Brasil avança três posições e chega ao 54º lugar no Índice Global de Inovação

O Brasil ganhou três posições no Índice Global de Inovação (IGI) na comparação com 2021 e agora está no 54º lugar no ranking que abrange 132 países. A melhora da colocação, no entanto, não significa que o país esteja bem na agenda de inovação, uma vez que os investimentos na área têm caído a cada ano e a posição brasileira está sete casas abaixo da melhor marca atingida – o 47º lugar em 2011.

Os dez países mais bem colocados no índice são: Suíça, Estados Unidos, Suécia, Reino Unido, Holanda, Coreia do Sul, Singapura, Alemanha, Finlândia e Dinamarca. A classificação é divulgada anualmente, desde 2007, pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI – WIPO, na sigla em inglês), em parceria com o Instituto Portulans e o apoio de parceiros internacionais – no caso do Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), é parceira na produção e divulgação do IGI desde 2017.

Desde sua criação, em 2007, o IGI tornou-se uma referência na avaliação da inovação e um pilar na formulação de políticas econômicas, levando um número cada vez maior de governos a realizar análises sistemáticas de seus resultados anuais em matéria de inovação e elaborar políticas voltadas para melhorar seu desempenho no Índice. O ranking também obteve o reconhecimento do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, que em sua resolução de 2019 sobre ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento o define como um instrumento de referência para avaliar a inovação em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O tema do IGI em 2022 é o futuro da inovação: estagnação ou recuperação da produtividade. O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, avalia que esse enfoque é extremamente relevante para o Brasil, considerando-se os desafios que o país vem enfrentando para aumentar sua produtividade – que está em declínio há 40 anos.

O IGI 2022 é calculado a partir da média de dois subíndices. O subíndice Insumos de inovação avalia os elementos da economia que viabilizam e facilitam o desenvolvimento de atividades inovadoras, agrupados em cinco pilares: (1) Instituições; (2) Capital humano e pesquisa; (3) Infraestrutura; (4) Sofisticação do mercado; e (5) Sofisticação empresarial. Já o subíndice Produtos de inovação capta o resultado efetivo das atividades inovadoras no interior da economia e se divide em dois pilares: (6) Produtos de conhecimento e tecnologia e (7) Produtos criativos.

Análise da posição brasileira

Aparelho usado em microeletrônica no Instituto SENAI de Inovação de Manaus (AM)

Na avaliação da CNI, embora o Brasil tenha caído no ranking de “insumos de inovação”, tendo piorado duas posições (de 56º, em 2021, para 58º em 2022), o país subiu seis posições no ranking de resultados de inovação (59º para 53º), o que explica a melhora no ranking geral.

Segundo ela, essa melhora demonstra que, apesar das dificuldades estruturais do ecossistema de inovação no Brasil, as empresas têm se saído melhor do que o esperado. “Isso atesta as capacidades das empresas brasileiras. Se houvesse investimentos perenes em inovação, o que não acontece, o Brasil poderia ser uma potência em inovação”, alerta a diretora de Inovação da CNI.

Os resultados demonstram a resiliência do setor empresarial brasileiro. Atualmente, o Brasil tem a 35ª economia com negócios mais sofisticados do mundo, apesar de as empresas brasileiras terem que conviver com instituições muito mal posicionadas no ranking, e com infraestrutura que figura apenas em 65º lugar.

Na avaliação da CNI, a falta de uma política pública consolidada para a inovação gera insegurança e atrasos ao setor. Um dos exemplos é a edição da Medida Provisória nº 1.136, de 29 de agosto de 2022, que limita o uso de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal fonte de financiamento à inovação do país.  A MP fixa que o FNDCT poderá aplicar somente R$ 5,555 bilhões em 2022, ou seja, cerca de R$3,5 bilhões a menos do inicialmente previsto.

A CNI alerta para os danos que a medida provisória, se aprovada pelo Congresso Nacional, causará para a ciência, tecnologia e inovação do país. A partir do ano que vem, a medida estabelece uma porcentagem de aplicação que chegará em 100% dos recursos apenas em 2027. Em 2023, por exemplo o limite será de somente 58% da receita anual prevista. Sendo 68% em 2024, 78% em 2025 e 88% em 2026.

Outra preocupação para a indústria é que, apesar de a Lei Complementar nº 177/2021 proibir o contingenciamento de valores do fundo, os recursos vêm sendo constantemente bloqueados pelo poder público. Para o orçamento de 2022, o governo já havia travado R$ 2,5 bilhões dos R$ 4,5 bilhões de recursos não reembolsáveis do FNDCT.

Brasil é o segundo colocado entre os países da América Latina e Caribe

Os dados divulgados nesta quinta-feira mostram que o Brasil ocupa a 2ª posição entre os países da América Latina no IGI, ficando atrás do Chile (50ª colocado). No ano passado, o Brasil era o quarto entre ao latino-americanos, mas agora passou o México (58º) e Costa Rica (68º) – veja no infográfico a comparação entre Brasil e os países mais bem colocados da América do Sul e América Central.

De acordo com o coeditor do IGI e diretor da Saïd Business School, da Universidade de Oxford, Soumitra Dutta, Brasil, Peru e Jamaica apresentaram desempenho superior ao esperado para o seu nível de desenvolvimento econômico. “Em termos relativos, líderes regionais, como Chile e Brasil, na América Latina, e África do Sul e Botsuana, na África Subsaariana, apresentaram melhoras em seu desempenho em inovação”, pontuou.

A fim de contribuir para o avanço da agenda de CT&I no país, a CNI tem realizado nos últimos anos diversas parcerias com órgãos públicos e centros de pesquisa. A principal iniciativa nesse sentido é coordenar a MEI, que tem como objetivo principal incentivar as empresas a colocarem a inovação no centro de suas estratégicas de negócios.

A MEI tem desempenhado papel fundamental na integração dos setores públicos e privado e das universidades em torno de uma agenda consistente de inovação, que contemple o aprimoramento do marco regulatório da inovação, a modernização do sistema de financiamento e a reestruturação dos currículos de engenharia, entre outras prioridades. A CNI mantém também uma importante rede de institutos de inovação e tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que ajudam indústrias de todo o Brasil a inovarem, e centros de inovação do Serviço Social da Indústria (SESI).

Outra importante iniciativa em prol da inovação foi a parceria firmada no ano passado pela CNI com o SOSA – plataforma israelense que tem atuação global em inovação aberta. O acordo oferece a empresas brasileiras de médio e grande porte a facilitação de acesso a tecnologias disponíveis em mais de uma dezena de hubs de inovação. Além disso, também promove startups brasileiras com maior nível de maturidade em mercados internacionais, por meio de programas de residência nos ecossistemas de Nova York e Tel Aviv.

Fonte: CNI, 29/09/2022

Os riscos e as tendências do mundo dos dados

Foto por Pixabay em Pexels.com

A inteligência artificial tem se tornado fator estratégico para empresas de diferentes segmentos se diferenciarem nos mercados em que atuam. Se por um lado os algoritmos trazem benefícios importantes em áreas como indústria, saúde e educação, por outro é preciso ter olhar atento à estruturação do modelo de IA. Um levantamento feito pelo Gartner este ano revelou que 85% dos projetos de inteligência artificial fornecerão resultados errôneos devido ao viés de dados, algoritmos ou das equipes responsáveis por gerenciá-los.

Nesta entrevista concedida à MIT Sloan Review Management, Iain Brown, head de ciência de dados de SAS para Reino Unido e Irlanda, professor adjunto de marketing de dados na Universidade de Southampton, e considerado uma das 100 pessoas mais influentes na área de dados de 2020 pelo DataIQ, fala sobre riscos, questões éticas e os problemas de plataforma que as organizações devem levar em consideração antes de adotar a inteligência artificial.

MITSMR: Em sua opinião, quais são os maiores riscos associados ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial (IA)?

Iain Brown: Atualmente, o maior risco que se percebe é o nível de transparência do processo que leva à tomada de decisão baseada em IA. Os clientes podem, muitas vezes, não concordar com essas escolhas. Nestas situações, o ideal é adotar uma abordagem estruturada na implantação de IA. Para exemplificar, vi diversas organizações basearem sua estratégia nas áreas de justiça, responsabilidade, transparência e ética (conhecida como FATE – fairness, accountability, transparency and ethics) com bons resultados. Quando as empresas não têm um formato estruturado, é possível que não entendam os modelos usados em IA e, consequentemente, não saberão utilizá-los eficientemente. Eu diria que, se não há transparência, a empresa deixa de estar no controle, uma vez que a decisão está sendo tomada automaticamente, aumentando o risco de um processo enviesado.

Dessa maneira, é fundamental que as organizações que consideram o uso de IA pensem não apenas na operacionalização para gerar retorno, mas também em como isso vai funcionar no longo prazo, quando os sistemas começarem a tomar decisões baseadas no aprendizado. Temos de estar atentos a essas decisões e, para isso, tem de haver a supervisão humana.

Isto leva direto para uma discussão mais ampla sobre a ética na inteligência artificial.

Este é um tópico bastante complexo e espinhoso. Se vincularmos o uso da inteligência artificial a determinados padrões de qualidade, como iremos medi-los? O que usar como parâmetro do que deve ou não ser feito? É preciso que as empresas entendam o que estão desenvolvendo e saibam por que e como as decisões geradas irão impactar seus clientes. Voltando à analogia com o FATE, é essencial ter processos e protocolos bem estabelecidos. As decisões éticas vão muito além de um simples modelo que é desenhado. Sem contar que é muito fácil colocar a culpa nos dados quando são feitas escolhas ruins. Por isso é preciso considerar a maneira como os algoritmos são escolhidos e refinados. Embora um algoritmo não seja enviesado em si, tem de se levar em conta a maneira como são formulados, refinados, como as pessoas são treinadas neles e a forma como os parâmetros são relacionados. Em última análise os vieses se infiltram no modelo junto com os dados que o alimentam.

Ao usar IA, as organizações precisam ser muito cuidadosas com a maneira de lidar com uma ferramenta poderosa para o negócio. Devem conhecer bem o que estão tentando desenvolver e validar, em cada etapa, se estão adotando as opções corretas, tanto para a empresa como para os seus clientes e consumidores.

As organizações estariam voltando-se para um ambiente heterogêneo em vez de apostar em uma plataforma padrão para todos?

Acredito que sim. Ter uma plataforma única é ótimo, mas isso não significa que não seja possível ter múltiplas delas trabalhando juntas. Da perspectiva de SAS, temos capacidades e tecnologias de ponta, mas trabalhamos dentro de ecossistemas com uma grande variedade de tecnologias. E elas precisam trabalhar de forma integrada.

Os ecossistemas continuarão a crescer em termos das capacidades disponíveis e isso nos leva de volta a um ponto fundamental: se você só coloca funcionalidades, sem olhar de um ponto de vista estratégico, há o risco de complicar demais os resultados e gerar ineficiências. Acho que as organizações continuarão a ampliar e a fazer adições às suas plataformas internamente, mas ainda existe a demanda de ter uma visão que contemple toda elas, que permita enxergar as origens dos caminhos traçados, assim como deveria haver tanta transparência quanto possível ao se colocar funcionalidades para operarem em conjunto.

Sobre tendências, quais seriam algumas das atuais e quais estão por vir quando falamos de inteligência artificial?

Existe a tendência de adotar a IA composta, ou seja, uma combinação de diferentes técnicas de IA para resolver os problemas das empresas. Há um aumento na absorção de técnicas de inteligência artificial relacionadas a dados não estruturados, como a geração e o processamento da linguagem natural como forma de trazer plataformas com interfaces mais coloquiais em termos do que se oferece ao consumidor. Percebe-se um crescimento dessa tendência ao se introduzir IA nos sistemas. Os chatbots são um exemplo. Eu ainda acho que existe um longo caminho a percorrer até serem capazes de imitar uma interação humana e, provavelmente, entre 90% e 95% dos que experimentamos atualmente ainda são baseados em regras preestabelecidas – eles têm uma lista de respostas para as questões mais comuns, mas não existe um elemento adaptativo.

No mundo do varejo, temos visto casos em que se usa realidade aumentada para comprar roupas ou outros produtos e a inteligência artificial para dar melhores sugestões e oferecer personalização. Os consumidores estão sendo enxergados como indivíduos e sendo tratados com base nos dados que eles mesmos fornecem. Porém, isso tem dois lados. Somos todos consumidores e nossas expectativas estão aumentando em relação ao que é feito com as nossas informações. E isso só tende a crescer nas próximas gerações. Por outro lado, as organizações precisam ter consciência de que, se estiverem apenas coletando informações sem devolver qualquer benefício, as pessoas acabarão por se desligar delas. Em última instância, as que terão sucesso são aquelas que oferecem algo com valor, alguma recompensa em troca dos dados que os indivíduos lhes entregam.

Esta entrevista foi traduzida de um material produzido pela MIT Sloan Review para o SAS.

Fonte: Redação MIT Sloan Review Brasil, 28 de Setembro.

Fábrica de chips bilionária abandonada em Minas pode ser chance de o Brasil entrar na briga global

Fábrica de semicondutores está pronta, mas sem operações Foto: Washington Alves/Light Press/Estadão

Anunciada em 2012 e com previsão de início de operações três anos depois, mas inativa até agora, a fábrica de semicondutores da Unitec em Minas Gerais, um investimento de mais de R$ 1,2 bilhão, virou uma espécie de “isca” para atrair grupos internacionais para produzir o componente no Brasil. Hoje, ele é importado da Ásia e sua escassez desde o início da pandemia tem provocado paradas em várias fábricas no mundo, principalmente as de veículos.

Os dois principais acionistas da Unitec são, atualmente, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a empresa argentina Corporación America, com 33% de participação cada. Entre os minoritários estão o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e as empresas Matec e Intecs.

O uso de suas instalações e infraestrutura em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, poderia antecipar em dois anos o início da produção local de chips. Uma fábrica nova pode levar no mínimo quatro anos para ficar pronta.

Foi esse “benefício” – de já ter estrutura para acelerar o processo – que um grupo de dirigentes do setor automotivo e de representantes do governo federal apresentou a dois fabricantes de semicondutores em viagem ao Japão nas duas últimas semanas. Uma delas é a Renesas, uma das grandes produtoras de chips no mundo, com sede em Tóquio.

O governo brasileiro também informou que, em breve, editará uma Medida Provisória estabelecendo desoneração tributária, alternativas de financiamento e infraestrutura a interessados em investir na produção local.

Outro ponto destacado pelo grupo é o tamanho do mercado brasileiro. Só a indústria automotiva deve demandar quase 4 bilhões de chips por ano, tendo como base uma produção anual de 2,3 milhões de veículos, segundo cálculos da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Cada carro novo tem aproximadamente 1,5 mil microchips.

“Dirigentes das duas empresas japonesas (uma pediu para não ter o nome divulgado) ouviram as propostas, pediram mais informações e vão agendar novos encontros, aqui no Brasil, para discutir o tema”, informa o presidente da entidade, Márcio de Lima Leite, que liderou o grupo em visita ao Japão.

Ele lembra que, em vários países, especialmente na Ásia, há 29 fábricas de semicondutores em construção, projetos que foram iniciados antes da crise de escassez provocada pela pandemia. “Hoje, para comprar equipamentos para a produção, há fila de espera de dois a três anos.”

A produção local passou a ser imprescindível para a indústria brasileira, avalia Leite. A demanda por chips, já bem elevada, vai aumentar substancialmente com o uso do 5G, da internet das coisas e a chegada de carros elétricos, conectados e autônomos.

Histórico conturbado

Fábrica chegou a ter 150 funcionários e foram feitos testes de maquinário e produção Foto: Washington Alves/Estadão – 27/10/2017

Há várias justificativas para o não funcionamento da fábrica que seria a primeira da América do Sul a operar em várias etapas da produção de chips. Ela foi idealizada em 2005 pelo ex-presidente da Volkswagen do Brasil, Wolfgang Sauer – que era um dos acionistas, mas faleceu em 2013. Teve como principal sócio, ao lado do BNDES, o empresário Eike Batista, que vendeu sua parte à Corporación America em 2014, logo após os escândalos que levaram seu grupo à falência.

Com essa aquisição de ações, o nome da empresa foi alterado de Six para Unitec, o mesmo que a fábrica de chips do argentino tem no país, onde produz chip para cartões de celulares, documentos de identidade, passaportes e outras aplicações.

A empresa brasileira está em recuperação judicial, com dívidas trabalhistas e tributárias de R$ 600 milhões. A situação se aprofundou em 2019, quando a IBM, então dona de 18,8% das ações e provedora da tecnologia, abandonou o projeto. A matriz americana vendeu suas operações globais da área de semicondutores, e o comprador não se interessou pela fábrica local.

Marco Aurélio Barreto, sócio da Tauá Partner e responsável pelo processo de recuperação judicial da Unitec, afirma que o projeto também passou por dificuldades em razão de alterações do câmbio, que elevaram os custos dos investimentos em reais pois a maior parte dos equipamentos era importada.

“O que a Unitec mais precisa hoje é de um operador que entenda do tema, que faça design e produção de semicondutores, que tenha clientes e fornecedores”, diz Barreto. O Brasil abriga oito empresas que realizam partes do processo de produção de chips, mas nenhuma que faça a maior parte das etapas.

Em nota enviada ao Estadão, a Corporación America informa também que, em 2015, os bancos públicos suspenderam as linhas de crédito originalmente previstas. “Esta circunstância levou à necessidade dos acionistas aumentarem seus compromissos de capitalização”, diz.

“A Corporación América manifestou interesse em fazer as contribuições correspondentes ‘pari passu’ com os demais sócios mas, infelizmente, eles não quiseram continuar fazendo contribuições de capital”, acrescenta a nota, e hoje a planta permanece em “estado pré-operacional”.

A companhia argentina diz que fez diversas contribuições extraordinárias para garantir a manutenção da empresa e a proteção de seus ativos e que também concedeu linhas de crédito para apoio à Unitec e à proteção de seus ativos. Segundo informações, alguns equipamentos já teriam sido vendidos.

Dívidas trabalhistas

Componente usado em diversos produtos está escasso desde o início da pandemia Foto: Washington Alves/Estadão – 27/10/2017

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte e região, Geraldo Valgas, diz que a Unitec chegou a ter 150 funcionários que prepararam a fábrica e fizeram testes de produção e simulações. Em 2020, eram apenas 30. A entidade representa dez deles em uma ação trabalhista que, segundo o sindicalista, já está no Tribunal Superior do Trabalho (TST). Ao todo, o grupo pede cerca de R$ 7 milhões em indenizações.

Quem também tem ação contra a empresa é o BNDES que, além de acionista, emprestou R$ 173 milhões à Unitec. A instituição afirma que já foi determinada a expedição de carta precatória para penhora de um imóvel dado em hipoteca – uma área da Fazenda Mato Grosso, na própria Ribeirão das Neves.

Segundo o BNDES, “neste momento, com o aquecimento do mercado global de semicondutores, a companhia e seus acionistas têm buscado investidores estratégicos que se alinhem ao seu plano de negócios, com vistas a tornar a empresa operacional.” O BDMG vai na mesma linha e diz apoiar “o processo de busca por um plano de reestruturação que envolva a atração de novos investidores”.

Já a Prefeitura de Ribeirão das Neves informa que não está participando do processo de busca de novos investidores, mas tem interesse em acompanhar o tema. O governo de Minas também diz que a Secretaria de Estado e Desenvolvimento Econômico tem interesse em atrair investimentos para o setor, considerado fundamental para a economia. “Neste sentido, apresentações com potenciais investidores estrangeiros já foram realizadas”, informa a pasta, sem informar se algum deles manifestou interesse.

4,5 milhões de carros deixaram de ser produzidos no mundo

A falta de semicondutores ainda aflige a indústria automobilística no mundo todo. O fornecimento melhorou em relação ao ano passado, mas está longe de se normalizar. A previsão é de que o problema se mantenha em 2023, mas com menor impacto em relação a este ano. De janeiro até agora, o Brasil deixou de produzir cerca de 170 mil veículos por falta de chips e outros componentes. Em 2021 inteiro foram 378 mil.

Dados da consultoria internacional AutoForecast Solution (AFS) indicam que, no mundo todo, há uma perda acumulada de produção de 4,2 milhões de veículos neste ano, somando cerca de 15 milhões de unidades desde o início da pandemia. Para o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, a reindustrialização do Brasil passa pela produção de itens hoje só importados, como os semicondutores.

“Lá fora há 29 fábricas em construção e se o Brasil não entrar nessa onda vamos ficar muito atrasados”, diz o executivo. Segundo Leite, nos dois últimos anos ficou muito clara a dependência do Brasil e de outros países da Ásia – maior produtora do componente -, mas governos como o dos EUA, de países europeus e mesmo os asiáticos estão investindo na localização de chips. “Nós não temos escolha”.

Fonte: Cleide Silva, Estadão, 30/09/2022

Não é Gucci, é Paraisópolis: Empreendedoras mudam a vida de mulheres e levam moda da favela para NY

Após presenciar a agressão de um homem contra sua esposa e filho, em 2017, Maria Nilde e Suéli Feio passaram a discutir como mudar a vida das mulheres de Paraisópolis, em São Paulo, ao gerar empoderamento econômico e, consequentemente, tirá-las de situação de violência doméstica, considerando que muitas delas ficam conectadas aos seus companheiros também por falta de renda própria.

“Primeiro pensamos em promover um curso de culinária, pela proximidade de Paraisópolis com o Morumbi, um dos bairros mais ricos de São Paulo. Mas entendemos que as mulheres já cozinhavam em seus trabalhos e casas. Depois, pensamos em algo no universo da beleza, mas recuamos porque deixá-las mais bonitas também poderia gerar ciúmes e violência dos parceiros. Aí decidimos pela produção em moda, acreditando na transformação social. Assim, nasceu o programa de profissionalização Costurando Sonhos“, disse Suéli Feio em entrevista exclusiva à EXAME (assista ao vídeo abaixo).

Desde então foram mais de 600 mulheres capacitadas, podendo contar também com a ajuda do Sebrae para técnicas de empreendedorismo e desenvolvimento do próprio negócio. “Além disso, começamos o Costurando Sonhos com auxílio do Instituto C&A, que nos ajudou a entender as tendências de moda, precificar e profissionalizar as mulheres”, diz Suéli.

Para a produção das peças, há alguns caminhos. Um deles é por meio de doações de insumos das empresas, como uma jaqueta criada a partir de uniformes da companhia de energia Enel e da empresa de aviação Azul. Outro modelo é a partir da prestação de serviços para as companhias.

“Temos linhas de produtos corporativos como ecobags, uniformes e mais. Quando a empresa nos contrata conseguimos fazer outros investimentos”, diz Maria Nilde.  Os produtos são sempre feitos a partir de materiais reutilizados, priorizando a economia circular, como apresentaram as empreendedoras em evento do Pacto Global Brasil, em Nova York.

De Paraisópolis para o mundo

Por meio de parceiras, o Costurando Sonhos tem ocupado espaços ao redor do mundo. O pontapé inicial foi a partir de uma parceria com o G10 Favelas, fundado por Gilson Rodrigues, para um desfile na São Paulo Fashion Week. Depois, as empreendedoras foram à Milão, em um desfile em parceria com a marca de sapatos sustentáveis Dotz.

As peças de roupas também chamam atenção em espaços como a ONU. “A Patricia Vilela, uma parceira  nossa, foi fazer uma discurso na ONU e quando ela saiu perguntaram se a jaqueta feita a partir do uniforme da Azul é da marca Gucci. Ela respondeu: não é Gucci, é Paraisópolis. Essa é uma provocação importante que reforça como a favela é potência”, diz Suéli.

Hoje Suéli e Maria Nilde seguem formando mulheres, produzindo roupas e, principalmente, mostrando que é possível ser referência da força econômica das favelas. “Estamos agora na 5ª Avenida, em Nova York, para dizer que é possível chegar aonde se deseja. E que sempre é tempo de começar de novo. Somos mulheres com mais de 50 anos, mostrando que é possível ser o lado bom da favela a partir de investimentos”, afirma Suéli.

Fonte: Marina Filippe, Exame. Publicado em 24/09/2022.

Populismo político deve resultar na redução da riqueza global, diz CEO da Roland Berger

Globalização tirou pessoas da pobreza, diz Marcus Barret, CEO da Roland Berger  Foto: Felipe Rau/Estadão

O CEO da consultoria alemã Roland Berger, Marcus Barret, vê um cenário mais difícil para a economia global. Com a eleição da direita radical na Itália, o executivo avalia que um ambiente de populismo político crescente em diversos países tem potencial para provocar uma queda na riqueza global. Se confirmado, esse cenário marcará uma mudança importante. A globalização, diz Barret, foi benéfica aos mais pobres e à classe média.

Os países estão procurando saídas sozinhos, e isso vai resultar na redução da riqueza global. Nós vimos, nas últimas três décadas, uma globalização que beneficiou os mais pobres e a classe média – muitas pessoas conseguiram escapar da pobreza”, afirma o executivo.

Barret prevê também que o aumento das tensões geopolíticas, com possíveis impactos nas cadeias de produção, afetará a forma de atuação das companhias globais. “Nos próximos cinco, dez anos, as empresas terão de se acostumar a ser mais resilientes, estáveis e flexíveis.”

A seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Estadão:

Com a alta de juros, a economia global parece caminhar para um cenário de recessão. Como o sr. avalia esse cenário?

Nós podemos esperar que a demanda global continue a cair nos próximos meses, principalmente guiada pelas ações dos bancos centrais. Os BCs não têm outra escolha, e não há uma saída suave dado que a inflação está em toda a Europa, que está caminhando para uma recessão. Na terça-feira, o Banco Mundial também já publicou que a China, pela primeira vez desde 1990, vai ter uma taxa de crescimento menor quando comparado com outros países da Ásia.

São várias crises globais se sobrepondo nos últimos anos…

Nós tivemos o aquecimento global, a pandemia, e, como resultado da pandemia, a interrupção da cadeia de suprimentos. Em paralelo, a pressão social está aumentando, e estamos lidando com muito mais questões geopolíticas. É difícil imaginar politicamente o que vai acontecer no mundo, não apenas na Itália, por exemplo. Há alguns meses, a França conseguiu lidar de forma correta com o populismo (em abril Marine Le Pen, de extrema direita, foi derrotada na disputa presidencial).

Esse populismo tem muito a ver com as pessoas desapontadas, em como a situação foi endereçada pelos políticos nos últimos anos. A linha desse populismo é o discurso de pessoas e dos partidos de que as coisas vão melhorar com os países isolados. E nós sabemos que não, mas, no fim, temos de aceitar, porque são as pessoas que fazem essa escolha.

O que os governos ou os políticos podem fazer para mudar essa situação de populismo?

Essa é uma pergunta de US$ 1 milhão. Os países estão procurando saídas sozinhos, e isso vai resultar na redução da riqueza global. Nós vimos, nas últimas três décadas, uma globalização que beneficiou os mais pobres e a classe média – muitas pessoas conseguiram escapar da pobreza. A direção que muitos governos estão tomando não é necessariamente a correta, mas temos de encarar em como transformar essa situação em oportunidades para as companhias.

Para uma geração mais antiga, a depender do país, houve relativa estabilidade nas últimas duas, três décadas, mas eu acho que, nos próximos cinco, dez anos, as empresas terão de se acostumar a ser mais resilientes, estáveis e flexíveis. A estratégia corporativa para os nossos clientes é pensar dois, três passos adiante, para evitar que eles caiam numa armadilha. O jogo está ficando mais em traçar um cenário e, então, encontrar um maneira flexível de organizar a sua cadeia de valor.

O cenário para as empresas será difícil, então, para os próximos anos?

Isso depende do tipo de negócio. Empresas intensivas em energia na Alemanha e na Europa vão enfrentar grandes problemas, já estão enfrentando. Há casos de insolvência. Na Alemanha, temos hoje 22%, 23% menos consumo de energia do que há um ano, em parte porque as pessoas estão economizando e já substituíram o uso do gás, mas também porque todos os setores tiveram significativo corte na produção por causa do custo da energia.

E as companhias já sofreram muito desde a pandemia…

Se você olhar em detalhes, a depender do modelo de negócios, claro que houve desafios durante a pandemia para indústrias, restaurantes. Mas com o auxílio estatal, muitas empresas conseguiram superar esse momento. Quando você olha para todas as cadeias de valor, um exemplo interessante é o da automotiva. Muitas empresas estão com recordes de lucratividade, porque houve uma escassez de carros com a crise dos chips. Não houve carros suficientes, e os preços subiram. Como resultado da pandemia, as empresas de chips multiplicaram seu lucro por três, quatro; as fornecedoras de matérias-primas multiplicaram seu lucro por três, quatro, cinco.

Quais são os países que a Roland Berger olha com mais otimismo?

Os países das Américas, como Estados Unidos, Canadá e Brasil. O Oriente Médio está se beneficiando do aumento de preços (da energia). Há também o Sudeste asiático, países como Vietnã, Filipinas. Eu ainda citaria a Índia. Todos estão acompanhando o que está acontecendo com a Apple, basicamente partes da sua produção deixaram a China e foram para a Índia, para ter menos influência de tensões geopolíticas. Essa é a parte positiva do mundo.

E a parte negativa?

Estamos falando da Europa, com muitos problemas estruturais. O fato de termos esses governos populistas em algumas partes da Europa torna difícil para o Banco Central Europeu encontrar uma política monetária para toda a região. A China, em muitas categorias, é o principal mercado do mundo, mas tem o desafio da estratégia de covid zero. O crescimento vai desacelerar. Vai haver uma grande mudança tectônica nos próximos dois, três anos.

O sr. poderia detalhar a situação do Brasil? Há uma eleição presidencial importante pela frente.

O Brasil deve estar numa boa posição, porque os preços das commodities estão em alta, e muitos países vão olhar para o Brasil para o fornecimento de produtos básicos. Isso deve ser positivo para os próximos anos.

Fonte: Luiz Guilherme Gerbelli, Estadão, 30/09/2022.

VX4, “carro voador” da Gol, realiza primeiro voo

FLYING CAR NEWS

A fabricante britânica Vertical Aerospace anunciou que o seu modelo de eVTOL, veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, também conhecido como “carro voador” VX4, realizou seu primeiro voo durante teste no último final de semana.

Cerca de 1,4 mil aeronaves já foram reservadas pelas principais companhias aéreas do mundo, incluindo Virgin Atlantic, American Airlines, Japão Airlines e Air Asia, além da companhia brasileira Gol. A expectativa da Vertical é que o VX4 eVTOL obtenha a certificação até 2025.

O teste faz parte de uma série de etapas para verificar a segurança e a eficiência da aeronave. No primeiro voo, o VX4 ficou a 1 metro e meio do chão, manobrado por um piloto humano.

A fabricante diz que optou pelo voo tripulado para provar aos reguladores que é possível atender os padrões de segurança. “Este momento representa um salto gigantesco para a aviação”, disse Stephen Fitzpatrick, CEO da Vertical Aerospace.

Os próximos testes de voo vão colocar a aeronave urbana a 15 metros de altura e, finalmente, entre 1,5 km e 3 km acima do solo. A expectativa é que o veículo consiga transportar até cinco passageiros, contando com piloto, percorra cerca de 160 km, com velocidade máxima de até 325 km/hora, sem ruído e zero emissões operacionais.

Fonte: Isabela Rovaroto, Exame. Publicado em 28/09/2022.

Os riscos e as tendências do mundo dos dados

Foto por Pixabay em Pexels.com

A inteligência artificial tem se tornado fator estratégico para empresas de diferentes segmentos se diferenciarem nos mercados em que atuam. Se por um lado os algoritmos trazem benefícios importantes em áreas como indústria, saúde e educação, por outro é preciso ter olhar atento à estruturação do modelo de IA. Um levantamento feito pelo Gartner este ano revelou que 85% dos projetos de inteligência artificial fornecerão resultados errôneos devido ao viés de dados, algoritmos ou das equipes responsáveis por gerenciá-los.

Nesta entrevista concedida à MIT Sloan Review Management, Iain Brown, head de ciência de dados de SAS para Reino Unido e Irlanda, professor adjunto de marketing de dados na Universidade de Southampton, e considerado uma das 100 pessoas mais influentes na área de dados de 2020 pelo DataIQ, fala sobre riscos, questões éticas e os problemas de plataforma que as organizações devem levar em consideração antes de adotar a inteligência artificial.

MITSMR: Em sua opinião, quais são os maiores riscos associados ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial (IA)?

Iain Brown: Atualmente, o maior risco que se percebe é o nível de transparência do processo que leva à tomada de decisão baseada em IA. Os clientes podem, muitas vezes, não concordar com essas escolhas. Nestas situações, o ideal é adotar uma abordagem estruturada na implantação de IA. Para exemplificar, vi diversas organizações basearem sua estratégia nas áreas de justiça, responsabilidade, transparência e ética (conhecida como FATE – fairness, accountability, transparency and ethics) com bons resultados. Quando as empresas não têm um formato estruturado, é possível que não entendam os modelos usados em IA e, consequentemente, não saberão utilizá-los eficientemente. Eu diria que, se não há transparência, a empresa deixa de estar no controle, uma vez que a decisão está sendo tomada automaticamente, aumentando o risco de um processo enviesado.

Dessa maneira, é fundamental que as organizações que consideram o uso de IA pensem não apenas na operacionalização para gerar retorno, mas também em como isso vai funcionar no longo prazo, quando os sistemas começarem a tomar decisões baseadas no aprendizado. Temos de estar atentos a essas decisões e, para isso, tem de haver a supervisão humana.

Isto leva direto para uma discussão mais ampla sobre a ética na inteligência artificial.

Este é um tópico bastante complexo e espinhoso. Se vincularmos o uso da inteligência artificial a determinados padrões de qualidade, como iremos medi-los? O que usar como parâmetro do que deve ou não ser feito? É preciso que as empresas entendam o que estão desenvolvendo e saibam por que e como as decisões geradas irão impactar seus clientes. Voltando à analogia com o FATE, é essencial ter processos e protocolos bem estabelecidos. As decisões éticas vão muito além de um simples modelo que é desenhado. Sem contar que é muito fácil colocar a culpa nos dados quando são feitas escolhas ruins. Por isso é preciso considerar a maneira como os algoritmos são escolhidos e refinados. Embora um algoritmo não seja enviesado em si, tem de se levar em conta a maneira como são formulados, refinados, como as pessoas são treinadas neles e a forma como os parâmetros são relacionados. Em última análise os vieses se infiltram no modelo junto com os dados que o alimentam.

Ao usar IA, as organizações precisam ser muito cuidadosas com a maneira de lidar com uma ferramenta poderosa para o negócio. Devem conhecer bem o que estão tentando desenvolver e validar, em cada etapa, se estão adotando as opções corretas, tanto para a empresa como para os seus clientes e consumidores.

As organizações estariam voltando-se para um ambiente heterogêneo em vez de apostar em uma plataforma padrão para todos?

Acredito que sim. Ter uma plataforma única é ótimo, mas isso não significa que não seja possível ter múltiplas delas trabalhando juntas. Da perspectiva de SAS, temos capacidades e tecnologias de ponta, mas trabalhamos dentro de ecossistemas com uma grande variedade de tecnologias. E elas precisam trabalhar de forma integrada.

Os ecossistemas continuarão a crescer em termos das capacidades disponíveis e isso nos leva de volta a um ponto fundamental: se você só coloca funcionalidades, sem olhar de um ponto de vista estratégico, há o risco de complicar demais os resultados e gerar ineficiências. Acho que as organizações continuarão a ampliar e a fazer adições às suas plataformas internamente, mas ainda existe a demanda de ter uma visão que contemple toda elas, que permita enxergar as origens dos caminhos traçados, assim como deveria haver tanta transparência quanto possível ao se colocar funcionalidades para operarem em conjunto.

Sobre tendências, quais seriam algumas das atuais e quais estão por vir quando falamos de inteligência artificial?

Existe a tendência de adotar a IA composta, ou seja, uma combinação de diferentes técnicas de IA para resolver os problemas das empresas. Há um aumento na absorção de técnicas de inteligência artificial relacionadas a dados não estruturados, como a geração e o processamento da linguagem natural como forma de trazer plataformas com interfaces mais coloquiais em termos do que se oferece ao consumidor. Percebe-se um crescimento dessa tendência ao se introduzir IA nos sistemas. Os chatbots são um exemplo. Eu ainda acho que existe um longo caminho a percorrer até serem capazes de imitar uma interação humana e, provavelmente, entre 90% e 95% dos que experimentamos atualmente ainda são baseados em regras preestabelecidas – eles têm uma lista de respostas para as questões mais comuns, mas não existe um elemento adaptativo.

No mundo do varejo, temos visto casos em que se usa realidade aumentada para comprar roupas ou outros produtos e a inteligência artificial para dar melhores sugestões e oferecer personalização. Os consumidores estão sendo enxergados como indivíduos e sendo tratados com base nos dados que eles mesmos fornecem. Porém, isso tem dois lados. Somos todos consumidores e nossas expectativas estão aumentando em relação ao que é feito com as nossas informações. E isso só tende a crescer nas próximas gerações. Por outro lado, as organizações precisam ter consciência de que, se estiverem apenas coletando informações sem devolver qualquer benefício, as pessoas acabarão por se desligar delas. Em última instância, as que terão sucesso são aquelas que oferecem algo com valor, alguma recompensa em troca dos dados que os indivíduos lhes entregam.

Esta entrevista foi traduzida de um material produzido pela MIT Sloan Review para o SAS.

Fonte: Redação MIT Sloan Review Brasil, 28 de Setembro.

2023 está logo aí: o que não podemos deixar para trás? Por Ulisses Zamboni

Foto por Engin Akyurt em Pexels.com

Se você ou sua empresa ainda não entregaram o planejamento de marketing para o ano que vem, há tempo para refletir um pouco mais a respeito do “rescaldo” ou “do que ficou em pé” no pós-tsunami chamado covid-19, agora que a OMS já considera decretar o fim da pandemia. Aliás, observar o fluxo dos acontecimentos é sempre bem-vindo no atual recorte contemporâneo em que a regra é a mudança, até porque as ameaças continuam, agora com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

No Brasil vamos somar outra variável importante em nossas vidas. A “roleta russa brasileira” das eleições vai adicionar mais uma camada de complexidade ao território da gestão de marketing, especialmente no comportamento de consumo.

Por isso, aponto neste artigo cinco pontos de atenção no que considero novos pilares para o mercado e para o consumidor. Descrevo a seguir minhas recomendações que estou fazendo para meus clientes na elaboração de seus planos de curto, médio e longo prazo.

Notem que cada um dos aprendizados estão intrincados entre si. E que encadeiam uma nova perspectiva de comportamento de consumo e modelo de negócios.

Centralidade do consumidor “na real”

Tanto já se falou nisso que fica até difícil trazer esse item de volta com alguma novidade. O tal princípio de Pareto, que afirma que 80% dos efeitos vêm de 20% das causas, se aplica perfeitamente aqui. Note que a sua base de clientes fiéis são aqueles que trazem efetivamente mais receita e lucro para seu negócio.

Se por um lado temos um número muito reduzido de consumidores e usuários fiéis, por outro temos que abraçá-los a ponto de aprender por que eles estão conosco. Painéis e pesquisas “quali” constantes são essenciais, e o uso de plataformas digitais para essas investigações é mais do que bem-vindo.

Quanto mais conseguirmos entender o que faz os 20% de nossa base ser satisfeita com nossa relação, mais podemos procurar semelhantes na comunidade. Os planos de ação para 2023 têm a obrigação de mimetizar os atributos de relação que temos entre esse público e nossa marca, pois, assim, talvez consigamos melhorar nossa proporção de Pareto do negócio em 30%/70%.

Mundo “figital”

Esse ponto sozinho já dá um artigo só sobre ele. Silvio Meira, cientista-chefe da TDS, professor extraordinário da Cesar School, presidente do conselho do Porto Digital e conselheiro de alguns pares de empresas, é meu companheiro de conselho aqui na MIT Sloan Management Review Brasil. Escreveu um lindo artigo sobre o assunto ‘figital’ e é nele que me inspiro.

Ele traz em seu discurso uma frase que considero emblemática e reveladora: “O mundo virtual agora é real”. No subtexto, algo como “está achando que o mundo digital e suas plataformas apenas ‘apoiam’ o mundo físico? Está completamente enganado. Aos olhos do usuário é uma espécie de ‘tudo ao mesmo tempo agora’”.

De acordo com Silvio, a transformação digital é um elemento constituinte de nossa realidade e nos negócios ela terá muito fôlego nesta década de 2020. Sua definição de “figital” é curiosa. É a combinação do mundo físico com a inovação digital, que faz uso de plataformas digitais para habilitar novos comportamentos do negócio e de pessoas em seu ou outros mercados.

O mundo físico e o digital precisam se combinar perfeitamente, de tal maneira que a resultante seja um negócio que acabe perpassando por ambos, transformando o ambiente social. De alguma maneira, olhar para o mercado sem os olhos do consumidor acaba trazendo um viés pouco inteligente para o futuro das marcas e negócios.

O cuidado que temos que tomar aqui é entender que uma boa estratégia para 2023 está baseada nesse modelo de negócios “figital”. O usuário não quer saber por onde, como, por que ele adquiriu o produto ou serviço, nem como ele se envolveu ou conheceu a marca. Ele só sabe que ela está lá, pronta para ser acionada.

Vale destacar a multicanalidade. Se a marca de sua companhia está anos-luz atrás desse pensamento e você é responsável pela gestão de marketing dela, comece sua busca pelas parcerias e joint ventures que te permitirão entrar no mundo “figital”.

Fidelidade é um termo em desuso

O desenvolvimento e o progresso do mercado brasileiro há tempos vem mostrando para os consumidores que a barra da qualidade e da variedade de produtos está lá em cima. A escolha por outras/novas marcas é uma variável absolutamente viável em seu dia a dia de consumo.

Ao mesmo tempo que catastrófica, a pandemia teve um lado importante de ensinamento para a sociedade civil. Ela aprendeu que pode escolher e pegar novas rotas de consumo para seu cotidiano em resposta ao “modo sobrevivência” que foi obrigada.

A oferta estimulada (e visual) de novas marcas nos aplicativos de comida e nos market places forjou um novo tipo de jornada de consumo e de escolha e quebrou o monopólio de algumas marcas em seus segmentos. Os apps chineses têm impacto direto nesse comportamento.

Quando o psicólogo Barry Schwarz trouxe a teoria do paradoxo da escolha, ele ainda não sabia que a prateleira virtual faria com que as opções migrassem das dezenas para as milhares num passe de mágica. E, por isso, a escolha passou a ser um grande obstáculo para a sociedade de consumo.

Uma vez que o cenário aponta para menos repetição pela mesma marca e mais aventura na busca por novidades, o termo fidelidade está em desuso. As estratégias de negócios, especialmente para 2023, que apontarem para um apoio significativo de argumentos na hora da escolha estão mais propensas a ter sucesso.

Curadoria, proposição de valor única (em inglês, unique selling proposition – USP), venda guiada e lives são algumas estratégias para o ano que apoiam a escolha e reorientam o consumidor para o caminho de sua marca. Pense nisso!

A instabilidade como moto contínuo na mente do usuário

Será que, em 2023, o Brasil acompanhará a recessão mundial? Inflação ou deflação? Uma nova onda de epidemias? O atual valor da gasolina vai permanecer? O dólar vai a R$ 6? Será que consigo planejar minha viagem para daqui um ano?

A lista de inseguranças sobre o futuro é gigante. São tantas que a palavra que melhor traduz a previsibilidade para o próximo ano é “incerteza”. A pergunta que fica é: como fazer um plano de marketing num cenário em que microeconomia e comportamento humano são definidos respectivamente por incertezas e inseguranças?

Diante dessa realidade, os negócios e as marcas que mirarem em ofertas que entreguem um porto seguro na relação com o consumidor tendem a gerar mais conversão. Do ponto de vista do negócio, programas de cash back e de incentivo são as estrelas da vez.

Superdemocráticos, os programas de “dinheiro de volta” são ferramentas que perpassam todas as classes, têm efeito imediato no bolso do consumidor e, de quebra, ainda fidelizam de alguma forma o usuário.

De acordo com a Associação Brasileira de Mercados de Fidelização (Abemf), o Brasil faturou em 2019, com o segmento, quase R$ 8 bilhões. Isso antes da pandemia, que implodiu a renda, o bolso e o orçamento dos usuários brasileiros.

Os dados mais recentes sobre o assunto, vindo do relatório 2020 Global Cashback Report, mostram que a mecânica de dinheiro de volta causou um crescimento no mundo de 3,5 vezes a taxa de conversão, além de aumentar em quase 50% o valor do pedido.

Do ponto de vista de marca e das narrativas de comunicação, uma relação estável e otimista para o futuro é uma das possíveis respostas à instabilidade do futuro. As plataformas de mídia social desempenham papel fundamental para contato diário e longevo com o usuário. Mas, claro, com conteúdo relevante e engajador.

Tempo é curto prazo

Planejar o futuro de curto, médio e longo prazo sempre foi a recomendação máxima dos gurus pessoais e dos coaches profissionais. Só que a incerteza do futuro na vida de todo mundo fez com que a recomendação virasse uma piada pronta.

Quem em sã consciência tem coragem de prever o próprio futuro com tantas variáveis de impacto social e profissional no curto prazo? Qual de nós tem alguma certeza de onde estaremos, mesmo que planejando, em outubro de 2023? (a propósito, as empresas que ainda pedem o “5-year plan” precisam urgentemente rever suas posições).

O curto prazo é um atributo da vida moderna que modifica completamente o comportamento de consumo. Importante notar que a sociedade de consumo se dividiu em dois grupos praticamente antagônicos: o daqueles que fizeram elevar a compra por impulso à máxima potência, já que “quero curtir hoje minhas vontades e aspirações porque não sei o dia de amanhã” e os que migraram para um comportamento conservador de poupança e reclusão, porque registraram um trauma profundo com a mudança dos rumos de suas vidas cotidianas.

Os negócios que reconhecerem o senso de urgência dos que estão dispostos a realizar desejos “o quanto antes” estarão à frente no passo da conversão. “Carpe diem” é uma expressão que deve voltar ao repertório das marcas em 2023.

Fonte/Autor: Ulisses Zamboni. Com 40 anos de experiência na área de comunicação, é presidente e sócio da agência Santa Clara, membro do conselho do Grupo de Planejamento no Brasil, membro do Conselho Editorial da MIT Sloan Review Brasil e clinica como psicanalista.

Publicado originalmente MIT Sloan Review Brasil, 27/9/2022.

Brasil avança três posições e chega ao 54º lugar no Índice Global de Inovação

O Brasil ganhou três posições no Índice Global de Inovação (IGI) na comparação com 2021 e agora está no 54º lugar no ranking que abrange 132 países. A melhora da colocação, no entanto, não significa que o país esteja bem na agenda de inovação, uma vez que os investimentos na área têm caído a cada ano e a posição brasileira está sete casas abaixo da melhor marca atingida – o 47º lugar em 2011.

Os dez países mais bem colocados no índice são: Suíça, Estados Unidos, Suécia, Reino Unido, Holanda, Coreia do Sul, Singapura, Alemanha, Finlândia e Dinamarca. A classificação é divulgada anualmente, desde 2007, pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI – WIPO, na sigla em inglês), em parceria com o Instituto Portulans e o apoio de parceiros internacionais – no caso do Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), é parceira na produção e divulgação do IGI desde 2017.

Desde sua criação, em 2007, o IGI tornou-se uma referência na avaliação da inovação e um pilar na formulação de políticas econômicas, levando um número cada vez maior de governos a realizar análises sistemáticas de seus resultados anuais em matéria de inovação e elaborar políticas voltadas para melhorar seu desempenho no Índice. O ranking também obteve o reconhecimento do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, que em sua resolução de 2019 sobre ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento o define como um instrumento de referência para avaliar a inovação em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O tema do IGI em 2022 é o futuro da inovação: estagnação ou recuperação da produtividade. O presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, avalia que esse enfoque é extremamente relevante para o Brasil, considerando-se os desafios que o país vem enfrentando para aumentar sua produtividade – que está em declínio há 40 anos.

O IGI 2022 é calculado a partir da média de dois subíndices. O subíndice Insumos de inovação avalia os elementos da economia que viabilizam e facilitam o desenvolvimento de atividades inovadoras, agrupados em cinco pilares: (1) Instituições; (2) Capital humano e pesquisa; (3) Infraestrutura; (4) Sofisticação do mercado; e (5) Sofisticação empresarial. Já o subíndice Produtos de inovação capta o resultado efetivo das atividades inovadoras no interior da economia e se divide em dois pilares: (6) Produtos de conhecimento e tecnologia e (7) Produtos criativos.

Análise da posição brasileira

Aparelho usado em microeletrônica no Instituto SENAI de Inovação de Manaus (AM)

Na avaliação da CNI, embora o Brasil tenha caído no ranking de “insumos de inovação”, tendo piorado duas posições (de 56º, em 2021, para 58º em 2022), o país subiu seis posições no ranking de resultados de inovação (59º para 53º), o que explica a melhora no ranking geral.

Segundo ela, essa melhora demonstra que, apesar das dificuldades estruturais do ecossistema de inovação no Brasil, as empresas têm se saído melhor do que o esperado. “Isso atesta as capacidades das empresas brasileiras. Se houvesse investimentos perenes em inovação, o que não acontece, o Brasil poderia ser uma potência em inovação”, alerta a diretora de Inovação da CNI.

Os resultados demonstram a resiliência do setor empresarial brasileiro. Atualmente, o Brasil tem a 35ª economia com negócios mais sofisticados do mundo, apesar de as empresas brasileiras terem que conviver com instituições muito mal posicionadas no ranking, e com infraestrutura que figura apenas em 65º lugar.

Na avaliação da CNI, a falta de uma política pública consolidada para a inovação gera insegurança e atrasos ao setor. Um dos exemplos é a edição da Medida Provisória nº 1.136, de 29 de agosto de 2022, que limita o uso de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal fonte de financiamento à inovação do país.  A MP fixa que o FNDCT poderá aplicar somente R$ 5,555 bilhões em 2022, ou seja, cerca de R$3,5 bilhões a menos do inicialmente previsto.

A CNI alerta para os danos que a medida provisória, se aprovada pelo Congresso Nacional, causará para a ciência, tecnologia e inovação do país. A partir do ano que vem, a medida estabelece uma porcentagem de aplicação que chegará em 100% dos recursos apenas em 2027. Em 2023, por exemplo o limite será de somente 58% da receita anual prevista. Sendo 68% em 2024, 78% em 2025 e 88% em 2026.

Outra preocupação para a indústria é que, apesar de a Lei Complementar nº 177/2021 proibir o contingenciamento de valores do fundo, os recursos vêm sendo constantemente bloqueados pelo poder público. Para o orçamento de 2022, o governo já havia travado R$ 2,5 bilhões dos R$ 4,5 bilhões de recursos não reembolsáveis do FNDCT.

Brasil é o segundo colocado entre os países da América Latina e Caribe

Os dados divulgados nesta quinta-feira mostram que o Brasil ocupa a 2ª posição entre os países da América Latina no IGI, ficando atrás do Chile (50ª colocado). No ano passado, o Brasil era o quarto entre ao latino-americanos, mas agora passou o México (58º) e Costa Rica (68º) – veja no infográfico a comparação entre Brasil e os países mais bem colocados da América do Sul e América Central.

De acordo com o coeditor do IGI e diretor da Saïd Business School, da Universidade de Oxford, Soumitra Dutta, Brasil, Peru e Jamaica apresentaram desempenho superior ao esperado para o seu nível de desenvolvimento econômico. “Em termos relativos, líderes regionais, como Chile e Brasil, na América Latina, e África do Sul e Botsuana, na África Subsaariana, apresentaram melhoras em seu desempenho em inovação”, pontuou.

A fim de contribuir para o avanço da agenda de CT&I no país, a CNI tem realizado nos últimos anos diversas parcerias com órgãos públicos e centros de pesquisa. A principal iniciativa nesse sentido é coordenar a MEI, que tem como objetivo principal incentivar as empresas a colocarem a inovação no centro de suas estratégicas de negócios.

A MEI tem desempenhado papel fundamental na integração dos setores públicos e privado e das universidades em torno de uma agenda consistente de inovação, que contemple o aprimoramento do marco regulatório da inovação, a modernização do sistema de financiamento e a reestruturação dos currículos de engenharia, entre outras prioridades. A CNI mantém também uma importante rede de institutos de inovação e tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que ajudam indústrias de todo o Brasil a inovarem, e centros de inovação do Serviço Social da Indústria (SESI).

Outra importante iniciativa em prol da inovação foi a parceria firmada no ano passado pela CNI com o SOSA – plataforma israelense que tem atuação global em inovação aberta. O acordo oferece a empresas brasileiras de médio e grande porte a facilitação de acesso a tecnologias disponíveis em mais de uma dezena de hubs de inovação. Além disso, também promove startups brasileiras com maior nível de maturidade em mercados internacionais, por meio de programas de residência nos ecossistemas de Nova York e Tel Aviv.

Fonte: CNI, 29/09/2022

Brasil cresceu menos que o divulgado no século XX, mostra pesquisa liderada por Edmar Bacha

Integrante da equipe que formulou o Plano Real, Bacha tratará da economia dos séculos 19 e 20 em palestra na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio Foto: Tiago Queiroz/Estadão – 17/5/2018

RIO – O crescimento econômico do Brasil de 1900 a 1980, tido como um dos mais rápidos do mundo, pode não ter sido tão acelerado. Segundo pesquisa dos professores Edmar Bacha, integrante da equipe que formulou o Plano Real, Guilherme Tombolo, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e Flávio Versiani, da Universidade de Brasília (UnB), mesmo o período do “milagre econômico” pode não ter sido tão grande assim. Isso sugere, em meio ao bicentenário da Independência, que o desempenho da economia escravocrata do Império, no século XIX, pode ter sido melhor do que o consenso atual da história econômica.

As contas de Bacha, Tombolo e Versiani – os primeiros resultados foram publicados no fim de agosto num Texto para Discussão, no site do Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças – apontam para um crescimento anual médio de 4,9% entre 1900 e 1980, abaixo dos 5,7% da série estatística atualmente aceita.

A principal explicação para a diferença é que a metodologia de cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), em boa parte do século passado, não considerou atividades relacionadas ao governo, à intermediação financeira e aos alugueis. A reestimativa procura incorporar essas atividades – como elas cresceram menos do que outros setores, como a indústria, o desempenho agregado fica pior.

No consenso da história econômica, a economia brasileira ficou praticamente estagnada ao longo do século XIX. No século XX, se destacou com um dos ritmos de crescimento mais acelerados do mundo, mas voltou à estagnação de 1980 até hoje. No início deste ano, os professores Marcelo de Paiva Abreu Luiz Aranha Corrêa do Lago, da PUC-Rio, e André Arruda Villela, da Fundação Getulio Vargas (FGV), publicaram um livro sobre a economia do Brasil durante o Império sob o título de “A Passos Lentos (ed. Almedina).

No texto de agosto, Bacha, Tombolo e Versiani sugerem que essa dinâmica, marcada por “quebras estruturais extraordinárias” no ritmo de crescimento, passando da estagnação ou lentidão ao avanço acelerado, não passa de “ilusão estatística”. Um crescimento menos acelerado de 1900 a 1980 implica num ritmo melhor no século XIX – a pesquisa de Bacha, Tombolo e Versiani inclui a reestimativa para o século retrasado e será apresentada num artigo científico que deverá ser publicado ainda este ano.

A reestimativa para tempos mais remotos é mais difícil porque faltam dados. “Para o século XIX, não temos quantidades, estatísticas de produção. Só de exportação e importação. Produção interna, não temos”, diz Bacha, que dará uma palestra sobre a história da economia, na próxima quinta-feira, 29, no ciclo de conferências “200 anos de Brasil na ABL”, na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio, da qual é membro.

Justamente porque há menos informação sobre o século XIX, “um dos argumentos para justificar a estagnação” da economia do Império era “aceitar” o acelerado crescimento do século XX, diz Bacha. Afinal, para crescer tanto, o PIB de 1900 tinha que ser “muito baixinho”. Agora, com as contas refeitas para o século XX, “indo da frente para trás”, um crescimento menor implica um nível de PIB mais elevado em 1900 do que o estimado nas estatísticas atuais. “Aí, cabe um século XIX crescendo mais”, afirma Bacha.

Professor de história econômica na FGV de São Paulo, Thales Zamberlan Pereira acha improvável que reestimativas sobre o século XIX apontem para um crescimento muito mais acelerado. O cenário de crescimento um pouco mais acelerado é condizente com a estabilidade econômica que se seguiu à abdicação de d. Pedro I, em 1831, após um cenário de crise, com inflação alta e atrasos de salários, ter ajudado a impulsionar o movimento de Independência em 1822. Pereira e o jornalista Rafael Cariello descrevem esse quadro de 200 anos atrás no livro “Adeus, senhor Portugal”, lançado por conta do bicentenário da Independência.

Para o professor da FGV em São Paulo, apurar os cálculos sobre o crescimento econômico no século XIX é um importante trabalho de pesquisa para a história econômica. Além da escassez de dados sobre a produção, outro obstáculo importante desse empreendimento científico é a falta de índices de preços bons o suficiente para medir a inflação, variável muito importante no cálculo do PIB. Mesmo assim, para Pereira, as reestimativas dificilmente farão diferença no entendimento atual sobre a economia daquela época.

Fonte: Vinicius Neder, Estadão, 28/09/2022.