ABIA: resultados em 2020

A ABIA realizou, recentemente, entrevista coletiva de imprensa na qual anunciou os resultados do setor no ano de 2020. O presidente executivo da entidade, João Dornellas, e a presidente do Conselho Diretor da Associação, Grazielle Parenti, falaram a um grupo de 30 jornalistas sobre um ano muito desafiador, cujos resultados refletiram os esforços do setor para continuar produzindo e garantindo o abastecimento de alimentos no país.

A indústria brasileira de alimentos e bebidas registrou crescimento de 12,8% em faturamento¹ em relação a 2019, atingindo R$ 789,2 bilhões, somadas exportações e vendas para o mercado interno. Esse resultado representa 10,6% do PIB nacional, segundo pesquisa conjuntural da ABIA. Em 2019, o setor registrou R$ 699,9 bilhões.

Descontada a inflação do período, a indústria de alimentos obteve aumento de 3,3% nas vendas reais ano passado. Na produção física (volume de produção), o setor cresceu 1,8% em relação a 2019. Esse resultado se deveu ao aumento das vendas para o varejo, de 16,2% em 2020, e das vendas para o mercado externo, de 11,4%.

Em relação à geração de empregos, mesmo com o impacto da Covid-19 sobre o setor de alimentos, que gerou um custo adicional de produção de 4,8% em 2020, a indústria de alimentos e bebidas criou 20 mil novas vagas diretas, alta de 1,2% em relação a 2019. O setor é o que mais gera empregos na indústria de transformação do Brasil, com 1,68 milhão de empregos diretos.

“Diante de tantos desafios enfrentados em 2020, a indústria de alimentos conseguiu manter o abastecimento funcionando normalmente e não deixou faltar comida na mesa do brasileiro. Além disso, criamos empregos e exportamos mais produtos industrializados, ou seja, de valor agregado. Assim que a economia mundial voltar ao normal, o Brasil tem tudo para ser, dentro de alguns anos, não mais o celeiro, mas sim o supermercado do mundo” declarou João Dornellas, presidente executivo da ABIA.

Ações realizadas para o enfrentamento da pandemia:

  • Comitê de Monitoramento, criado pela ABIA em conjunto com a ABRAS, a APAS e outras entidades para acompanhar a situação do abastecimento de alimentos no Brasil.
     
  • Apoio à demanda pelo reconhecimento da condição de “essencialidade” de todos os atores envolvidos na cadeia produtiva dos alimentos, incluindo transporte e fornecimento de insumos e produção, atendida pelo Decreto Federal que regulamenta a Lei 13.979.
     
  • Guia de Boas Práticas elaborado e divulgado pela ABIA para as empresas com diretrizes de segurança para a indústria de alimentos e bebidas e seus colaboradores no enfrentamento da Covid-19.
     
  • Adoção de protocolos extras para preservar a saúde dos trabalhadores, o que incluiu o uso de EPIs adicionais, a adoção do home office e a distribuição da produção em mais turnos, além de orientações por meio da comunicação interna e de treinamentos.

DESEMPENHO SETORIAL

  • Vendas Reais

As categorias que mais se destacaram em vendas reais foram açúcares, com aumento de 58,6%; óleos vegetais, 21,2%; e carnes, 13%.

  • Menor desempenho

Em vendas reais, as categorias com as maiores quedas foram bebidas, 8,3%; e derivados de trigo, com 1,9%.

MERCADO INTERNO E INVESTIMENTOS

As vendas do mercado interno – varejo e food service – apresentaram ligeira queda de 0,85% nas vendas reais. O food service (alimentação preparada fora do lar), impactado diretamente pela pandemia, recuou 24,3% em 2020, enquanto o mercado varejista cresceu 16,2%.

Mesmo com os desafios que a pandemia trouxe para todos os setores, a indústria de alimentos manteve o volume de investimento diante de um cenário de crise. Os investimentos das indústrias de alimentos, incluindo fusões e aquisições, expansão de plantas fabris, investimento em P&D, aquisição de máquinas e equipamentos, alcançaram R$ 21,2 bilhões em 2020, o que correspondeu a 2,7% do faturamento total do setor, de R$ 789,2 bilhões. Houve queda de 4,8% nos investimentos em relação ao ano de 2019.

Exportações

A indústria de alimentos e bebidas expandiu em 11,4% as exportações em 2020 em comparação com o ano anterior, totalizando US$ 38,2 bilhões contra US$ 34,2 bilhões em 2019.

Esse resultado representa uma participação de 25% nas vendas totais do setor em 2020. Em 2019, essa representatividade ficou em 19,2%.

Fatores que impactaram nos resultados das exportações:

  • Acentuada desvalorização do câmbio;
  • Forte demanda por importações de alimentos na Ásia, com destaque para a China, que continua se recuperando da Peste Suína Africana e dependendo da importação de proteína animal de outros países, principalmente do Brasil;
  • As exportações de carnes bovina, suína e de aves para a China totalizaram 6,6 bilhões de dólares, alta de 44,5% em relação ao ano de 2019;
  • Aumento nas vendas de açúcar, também para a China, totalizando US$ 1,3 bilhão, registrando alta de 27,3% sobre 2019.

O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos industrializados do mundo e exporta para 190 países. Os principais mercados em 2020 foram Ásia, Países Árabes e União Europeia, com 45,7%, 16,2% e 13,8% das exportações, respectivamente.

Exportações 2020 – principais destinos

China – US$8,2 bilhões

Hong Kong – US$1,9 bilhão

Holanda – US$1,7 bilhão

“A indústria brasileira de alimentos é forte e resiliente. Enfrentamos grandes dificuldades em 2020 e conseguimos superar todas elas, com organização e planejamento. Empregamos mais no ano passado, mantivemos os investimentos e para 2021 a previsão é continuarmos crescendo e gerando empregos”, destacou Grazielle Parenti, presidente do Conselho Diretor da ABIA.

Perspectivas para 2021

Considerando uma recuperação econômica gradual do país, associada à capacidade de o Brasil vacinar parte significativa da população, de modo a controlar a contaminação de Covid-19, a estimativa da indústria de alimentos é de crescimento acima de 3% das vendas reais em 2021.

Para o Food Service (alimentação preparada fora do lar), que foi um dos setores mais atingidos pela pandemia, a estimativa é fechar o ano com um movimento de recuperação, podendo chegar a 30% de participação nas vendas totais da indústria, próximo ao patamar de 2019. Nesse sentido, 2021 ainda será um ano de transição.

Fonte: Abia

2020/08/20: Celebrating One Billion 7nm Chips: Why Scale Matters

TSMC marked an amazing milestone in the past month of July – we manufactured our one-billionth good die on our 7-nanometer (7nm) technology; in layman’s terms, that would be one billion functional, defect-free 7nm chips.

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A remarkable achievement for a technology that entered volume production in April 2018. Since then, we have manufactured 7nm chips for well over 100 products from dozens of customers. It is enough silicon to cover more than 13 Manhattan city blocks, and with more than a billion transistors per chip, this is true Exa level, or over one quintillion 7nm transistors.

TSMC’s large-scale, efficient manufacturing means more than just producing a lot of chips quickly. It is critical to improving quality and reliability, and the learning enables technology advancement.

Practice Makes Perfect

Our 7nm technology ramped to high-volume production faster than any other TSMC technology before. As with any skill, practice makes perfect in chip manufacturing. The more chips you make, the more you learn – where defects can occur, or where new materials or equipment cause unexpected results, and the more opportunity you have to learn how to eliminate these problems and optimize the process. As the first foundry to bring 7nm technology into high-volume production, TSMC has had more time and wafers to improve our quality and yield more than any other semiconductor manufacturer. TSMC has deployed extensive sensors in our equipment to ensure that every piece of useful data is collected, and we use artificial intelligence and machine learning to turn that data into knowledge and intelligence to improve our manufacturing. Not one opportunity to learn goes to waste.

Good quality and reliability do not just lead to satisfied customers, it can also open up markets and new opportunities. Our Automotive customers have always asked for the highest level of quality, because safety is their number one concern. They are now also asking for advanced technology to support the sophisticated computing needed for Advanced Driver Assistance Systems (ADAS) and autonomous driving. These two demands are not easy to balance – advanced technology is always new, by its nature, but achieving automotive-grade quality takes time and experience. Thanks to the experience and learning built up from the scale of our 7nm manufacturing, we were able to work with our colleagues in Quality and Reliability to deploy our stringent Automotive Quality System to the 7nm process in 2019. That successfully put our most advanced technology at the time into the hands of our automotive customers.

A Solid Foundation for Innovation

The experience and learning that comes from high-volume manufacturing can go beyond fixing problems and enhancing quality; they also push the technology forward. During the 7nm generation, TSMC introduced the long-anticipated extreme ultraviolet (EUV) lithography, a technology that the industry had been looking forward to for many years. The smaller wavelength of EUV light allows us to print the nanometer-scale features of advanced technology designs more easily. At the same time, EUV light is much more difficult to create – it requires hitting tiny droplets of tin with pulses from a powerful source laser to turn the droplets into a plasma, which then emits the wavelength of light we desire. As the first company to bring EUV into commercial production at the 7nm generation, our accumulated experience allowed us to lead the semiconductor industry once again this year with volume production of 5nm technology, which is our most advanced process today.

The success of our 7nm process has not stopped us from continued innovation in this family of technologies. We have extended our 7nm technology in to a new family member, our N6 process. N6 is in volume production today, using EUV to replace conventional immersion layers. TSMC’s N6 offers a new standard cell with nearly 20% logic density improvement. Its design rules are completely compatible with its N7 predecessor, and delivers an excellent cost-effective option for our customers’ next wave of 7nm generation designs.

Thriving Demand for Advanced Technology

The launch of our 7nm technology was a big moment for TSMC. It marked the first time in history that the most advanced logic technology, as an open platform, was available for all the designers in the semiconductor industry. Today, one billion good dies later, we can see that designers of chips for all types of different applications are very eager to get their hands on the most advanced technology.

This was not always the case. In the past, only a limited number of applications asked for the horsepower offered by leading-edge technology, applications such as PC processors, graphics processors, and FPGAs. The introduction of the smartphone opened up more demand, putting leading-edge chips into the pockets of hundreds of millions of consumers, but now with the rise of cloud computing and artificial intelligence, there are more applications than ever. TSMC’s 7nm technology is not only in PCs, tablets, and smartphones, they are in data centers, in automobiles, and performing sophisticated training and inferencing for AI. With the deployment of 5G infrastructure creating stable networks for quickly sending large volumes of data, the demand for leading-edge chips to process this data will only become greater. I look forward to seeing the new applications that innovators will create.

So for TSMC, that is the meaning of one billion good dies: it represents the refinement of our craft, a foundation for innovation, and a healthy, thriving demand for advanced technology. We anticipate more exciting innovations to come.

Source: Lipen Yuan, Director, Advanced Technology Business Development, TSMC

Saúde mental ganha apoio de iniciativa da ONU para garantir existência das empresas no futuro

A preocupação com o estado emocional dos funcionários acelerou para um ano o que iria levar algumas décadas para ocorrer e não deixará de ser prioridade dos líderes empresariais quando a pandemia acabar, na avaliação de um grupo relevante de empresas que decidiu aderir à iniciativa lançada nesta quinta-feira pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU e pela agência de comunicação InPress Porter Novelli, em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP).

O movimento, chamado #MenteEmFoco, convida empresas e organizações brasileiras a reconhecer a importância da saúde mental no ambiente de trabalho e a agir em benefício de seus colaboradores, e da sociedade como um todo, para combater o estigma e o preconceito social ao redor do tema. Na largada, já conta com a assinatura de AmbevUnileverHospital Sírio-LibanêsUPSGrupo ConexaMapfre Afya Educacional.

A iniciativa exige compromissos claros por parte das empresas signatárias, como: ter um profissional de referência para aconselhamento e atendimento; oferecer orientação e manejo de crises; garantir a avaliação permanente dos colaboradores; e manter gestores engajados, com treinamento para atuar em relação ao tema e orientação sobre as melhores condutas, sendo agentes de transformação e de promoção da segurança psicológica.

Além disso, devem: criar um programa “antiestigma”, promovendo debates abertos e intervenções em grupo com assuntos que busquem reduzir o estigma relacionado ao sofrimento psíquico, inserindo-o como pauta permanente na organização; e realizar ações de incentivo à saúde mental, como campanhas e iniciativas para incentivar práticas culturais, esportivas, de nutrição, bem-estar, educação, entre outras, a partir de demandas identificadas no ambiente de trabalho.

“O movimento traz a saúde mental para o centro da discussão e da tomada de decisão dos líderes. Precisamos tratar esse tema, não apenas de forma pontual e emergencial, mas como parte da gestão estratégica das empresas”, disse a CEO da InPress, Roberta Machado, durante o webinar de lançamento.

Segundo o diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Carlo Pereira, as empresas estão passando por uma transição de uma economia de acionistas para uma economia de “stakeholders”, interessados de modo geral, o que inclui funcionários e a comunidade em que estão inseridas.

Por isso, devem cuidar de maneira “definitiva e assertiva” da saúde mental dos seus colaboradores, promovendo um ambiente de trabalho saudável, o que vai além de ter um psicólogo à disposição deles – o que é importante, ele diz, mas é pouco – e de “apagar incêndio”, como é o caso da pandemia agora.

“A empresa é fonte de informação que deveria ser segura para os seus funcionários e a população em geral. Tem que promover iniciativas de comunicação para além de práticas gerais e desportivas”, diz o dirigente brasileiro da iniciativa da ONU para engajar empresas e organizações na adoção de dez princípios nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção.

A saúde mental, segundo ele, é um desdobramento do fator “S” da sigla ESG (environmental, social and corporate governance, ou “governança ambiental, social e corporativa”, em português), tão em moda ultimamente como forma de medir o impacto de um negócio na comunidade em que está inserido, e suas consequentes perenidade e lucratividade no futuro.

O presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), Ronaldo Pilati, concorda que o assunto da saúde mental nas empresas não se esgota com a contratação de um profissional da área. “Não adianta ter profissional especializado no atendimento individual no ambiente da organização para resolver os problemas”, diz.

“Se eu entendo de uma forma multifatorial, tenho também que entender que as ações da maneira como o trabalho é organizado, as condições de trabalho que são oferecidas, a maneira como treino e oriento líderes para se relacionar com subordinados, tudo isso tem que ter como um dos motes essa perspectiva de promoção da saúde”, conclui Pilati.

A diretora do núcleo de Saúde e Bem-Estar da InPress, Ana Domingues, lembra que o Brasil já era considerado país mais ansioso do mundo pela Organização Mundial da Saúde (OMS) antes da pandemia. A situação se tornou ainda mais preocupante agora, com recordes nos pedidos de auxílio-doença e aposentadorias por invalidez sob a alegação de transtornos mentais, em 2020, e pesquisas apontando um crescimento de 80% dos diagnósticos de ansiedade de maio a julho no país, contra 30% em outras nações, segundo ela.

“O primeiro tabu que queremos quebrar é tirar o peso da saúde mental apenas do indivíduo. Claro que existe responsabilidade de cada um, mas não podemos fechar olhos enquanto sociedade, enquanto empresa”, diz a executiva.

Outro padrão que precisa mudar é o de se falar em saúde mental apenas a partir do “seu inverso”, a doença, segundo o consultor de saúde da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, Thiago Lavras Trapé. Segundo ele, a pandemia traz a oportunidade e a urgência de se falar de saúde mental, já que as pessoas estão mais preocupadas com o assunto, diante das milhares de mortes diárias.

Para quem ainda não entendeu que a preocupação com a saúde mental dos colaboradores não é mera questão de imagem ou de responsabilidade das empresas com a comunidade, que já seriam preocupações bastante relevantes, a diretora de desenvolvimento organizacional e cultura na Unilever Brasil, Ana Paula Franzoti, desenha: “claro que é utopia achar que estamos bem em todos aspectos da vida, mas, se o funcionário está bem, ele prospera em diferentes aspectos da vida dele, profissionalmente, pessoalmente”.

“Todo mundo vai continuar passando por situações. Então, não é para ser movimento específico desse momento, isso envolve muita cultura”, diz a head de saúde mental, diversidade e inclusão na Ambev para América do Sul, Mariana Holanda, também presente ao lançamento online.

Um obstáculo para tratar do assunto internamente nas empresas é a dificuldade de se obter dados consistentes sobre o estado emocional dos funcionários. “Ainda é difícil pegar dados, porque tem parte de estigma. A gente não consegue alcançar todas as pessoas, em todos os cargos, tem gente que não bate ponto, não entrega atestado, e essas informações são importantes para a trajetória ser consistente”, diz Mariana.

É aí que entra o papel do líder, para além do chefe. “A cultura é a base para implementar qualquer política que a gente queira para promover bem-estar do funcionário. O funcionário vai se inspirar no que o líder faz. Se ele não respeita a cultura da empresa, o funcionário também não vai respeitar. Isso coloca toda a cultura da empresa em xeque”, diz Ana Paula, da Unilever.

“A gente precisa desenvolver uma cultura de saúde mental que esteja atrelada à estratégia de negócio e muito bem amparada por essa visão de futuro. Cada vez que a organização desenvolve e pratica um modelo de gestão e coloca o público interno no centro dessa estratégia, fica mais fácil a gente mudar o ‘mindset’ e engajar o público interno para conseguir desenvolver todas as mudanças necessárias”, diz a diretora de comunicação interna da InPress, Milena Fiori.

Segundo ela, essas ações têm que acontecer de forma genuína e continuada. “Tem que ser perene, não pode ser só um movimento curto, num período de tempo”, ela conclui.

Fonte: Felipe Frisch, Valor — São Paulo, 08/04/2021.

‘Não se deve desperdiçar uma crise’, diz fundador da Localiza

Eugênio Mattar: “Nos voltamos para dentro, já que o mercado havia parado, e investimos muito no digital” — Foto: Leo Pinheiro/Valor
Eugênio Mattar: “Nos voltamos para dentro, já que o mercado havia parado, e investimos muito no digital” — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Em um período praticamente parado para os negócios, no início da pandemia há pouco mais de um ano, a Localiza decidiu investir em digitalização.

“Nos voltamos para dentro, já que o mercado havia parado, e investimos muito no digital tanto para interagir com o cliente como em novos modelos de negócios”, diz Eugênio Mattar, cofundador e presidente do conselho de administração da Localiza, em entrevista ao Liderança Digital do Valor. “Não se deve desperdiçar uma crise”, aconselha o executivo.

No período, a empresa usou a tecnologia para acelerar a oferta do carro por assinatura – modelo de compra de carros zero quilômetro como serviço com pagamento mensal – e a locação 100% digital por aplicativo, sem contato com funcionários.

Além de contar com um laboratório de desenvolvimento interno, a Localiza abrevia a digitalização por meio de aquisições. Com a compra da startup Mobi7, por R$ 20 milhões, em maio do ano passado, a empresa acelera o uso da telemetria, que permite rastreamento em tempo real, controle de velocidade, gestão do abastecimento e da manutenção dos veículos, por exemplo.

“Ao invés de redesenvolver a roda compramos uma empresa que tinha essa competência para isso”, diz Mattar. Até o fim de 2022, ele prevê que toda a frota de mais de 300 mil carros estará conectada por telemetria.

Mattar, que deixou recentemente o cargo de CEO da empresa que ajudou a fundar em 1973, diz que o processo de transformação digital é um caminho sem volta.

Fonte: Daniela Braun — Valor, 09/04/2021

Montadoras devem enfrentar queda de lucratividade com alta nas vendas de carros elétricos, diz Fitch

 — Foto: Chuttersnap/Unsplash
Foto: Chuttersnap/Unsplash

As montadoras provavelmente continuarão a sentir uma pressão na lucratividade no curto prazo, já que o crescimento das vendas de veículos elétricos continua superando o dos carros convencionais, segundo a agência de classificação de risco Fitch.

Os analistas destacam que as vendas de elétricos aumentaram 30% em 2020, enquanto as vendas de carros convencionais caíram 21%.

Em um momento no qual as empresas correm para entrar no mercado de veículos elétricos, até mesmo para obter subsídios do governo e cumprir controles de emissão mais rígidos, a Fitch diz que tais veículos permanecem não sendo lucrativos, dado os altos custos com baterias e gastos com pesquisa e desenvolvimento.

A lucratividade deve melhorar no longo prazo, conforme os custos de bateria diminuírem e as companhias tiverem ganho de escala, diz a Fitch.

Fontes: Valor, Dow Jones Newswires — Nova York, 09/04/2021

Boeing comunica possível problema elétrico nos aviões 737 Max

 — Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Boeing informou, nesta sexta-feira, que recomendou a 16 clientes que verifiquem um possível problema elétrico em um grupo específico de aeronaves 737 Max antes de continuarem com a operação das mesmas.

“A recomendação é que verifiquem se existe espaço de aterramento suficiente para um componente do sistema elétrico”, disse a empresa, em nota. Não foi informado o nome dos clientes.

“Estamos trabalhando em estreita colaboração com a FAA nesta questão de produção. Também estamos informando especificamente nossos clientes impactados e forneceremos orientações sobre quais as medidas corretivas adequadas”, disse a empresa.

O modelo foi liberado pela Agência Nacional de Aviação Civil dos Estados Unidos (FAA, na sigla em inglês) em novembro do ano passado após 20 meses de escrutínio. O Max foi impedido de voar depois que duas tragédias deixaram centenas de mortos. No Brasil, a única aérea a usar o modelo é a Gol.

Fonte: Cristian Favaro, Valor — São Paulo, 09/04/2021, 10h04.

General Motors vai interromper produção em diversas fábricas por falta de chips

 — Foto: Paul Sancya / Associated Press
Foto: Paul Sancya / Associated Press

General Motors afirmou que vai interromper a produção de veículos em algumas de suas fábricas da América do Norte, além de estender as paralisações em outras plantas por causa da escassez de chips, que está piorando para os gigantes automotivos dos Estados Unidos e que representa uma ameaça para uma forte recuperação nas vendas.

A GM anunciou nesta sexta-feira que três fábricas anteriormente não afetadas por problemas de fornecimento de semicondutores ficarão inativas ou terão a produção reduzida por uma ou duas semanas, incluindo uma fábrica no Tennessee e outra em Michigan. Os modelos afetados incluem o Chevrolet Traverse SUV e os Cadillac XT5 e XT6 SUVs.

Os movimentos seguem as notícias da semana passada de que a Ford Motor aprofundaria os cortes de produção na América do Norte, incluindo a paralisação por duas semanas de uma fábrica perto de sua sede em Dearborn, Michigan, que torna a picape F-150, sua maior fonte de receita.

Desde o final do ano passado os fabricantes de automóveis estão lutando contra a escassez de chips semicondutores, que vão para módulos de software usados para controlar o carro, desde freios a telas sensíveis ao toque do painel.

As empresas vêm cortando a produção há meses à medida que se mudam para alinhar os suprimentos de chips, com executivos dizendo que a escassez pode durar mais meses.

A escassez de chips, que também afeta outros mercados, como videogames, está entre uma série de fatores que atrapalham o comércio global nos últimos meses, incluindo backups em portos da Califórnia, fechamentos de fábricas devido ao congelamento do Texas em fevereiro e o navio preso no Canal de Suez no mês passado.

O gargalo da falta de chips prejudicou a produção de praticamente todas as grandes montadoras nos últimos meses, incluindo a Toyota Motor, a Volkswagen, a Honda Motor e a Stellantis.

O presidente Joe Biden ordenou uma revisão da cadeia de suprimentos e se reuniu com um grupo bipartidário de legisladores para tratar do assunto, disse o secretário de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, na última quinta-feira. Na próxima semana, funcionários do alto escalão devem se reunir com fabricantes de chips para discutir o que pode ser feito.

O problema contrasta com outros aspectos positivos para a indústria automobilística. Taxas de juros mais baixas, uma nova rodada de estímulos federais e demanda reprimida têm atraído consumidores para as concessionárias em grande número, apesar da perturbação econômica da pandemia da covid-19, disseram os concessionários.

Fontes: Valor, Dow Jones Newswires — Detroit, 09/04/2021

Custo dos insumos acelera e fabricantes fazem repasses

As indústrias de bens de consumo são unânimes em apontar a aceleração dos custos dos insumos como o maior desafio neste início de ano. Os preços das matérias-primas e embalagens já haviam subido de 30% e 40% em 2020.

“Se alguém falar que não tem algum problema com insumos é mentira”, diz Alexandre Wiggers, diretor-presidente da Condor, fabricante de escovas e vassouras, cujos negócios se beneficiaram da maior demanda por itens de limpeza – o faturamento cresceu 30% em 2020, para R$ 543 milhões. Ele diz que os problemas de ruptura já estão se normalizando, mas os custos ainda desafiam as contas. “Normalmente, quando a inflação é muito alta em um ano, no seguinte há uma redução. Não houve. Já vemos 60% de aumento em alguns insumos neste ano.”

O relato se assemelha ao que Paulo Engler, diretor-executivo da Abipla, associação da indústria de higiene e limpeza, tem ouvido dos associados. “Falta tivemos no último trimestre, a questão agora é preço.”

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) diz que o setor enfrenta crescente pressão nos custos de aquisição de embalagens plásticas, devido à reduzida oferta de resinas plásticas (PP-polipropileno, PE – polietileno, entre outras) no mercado interno. “É importante considerar que esse cenário, que já é grave, é intensificado pela desvalorização da taxa de câmbio, que em 12 meses acumula alta de mais de 30%. Matérias-primas e embalagens respondem por 65% dos custos de produção dos alimentos industrializados”, diz a associação em nota.

A preocupação da indústria é que esse problema poderá comprometer o planejamento de suprimentos das embalagens utilizadas pelo setor e a produção de alimentos. Bruno Trevizaneli, diretor agrícola da Predilecta Alimentos, diz que houve impacto no começo da pandemia por fechamento ou redução parcial de fábricas de fornecedores, o que atrasou entregas. “Neste ano sentimos fortes reajustes em vidro, lata e embalagens plásticas. Nos últimos meses, o aumento ficou em torno de 30% a 35%. Agora, além de pagar caro, estamos observando uma possível ruptura de insumos com a falta de matéria-prima para nossos fornecedores”, diz, citando os problemas na cadeia produtiva de plásticos.

Diante do aumentos dos custos e de potenciais indisponibilidades, as empresas começam a fazer reajustes nos preços ao consumidor. A mineira Globalbev, dona dos energéticos Extra Power e Flying Horse, viu as vendas oscilarem em 2020, ganhando tração no fim do ano. Em 2021, as metas iniciais foram atingidas, mas o presidente, Bernardo Fernandes, diz que já é possível sentir um recuo nos pedidos do varejo ao mesmo tempo em que lida com os custos.

“Nos últimos seis meses estamos sofrendo uma pressão de custos absurda, especialmente em embalagens, como latas e plásticos, e em algumas matérias-primas, como açúcar. Não há interesse em encarecer, mas se fechar os olhos vira um problema financeiro pra empresa”, explica Fernandes. Apesar do cenário, a empresa prevê um faturamento 47% maior neste ano do que em 2020, a R$ 320 milhões.

Para a gigante de biscoitos e massas secas M. Dias Branco, o maior desafio tem sido mesmo os custos. “A gente não teve situação de indisponibilidade de insumos e embalagens. Talvez pelo nosso porte. Mas vimos situações no mercado e isso se refletiu, no nosso caso, em maiores custos e estamos monitorando”, diz em Fabio Cefaly, diretor de novos negócios e relações com investidores.

A dona das marcas Vitarella, Adria e Piraquê também sente pressão pela forte valorização do dólar, que eleva os preços de insumos como farinha e óleo de palma. Em 2020, a empresa registrou R$ 680 milhões de impacto negativo em função do câmbio. Por isso, o vice-presidente de investimentos e de controladoria, Gustavo Theodozio, explica que o ano começou com um novo reajuste em todo o portfólio, de 10%. “Não tem como as companhias não continuarem com movimento de precificação para recompor margem.”

No segmento de bebidas, é principalmente a falta de vidros que assusta. A presidente-executiva da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe), Cristiane Foja, destaca que o problema foi agravado pela interrupção da produção de garrafas no começo da pandemia, mas também tem razões não transitórias: o parque fabril de vidros no Brasil já não é suficiente para responder à demanda, que já crescia e acelerou em 2020, com um mix diferente de produtos sendo consumidos.

“Importar 100% não dá, por causa do valor do dólar e de uma taxa de 10% na importação do vidro. Das 37 associadas, 33 relataram impactos”, conta. O presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), Deunir Argenta, estima que o problema pode se agravar se o consumo for aquecido como em 2020. “Nos preocupa bastante já que faltou vidro em janeiro e fevereiro, que são meses de baixa.” Já o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) diz que a falta de garrafas é pontual e que tem trabalhado para a normalização.

Fonte: Valor, Raquel Brandão, 09/04/2021.

Falta de componentes avança em 2022

Fábrica de chips da sul-coreana Samsung na Ásia: companhia fez alerta no mês passado para um “grave desequilíbrio” na indústria de semicondutores — Foto: Divulgação
Fábrica de chips da sul-coreana Samsung na Ásia: companhia fez alerta no mês passado para um “grave desequilíbrio” na indústria de semicondutores — Foto: Divulgação

A escassez global de componentes para eletroeletrônicos, incluindo microprocessadores e telas de LCD, deve se estender até, pelo menos, o primeiro trimestre de 2022. A previsão vai além do esperado pelos fabricantes no Brasil, que contavam com a regularização da cadeia de suprimentos no quatro trimestre deste ano.

“Estamos disputando a alocação de linhas de produção nas fábricas terceirizadas”, diz Samir Vani, gerente geral da multinacional taiwanesa MediaTek no Brasil. “As unidades de manufatura não conseguem dar maior capacidade de produção para atender os pedidos dos clientes.”

A empresa que fornece microprocessadores para fabricantes globais de celulares, TVs, tablets e outros dispositivos, terceiriza sua produção com empresas especializadas na manufatura de semicondutores na Ásia, como a TSMC, de Taiwan.

Além de microprocessadores e telas de LCD, segundo Vani, o mercado tem escassez de componentes de radiofrequência para celulares, que amplificam a potência do sinal dos aparelhos. Aço é outro insumo disputado. “Fabricantes de centrais de sistemas de telefonia e segurança já sofrem com a falta de aço na China”, afirma.

A falta de espaço nas linhas de produção e o aumento simultâneo na demanda dos fabricantes, que vem gerando a escassez mundial de componentes no setor desde março do ano passado, também vai gerar uma nova onda de alta nos preços de componentes nos próximos meses. “Será um aumento de preços formado por pequenos reajustes”, informa Vani. “Até porque todos os fabricantes estão tentando não repassar esses aumentos aos produtos.”

Em entrevista ao Valor em março, Helio Rotenberg, presidente da Positivo Tecnologia, empresa que fabrica computadores pessoais e corporativos no país, disse que a disputa do mercado pelas telas LCD elevou o preço por unidade de US$ 25 para US$ 52 no ano passado.

Os fabricantes não conseguiram segurar os repasses para o consumidor brasileiro. Em 2020, os preços médios de smartphones e de computadores vendidos no país tiveram altas de 24% e 26,3%, respectivamente, segundo a consultoria IDC Brasil.

A escassez de microprocessadores e telas também trava a indústria automotiva. Em março, a sul-coreana Samsung Electronics alertou para um “grave desequilíbrio” na indústria de semicondutores.

Com a retomada da produção de veículos, após um período de queda em 2020, a fabricação de microprocessadores que estava dedicada aos eletroeletrônicos desabasteceu as montadoras. Fabricantes como Volkswagen e General Motors, se viram obrigadas a reduzir a produção de carros em função da escassez de chips.

Expandir fábricas de semicondutores não é uma processo simples, explica Vani. “A expansão das linhas depende de máquinas específicas para a produção de semicondutores cuja tecnologia está concentrada em alguns fornecedores.”

O maior deles é a holandesa ASML (sigla em inglês para materiais avançados de litografia para semicondutores), que atende empresas como Intel, Samsung e TSMC.

Fundada na década de 80, em uma joint-venture entre a Advanced Semiconductor Materials International (ASMI) e a Philips, a empresa avaliada em US$ 263 bilhões, é a maior fornecedora global de máquinas de fotolitografia, que usam raios ultravioleta na produção de circuitos integrados para microprocessadores, memórias e outros componentes.

Mesmo com a previsão otimista de regularização no fluxo de componentes no início de 2022, o gerente-geral da MediaTek diz que o setor projeta um aumento adicional na demanda após a imunização contra a covid-19 e o relaxamento das medidas restritivas. “Há uma teoria de que, após a imunização, as pessoas voltarão aos shoppings e farão compras por desejo e impulso, gerando uma demanda extra para o setor”, prevê.

A produção de alguns MacBooks e iPads foi adiada devido à escassez global de componentes, apurou o jornal “Nikkei Asia”, em um sinal de que mesmo a Apple, com seu enorme poder de compra, não está imune à crise sem precedentes de abastecimento.

A escassez de chips causou atrasos em uma etapa importante na produção do MacBook – a montagem de componentes em placas de circuito impresso antes da montagem final, disseram ao “Nikkei Asia” fontes informadas sobre o assunto. Enquanto isso, parte da montagem do iPad foi adiada devido à falta de telas e componentes de tela.

Como resultado do atraso, a Apple adiou parte dos pedidos de componentes para os dois aparelhos do primeiro semestre deste ano para o segundo, disseram as pessoas. Fontes da indústria e especialistas afirmam que os atrasos são um sinal de que a escassez de chips está ficando mais séria e pode impactar empresas de tecnologia menores ainda mais.

A Apple é conhecida por sua experiência em gerenciar uma das cadeias de suprimentos mais complexas do mundo e pela velocidade com a qual pode mobilizar fornecedores. Isso ajudou a empresa a resistir a uma escassez global de componentes que já está afetando montadoras de automóveis e fabricantes de eletrônicos.

Os planos de produção dos icônicos iPhones da Apple não foram afetados até agora pela escassez de oferta, embora o fornecimento de alguns componentes para os aparelhos esteja “bastante apertado”, de acordo com duas fontes. No geral, a escassez de componentes continua sendo um problema da cadeia de suprimentos para a Apple e ainda não teve impacto na disponibilidade do produto para os consumidores. Procurada, a Apple não se manifestou.

A Apple vende cerca de 200 milhões de iPhones, mais de 20 milhões de MacBooks, 19 milhões de iPads e mais de 70 milhões de pares de AirPods por ano – o que faz dela um dos compradores de componentes mais poderosos do mundo. 

Fontes: Valor, Daniela Braun — De São Paulo, 09/04/2021, com “Nikkei Asia”.

Escassez de insumos desorganiza o mercado de bens de consumo

O desequilíbrio entre oferta e demanda, já sentido pela indústria e pelo varejo ao longo de 2020, permanece neste ano, com um fator adicional: a retomada, mesmo gradual, do consumo no exterior. O avanço da vacinação, e consequente recuperação econômica, em alguns países, como China e Estados Unidos, eleva o risco de novos gargalos, com impacto no mercado brasileiro.

O mercado de bens de consumo tenta se equilibrar em um cenário delicado, que pode impor um “teto” à retomada das vendas, quando a pandemia estiver controlada. Varejistas e fabricantes, em especial os de menor porte, têm receio de aumentar estoques e a demanda não aparecer. A falta de insumos, embora exista, não é tão aguda como no ano passado pois as vendas estão fracas. Mas os preços dos insumos continuam subindo.

A escassez global de componentes para eletroeletrônicos, incluindo microprocessadores e telas de LCD, deve se estender até, pelo menos, o primeiro trimestre de 2022. A previsão vai além do esperado pelos fabricantes no Brasil, que contavam com a regularização da cadeia de suprimentos no quarto trimestre deste ano.

Segmentos como eletrônicos, eletrodomésticos, moda, calçados, alimentos e bebidas enfrentam períodos de instabilidade na produção – momentos de “picos e vales” na cadeia, que acabam afetando o planejamento do varejo.

“A falta de mercadorias hoje só não é maior porque a venda no comércio perdeu força com a segunda onda da pandemia”, diz Felipe Mendes, diretor da consultoria GfK Brasil. Mendes lembra que o aumento no consumo em outros países acelera a busca por matérias-primas, como componentes eletrônicos, fios têxteis e embalagens, o que obriga fábricas e varejistas a ajustarem os seus pedidos.

O consumo doméstico da China mostra força, puxando para cima o preço de insumos, como o aço – a economia chinesa deve crescer 8,4% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

“O que ajuda, neste momento, a contrabalancear essa pressão na cadeia é a desaceleração da demanda no Brasil, que impede a formação de um descompasso maior”, afirma Mendes.

O receio é que na segunda metade do ano – com a hipótese de uma vacinação mais avançada – haja um aumento de demanda, levando a uma nova falta de mercadorias. “O risco é que após junho ou julho, com uma demanda maior, e de forma mais generalizada, a falta de insumos fique mais crítica”, disse ontem o diretor de uma fabricante de celulares. “A boa notícia é que uma possível retomada no setor de serviços na segunda metade do ano pode deslocar o consumo para esse segmento, o que aliviaria a pressão na cadeia de duráveis”, diz.

Para Dvair Lacerda, diretor comercial do grupo goiano Fujioka , dono da rede de eletrônicos Fujioka, com 54 lojas, há receio da indústria de duráveis em elevar muito o estoque de matéria-prima, como chips e telas, e a demanda no ano acabar frustrando as expectativas. “O nível de incerteza é grande, porque há uma alta nos preços. Houve um salto de 30% a 40% neste ano, por causa do insumo dolarizado mais caro, e não se sabe se o consumidor vai absorver essa alta. Por isso, o fabricante também anda mais conservador no planejamento, e o varejo acaba se adaptando a isso”, disse.

Em entrevista ao Valor, em março, Helio Rotenberg, presidente da Positivo Tecnologia, que fabrica computadores pessoais e corporativos, disse que a disputa do mercado pelas telas LCD elevou o preço por unidade de US$ 25 para US$ 52, no ano passado. Os fabricantes repassaram o aumento ao consumidor. Em 2020, os preços médios de smartphones e de computadores vendidos no país tiveram altas de 24% e 26,3%, respectivamente, segundo a consultoria IDC Brasil.

A Fujioka, neste ano, não sentiu falta tão relevante de produtos porque reforçou estoques, mas há efeitos pontuais. “No caso dos smartphones, não conseguimos receber tudo que pedimos por conta desses desequilíbrios, mas está melhor do que o que vimos em 2020”, diz. “Em notebooks e tablets há uma ruptura maior do que no ano passado, com falta de certas linhas. Já em televisores, com a alta do preço, o temor é comprar muito e não vender depois”.

O executivo ainda disse que a indústria não tem relatado uma falta tão drástica de insumos como após o início da pandemia, em 2020, mas ainda há gargalos, por conta da atual demanda global.

Tradicional rede de varejo eletroeletrônico do Centro-Oeste, a Novo Mundo diz que o mercado ainda tem enfrentado períodos de instabilidade na produção. “Temos visto muitos picos e vales desde 2020, com desequilíbrios que vão afetando principalmente as redes menores, que têm limitações de caixa”, diz José Guimarães, presidente da rede, com 150 lojas.

Segundo ele, no ano passado, após o início da pandemia e o fechamento das fábricas de eletrônicos e eletrodomésticos, houve atrasos na produção de TVs e eletrodomésticos, com falta de certas mercadorias em 2020. Houve retomada da operação do setor de forma gradual, reduzindo o descompasso entre produção e venda. O problema é que após esse pico, houve desaceleração na demanda no fim do ano, após dezembro, e as fábricas passaram a ajustar a produção a essa demanda menor.

Guimarães vê risco de novas instabilidades neste ano: “O cenário tem mudado rapidamente e as empresas vão se adaptando a isso, mas caso a vacinação continue lenta, poderemos ter uma desaceleração maior. E, com isso, se corre o risco de termos um outro descompasso entre produção e venda”.

Em fevereiro, a Eletros, associação nacional do setor eletroeletrônico, estimou perda de 30% a 40% na produção em Manaus (AM) por conta das medidas de restrição de circulação na região. Houve redução na atividade nas fábricas, que só não levou a uma ruptura maior porque em fevereiro e março a demanda de bens duráveis já havia caído em relação a 2020.

No setor de moda, depois que a crise começou, em março de 2020, muitas varejistas, principalmente de menor porte, cancelaram pedidos, diz a Pernambucanas, que manteve suas encomendas. Na primeira semana de março, quando os governos estaduais foram aumentando as restrições de circulação, a Hering informou que o fluxo de matérias-primas já estava normalizado, mas havia um gargalo na etapa de confecção. “Muitas operações fecharam, pessoas mudaram de ramo. São pequenos e médios negócios terceirizados, empresas que cumprem essa etapa na nossa cadeia”, diz Thiago Hering, diretor executivo de negócios. “Ainda esperamos dificuldades nessa cadeia em março, abril e talvez em maio, e um cenário de maior estabilização, reduzindo esse desequilíbrio, depois disso”, disse ele, antes do último anúncio de maiores restrições, em março, pelos governos estaduais.

O fechamento do comércio em diversas cidades se reflete num nível de demanda muito baixo para a indústria de calçados. A produção em fevereiro cresceu somente 1%, ante janeiro, e caiu 4% em relação a igual mês de 2020. Os dados de março, ainda não consolidados, podem apresentar um novo desempenho negativo. “Hoje, 90% das indústrias não têm o que produzir na segunda quinzena de abril. Existem poucos dias de pedidos”, diz Haroldo Ferreira, presidente da associação do setor (Abicalçados). Os fabricantes agora não sofrem com indisponibilidade de insumos justamente porque estão produzindo menos.

“Mas o custo disparou, já que muita matéria-prima tem preço dolarizado”, diz. Nem todas as empresas podem estocar a produção do ano e vender a coleção no ano seguinte, pois muitos são itens de moda e produzidos para períodos determinados. “Hoje nossa principal batalha é para que seja reeditada alguma medida de proteção ao emprego, para evitar demissões”.

Fontes: Valor, Adriana Mattos, Raquel Brandão e Daniela Braun, 09/04/2021.