Roubini, a “velocidade de estagnação” e algumas propostas para evitar o Armageddon

O economista Nouriel Roubini, que ganhou a alcunha Dr Doom ao prever a crise financeira mundial, continua apostando firme nos cenários pessimistas. Em seu último relatório distribuído a clientes (“Uma Resposta Radical para os riscos crescentes de uma Depressão e Crise Financeira”), Roubini afirma que tanto países desenvolvidos como mercados emergentes se encaminham para uma “desaceleração maciça do crescimento”. Ele diz que os ricos já chegaram à chamada “stall speed”, a frase da moda, “velocidade de estagnação”, ou na metáfora da aviação, a velocidade abaixo da qual o avião não consegue se sustentar no ar e começa a perder altura.

Sem se furtar a palavras de impacto, Roubini dispara: “Os riscos à frente não são meramente de um duplo mergulho, mas sim de mais uma recessão severa que se pode transformar em uma depressão econômica e uma crise financeira grave na maioria dos países avançados.”

Há quem jocosamente aponte que até relógio quebrado está certo duas vezes por dia. Mas Roubini detalha os motivos de sua previsão, cada vez mais pessimistas, e propõe uma série de políticas para evitar o cenário de catástrofe.

Entre elas, algumas muito abordadas, mas que ele disseca e analisa: evitar austeridade fiscal com efeitos de curto prazo; afrouxar a política monetária; dar liquidez a agentes privados e soberanos que estejam ilíquidos, mas solventes; reestruturar rapidamente, em vez de ficar adiando, dívidas privadas e públicas que não vão se resolver via crescimento (que anda baixo) ou reformas estruturais de aumento de produtividade (que vão levar tempo demais); recapitalizar bancos (a zona do Euro deveria adotar um programa semelhante ao Tarp que os EUA usaram em 2008); restaurar a competitividade de economias frágeis, possivelmente por meio do abandono do euro (ele acha que Grécia e Portugal deveriam deixar a moeda europeia e tornar-se mais competitivos via desvalorização cambial).

Ele estima que a perda de competitividade para o resto da Europa, por exemplo a Alemanha, que ainda depende muito de exportações para a zona do Euro, seria mínima, já que Grécia e Portugal representam menos de 3% do PIB da Eurozona e seu intercâmbio comercial com Alemanha e o resto da EZ é ainda menor.

Mas o diabo, como se diz, está nos detalhes.

A implementação de algumas dessas políticas, principalmente a saída de Portugal e Grécia do Euro, seria muito complicada. Roubini vê Grécia e Portugal seguindo o caminho da Argentina pós-currency board, em 2001, quando nosso vizinho deixou o câmbio fixo. O passivo em euros das instituições financeiras desses países seria um enorme problema a se resolver ao abandonar a moeda europeia, por exemplo. Esse endividamento em euros iria explodir do dia para a noite, com a desvalorização das moedas locais, e um calote parcial não estaria fora de cogitação.

Se essas dívidas fossem obrigatoriamente “dracmizadas” ou “escudificadas”, como ocorreu na pesificação de dívidas na Argentina, os bancos alemães e franceses que detêm muitos títulos gregos e portugueses teriam uma perda considerável. E o Banco Central Europeu ou os governos da Alemanha e França, entre outros, teriam de socorrer seus bancos.

Roubini não vê tanto impedimento.

“As estimativas do setor privado de que o custo da saída de economias periféricas da Eurozona seria de 40-50% do PIB dos países que estão abandonando o euro são enormemente exageradas; as perdas podem ser muito menores se as dívidas forem convertidas de forma organizada às novas moedas locais e se uma rápida e drástica desvalorização do câmbio rapidamente restaurar o crescimento econômico.”

A ver.

Fonte: Patrícia Campos Mello é repórter especial da Folha e escreve sobre política e economia internacional. Foi correspondente em Washington durante quatro anos, onde cobriu a eleição do presidente Barack Obama, a crise financeira e a guerra do Afeganistão, acompanhando as tropas americanas. Tem mestrado em Economia e Jornalismo pela New York University. É autora dos livros “O Mundo Tem Medo da China” (Mostarda, 2005) e “Índia – da Miséria à Potência” (Planeta, 2008).

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