Dalai-lama defende autonomia da religião

Em palestra para cientistas em São Paulo, líder religioso reafirma budismo como forma de conhecimento da mente

Era para ser um diálogo entre ciência e budismo o debate “Estados de Consciência – Encontro entre o Saber Tradicional e o Científico”.

Mas a principal atividade do dalai-lama no segundo dia de sua visita ao Brasil, ontem, acabou reforçando a impressão de que religião e ciência seguem longe de se entender.

O que se viu foi o “Oceano de Sabedoria” (tradução da expressão tibetana dalai-lama) defendendo a autonomia do pensamento religioso em relação ao científico, depois de duas “aulas” sobre o funcionamento do cérebro, ministradas pelos neuropesquisadores Caroline Schnakers, da Universidade de Liège (Bélgica), e Adrian Owen, da Universidade de Cambridge.

Como bons cientistas, os dois falaram sobre a consciência, localizando-a no cérebro. O pesquisador tibetano Geshe Lobsang Tenzin Negi, da Universidade Emory, nos EUA, foi o primeiro a notar: consciência para a ciência ocidental é a afirmação do “eu”. Para a tradição budista, trata-se de uma condição universal, desentranhada da materialidade cerebral.

SEPARAÇÃO
“Devemos saber separar as coisas da ciência das coisas da religião”, endossou o líder tibetano à plateia de 2.500 médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas e cuidadores que lotaram o Golden Hall do World Trade Center, zona sul de São Paulo.

Segundo o dalai-lama, a expansão do conhecimento científico sobre a mente não é garantia alguma de redução do sofrimento humano. “Às vezes, até provoca mais.

A descoberta do mecanismo da fissão nuclear não gerou mais sofrimento? Sem a compaixão [conceito central no budismo], o conhecimento é incapaz de aumentar a felicidade”, disse.

Em entrevista coletiva realizada na hora do almoço, o dalai-lama defendeu a diversidade religiosa. Segundo ele, todas as religiões possuem um fundo comum, baseado na compaixão, no perdão, no amor e na autodisciplina.

“É necessário que existam diferentes abordagens religiosas, porque, se houvesse uma só -por mais maravilhosa que fosse-, não daria conta da diversidade de motivações que levam as pessoas a buscar [o sagrado]”.

CRISTÃOS E BUDISTAS
Brincando, relatou como um amigo protestante insiste em chamá-lo de “bom cristão”, por sua defesa de princípios caros ao cristianismo.

“Eu sempre respondo que ele é que é um bom budista”, disse ele.

E aproveitou para fazer a propaganda do livro que está lançando, ainda sem tradução no Brasil: “Toward a True Kinship of Faiths: How the World’s Religions Can Come Together” (rumo a um verdadeiro parentesco das crenças: como as religiões do mundo podem se unir).

Na saída, o líder religioso -sem mais- puxou para si e abraçou a jornalista Zilda Brandão, 64. Emocionada, chorando muito, disse: “É o dia mais feliz da minha vida”.

Fonte: LAURA CAPRIGLIONE, Folha de S.Paulo, 17/9/2011

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