Ser o ‘macho alfa’ tem seu fardo na saúde

Uma noite por semana, um grupo de diretores-presidentes se encontra no consultório de um psiquiatra em Manhattan e inicia um antigo ritual. Ostensivamente, é um grupo de autoajuda. Inevitavelmente, se transforma numa batalha por poder.
“Sempre que homens alfa se juntam, o mais agressivo se sobrepõe aos outros”, diz T. Byram Karasu, o psiquiatra veterano que tem conduzido as sessões nos últimos 23 anos. A luta é sutil, mas vicia. “Mesmo dando conselhos o objetivo é diminuir a autoestima de outras pessoas. Aqueles na faixa mais baixa do grupo acabam duvidando de si mesmos, e o nível de testosterona cai. Eles me contam que não podem ter relações sexuais por três ou quatro dias depois [das sessões].”
Não é fácil ser um homem alfa. Subir e se manter no topo requer um esforço físico.
A última evidência pode ser encontrada em babuínos selvagens na Bacia de Amboseli, no Quênia. Pesquisadores das universidades Princeton e Duke estudaram 125 machos em cinco grupos num período de nove anos. Eles descobriram que embora os machos alfa conseguissem a melhor comida e a maioria das parceiras, eles sentiam um estresse bem maior do que os machos beta, que estão só um pouco abaixo na hierarquia, considerando os níveis de cortisol, um hormônio do estresse, em amostras fecais.
Os machos beta tinham quase o mesmo número de parceiras e recebiam o mesmo cuidado que outros, mas não tinham de passar a mesma quantidade de tempo lutando ou seguindo fêmeas para afastar outros machos.
“Ser um alfa é exaustivo. Preferia ser um beta”, diz Laurence Gesquiere, autor que liderou o estudo publicado na revista “Science” em julho.
Na savana humana, onde a inteligência importa mais do que a força bruta, os alfas comandam empresas, acumulam fortunas e dominam qualquer reunião onde eles estejam. Eles são ambiciosos, assertivos, confiantes e competitivos. “É possível identificá-los em 30 segundos”, diz Karasu, que é psiquiatra-chefe do Centro Médico Montefiore, em Nova York.
Embora eles pareçam frios e calmos, muitos humanos alfa progridem com a adrenalina, o hormônio que prepara o corpo para lutar o fugir quando em perigo. Essas breves explosões de poder ajudaram nossos ancestrais a eliminar predadores. Mas se a ameaça detectada nunca for embora, o estado crônico de alarme também eleva a cortisol, e pode eventualmente enfraquecer o sistema imunológico, aumentar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de insulina, bloquear artérias e espalhar inflamações.
Alguns alfas têm as chamadas personalidades tipo A, uma combinação de agressividade, impaciência e raiva inicialmente relacionadas a um risco maior de doenças cardíacas na década de 60. A hostilidade é a principal culpada, de acordo com a pesquisa mais recente. Um estudo com 1.750 canadenses publicado semana passada na revista da Faculdade Americana de Cardiologia revelou que pessoas que demonstravam sinais de hostilidade — ainda que admitissem serem hostis ou não — tinham o dobro do risco de sofrer problemas cardiovasculares, em relação aos que não se mostravam hostis. “Nem todos os homens alfa são do tipo A, mas a combinação pode ser fatal do ponto de vista da saúde”, diz Karasu.
As mulheres, claro, também podem ser alfas ou betas, e mostram a mesma resposta lute-ou-fuja ao perigo. Mas alguns pesquisadores teorizam que as mulheres podem apresentar uma resposta cuidadosa e protetora ao mesmo tempo, liberando doses extras de oxitocina e prolactina, hormônios que reforçam a nutrição. A proteção da prole e a adaptação à multidão podem ter aumentado as chances de sobrevivência das mulheres, mais do que correr ou lutar, sugere a teoria. O aumento da oxitocina foi documentado em estudos com animais, mas ainda não foi testado em humanos.
Muitos alfas também se dedicam aos exercícios, o que ajuda a queimar o excesso de adrenalina e cortisol. Mas alguns alfas levam o exercício, como todas as outras coisas, ao extremo. “Se você acelera o ritmo toda vez que alguém lhe ultrapassa, seu nível de adrenalina continuará alto”, diz a psicóloga Kate Ludeman, coautora do livro “A Síndrome do Macho Alfa”.
Cardiologistas, psiquiatras e consultores de executivos dizem que é importante que os alfas encontrem uma forma de administrar o excesso de estresse — seja com o exercício moderado, esportes, ioga, música, meditação, treinamento de atenção ou lazer com a família e amigos. Alguns também aconselham exercícios simples de respiração profunda, com longas expirações, que podem neutralizar o cortisol e aumentar a endorfina, a substância no cérebro que traz a sensação de bem-estar.
Muitos alfas dizem que são mais felizes, mais saudáveis e mais bem-sucedidos quando aprendem a controlar seus impulsos competitivos. “Alguns alfas concorrem com seus próprios filhos”, diz Eddie Erlandson, um ex-cirurgião vascular que agora comanda uma empresa de treinamento de executivos, a Worth Ethic Corp., em parceria com sua esposa, Ludeman.
Alguns estudos com primatas revelaram que os machos alfa com maior expectativa de vida são os que cultivam amizades. Isso também se aplica aos humanos “com uma vingança”, diz o biólogo da Universidade Stanford Robert Sapolsky, autor de “Por que as Zebras não têm Úlceras.”
Mas os machos beta, por sua vez, são amigáveis, pacíficos e com espírito de equipe. Eles são bons maridos, pais e amigos. Alguns especialistas dizem que eles tendem a ser mais felizes do que os alfas, uma vez que não são guiados pela necessidade de estarem no topo. Os betas podem surgir de várias formas — desde líderes competentes até os extremamente introvertidos que são tão determinados em evitar conflitos que sofrem de ansiedade.
Muitos estudos de observação de pessoas e de primatas mostraram que, em geral, o estresse é maior no piso da hierarquia social do que no topo. Dois estudos de longo prazo com funcionários públicos britânicos revelaram que as pessoas nos cargos mais baixos tinham mais problemas de saúde e três vezes mais chances de morrer do que os administradores do alto escalão num período de dez anos — mesmo com o fato de que todos eles tinham acesso à assistência médica.
Até agora, há poucas pesquisas para avaliar se os humanos alfa ou beta são mais saudáveis. Mas há um crescente interesse em estudar como as experiências sociais e psicológicas interferem na biologia humana — “como elas nos afetam”, diz Richard Suzman, diretor de Pesquisa Social e Comportamental do Instituto Nacional do Envelhecimento, que ajudou a financiar o estudo com babuínos e está investigando como o status social afeta a longevidade. O Instituto Nacional de Saúde Mental está usando imagens do cérebro para acompanhar como ganhar e perder afeta os circuitos cerebrais.
Algumas das questões mais intrigantes envolvem como e quando essas características emergem na infância. Pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano observaram o comportamento alfa e beta mesmo no jardim de infância e identificaram que crianças subordinadas tinham mais cortisol na saliva. “A pergunta que estamos fazendo é: quão reversíveis são esses padrões na infância?”, diz Stephen Suomi, que dirige a pesquisa de primatas e humanos do instituto. “Este é um território totalmente novo e inexplorado.”

Fonte: MELINDA BECK, The Wall Street Journal, Valor Econômico, 13/9/2011.

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