A embaixadora do Dalai Lama no Brasil

“A agenda de Sua Santidade é extremamente solicitada. São instituições que querem sua visita, projetos sociais, artistas, autoridades, religiosos que tentam conversas privativas…”

Assim, de modo direto e simples, sem perder a calma nem mostrar qualquer sinal de ansiedade ou afobação, Lia Diskin explica o turbilhão que tomou conta de sua rotina nos últimos meses. Tudo porque, nesta semana, Tenzin Gyatso, o 14.º Dalai Lama, estará em São Paulo – visita breve, chega na quinta e fica até sábado.

Muito zen. Lia na sede da Palas Athena - Marcio Fernandes/AE-31/8/2011

Foto: Marcio Fernandes/AE-31/8/2011

Leonor Beatriz Diskin Pawlowicz, conhecida como “professora Lia”, é uma espécie de embaixadora do Dalai Lama no Brasil.

Organizou suas três visitas anteriores ao País – em 1992, 1999 e 2006 – e é responsável por fazer a triagem de quaisquer pedidos brasileiros direcionados ao líder budista.

“As demandas são muito intensas. Movimentos ambientalistas e de Direitos Humanos, diálogos inter-religiosos, estão todos em cima da gente. E, no ano que vem, querem que Sua Santidade participe do evento Rio+20 (em alusão aos 20 anos da Rio 92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, realizada em 1992 no Rio de Janeiro e que teve a participação do religioso)”, comenta.

Lia nasceu em Buenos Aires, em 1950. Recém-formada em Jornalismo, trocou a capital argentina por São Paulo em 1972. Não perdeu o sotaque portenho, mas virou brasileira.

“Fiquei maravilhada com o espírito. O brasileiro é muito mais sábio que o argentino”, defende. Virou paulistana. “Acho fascinante o multiculturalismo da cidade. São Paulo tem muitas cidades em uma só: Mooca, Liberdade, Bom Retiro, Itaquera… São tão diferentes e são São Paulo.”

Em 1972, fundou a Associação Palas Athena, organização que promove, agencia e elabora programas e projetos nas áreas de Educação, Saúde, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Promoção Social. Ali é seu QG, onde ela dá expediente diário até hoje e passa adiante seus ensinamentos em cursos – como Atenção e Concentração em Práticas Meditativas, programado para outubro.

Conhecimento

Lia Diskin acredita que se aproximou do budismo por ser “filha da ditadura”. “Foi um período que nos deu muitos anseios de liberdade”, diz.

“Queria um novo modelo de mundo, mas não era hippie. Achava-os inconsequentes… E não me aproximei da luta armada porque nunca tive afinidade com transformações de caráter violento.” Encontrou na sabedoria oriental a linha reflexiva que buscava. “A transformação pelo conhecimento.”

Não satisfeita em absorver os ensinamentos apenas pelos livros, Lia passou o ano de 1986 em Dharamsala, pequena cidade do noroeste da Índia, a terra dos exilados tibetanos, onde vive o Dalai Lama.

“Éramos apenas quatro ocidentais lá (Lia, um canadense, uma francesa e um australiano)”, recorda-se. Seu marido, o também argentino Basilio Pawlowicz, ficou aquela temporada no Brasil.

É desse período de retiro que vem a aproximação com o líder religioso. “Pude conviver com Sua Santidade, tive audiências particulares com ele”, explica. “Fui para estudar. Vivia na biblioteca, pesquisei muito nos arquivos.”

A professora voltou mais convicta ainda de que os seres humanos precisam viver na simplicidade, sem afetação, sem a vontade de se exibir para os demais. “O consumismo precisa ser combatido com a conscientização. O que é uma camisa cara? Um teatro, um instrumento de inserção social. Precisamos ter a compreensão do que é realmente necessário”, defende.

Quem a conhece de perto é só elogios.

“É uma pessoa diferenciada: lidera o pessoal à sua maneira, completamente coerente com o que pensa”, elogia Finho Levy, diretor-superintendente do Fórum de Líderes Empresariais, uma das entidades apoiadoras da visita de Dalai Lama a São Paulo.

“Trabalhar com Lia está sendo uma experiência bastante construtiva. Ela sabe misturar a visão da harmonia e da paz com o pragmatismo do mundo dos negócios.”

O verbete dedicado a ela no Museu da Pessoa, projeto dedicado a eternizar histórias de vida, ajuda a entendê-la.

“Lia viveu uma infância marcada pela ausência de ensinamentos religiosos e por eterno fascínio pelos mistérios espirituais que seus colegas e amigos vivenciavam. A experiência contraditória a marcou profundamente.”

Quando o Dalai Lama for embora, no sábado, Lia não conseguirá descansar da correria dos últimos meses. Antes, ainda terá de resolver um problema: tem até 30 de novembro para entregar o sexagenário casarão alugado que a Palas Athena ocupa há 32 anos, na Rua Leôncio de Carvalho, pertinho da Avenida Paulista. “Vão construir um prédio comercial no terreno”, conta. “Mas vamos conseguir outro aqui perto, tenho certeza.”

Mais informações

www.dalailama.org.br

Fonte: Edison Veiga – O Estado de S.Paulo

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