“A diferença é o que nos une”, diz dalai-lama em SP

“Hoje só vou falar como ser humano, como um entre os sete bilhões de pessoas do mundo”. Foi assim que o líder espiritual tibetano, o 14.º dalai-lama, iniciou entrevista coletiva nesta sexta-feira, 16, no bairro do Brooklin Novo, em São Paulo.

“Somos todos iguais. Compartilhamos uma só casa que devemos cuidar.

As diferenças de língua, de religião ou de cultura devem estar em nível secundário. Primeiro temos de nos considerar irmãos e irmãs”, disse o sacerdote budista, após cumprimentar amigavelmente os jornalistas presentes.

'Temos que nos considerar irmãos e irmãs antes de qualquer coisa', disse o dalai-lama  - Sebastião Moreira/Efe

Sebastião Moreira/Efe

Em sua quarta visita ao País, o líder religioso passou uma mensagem de união e harmonia, mas sem o tom de sermão. Fez piada, deu muitas risadas e apressou o responsável por ler as perguntas feitas pelos representantes dos veículos de comunicação. A atitude tinha razão de existência: nesta sexta ele também participa de um simpósio científico – um dos eventos dos quais participa nessa estadia de apenas três dias na capital paulista.

Segundo explicou o dalai-lama, os problemas só são criados porque o homem negligencia o elemento de igualdade que existe entre as pessoas.

“Vemos conflitos acontecerem o tempo todo por causa de disparidades religiosas, muitas vezes após manipulação política, só que, na verdade, todas as tradições trazem uma mensagem única de amor, harmonia, perdão e autodisciplina. E é isso que forma a ética e o convívio humano. Precisamos saber valorizar esses conceitos”, afirmou.

Para o sacerdote tibetano, as pessoas precisam investigar as outras religiões antes de julgá-las, ou seja, conhecer os traços comuns entre as práticas para tentar compreender melhor o outro.

“É muito fácil focarmos nas diferenças e esquecermos aquilo que nos une. Qualquer que seja a abordagem religiosa, todas têm o mesmo objetivo: construir paz interior. E não apenas para você, mas também para sua família, sua comunidade”.

De acordo com o líder religioso, o mundo não funcionaria se existisse uma única religião.

“É preciso haver abordagens diferentes, pois as pessoas não são as mesmas. Cada um tem um tipo de fé, um lado espiritual. Tenho um amigo, por exemplo que sempre me descreve como um bom cristão e eu digo que ele é um bom budista”, disse acompanhando as risadas da plateia e aproveitando para divulgar seu próximo livro, ainda inédito no Brasil, que trata das semelhanças entre as religiões.

China, jornalismo e meditação

Ao ser questionado sobre as mudanças socioambientais ocorridas no País nesses últimos 20 anos – levando em conta que sua 1ª visita ao Brasil ocorreu em 1992 -, o dalai-lama ‘cutucou’ a China, mas a menção ao País que conflita com sua atuação política há décadas parou por aí.

“Vejo que hoje os governos têm mostrado maior entusiasmo com os problemas ecológicos. No entanto, países como a China e a Índia ainda têm mostrado que interesses nacionais são mais importantes que os interesses globais”, afirmou.

Na coletiva, o líder tibetano também decidiu para passar uma recomendação especial aos repórteres sobre apuração e honestidade. “O jornalista deve ter o nariz tão longo quanto a tromba de um elefante.

A investigação deve ser completa, principalmente no Brasil, que é um País democrático”. Para o dalai-lama, o jornalismo tem o poder de levar a realidade, mas é o leitor quem vai decidir como formar opinião sobre a notícia.

A religiosidade, tema que circundou toda a entrevista, foi abordada novamente antes da despedida.

“A meditação e a oração devem funcionar como um ato de recarregar uma bateria, só que tudo vai depender da maneira como você vai utilizar essa nova força em sua vida cotidiana”, disse o dalai-lama. “Eu não tenho nada de especial. Medito como qualquer outra pessoa. O importante é a pessoa não apenas dizer que tem uma prática religiosa, mas sim implementar os preceitos em sua vida e agir conforme isso”.

Segundo ele, a pessoa dedicada ao espírito é aquela que mantém a mente aberta e não é afetada pela raiva. “O lado religioso serve para alertar. Você deve saber quando não deve se deixar levar pelas emoções negativas. Não tenha raiva, não tenha ódio, não seja levado pelo medo. Cuide de sua mente”, aconselhou o líder tibetano.

Dalai-lama desembarcou em São Paulo nesta última quinta-feira, 15, quando participou de um encontro empresarial.

O líder religioso fica na cidade até este sábado, 17, quando fará palestra pública e gratuita sobre no Anhembi. Neste dia, dalai-lama também participa de um encontro com religiosos.

BIOGRAFIA

Tenzin Gyatso, o 14.º dalai-lama, nasceu em 6 de julho de 1935 no vilarejo de Taktser, província de Amdo, nordeste do Tibete. Seu nome de berço era Lhamo Dhondup até ser reconhecido, aos dois anos de idade, como a reencarnação do 13.º dalai-lama, Thubten Gyatso.

Os dalai-lamas são considerados manifestações de Avalokiteshvara ou Chenrezig, o Bodhisattva da Compaixão e patrono do Tibete. Um Bodhisattva é um ser iluminado que adiou sua entrada no nirvana e escolheu renascer para servir à humanidade.

Conhecido pela relação amigável que trava com pesquisadores e religiosos de todo o mundo, o sacerdote tibetano já participou de inúmeros fóruns e encontros internacionais sobre ciência e espiritualidade.

Além de líder espiritual do budismo tibetano, dalai-lama também é doutor em filosofia budista. Já recebeu o Prêmio Nobel da Paz e mais de 100 títulos honoris causa.
“Eu sou simplesmente um monge budista – nem mais nem menos” (dalai-lama)

Fonte: O Estado de S.Paulo, 17/9/2011

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