A nova classe média na Escola

Dois anos atrás, em 2009, o diretor Maurício Farias voltava os olhos – e as câmeras – para um universo pouco retratado como temática no cinema brasileiro: a educação, simbolizada ali na relação de uma professora carioca de escola pública e de um aluno cujos pais foram mortos por traficantes de drogas, restando ele próprio ameaçado.

Em Verônica, que tinha Andréa Beltrão no papel da professora que protege o menino, materializava-se a visão de escola pública mais corrente no país: a de um espaço abandonado pelo poder público, sujeito à violência urbana e com as aulas suspensas ao primeiro tiroteio que ocorra ao seu redor.

Pois é essa imagem pública – de local violento, com faltas frequentes de professor e pouca disciplina – que está na origem de um movimento que começa a se delinear no panorama da educação nacional.

Cada vez mais, as famílias da chamada nova classe média, ou classe C emergente, matriculam seus filhos em escolas particulares, e não em escolas públicas.

Essas famílias, cuja renda domiciliar per capita varia entre R$ 323 e R$ 1.388, passaram a enxergar a educação como um valor e a preocupar-se com a segurança dos filhos.

É o que aponta uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisas Data Popular com 5.003 brasileiros em 44 municípios, segundo a qual a educação dos rebentos já é percebida na classe C como a melhor estratégia de ascensão social.

A pesquisa mostra que 89% das pessoas entrevistadas enxergam a educação como o meio mais seguro para alcançar um bom futuro. Além disso, 66% delas atri­buíram à educação dos filhos o caráter de “prioridade”. Por fim, 57% dos entrevistados responderam que a escola pública vem piorando em termos de qualidade.

O entendimento de que a escola pública não garante ensino de qualidade é apontado como um dos propulsores da procura das escolas particulares por parte dessas famílias.

Segundo os questionários do Data Popular, as instituições privadas oferecem dois tipos de vantagem, que a pesquisa relaciona com a possível oferta de um ensino de qualidade: o regime disciplinar mais rígido, que possibilita aos pais acompanhar mais de perto as questões escolares dos filhos, e a segurança, que faz diferença para mães que trabalham o dia todo.

O movimento, ainda não detectado em todas as regiões do país, é comprovado por dados extraídos das últimas edições da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) também pelo Data Popular.

Segundo a instituição, das 5,5 milhões de crianças até 14 anos matriculadas em escolas privadas, 2,7 milhões são da classe C – em outras palavras, 49,2% do total. Quando se observam as classes C, D e E, o número de matriculados sobe para 3,7 milhões, ou 67% do total.

A Fundação Getulio Vargas compilou informações que apontam o mesmo movimento. Em 2009, a classe C já representava mais de 50% da população brasileira.

Os números se tornam especialmente relevantes porque, entre 2003 e 2009, houve um crescimento de 29  milhões de pessoas na chamada nova classe média. A FGV define este grupo a partir da renda domiciliar, que oscila entre R$ 1.126 e R$ 4.854.

Perfil institucional
Para além dos números, as escolas voltadas a este público, algumas já existentes há mais de uma década, também vêm crescendo em número de alunos.

Ainda não é possível definir um perfil para as instituições que atendem a classe C emergente, mas as escolas ouvidas pela reportagem cobram mensalidades que variam entre R$ 180 e R$ 600.

Uma delas é o Externato Nossa Senhora do Sagrado Coração de Jesus, localizado na Vila Formosa, em São Paulo, instituição que cobra mensalidades entre R$ 580 e R$ 650 e que passou de 389 matrículas em 2005 para as atuais 645.

Segundo o diretor-geral, o padre Tarcísio Pereira Machado, o aumento foi constante a cada ano. Para Maurício Berbel, da Alabama Consultoria Educacional, trata-se de uma captação de novos estudantes muito acima da média observada no mercado. “Em geral, o que as escolas conseguem é repor os que saem por terminar os estudos ou por motivos eventuais”, explica.

Embora a clientela seja predominantemente de famílias de classe C para B, a procura por matrículas reflete a ideia de que a escola privada está mais apta a oferecer educação de qualidade que a escola pública.

“Além da chegada da nova classe média, vemos também escolas que crescem porque os pais estão em melhor situação financeira e buscam escolas que julgam ter mais qualidade, muitas vezes mais caras”, comenta Eugênio Cordaro, sócio da Corus Consultores.

A mesma situação foi observada no colégio Gislaine Rosati, localizado no Parque São Domingos, bairro de classe média de São Paulo da zona oeste paulistana.

Embora não tenha valores precisos, a diretora que dá nome à escola afirma que houve aumento significativo no número de alunos em 2011, em comparação a anos anteriores.

Segundo Gislaine, pelo menos 30% dos novos estudantes vieram da rede pública. As mensalidades estão entre R$ 300 e R$ 380, mas são aplicados descontos em que o valor fica abaixo dos R$ 300. Há casos em que a negociação é importante para manter a clientela.

Na Escola Almanaque, também na zona oeste, 80% dos alunos estão com bolsas de estudos, com descontos na faixa de 25% do valor da mensalidade, de R$ 540,00, segundo as proprietárias Andrea Maria Siqueira e Maysa Malvezzi.

Crescimento paulatino e constante também faz parte do histórico de colégios que adotam preços baixos em regiões periféricas . A Escola Cerimar, localizada em Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo, passou dos 14 alunos com que começou a funcionar em 1997, a 650 atualmente, tendo aumentado pelo menos uma classe a cada 12 meses nos últimos anos.

As mensalidades vão de R$ 180 (infantil) a R$ 380 (ensino médio). Segundo a diretora Vanda dos Santos Papa, as famílias se enquadram no perfil da nova classe, tendo desde alunos filhos de empregadas domésticas a profissionais de nível universitário, passando por professores da rede pública.

Pouca oferta
Na visão de especialistas, se o potencial de mercado é significativo, a oferta de escolas particulares voltada à nova classe média ainda tem muito o que crescer.

“As iniciativas existem, mas não vemos uma ação coordenada, como a das grandes redes de universidades que se expandiram nos últimos anos”, afirma Eugênio Cordaro, sócio da Corus Consultores.

Marcelo Neri, da FGV, faz a mesma análise. “Há um crescimento relativamente forte, mas não chega a ser uma revolução, não temos dados estatísticos que comprovem o fenômeno”, defende o chefe do Centro de Políticas Sociais da instituição. Uma das medidas adotadas pelos especialistas para entender o fenômeno diz respeito à evolução das matrículas em escolas privadas.

Pelo Censo Escolar de 2010 do MEC/Inep, a educação particular foi responsável por 14,6% (7.560.382, de um total de 51.549.889) das matrículas no ensino básico brasileiro.

Houve crescimento de 3,4% (cerca de 250 mil matrículas) na rede privada em relação a 2009, quando a proporção foi de 13,9% (7.309.742 para um total de 52.580.452) do total. Em 2002, a educação paga representava 12,8% das matrículas (7.183.897 para 56.203.383).

Os números brutos mostram que o total de matrículas vem caindo em maior velocidade que o aumento das escolas particulares. Enquanto houve redução de 4,653 milhões de matrículas na Educação Básica do país entre 2002 e 2010 (dados relacionados à queda na população da faixa etária escolar, consequência da transição demográfica por que passa o país), o aumento na rede particular foi de 376.485 mil matrículas.

Pesquisa realizada anualmente pela Corus Consultores indica que, de 2009 para 2010, o crescimento no número de alunos das escolas particulares de São Paulo foi de 5,5%.

Trata-se de um número pequeno em termos de captação de novos clientes, comparado a outros setores da economia, mas significa um salto em relação a períodos anteriores. De 2007 para 2008, o aumento foi de 2,3% e ficou em 1,5% de 2008 para 2009, período da crise econômica.

O cenário proposto pela pesquisa sobre a nova classe média da FGV é o de um país em que diminui a desigualdade social, medida pela renda e indicadores sociais. A classe média recebeu um enorme contingente de novos membros, que respondem pela maior proporção de poder de compra do país – o que pode estar começando a se refletir na oferta e procura pela educação privada.

Aspiração
Para Marcelo Sinelli, consultor do Sebrae-SP, as pesquisas mostram que existe uma demanda potencial por serviços de educação básica privada entre a população que passou a ter melhor nível de renda nos últimos anos.

“Primeiro, é preciso refinar, entre estes quase 30 milhões de pessoas que ascenderam à classe C até 2009, quantas fazem parte do público-alvo da escola paga”, questiona.

Um fator positivo na composição do mercado potencial é o valor que o ensino vem adquirindo para a nova classe média.  “Eu diria que as famílias estão entendendo a importância da educação, de sétima prioridade passou a ser segunda”, afirma o professor Neri.

“Há três anos, uma pesquisa mostrou que a maioria dos pais de alunos que não colocam os filhos em escolas particulares gostaria de fazê-lo”, relata o presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR), Ademar Batista Pereira.

“Com a melhoria na economia em geral, é normal que aumente a procura.” Em sua opinião, há um mercado emergente no estado, principalmente nos bairros de periferia.

“Minha percepção, baseada nas pesquisas que fazemos e em conversas com pessoas da classe C, é que o povo passou a se preocupar mais com a educação dos filhos. Talvez não saibam o que é um bom ensino, mas existe a ideia”, reflete o professor Neri.

Segundo ele, o fato de as famílias terem cada vez menos filhos – a média registrada pela Pnad 2009 foi de 1,9 criança por família – contribui para que os pais invistam mais no crescimento deles.

“Os pais da nova classe média, em geral, apostam na educação dos filhos como forma de ascensão profissional e pessoal”, concorda o consultor Maurício Berbel, da consultoria em gestão estratégica escolar Alabama.

A diretora do Instituto Ebenézer, Selma Martins de Barros, observa uma situação representativa dessa busca. Ela afirma que a escola costuma ter aumento no número de matrículas nas turmas de 5º e 6º ano do ensino fundamental.

“A escola fica localizada em Osasco, onde a rede municipal é considerada de boa qualidade. Como a prefeitura só oferece a primeira etapa do fundamental, os pais ficam com receio de mudar os filhos para o sistema estadual, a partir do sexto ano”, considera. As mensalidades do colégio vão de R$ 420 a R$ 670.

Anos de estudo e renda
Indicadores sustentam que o tempo de estudos tem relação com a posição social. Segundo a Pnad 2009, 43,1% da população ocupada tinha pelo menos o ensino médio completo, contra 33,6% em 2004. Estudo da FGV defende que aumentos nos anos de escolaridade entre 2003 e 2009 foram os principais responsáveis pelo crescimento da renda média da população mais pobre.

E que a educação é o determinante mais relevante da desigualdade e da pobreza no país. Quanto maior a renda, mais anos de escolaridade. Quase metade (47,67%) da classe AB tem curso superior, contra pouco mais de 10% da classe C.

Indícios
A consultoria Alabama realizou uma pesquisa para entender o perfil dos novos alunos do Externato Sagrado Coração, da paulistana Vila Formosa. Segundo o levantamento, a renda média familiar dos ingressantes se enquadra na definição de classe C e B da FGV.

Outro resultado é o fato de que, na maioria dos casos dos novos alunos, pai e mãe trabalham e possuem pelo menos o nível superior incompleto de escolaridade.

Menos de 30% deles estudaram até o ensino médio. Berbel cita ainda um número significativo de crianças que ficam na escola em período integral e que participam de cursos de férias, sinais de que as mães também trabalham.

“Sinto que os pais querem formação melhor para os filhos, acabam apostando na educação formal deles. Há um tempo, eu notava que eles estavam mais preocupados com os valores financeiros e não com a qualidade, por isso deixavam nas escolas municipais e estaduais”, afirma Gislaine Rosati.

O colégio Gislaine Rosati, em funcionamento há 11 anos, tem 237 alunos distribuídos em berçário, educação infantil e ensino fundamental. São 30 funcionários.

O preço é uma das estratégias da proprietária para captação de alunos. “Procurei uma mensalidade justa. Não adianta cobrar um valor alto e ter muita criança fora da escola”, comenta Gislaine.

Custo e qualidade
Pelo menos duas características tornam a lógica de mercado da oferta e procura muito mais complexa no campo da iniciativa privada em educação: custo e qualidade.

Educação é um serviço com custo elevado para o provedor, que se reflete na mensalidade paga pelos consumidores. A filosofia de trabalho descrita por Gislaine – educação de qualidade por preço justo – procura equacionar um dos principais desafios para o crescimento das escolas particulares junto à classe C.

“A saída para oferecer preços mais baixos por ensino de qualidade é ganhar volume. Não dá para fechar a conta em negócios isolados, de um empreendedor que abre uma pequena escola”, adverte o consultor Eugênio Cordaro, referindo-se à lucratividade e saúde financeira dos empreendimentos.

“Prezo a qualidade do ensino e não permito a superlotação das salas de aula. Não vou dizer que meu retorno é enorme, ou seja, não estou rica com a escola”, declara Gislaine.

Segundo o professor Marcelo Neri, do CPS/FGV, o custo médio por aluno em um ano, no ensino fundamental, gira em torno de R$ 2 mil. O cálculo vale tanto para escolas particulares como públicas.

O valor estimado pelo Custo Aluno Qualidade Inicial (CAQi) para os primeiros anos do ensino fundamental é de R$ 2.194,56. Trata-se de um índice elaborado pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação que estipula o mínimo necessário para oferta de educação de qualidade.

De um lado, custos. De outro, demanda potencial da nova classe média por escola particular. Qualidade de ensino é o elemento que está entre os dois fatores citados.

A aspiração a níveis de educação mais elevados e valorização do estudo como propulsor da ascensão social fazem com que a classe C emergente volte a atenção a colégios privados pelo simples fato de que consideram a rede pública pior.

O professor Neri defende que, pelo mesmo custo, as particulares oferecem um resultado melhor. Ele cita os números do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) como medida. Em 2009, o Ideb das séries iniciais do ensino fundamental nas particulares foi de 6,4, contra 4,4 das públicas.

Dados da pesquisa Tempo de Permanência na Escola, da FGV, no entanto, mostram que alguns indicadores aproximam bastante as duas realidades.

No caso do índice de presença, por exemplo, ele é de 96,3 nas privadas e 95,1 nas públicas, uma diferença insignificante. Outro aspecto é que o Ideb das particulares é puxado por um grupo pequeno de escolas de alto padrão, puxando para cima a média geral.

Mas há quem, como Marcelo Neri, acredita que há um descompasso entre ambas as realidades.

“A jornada escolar é maior nos colégios pagos, a escola privada é melhor do que a pública. Está havendo crescimento, mas ainda é uma educação muito cara”, conclui.

O X do problema
Apesar dos indicadores, qualidade em educação continua sendo tema de infindáveis discussões, que tendem inclusive ao campo da subjetividade. Uma das questões é o que o público de classe média emergente entende pelo conceito. “O nível de exigência do consumo está aumentando. Com novos horizontes em mente, os pais da classe C, mesmo tendo estudado até o ensino médio, vão procurar saber o que é bom no ensino”, aposta Marcelo Sinelli, do Sebrae-SP.

Além disso, na decisão pela escola particular em que os filhos vão estudar, entram em jogo aspectos de conveniência e custo-benefício. Há alguns anos, o consultor Maurício Berbel, da Alabama, estudou os critérios adotados pelos pais para a escolha da escola particular dos filhos e identificou três perfis.

O primeiro deles, de pessoas de renda mais elevada, avalia diferentes quesitos e escolhe pelos indicadores de alta qualidade. Outro grupo prefere seguir a tradição e matricular os filhos na mesma escola em que estudou. Por fim, encontram-se as famílias emergentes, em que a escolaridade dos pais é mais baixa, muitos jovens inclusive trabalham. Neste caso, a matrícula será feita por motivos bem diferentes.

“Os pais buscam aspectos de conveniência: se a escola fica perto de casa ou de seu trabalho, como será a alimentação da criança, se o preço cabe no orçamento. A dinâmica da vida familiar pesa nessa escolha”, explica Berbel. Segundo ele, a estrutura física do colégio, o atendimento prestado e a segurança proposta também vão compor a decisão.

E a relação que se estabelece com a instituição escolar também se pauta pelo aspecto de conveniência relacionado à dinâmica familiar. “Quando os pais começam a usar o serviço, valorizam flexibilidade ou exigência com pontualidade, reuniões escolares”, comenta o consultor. Berbel compara este segmento de compradores identificado em sua pesquisa, de 2002, parecido com o da classe média emergente.

“Educação não é um produto que se compra ao ver outdoor na rua. As mães pedem referências, até chegar a uma decisão satisfatória, buscando custo-benefício”, afirma Sinelli, do Sebrae-SP. Em sua visão, os pais da nova classe média vão procurar saber sobre a qualidade do ensino, atentos ao retorno das mensalidades que estão pagando, com sacrifício.

De seus estudos sobre a nova classe média, o professor Marcelo Neri observa que estas pessoas compram produtos que acreditam ter qualidade e até status. E que na conta do custo-benefício entram valores. “Eles podem até não saber o que é uma boa escola, mas possuem o valor de que a educação é importante.”

Os diferentes componentes para aferir qualidade de ensino, combinados aos fatores de custo, demanda, mercado potencial e oferta em construção configuram o cenário de acesso da nova camada emergente ao ensino particular. Uma dinâmica que pode ganhar traços mais definidos conforme a iniciativa privada encontre o caminho em um segmento de mercado que não se define por padrões tradicionais de consumo.

Fonte: Lígia Sanchez, REVISTA EDUCAÇÃO – EDIÇÃO 173, mais aqui.

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