Viagens pela Escrita: 100 Anos de Turismo em Portugal

MOSTRA | 27 Setembro 2011 – 7 Janeiro 2012 | Sala de Referência | Entrada livre

turismo O Turismo também se escreve. Nos guias, roteiros, monografias, ensaios, teses, dicionários, revistas e literatura de viagens, em distintas abordagens e para diferentes fins, tipologias complementadas pelos cartazes, bilhetes-postais e mapas, sempre tão sugestivos. Observamos, assim, um amplo leque de opções que tornaram o Turismo um tema diverso na literatura e nos estudos técnicos e científicos.

Nas páginas escritas e na iconografia associada, viajamos pelos ensinamentos da Geografia, Economia, Arquitectura, Sociologia, Antropologia, entre outras áreas do saber, ou pelos mundos da Hotelaria, dos Operadores Turísticos, da Gastronomia, dos Eventos, do Lazer e Recreação, do Ambiente, dos Recursos e Produtos Turísticos, envolvendo todas as áreas humanas e da Natureza.

Na evolução dos tempos, o primeiro êxito editorial de uma publicação dedicada às viagens e ao Turismo, em Portugal, remonta à Gazeta dos Caminhos de Ferro (desde 1888), na qual se destacam as rubricas “Viagens e Transportes” e “Termas, Campos e Praias”, bem como variadas crónicas e sugestões de viagem aos leitores.

O director desta publicação, Leonildo de Mendonça e Costa, seria um dos principais dinamizadores da criação, em 1906, da Sociedade Propaganda Portugal, em cujos fins se inscrevia a publicação de “itinerários, guias e cartas roteiras de Portugal”. O seu Boletim mensal (a partir de 1907), distribuído gratuitamente aos sócios, incluía as realizações da Sociedade e propostas de viagens no país e divulgação do nosso património – “A Arte e a Natureza em Portugal”, que já em 1902 era bem patente no Álbum de photographia com descripções; clichés originaes; cópias em phototypia inalterável; monumentos, obras d’arte, costumes, paisagens, um verdadeiro inventário, feito pela arte fotográfica de Emílio Biel, que acompanhou a escrita.

Simultaneamente ao Boletim, a Sociedade Propaganda de Portugal publicou ao longo dos anos várias outras obras, como monografias, dépliants e outras brochuras de divulgação, algumas noutros idiomas.

A primeira publicação inteiramente dedicada ao sector, editada após a institucionalização do Turismo em Portugal (1911), abrangia “propaganda, viagens, navegação, arte e literatura”, para “desenvolver o gosto das viagens” (Revista de Turismo, 1916), à semelhança do que acontecia noutros países. O articulista enuncia, por esta ordem, França, Suíça, Itália e Espanha. Sublinha as condições climáticas do país, as suas paisagens, costa marítima e águas minerais, pelo que seria “preciso, pois, defender as preciosidades com que a Natureza tão prodigamente nos dotou, e é esse o principal objectivo da nossa campanha para o que possuímos uma excepcional boa vontade e uma coragem transcendente.”

Aliás, nos primeiros tempos, foram as revistas os principais veículos de divulgação do Turismo, como a Ilustração Portuguesa (desde 1903). Já no Estado Novo, a edição de uma revista “dirigida aos que gostam de viajar e ainda àqueles que, por suas favoráveis condições de vida, podem adquirir esse gosto que instrui e aristocratiza o espírito” (Viagem, 1940) e de uma outra, esta editada pelo Secretariado de Propaganda Nacional e dirigida por António Ferro (Panorama, 1942), foram as primeiras publicações de Turismo do Antigo Regime, com a colaboração dos melhores escritores, jornalistas e fotógrafos da época.

Nos anos 50, foi o tempo dos anuários (Portugal País de Turismo) e da edição de boletins municipais, “a bem servir a terra portuguesa” (Boletim da Comissão Municipal de Turismo da Figueira da Foz, 1941), tarefa aliás a que também se dedicou a própria estrutura central, no “órgão de divulgação e propaganda do turismo em Portugal (Jornal de Turismo, 1957), como “paladino de uma causa de interesse nacional”.

O mundo do Turismo alarga-se para além de Portugal, na “revista europeia de actualidades, cultura e turismo, dedicada a Portugal, ao Mundo, às ciências, à vida quotidiana, às artes, aos espectáculos, aos desportos, ao turismo”. Abrangente, também, porque uma “revista é para todos” (Sol, 1963).

A coincidir com o ano da criação da Direcção-Geral de Turismo, surgem, em 1968, a nova Revista Turismo – Arte, Paisagens e Costumes de Portugal, num olhar abrangente pelos recursos turísticos, e o quinzenário Publituris, ainda hoje em publicação, inicialmente para cobrir a dispersa informação especializada em promoção do Turismo, aviação, cruzeiros, hotelaria, excursões e eventos. Deste, em 1973 foi lançada uma versão em inglês e, dois anos depois, os seus responsáveis seriam os promotores da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses de Turismo.

A partir dos anos 70, assistiu-se a uma maior dinamização da imprensa turística. Novas revistas de grande divulgação; revistas de grupos, cadeias de hotéis, transportadoras aéreas e cruzeiros; boletins e revistas associativas impressas; e portais na internet. Expansão relacionada com a própria diversificação do Turismo Interno. Alguns órgãos generalistas publicam secções de Turismo, incluindo suplementos semanais de Turismo, ou mesmo guias e roteiros, estes últimos como literatura utilitária acarinhada e consultada neste arco de tempo de um século, relacionando-se com a Geografia – pela apreensão do território –, a História da Arte – pela definição em cada época do património valorizado – e a História Económica – pelo relato do progresso. São destinados a viajantes e excursionistas, assim como aos profissionais do sector, incluindo as publicações monográficas locais e as edições dos órgãos de promoção turística.

Muitos periódicos editaram publicações complementares, e as próprias revistas da especialidade interessaram-se em editar guias e roteiros, propondo circuitos, quase sempre incluindo plantas e mapas, com a informação geográfica ou cartográfica mais relevante para o turista, e anúncios de publicidade de estabelecimentos hoteleiros, termais e comerciais, de indústrias e empresas de transportes.

Relevamos, também, o espólio do antigo Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), do qual se expõe um conjunto notável de guias e roteiros, editados por este organismo, em português e noutros idiomas, e outros editados por entidades estrangeiras, que expressam diversas visões sobre Portugal.

Os guias, roteiros e mapas, enquanto fontes históricas, têm ultimamente aberto novas linhas de investigação, no universo onde existem cada vez mais estudos técnicos e científicos, manuais sobre teorias, práticas e teses associadas ao desenvolvimento do sector e dos múltiplos ramos que o integram, incluindo publicações de carácter estatístico.

O saber imprime-se e divulga o trabalho crescente das universidades, com pioneirismo (Revista Turismo & Desenvolvimento, a partir de 2004), na primeira publicação científica da área do Turismo em Portugal, promotora de uma rede nacional de cientistas, que passou a servir de apoio ao sistema de revisão anónima (blind referee), através do qual têm sido analisados e avaliados todos os artigos.

Mas esta profundidade que as universidades emanam não faz esquecer todo o campo literário dedicado a edições temáticas ou crónicas de viagens em Portugal. Oferta bastante diversificada e actualizada de destinos e costumes, escritos por autores de mérito consagrado e por jornalistas de prestígio.

Há quem nos faça “um convite a passear” (Viagem a Portugal, 1981), quase sempre numa aposta de cuidada aparência, compatibilizando “um formato de divulgação com um mais técnico-científico” (Portugal Património. Guia Ilustrado, 2007). O Guia de Portugal (a partir de 1924) é o antecessor mais completo, e dele conhecemos e divulgamos, também, preciosos manuscritos.

Viaja-se pelos cafés, que sempre assumiram um aspecto literário e político, mas também turístico; pelos grandes hotéis de Portugal, com “todas as comodidades e confortos para todos os gostos e fortunas” (Grandes Hotéis de Portugal, 2001); pelo Turismo de Saúde e pela arquitectura termal, suporte das nossas termas e origem do nosso Turismo.

Por estas Viagens pela Escrita têm passado a estratégia e a política de desenvolvimento turístico do nosso país: “ainda num passado recente olhado com desconfiança e alguma displicência, o turismo é já hoje uma realidade incontestada no país e um dos sectores prioritários na política económica nacional sendo considerado como sector chave do processo de desenvolvimento económico” (Política de Turismo, 1997).

Conclui-se o percurso com o que fica destas comemorações, desde o Congresso, em Maio passado, celebrando a institucionalização do Turismo em Portugal, às exposições em diferentes pontos do país, marcando a evolução do Turismo, visto em diversas perspectivas, como sejam as do empreendedorismo, da administração pública, da imprensa e da fotografia. No desenho de um bilhete-postal, assinalando este centenário, vemos muitos outros, mais antigos, reproduzindo imagens de Portugal e impressões escritas. Estas e outros importantes fragmentos manuscritos e presentes nesta Mostra são testemunhos guardados nesta Casa da Memória que os cuida com afecto e rigor técnico na sua conservação, porque, também na evolução escrita e imagética do Turismo, é necessário considerar a importância da Memória, enquanto criadora do sentido de pertença colectiva, de que o futuro se não pode desligar.

Biblioteca Nacional de Portugal, Setembro de 2011

Fonte: A Comissão Nacional do Centenário do Turismo em Portugal

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