O que diferencia os líderes que têm brilho nos olhos

São dois cenários antagônicos: em um deles, os personagens têm um olhar vazio e usam álcool e drogas; no outro, mostram entusiasmo e seus olhos brilham. Duas situações absolutamente contraditórias. No inquietante primeiro cenário, os personagens não são adolescentes. São indivíduos do ambiente corporativo, supostamente adultos, com equilíbrio emocional, executivos muito bem-sucedidos.
Onde a conta não fecha? Na disfuncionalidade das metas, no teatro organizacional, que não permite que o indivíduo confie nos outros? Na compulsividade? Certas drogas de efeito rápido são de fácil acesso e podem parecer inofensivas no primeiro uso. E as pessoas querem mais, mais e mais… Onde tudo isso vai parar?
Tem de haver limite para isso, mas não se sabe de onde ele virá. A portas fechadas, é cada vez mais comum nos depararmos com relatos como: “Só consigo relaxar depois de duas doses de uísque”. “Dormir? Às vezes nem com o meu remedinho.” “Ócio? Que palavra é essa?” Facilmente, o BlackBerry, o iPad e o celular deixam essas pessoas no ar 24 horas por dia.
Esse cenário mostra uma das doenças corporativas da atualidade. Mas não nos iludamos com o escudo da doença corporativa como “pessoa jurídica”. Trata-se da soma de várias outras doenças que o “CPF” acumula. O que vale aqui é o indivíduo, a pessoa. A liderança disfuncional fica cada vez mais apegada ao poder, demanda sempre mais palco para si mesma, salários maiores ou pacotes de compensação exorbitantes. Não é difícil enxergar que essa combinação já se mostra muito perigosa.
Vamos ao segundo cenário, dos personagens com brilho nos olhos. Também são executivos de sucesso, dirigentes excepcionais de empresas excepcionais. Lanço uma provocação ao leitor: o que move essas pessoas? A busca da resposta a essa questão vem me instigando ao longo dos anos. As diversas pesquisas que já realizei entre executivos das melhores e maiores empresas brasileiras e internacionais têm na bagagem informações importantes sobre o assunto. No trabalho mais recente, analisamos as experiências de executivos de empresas brasileiras que lideram a construção de uma nova cultura empresarial no Brasil, baseada na sustentabilidade e com admiráveis resultados a curto e a longo prazo.
Nos debruçamos na análise dos fatores críticos e do papel da liderança para a obtenção de um desempenho excepcional sustentável, considerando sempre o entrelaçamento das estratégias de negócio com as de gestão e tendo como foco a cultura e a liderança. Ou seja, o “jeito de ser e de fazer” de cada organização.
A diversidade de estilos de gestão dos executivos analisados mostra que não existe um modelo único a seguir. O que existe são alguns elementos comuns que merecem toda a atenção. Falo de paixão e entusiasmo, sentimentos que movem os verdadeiros líderes e atuam nos corações e nas mentes de seus liderados. Falo da capacidade de gerir paradoxos, integrar opostos. Falo do necessário tempero “agridoce” na gestão. Falo de liderança de resultados – que, como o próprio nome sugere, são consequência do jeito de ser e de fazer de uma empresa, e não causa. Com uma boa causa, no sentido de ideal que inspira as pessoas e que as mobiliza, o líder tem seguidores e a empresa obtém os resultados esperados. Quando essa causa extrapola os limites da organização e a atuação do líder engloba a busca de uma sociedade e um mundo melhor, ele se torna um dirigente estadista.
As experiências de dirigentes como os analisados na citada pesquisa inspiram, estimulam e dão um novo sentido à jornada. Provam que é possível empreender e ter sucesso com ética e sem abrir mão de valores, a despeito da diferença de estilos. Vemos, enfim, que o sucesso está em ir além dos próprios limites, da realização pessoal ou da empresa. Para atingi-lo é preciso buscar de fato o bem comum. Essa é a regra de ouro de todas as filosofias através dos tempos.
Os dois cenários com que abri este artigo mostram a realidade que vivemos hoje no mundo. Cabe a cada uma de nossas empresas e, especialmente, a cada um de nós estar atentos ao caminho que escolhemos – e também aos atalhos que podem nos desviar do rumo.
Betania Tanure é doutora, professora da PUC Minas e consultora da BTA
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