em uma fábrica de robôs

Angela Merkel em uma fábrica de robôs: para a Alemanha, a revolução 4.0 é uma prioridade. Foto: GETTY IMAGES

Ao menos esse é o resultado do último Barômetro Global de Inovação, uma pesquisa que compila opiniões de mais de 4.000 líderes e pessoas interessadas nas transformações em 23 países.

Ainda assim, a distribuição regional é desigual e os mercados emergentes da Ásia são os que estão adotando as transformações de uma forma mais intensa que os de economias mais desenvolvidas.

“Ser disruptivo é o padrão modelo para executivos e cidadãos, mas continua sendo um objetivo complicado de se colocar em prática”, reconhece o estudo.

Os perigos do cibermodelo

Nem todos veem o futuro com otimismo: as pesquisas refletem as preocupações de empresários com o “darwinismo tecnológico”, onde aqueles que não se adaptam não conseguirão sobreviver.

E se isso acontece a toda velocidade, como dizem os entusiastas da quarta revolução, o efeito pode ser mais devastador que aquele gerado pela terceira revolução.

“No jogo do desenvolvimento tecnológico, sempre há perdedores. E uma das formas de desigualdade que mais me preocupa é a dos valores. Há um risco real de que a elite tecnocrática veja todos as mudanças que vêm como uma justificativa de seus valores”, disse à BBC Elizabeth Garbee, pesquisadora da Escola para o Futuro da Inovação na Sociedade da Universidade Estatal do Arizona (ASU).

“Esse tipo de ideologia limita muito as perspectivas que são trazidas à mesa na hora de tomar decisões (políticas), o que por sua vez aumenta a desigualdade que vemos no mundo hoje”, diz.

“Considerando que manter o status quo não é uma opção, precisamos de um debate fundamental sobre a forma e os objetivos desta nova economia”, diz Ritter, que considera que deve haver um “debate democrático” em relação às mudanças tecnológicas.

Por um lado, há quem desconfie de que se trata de uma quarta revolução: é certo que as mudanças são muitas e profundas, mas o conceito foi usado pela primeira vez em 1940 em um documento de uma revista de Harvard intitulado A Última Oportunidade dos Estados Unidos, que trazia um futuro sombrio para avanço da tecnologia e seu uso representa uma “preguiça intelectual”, diz Garbee.

Outros, mais pragmáticos, alertam que a quarta revolução só aumentará a desigualdade na distribuição de renda e trará consigo todo tipo de dilemas de segurança geopolítica.

O mesmo Fórum Econômico Mundial reconhece que “os benefícios da abertura estão em risco” por causa de medidas protecionistas, especialmente barreiras não tarifárias do comércio mundial que foram exacerbadas desde a crise financeira de 2007: um desafio que a quarta revolução deverá enfrentar se quiser entregar o que promete.

“O entusiasmo não é infundado, essas tecnologias representam avanços assombrosos. Mas o entusiasmo não é desculpa para a ingenuidade e a história está infestada de exemplos de como a tecnologia passa por cima dos marcos sociais, éticos e políticos que precisamos para fazer bom uso dela”, diz Garbee.

Fonte: 22 outubro 2016