Fusão no varejo: Quantas PME´s podem ser incentivadas com recursos públicos do BNDES?

O BNDESPar, braço financeiro de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e o BTG Pactual anunciaram uma proposta de fusão entre o Grupo Pão de Açúcar e a operação brasileira do Carrefour financiada, em sua maior parte, com recursos públicos do BNDES. O valor da operação de fusão com o grupo francês Carrefour é de 2,5 bilhões (ou R$ 5,6 bilhões), segundo a proposta.

Em nota divulgada ontem, o BNDES considera a possibilidade gastar sozinho até 2 bilhões (R$ 4,5 bilhões) na operação. “O processo está enquadrado (sob análise), porque o banco enxerga mérito nele”, afirmou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ontem no começo da noite na chegada ao evento Destaque Agência Estado Empresas 2011.

Só uma pergunta: Se o valor da operação de fusão com o grupo francês Carrefour é de 2,5 bilhões (ou R$ 5,6 bilhões), com recursos públicos do BNDES, segundo a proposta, quantas micros, pequenas e médias empresas podem ser incentivadas com estes recursos?

Será que PME´s tem tanta rapidez para chegar no BNDES como neste caso? E conseguir recursos públicos do BNDES para se desenvolver, crescer, comprar empresas e também realizar fusões???

Apenas pergunta, nada contra CBD, GPA, CG, BTG, bom trabalho e boa sorte rapazes.

Fonte: Márcia De Chiara e Marcelo Rehder – O Estado de S.Paulo, mais aqui.

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Alpargatas fecha parceria com Disney para lançar Havaianas Kids

A Alpargatas, dona da marca Havaianas, fechou uma parceria com a Disney para usar a imagem de personagens em um novo produto, a Havaianas Kids.

Os itens licenciados usarão estampas do Mickey, Minnie, Ursinho Pooh, Princesas, Tinker Bell, entre outras.

A Alpargatas informou que sempre usou desenhos exclusivos nas sandálias Havaianas. “Mas, em 2009, a marca iniciou seu trabalho com personagens licenciados, que passaram a ser estampados nos modelos infantis de sandálias, trazendo um incremento de 46% nas vendas dos produtos”.

A fabricante de calçados informou que tem expectativa de alavancar, mais uma vez, o volume de vendas da linha Havaianas Kids.

“Esta união reforça o vínculo emocional do consumidor com as sandálias mais desejadas do planeta e com os personagens que criaram a melhores histórias e fantasias”, defendeu.

Fonte: Karen Camacho | Valor

Aula Magna com o Prof. Antonio Delfim Netto sobre “Oportunidade e a crise de 2007/09”

Esse é um momento particularmente interessante para os economistas. A crise de 2007/09, que atingiu o sistema financeiro e interrompeu o “circuito econômico”, já custou mais de 5% do PIB mundial e deixou desempregados mais de 30 milhões de honestos trabalhadores.

Ela mostrou as limitações dos nossos conhecimentos de como funciona, de fato, o sistema econômico. Mostrou, também, a precariedade do que parecia ser uma revolução científica: a construção da economia financeira, separada da macroeconomia, feita por pequenos economistas, supostos grandes matemáticos!

O economista é um cientista social que procura entender como funciona o mundo real (e não impor-lhe o que gostaria que ele fosse). Tenta encontrar algumas regularidades e organizar histórias plausíveis sobre elas. O resultado do seu trabalho deve ajudar a lubrificar o funcionamento das instituições que levam ao desenvolvimento sustentável com justiça social.

Nem toda atividade social é de interesse da economia, mas toda atividade econômica é de interesse social. O agente econômico é um animal mais complicado do que supúnhamos: aprende com uma racionalidade limitada inserido num universo de incertezas.

O individualismo metodológico e os agentes representativos que estão na base das nossas construções teóricas são insuficientes para entender o fenômeno das redes que dominam o universo social, da tendência à imitação dos agentes e da segurança que a norma lhes dá. Eles certamente movem-se por estímulos e interesses, mas num espaço social, numa rede na qual cada um é apenas um elemento, o que condiciona as suas escolhas.

A pobre discussão que envolveu a ideia de “Estado mínimo”, por exemplo, era apenas uma ação ideologicamente motivada. Na verdade, não existe “mercado” sem um Estado capaz de garantir as condições de seu funcionamento. Numa larga medida, a forma de organização do sistema produtivo é ditada pelos que detêm o poder político e formulam a política econômica que serve aos seus interesses. A sua construção teórica e a formalização para justificá-la também são um produto ideológico.

Para entender isso, basta ver como a tomada do poder pelas finanças nos EUA levou a uma política econômica que lentamente erodiu a legislação que regulava suas atividades e fora produzida após a Grande Depressão. Muito rapidamente os “cientistas” produziram uma “ciência” que justificava a total desregulamentação da atividade financeira em nome da “eficiência” e da descoberta de “inovações” capazes de medir os “riscos”: 1929 nunca mais!

É preciso incorporar no DNA dos economistas a autonomia do político. Nas situações de conflitos irreconciliáveis, só o poder político pode arbitrar. Ainda que possamos ter sugestões interessantes sobre a flexibilidade do mercado de trabalho (o que não é muito claro do ponto de vista empírico), elas são, claramente, propostas “normativas” que produzem, inevitavelmente, “vencedores” e “perdedores”. É um pouco ridículo sugerir aos últimos que devem sacrificar-se em nome de um “valor maior” construído sobre a base teórica discutível da Teoria do Equilíbrio Geral…

A economia precisa voltar a abrigar contribuições de todos os matizes teóricos e ideológicos, porque aqui, como na biologia, só a diversidade é fértil. Essa é uma velha tradição da FEA/USP. Apenas para recordar. Nos idos de 1947, o ilustre professor Paul Hugon nos ensinava – na cadeira de economia política – que a moeda era “qualquer coisa” aceita pela sociedade com as qualidades de ser uma unidade de conta, de resgatar compromissos e capaz de ser reserva de valor. Era apenas um véu que escondia a economia real.

Ao mesmo tempo, o não menos ilustre professor Heraldo Barbuy – na cadeira de sociologia – nos “enriquecia”, inspirado em George Simmel, ao mostrar que a coisa não era tão simples! A moeda era sim produto de uma convenção social, mas tinha profunda influência no comportamento humano, como a cupidez, a avareza e a prodigalidade e exercia profunda influência sobre a economia real. A ideia de uma moeda neutra, apenas um “véu” facilitador das trocas, era uma “imbecilidade”.

Os economistas estão diante de um novo e excitante momento. Precisam aproveitar as novas oportunidades que se abrem à profissão para renovar o trabalho mais modesto de oferecer instrumentos para a boa governança dos Estados e a melhor alocação dos seus recursos. Precisam recuperar a história, a geografia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e usar mais modestamente a topologia…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. 

Artigo publicado no Jornal Valor Econômico, 28/6/2011. Assinantes, aqui.

A nova classe média por Marcelo Côrtes Neri

A chamada nova classe média tem ocupado destaque na agenda das empresas privadas, dos gestores públicos, dos políticos e dos demais mortais no Brasil como em outros lugares.

A pesquisa homônima a este artigo encontrada em www.fgv.br/cps/brics foi lançada ontem no seminário Oportunidades para Maioria, do BID, que visa formentar negócios na base da pirâmide.

Abrimos a nova classe média brasileira pelas dimensões globais, nacionais, locais e atuais. Senão vejamos:

Global – Inicialmente, analisamos diferenças e semelhanças de grupos emergentes entre países emergentes. Especial destaque é dado ao grupo dos Brics, contrastando elementos diversos:

Quanto o crescimento macroeconômico se reflete no bolso do cidadão comum? O Brasil mais do que outros Brics, apresentou um crescimento de pesquisas domiciliares 11,3 pontos de porcentagem superior ao PIB acumulada no período 2003 a 2009.

A novidade é que essa diferença tem aumentado. Mesmo no caso do “pibão” de 2010, que cresceu a 6,5% per capita contra 9.6% da renda da PME, a desaceleração do PIB do começo de 2011 não se reflete ainda no mercado de trabalho metropolitano em 2011 onde a renda domiciliar per capita do trabalho cresce a 6.1% acima novamente do PIB.

Quem melhora mais em cada país: a base ou o topo da distribuição de renda? Para além da média, essas mesmas pesquisas permitem ver que a desigualdade de renda cai aqui e aumenta alhures.

No Brasil já cai há dez anos seguidos, já entrando no 11º ano. Os 20% mais ricos do Brasil tiveram na década passada um crescimento inferior ao dos 20% mais ricos de todos os demais Brics, já nos 20% mais pobres acontece o oposto.

Para além de melhoras objetivas, como estão atitudes e expectativas das pessoas em relação ao presente e ao futuro?

Segundo o Gallup World Poll, o grau de satisfação com a vida no Brasil em 2009 era 8,7 numa escala de 0 a 10. Superamos os demais: África do Sul (5,2), Rússia (5,2), China (4,5) e India (4,5).

Mais do que isso, o Brasil é o único dos BRICS que melhora no ranking mundial de felicidade, saindo do 22º lugar em 2006 para 17º em 2009 entre 144 países.

O Brasil é o recordista mundial de felicidade futura. Numa escala de 0 a 10, o brasileiro dá uma nota média de 8,70 à sua expectativa de satisfação com a vida em 2014 superando todos os demais 146 países da amostra cuja mediana é 5,6.

Essa interpretação permite entender o Brasil: “o país do futuro” criada a exatos 70 anos atrás por Stefan Zweig. O sonho representa o espírito da nova classe média tupiniquim.

Nacional – Quanto cresceu em termos líquidos diferentes estratos econômicos da sociedade brasileira no período recente?

Desde 2003 um total de 50 milhões de pessoas – mais do que uma Espanha – se juntaram ao mercado consumidor. Nos últimos 21 meses até maio de 2011 as classes C e AB cresceram 11,1% e 12,8% respectivamente. Neste período 13,3 milhões de brasileiros foram incorporadas às classes ABC, adicionando-se aos 36 milhões que migraram entre 2003 e 2009.

Atual – Indicadores antecedentes sugerem melhoras. A última semana do mês de maio 2011 pela PME Semanal sugere viés de queda para pobreza e viés de alta para a classe AB em relação ao mês completo. Não há sinais de desaceleração trabalhista.

A taxa de redução de desigualdade nos últimos 12 meses é um pouco acima daquele observado nas séries da PNAD entre 2001 e 2009 no período de marcada redução da desigualdade. O comportamento anticíclico da desigualdade sugere a ausência de dilemas equidade versus eficiência no período sob análise.

Empregos Formais – O grande símbolo da nova classe média é a carteira de trabalho. Entre janeiro e abril de 2011 houve a criação líquida de 798 mil novos postos de trabalhos, o terceiro melhor desempenho desde 2000, ficando abaixo do mesmo período em 2010 (962 mil) e 2008 (849 mil). Não há sinal de desaquecimento trabalhista.

Local – Qual é a recordista de nova classe média? Onde a pobreza e a riqueza são maiores?

O município mais classe A é Niterói com 30,7% na elite econômica. Depois vem Florianópolis (27,7%), Vitória (26,9%), São Caetano (26,5%), Porto Alegre (25,3%), Brasília (24,3%) e Santos (24,1%).

Se formos menos elitistas e incluirmos as classes B e C no páreo, o município gaúcho de Westfália apresenta a maior classe ABC com 94,2% nas Classes ABC. Quase todos os 30 municípios com maiores participações nas classes ABC estão na região Sul do país, fruto da menor desigualdade de renda lá observada.

Quais são as prescrições de políticas para a nova classe média brasileira?

É preciso “Dar o mercado aos pobres”, completando o movimento dos últimos anos quando pelas vias da queda da desigualdade “demos os pobres aos mercados (consumidores)”. “Dar o mercado” significa acima de tudo melhorar o acesso das pessoas ao mercado de trabalho. Os fundamentos do crescimento econômico e as reformas associadas são fundamentais aqui. A educação regular e profissional funciona como passaporte para o trabalho. O desafio é combinar as virtudes do Estado com as virtudes dos mercados, sem esquecer de evitar as falhas de cada um dos lados.

Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, Fundação Getulio Vargas. Autor dos livros “Ensaios Sociais”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Microcrédito, o Mistério Nordestino e o Grammen brasileiro”.

Artigo publicado no Jornal Valor Econômico, dia 28/06/2011.

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Early Warning – Sinais de Mercado 2: Rede americana abre loja de pelúcias sob encomenda

A rede norte-americana de brinquedos Build-A-Bear Workshop inaugurou ontem, em São Paulo, sua primeira loja no país.

A marca -nona maior varejista de brinquedos dos EUA, com faturamento de US$ 400 milhões mundialmente- será representada no Brasil pelo empresário Alberto Mayer. Ele pretende abrir 25 unidades nos próximos cinco anos.

Para comandar a primeira operação da Build-A-Bear na América do Sul, Mayer desembolsou R$ 4 milhões.

Conhecida pela personalização de seus bichinhos de pelúcia, a Build-A-Bear entra para disputar mercado com a Happy Town, que desde 2004 atua na venda de pelúcias sob encomenda.

As crianças confeccionam as pelúcias, selecionando roupas e acessórios.

“Nosso diferencial são itens de marcas licenciadas, como os dos personagens da Disney e da Sanrio (dona da Hello Kitty). Além disso, os clientes têm acesso a um modelo virtual de seu brinquedo por meio de um site e podem brincar com ele na internet”, diz Ferdinando Demarchi, diretor da Build-A-Bear Workshop Brasil e que foi franqueado de quatro lojas da Happy Town.

A matriz negociou por dois anos até achar um parceiro. “Queríamos alguém com experiência no varejo de brinquedos”, afirma Kathi Scott, diretora de treinamento.

A primeira loja está localizada no shopping Eldorado por causa de sua conexão com as crianças: até o começo do ano passado, funcionava lá o Parque da Mônica.

Fonte: FELIPE VANINI BRUNING, colaboração para a Folha.

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Early Warning – Sinais de Mercado: Macy’s e Bloomingdale’s vão vender no Brasil via internet

A Macy’s e a Bloomingdale’s, duas das lojas mais visitadas pelos turistas brasileiros que vêm aos Estados Unidos, vão começar a vender seus produtos por meio do seu site para o Brasil a partir de segunda-feira.

O anúncio, que será feito feito oficialmente na semana que vem, foi confirmado ontem por Orlando Veras, gerente de relações com a imprensa da Macy’s.

Segundo ele, os produtos serão vendidos já levando em conta o transporte e, principalmente no caso brasileiro, os tributos que o consumidor precisa pagar na conta final, não sendo necessário acrescentar nenhuma tarifa depois que a compra for fechada.

Como as vendas internacionais ainda não começaram, não é possível comparar quanto o brasileiro paga de tributo pelos itens na comparação com os consumidores de outros países.

APOSTA

O Brasil faz parte de uma aposta da rede no consumidor internacional, especialmente neste momento em que a economia dos Estados Unidos permanece em crise e com desemprego alto, de 9,1% no mês passado.

Além do Brasil, o site da Macy’s vai passar a vender para 90 mercados, sem levar em conta o americano.

O investimento também demonstra a importância que o comércio on-line representa para as vendas da Macy’s e da Bloomingdale’s. Mesmo restrito aos EUA, o faturamento nos sites da rede cresceu 29% no ano passado em relação a 2009.

Já as vendas nas lojas físicas tiveram expansão de 5% nessa mesma base de comparação.

No ano passado, a Gap (dona de marcas também como Banana Republic, Old Navy e Athleta) iniciou as suas vendas pela internet para o mercado brasileiro e de mais 54 países.

Fonte: ÁLVARO FAGUNDES, NOVA YORK, Folha de S.Paulo.

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Livro faz relação entre crise e pensamentos econômicos

Nos últimos 40 anos o pensamento econômico se afastou da realidade e se revestiu de utopia. Autoridades abraçaram a nova ideologia e fecharam os olhos para distorções e abusos que se formavam no mercado financeiro. Isso resultou na crise global de 2007-2008.

Essa é a ideia central de “Quando os Mercados Quebram“, do jornalista britânico John Cassidy, que trabalha para a prestigiosa revista “The New Yorker”.

O livro explica como surgiu a defesa da tese de que um mercado livre de amarras é eficiente porque “recursos físicos e humanos são dirigidos para onde mais se precisa deles, e os preços estão vinculados a custos”.

Cassidy mostra como pensadores que vieram depois do pai da ideia -Adam Smith- avançaram e aprimoraram a teoria do economista britânico.

Para ele, esse grupo de economistas dos séculos 18 e 19 era menos dogmático a respeito da eficiência do livre mercado do que fervorosos defensores mais recentes.

Segundo Cassidy, Smith e outros economistas, como o britânico John Stuart Mill, alertavam para os distúrbios no sistema financeiro e defendiam a necessidade de regulação governamental.

“A noção de que os mercados financeiros são mecanismos racionais e autorreguladores é invenção dos últimos 40 anos”, afirma o autor. Essa é a essência do que ele chama economia utópica.

O autor descreve a contribuição dos economistas que apontaram falhas do livre mercado, como incertezas, informação imperfeita e comportamento de manada.

Os economistas americanos Milton Friedman e Robert Lucas são citados como expoentes do pensamento econômico utópico, que ignorou esses problemas. Cassidy mostra distorções desnudadas pela crise, cujos sinais foram ignorados.

“Quando o preço de um patrimônio qualquer sobe de 20% a 30% ao ano, ninguém que o possua ou negocie quer ouvir falar que sua riqueza súbita é ilusória”, diz ele.

O grande vilão da história, para o autor, foi Alan Greenspan, que presidiu o Fed (Federal Reserve, banco central americano) entre 1987 e 2006. Cassidy descreve como Greenspan manteve uma visão cega e fervorosa em relação à eficiência dos mercados livres de regulação governamental, mesmo perante sinais claros de uma bolha.

Ben Bernanke, sucessor de Greenspan e atual presidente, seria o culpado coadjuvante já que quando assumiu o bastão, em fevereiro de 2006, “não fez esforço algum para mudar a posição não intervencionista do Fed”.

Cassidy diz que Greenspan e Bernanke ignoraram a função do Fed de “retirar a tigela de ponche quando a festa engrena” definido por outro ex-presidente da casa (William McChesney Martin).

A conclusão tem certo tom de ceticismo em relação à reformulação do pensamento econômico “com base na realidade” e aos esforços para criar uma regulação que coíba problemas como os que levaram à crise.

COMO OS MERCADOS QUEBRAM – A LOGICA DAS CATASTROFES ECONOMICAS
AUTOR John Cassidy, EDITORA Intrinseca, R$ 39,90 (390 págs.)

Fonte/Autora: ÉRICA FRAGA – Folha de S.Paulo, Mercado. Assinantes Folha/UOL, aqui.

Cartazes contam a história publicitária da medicina

Todo mundo sabe que não se pode comprar saúde, mas isso nunca impediu ninguém de tentar vendê-la a você. Como uma pequena, linda e ferozmente engraçada exibição de pôsteres no Museu de Arte da Filadélfia, chamada de “Saúde à Venda”, deixa claro, o marketing desse setor em particular é uma arte duradoura em todos os sentidos da palavra.

A artimanha básica provavelmente não muda desde a Idade da Pedra: um estranho preocupado te apresenta uma visão do futuro, estrelando ora você mais feliz e melhor com o uso de um certo produto ou você mais triste, mas mais sábio e consideravelmente mais miserável sem ele. Durante séculos tudo foi boca a boca, mas com o nascimento do pôster moderno nos idos do século 19, as visões de repente se tornaram visuais concretos, florescendo em grande e colorida profusão por todo o mundo.

Logo os primeiros adeptos cruzaram o Atlântico. Nos Estados Unidos eles incluíam P.H. van der Weyde, médico, professor e inventor do genuíno Cinto Eletrogalvânico Alemão para aflições que incluíam doenças do fígado, estômago e rins (cuidado com imitações), e M.K. Paine, farmacêutico em Windsor, Vermont, que compôs o Bálsamo Green Mountain de Gilead a partir das resinas de sempre-verdes locais.

Na França, o famoso Dr. Guillaume Dupuytren, tendo concebido uma operação para uma condição das mãos que ainda ostenta seu nome, passou para o supostamente mais lucrativo problema da calvície antes de morrer, em 1835.

Sua pomada fortalecedora do cabelo ainda era forte nos anos 1860, celebrada em respeitoso estilo neoclássico num pano de fundo rosa brilhante.

Os eflúvios verbais familiares da indústria de patentes de remédios põem alguns pôsteres iniciais em desordem. O bálsamo Green Mountain é universalmente reconhecido como “o melhor emplastro já conhecido”, com todo um parágrafo em tipo miúdo enumerando suas doenças-alvo, desde dor e inflamação interna até furúnculos e calos. O Dr. Trikos, fornecedor de uma loção de mesmo nome para irritações da pele e calvície, resumiu tudo com eloquência: “eu me curei, curei meus amigos e desejo curar todos os que sofrem”.

No entanto, as palavras desapareceram com o tempo e as imagens tomaram o palco central, ajudadas por alguns dos mais conhecidos artistas de pôster da época.

Jules Cheret, o mestre da arte dos pôsteres da Belle Époque, aprontou duas de suas vivazes jovens vestidas de gaze para a causa de Vin Mariani, o vinho que refresca o corpo e o cérebro e restaura a saúde e a vivacidade. Cada senhorita se serve alegremente de um copo e para nenhuma delas, claramente, é o seu primeiro. Leonetto Cappiello, artista francês nascido na Itália chamado de pai da publicidade moderna, criou um cidadão idoso estático dançando de camisola e chinelos depois que um Uricure consertou suas articulações.

Amigos de bebida tão inesquecíveis em cada parte quanto as gloriosas Parisiénnes foram esboçados por um artista húngaro anônimo, mas aqui o cara alto encarregado da garrafa tem um roupão preto e um crânio, enquanto seu pequeno e corado companheiro com roupa de trabalho folgada e um grande e recurvado bigode está claramente destinado a ter problemas (uma filantropia da moderação estava por trás disso). Os crânios são dispostos em outros lugares para sublinhar toda a carga negativa associada à sífilis, enquanto uma gigantesca aranha preta faz as honras para a tuberculose.

Mas a estrela do show pode ser a única imagem que não é destinada a adular nem a aterrorizar, mas a educar e divertir. O livro-texto de anatomia e fisiologia em cinco volumes que o médico alemão Fritz Kahn lançou nos anos 1920 era ilustrado com uma placa colorida dobrável em tamanho de pôster retratando ‘O Homem Como um Palácio Industrial’, obra que combina os encantos liliputianos de ‘Onde Está Wally?’, da fábrica de Willy Wonka, da melhor casa de bonecas do mundo e de um jogo de pinball realmente bom.

Lá nas câmaras do cérebro, dois grupos de homens minúsculos de terno e gravata deliberam em torno de duas pequenas mesas de conferências: eles são, claro, Vontade e Razão. Por perto, um sujeito solitário em mangas de camisa e fones de ouvido opera um telégrafo: ele é a Audição, enquanto o fotógrafo um cubículo adiante é a Visão.

As engrenagens movem partículas de alimento ao longo do trato alimentar, auxiliadas por minúsculos trabalhadores com ancinhos e caldeirões de enzimas digestivas. Embaixo, na Medula Espinhal, um artesão solitário elimina glóbulos vermelhos.

É uma imagem implorando para ser animada e o designer alemão contemporâneo Henning M. Lederer fez exatamente isso, num curta-metragem rodando ao lado da verdadeira litografia. Não há necessidade de viajar à Filadélfia para esse prazer em particular, pois a criação inteiramente irresistível de Lederer está online em http://www.vimeo.com/6505158.

Qualquer imersão na história médica tem probabilidade de produzir um conjunto estereotipado de reflexos na notavelmente curta duração da maior parte dos bons conselhos médicos e na natureza notavelmente duradoura das motivações por trás dele. Altruísmo e persuasão sempre estiveram entrelaçados. Na verdade, William H. Helfand, executivo aposentado da Merck e colecionador de lembranças médicas cujas muitas doações ao museu incluem os 50 e poucos itens da mostra, é registrado no catálogo reconhecendo lamentavelmente vendedores de patentes de remédios como seus ancestrais figurativos.

As imagens ousadas em exibição aqui suscitam mais uma reflexão. À medida que nosso entendimento técnico da saúde se torna cada vez mais deformado em opacos tons de cinza, abafados por risco e benefício e por fatiamentos em cubinhos estatísticos, as grandes asserções salpicadas sobre essas paredes da galeria têm mais apelo do que nunca.

“Apenas diga o que fazer”, eles dizem. “Dê-me algo que funcionará”. Nenhum médico pode fazer qualquer dos dois, não sem muitas limitações de responsabilidade, mas isso não significa que alguém parou de perguntar.

Fonte: Abigail Zuge, The New York Times/UOL,24/6/2011.

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