Os caminhos da Inovação

MALERBA & ORSENIGO (1995) sugerem padrões de relação entre os regimes tecnológicos e as fronteiras espaciais do conhecimento explorado pelas empresas inovadoras. De fato, o conhecimento científico e tecnológico não se dissemina sem barreiras pelo espaço; ao contrário, ele tende a apresentar graus diversos de imobilidade (VON HIPPEL, 1994).

MALERBA & ORSENIGO (1996a) sugerem diferenças e semelhanças entre os padrões de inovação de setores equivalentes de diferentes países: as condições de oportunidade, apropriabilidade e cumulatividade tendem a ser similares entre os países, enquanto que a habilidade de gerar e explorar as oportunidades tende a ser específica – essa habilidade está relacionada com a intensidade e amplitude da pesquisa universitária, a presença e efetividade de mecanismos ligando ciência e produção, inter-relações verticais e horizontais entre as empresas locais, interação entre usuários e produtores e o tipo e a intensidade dos esforços inovadores das empresas (NELSON, 1993). De fato, trajetórias tecnológicas não representam o único fator, nem o mais importante, a afetar o modo como as empresas se estruturam e evoluem. As variáveis históricas e institucionais, a presença de competências organizacionais de caráter idiossincrático, a emergência de ligações e conexões entre agentes, o papel das características produtivas – como economias de escala, processos path-dependent e co-evolucionários – afetam profundamente as características específicas como um SSI (Sistemas Setoriais de Inovação) configura-se durante um certo período em um determinado país.

O “ciclo de vida” das tecnologias foi abordado no trabalho seminal de ABERNATHY & UTTERBACK (1978). Eles observaram que logo após o surgimento de uma nova tecnologia, existe uma grande incerteza relacionada com a definição de qual das possíveis variantes deverá prevalecer e atrair mais recursos e esforços de melhoria, consolidando um design dominante. A emergência de um design dominante desacelera as iniciativas de inovação radical e as melhorias de produto e processo tornam-se incrementais. “Caso a tecnologia de processo seja específica a um determinado design de produto, o processo de inovação cumulativo fixa aquele design e torna a concorrência de designs alternativos ainda mais difícil [ou menos prováveis de ocorrerem]” (NELSON, 1998:324).

Durante a fase inicial de experimentação, antes da emergência de um design dominante, a demanda de mercado é fragmentada entre várias variantes tecnológicas, o tamanho das empresas concorrentes tende a ser de pequeno porte, os modelos de produtos modificam-se constantemente e a saída de empresas é constante (UTTERBACK, 1996) – novas tecnologias de caráter radical são, freqüentemente, desenvolvidas por novos entrantes e não pelas empresas líderes estabelecidas (FOSTER, 1986). Inovações “destruidoras de competências” são radicais e “favorecem novos entrantes em detrimento de defensores entrincheirados” (TUSHMAN & ANDERSON, 1986:446).

A inovação radical é, freqüentemente, fruto do pioneirismo de empresas de fora do setor, que estão melhor adaptadas a explorar descontinuidades na estrutura setorial (UTTERBACK, 1996) e a empreender as iniciativas de marketing associadas à necessária transformação do mercado (CHRISTENSEN, 1992). Para UTTERBACK (1996:212), as capacitações tecnológicas não representam a principal limitação das empresas consolidadas em um setor para lidar com as inovações radicais; ao contrário, muitas vezes são elas as responsáveis pelo desenvolvimento inicial de tecnologias revolucionárias. “O problema básico é que elas continuam a manter a maior parcela de seu comprometimento com a antiga tecnologia, que atinge o zênite de seu desenvolvimento somente depois de ter sido mortalmente ameaçada”.

As “descontinuidades” causadas pela inovação radical provocam transformações setoriais porque os novos produtos e processos apresentam vantagens decisivas de custo, desempenho ou qualidade sobre as formas anteriores (ANDERSON & TUSHMAN, 1990), de tal maneira que eles podem consolidar a emergência de um novo “paradigma tecnológico”, ou seja, um padrão de solução de problemas baseado em princípios pré-determinados (DOSI,1982:152).

Para ROSENBLOOM & CHRISTENSEN (1998:225), porém, o efeito das descontinuidades tecnológicas na competitividade das empresas está relacionado com a extensão na qual essas mudanças facilitam o sucesso dentro de uma “rede de valor” – “contexto dentro do qual cada firma identifica e responde às necessidades dos consumidores, busca inputs e reage à concorrência”. Se não existe a exigência de mobilidade ou mudança na direção estratégica da empresa – se a nova tecnologia encaixa-se na rede de valor estabelecida – as conseqüências da inovação devem reforçar o comprometimento da empresa, independente da dificuldade da tecnologia ou de seu risco. Por outro lado, se a validação dos valores inerentes a essa inovação exige o estabelecimento de uma nova rede de valor (com novos agentes e com uma nova hierarquia entre eles), então as conseqüências deverão ser radicais, mesmo que a inovação seja tecnologicamente simples. Isso pode ocorrer porque essa inovação exige capacitações que não se limitam ao âmbito técnico: ativos complementares devem ser criados para sustentar essa nova posição.

Contudo, como ANDERSON & TUSHMAN (1990:615-616) observaram, “a maioria dos adotantes potenciais [de uma nova tecnologia] esperarão a emergência de um padrão setorial antes de adquirir um novo produto ou instalar uma nova tecnologia de processo….”

As primeiras versões de novas tecnologias não se tornam padrões setoriais, já que elas resultam de variações tecnológicas na fase inicial de experimentação. Como tal, essas versões iniciais não tornar-se-ão designs dominantes apesar das vantagens do pioneirismo e da redução do custo pelo avanço na curva de experiência – benefícios que os primeiros adotantes podem usufruir”.

Em uma economia da inovação globalizada, as empresas dependerão, com cada vez maior intensidade, de fontes externas de competência, originárias de firmas concorrentes, fornecedoras ou clientes (VON HIPPEL, 1988). A complexidade de novas tecnologias intensivas em conhecimento e a possibilidade de compartilhamentos dos custos e riscos associados ao seu desenvolvimento estimulam a formação de alianças tecnológicas globais (ARCHIBUGI & IAMMARINO, 2001). O grau de especialização proporcionado em uma situação de cooperação interfira gera vantagens competitivas em um mercado globalizado (BEST, 1990).

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