Uma nova biografia, “Sigmund Freud – En Son Temps et dans le Nôtre”, de Élisabeth Roudinesco

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A historiadora francesa Élisabeth Roudinesco

Setenta e seis anos após a morte de Sigmund Freud, que serão completados em 26 de setembro, o criador da psicanálise continua sendo tema de inúmeros estudos e publicações. Uma nova biografia, “Sigmund Freud – En Son Temps et dans le Nôtre” (Em seu tempo e no nosso), da historiadora francesa Élisabeth Roudinesco, chegará às livrarias brasileiras no começo de 2016 pela editora Zahar.

A obra de Élisabeth, de 592 páginas, é a primeira biografia sobre Freud (1856-1939) escrita por uma grande autoridade francesa na área. Publicada no ano passado na França pela editora Seuil, ela já vendeu 25 mil exemplares e será lançada em uma dezena de países, entre eles Itália, Estados Unidos, Turquia e China.

Ela surge décadas depois das biografias de Freud escritas por Ernest Jones (1879-1958), seu discípulo, e pelo historiador alemão Peter Gay (1923-2015), consideradas referências mundiais sobre o assunto. Élisabeth ¬- autora de inúmeras obras sobre a psicanálise e diplomada em letras pela Universidade da Sorbonne – restitui, com um estilo de romance, o ambiente em Viena em que viveu Freud no fim do século XIX e também traz um novo enfoque, segundo a autora, nas relações com seus discípulos.

Vários anos após a morte de Freud, ele ainda é alvo de inúmeras críticas e polêmicas, expostas em obras como “O Livro Negro da Psicanálise”, organizado por Catherine Meyer, e “O Crepúsculo de um Ídolo – A Fabulação Freudiana”, de Michel Onfray. Após tantos ataques realizados nas últimas décadas pelos “antifreudianos radicais”, não se sabe mais hoje quem era Freud, diz Élisabeth.

A historiadora de 70 anos especializada em psicanálise teve acesso a novos arquivos da Biblioteca do Congresso de Washington para realizar a biografia. No livro, ela derruba o que chama de “lendas fabricadas” em relação a Freud, como o fato de que ele teria tido uma relação com sua cunhada ou abusado de sua sobrinha. Já a vida sexual do maior teórico moderno sobre a sexualidade teria durado apenas nove anos, segundo Élisabeth.

Freud continua em voga apesar do declínio da psicanálise, como admite a historiadora. Hoje, tomar psicotrópicos se tornou praticamente a regra geral dos tratamentos terapêuticos. Leia a seguir entrevista concedida em seu apartamento, em Paris.

Valor: Por que uma nova biografia sobre Freud após as de Ernest Jones, seu discípulo, e a do historiador alemão Peter Gay, consideradas emblemáticas? O que o seu livro traz como novidade?

Élisabeth Roudinesco: A última biografia sobre Freud foi escrita há 25 anos. Tive acesso a novos arquivos que não foram explorados por Peter Gay. O que há de novo é o enfoque. Para Peter Gay, Freud é um sábio universal da época vitoriana que poderia ter nascido na Inglaterra. Gay concentrou tudo em Freud, deixando seus discípulos na penumbra. Eu mudei essa perspectiva. Descrevo Freud com a família, os círculos de seus discípulos e suas obras. Há uma imersão na Viena do fim do século XIX, no mundo dos judeus e do irracional. Eu mostro, diferentemente de Peter Gay, os debates internos entre os discípulos de Freud. Isso é muito importante. Os discípulos não são imbecis que obedecem cegamente. Quis apresentar Freud dividido entre Fausto e Mefisto, ou seja, herdeiro do germanismo, das culturas romântica e austríaca. Há também uma reflexão sobre questões políticas, como Freud diante do nazismo.

Valor: Os pacientes também têm destaque no livro…

Élisabeth: Eu quis sobretudo mostrar os pacientes que ainda eram desconhecidos e isso é algo novo. Quanto aos que já haviam sido identificados, esforcei-me para contar a verdadeira história deles, comparando a maneira como Freud os descreveu com o que foi a vida real deles, já que os verdadeiros pacientes descritos nos casos de psicanálise se tornaram mais ou menos objetos de ficção.

Valor: O seu livro é uma reabilitação da psicanálise?

Élisabeth: A psicanálise não precisa ser reabilitada. Já escrevi muito sobre esse tema, inclusive no “Dicionário da Psicanálise”. É um livro especificamente sobre Freud em seu mundo e sua época. A história do ódio contra a psicanálise é tão antiga quanto a própria psicanálise. Mas não se deve confundir isso com o “antifreudismo”. Os ataques convergem, mas são diferentes. Na primeira metade do século XX, Freud é acusado de todas as indecências morais. Ele é visto como o responsável por ter introduzido a sexualidade em tudo e pela liberdade de costumes e sexual. Naquele momento, ele foi alvo da igreja e dos moralistas. Depois, na segunda metade do século XX, ele passou a ser acusado de não ser um cientista. Acho que o movimento psicanalítico tem responsabilidade na difamação da psicanálise. Para reagir às críticas, ele acabou se fechando em uma atitude dogmática, vista como totalitária, o que é em parte verdade.

Valor: A senhora diz que ao tentar fazer da psicanálise uma ciência, Freud acabou criando problemas para a disciplina. Por quê?

Élisabeth: Não é uma ciência, no sentido de ciências da natureza. Ele nunca pretendeu que fazia algo científico. Freud não inventou uma ciência, ele propôs uma teoria racional da consciência. Se tiver de ser classificada em algum lugar, seria na área de ciências humanas.

Valor: As críticas contra Freud aumentaram nos últimos anos com as publicações “O Livro Negro da Psicanálise – Viver e Pensar Melhor sem Freud”, organizado por Catherine Meyer, e “O Crepúsculo de um Ídolo – A Fabulação Freudiana”, de Michel Onfray. Por que Freud é tão atacado?

Élisabeth: Michel Onfray apresenta Freud como um reacionário e não como um teórico da transgressão. “O Crepúsculo de um Ídolo” possui 600 erros factuais e tudo o que Onfray faz é ruim. Esse livro, aliás, não teve muito impacto no Brasil. Quanto ao “Livro Negro da Psicanálise”, ele repete o que ocorreu nos Estados Unidos sobre a crise dos arquivos. Até os anos 90, os arquivos (das correspondências de Freud) eram inacessíveis aos historiadores. Isso provocou todos os rumores possíveis, até mesmo de que havia uma conspiração para esconder os abusos sexuais de Freud (supostamente sofridos e cometidos por ele). É algo recorrente.

Valor: Quem foi esse homem que provocou tantas controvérsias?

Élisabeth: Freud não era um homem ligado ao dinheiro. Ele colecionava objetos de arte, tinha empregados em casa, vivia como um burguês afortunado, mas sem ostentação. Era politicamente conservador, consumiu cocaína por um tempo antes de se tornar um grande fumante de charutos. Ele tinha tendência depressiva e sua vida foi totalmente dedicada à sua paixão. Seus defeitos eram os mesmos de pessoas comuns. Era dogmático e detestava opiniões contrárias às suas. No fundo, era um homem normal com o paradoxo, no caso de um racionalista, de ser fascinado pela irracional.

Valor: A senhora menciona no livro que a tumba de Freud chegou a ser profanada no ano passado…

Élisabeth: Parece que os vândalos queriam furtar uma urna. Eles quebraram o vidro que a protegia e a urna também se quebrou. Eles não foram presos e não sabemos porque eles fizeram isso. É possível que eles não tenham optado por profanar especificamente o local onde estão as cinzas de Freud e tenham encontrado sua urna por acaso. Simbolicamente, acho fascinante que esse ato de vandalismo tenha sido cometido justamente contra Freud.

Valor: A vida sexual do maior teórico moderno da sexualidade durou somente nove anos (Freud morreu aos 83 anos), segundo o seu livro. Isso não é paradoxal?

Élisabeth: É verdade. É certeza de que durante os quatro anos de noivado com Martha Bernays, Freud não teve relações com outras mulheres. Ele não era virgem quando se casou e não teve nenhuma história importante antes, apenas um amor de adolescência com Gisela Fluss, quando tinha 17 anos. Após isso, como era frequente na época, ele provavelmente deve ter frequentado bordéis, mas nunca falou sobre o assunto. Isso quer dizer algo bem claro: esse homem não teve uma sexualidade desvairada, era um amante romântico. Nunca foi provado, como os rumores diziam, que ele teve uma relação extraconjugal com sua cunhada, Minna Bernays.

Valor: Por que Freud se impôs tal abstinência sexual?

Élisabeth: Porque Martha, sua mulher, não queria mais filhos e Freud também não. Freud não tinha vontade de utilizar os  preservativos grosseiros da época, de borracha. Os métodos contraceptivos naquela época eram pouco eficazes. Penso que sua mulher não queria mais ter relações físicas, embora ele sim. Mas Freud tinha horror ao adultério e não tinha tempo para procurar parceiras. A única possibilidade era sua cunhada, Minna, que morava em sua casa e com quem ele teve uma cumplicidade quase amorosa.  Não podemos excluir que um belo dia tenha acontecido algo entre eles, mas não foi certamente uma relação contínua. Pensar isso seria desconhecer como viviam as grandes famílias burguesas da época. Havia seis crianças e três governantas. Era impossível alguém não ter visto algo.

Valor: No fim, foram outras pessoas, como Wilhelm Reich (1897-1957), discípulo de Freud, que acabaram fundando conceitos modernos, como a liberação sexual, que influenciaram o estilo de vida contemporâneo…

Élisabeth: Reich tinha razão contra o nazismo, mas sua concepção da liberação sexual é discutível. Reich, que teve um destino trágico [morreu de ataque cardíaco, aos 60 anos, em uma prisão nos EUA], era um personagem simpático, mas delirante. Freud foi muito severo com ele. As teorias de Reich que entraram para a posteridade são teorias do desejo biológico. Muitos filósofos, como Gilles Deleuze [1925-1995], se inspiraram nelas, inclusive os teóricos da liberação pelo orgasmo, nos anos 60. Tudo isso é muito simpático, mas tem limites. É menos forte do que o desejo no sentido platônico de Freud. No fundo, Reich era um sexólogo, disciplina que não é muito interessante. Os problemas sexuais das pessoas não são resolvidos por meio de performances sexuais. Freud descreve em um livro como as crianças imaginam a sexualidade. Isso em uma época onde elas eram impedidas de se masturbar.

Valor: A senhora cita no livro casos de pacientes com histeria que jamais foram curados e afirma que Freud foi um “medíocre” terapeuta da loucura.

Élisabeth: Da loucura sim, mas não da neurose. Freud considerava que a psicanálise foi feita para os neuróticos. Segundo ele, doentes mentais, psicóticos, não deveriam fazer análise, ou seja, a cura-tipo (com divã) não era indicada nesses casos. Mas ele deixou seus discípulos, [Carl Gustav] Jung [1875-1961] e [Karl] Abraham [1877-1925], ambos psiquiatras, introduzirem os métodos psicanalíticos nos meios psiquiátricos.

Valor: Hoje, no plano terapêutico, as pessoas com problemas psíquicos preferem tomar remédios, como antidepressivos. Na área de pesquisas, as neurociências também acabaram ofuscando os trabalhos dos psicanalistas. A psicanálise está em crise?

Élisabeth: A psicanálise está em declínio e não vai voltar a ser o que era. Ela avançou graças à psiquiatria até os anos 80. Depois disso, a psiquiatria se tornou totalmente biológica, como também a formação dos psiquiatras. No meio médico, considera-se hoje que os problemas psíquicos são devidos a disfunções na biologia do cérebro. A psicanálise foi então descartada da medicina e é cada vez mais exercida por psicólogos. Abandonada pelo hospital, ela enfrenta a concorrência de todos os tipos de terapias. Mas ainda existem inúmeros psicanalistas que continuam tratando pacientes psicóticos, em casos em que os medicamentos não convém ou não são suficientes. Além disso, áreas como a da pedopsiquiatria resistem aos tratamentos somente químicos, apenas com remédios. A psicanálise vai continuar existindo para as crianças.

Valor: A cura psicanalítica, com a pessoa deitada no divã, está então em vias de extinção?

Élisabeth: Nos hospitais, certamente, mas ela continua sendo praticada no setor privado. A cura-tipo, enquanto exploração do inconsciente de pessoas com neuroses, é agora, na França, algo reservado a estrelas do “showbiz” ou pessoas com muito dinheiro e suficientemente inteligentes para saber que remédios não são suficientes. Uma análise custa caro. Na França, ela não é mais reembolsada pelo seguro social. No Brasil, a psicanálise ainda domina nos hospitais e ela é ensinada nas universidades, nos departamentos de psicologia.

Valor: É por isso que a senhora diz que o Brasil é provavelmente hoje o país mais freudiano do mundo?

Élisabeth: Sem dúvida. O Brasil incorporou todas as terapias europeias. Os brasileiros são ecléticos. Eles devoraram as teorias de Freud, de [Jacques] Lacan [1901-1981], de Mélanie Klein [1882-1960] e fabricaram um Freud à maneira deles. Eu diria com pouca reflexão teórica, mas isso não significa que não existam pessoas que desenvolvam teorias. Há muitos profissionais que dizem estar ligados à psicanálise. Não existe a barreira que há na França, de um lado as psicoterapias e, de outro, a psicanálise. No Brasil isso foi misturado. Há muitos institutos privados, onde são formados clínicos com diploma universitário e onde pacientes são tratados, o que não ocorre na França. Foi só no Brasil que vi um instituto de psicanálise contemporâneo, com salas Freud, Lacan, Mélanie Klein…

Valor: Podemos dizer que a forma moderna da neurose hoje é a depressão?

Élisabeth: A depressão foi mais na época em que escrevi sobre a sociedade depressiva [1999]. Hoje é mais a angústia. Angustiados e neuróticos foram tratados com antidepressivos. Então se concluiu que todo mundo era depressivo. Hoje é pior do que em 1999. Não há mais relação entre médico e paciente, no plano psíquico, e todo mundo toma os mesmos remédios para tudo. Hoje, são dados neurolépticos [antipsicóticos] e antidepressivos a pessoas neuróticas. As pessoas com “burnout” [esgotamento profissional] ficam em casa e tomam remédios, é delirante. Dar um monte de remédios para isso não é bom. Há 30 anos isso não acontecia. Hoje, as pessoas tomam remédios durante anos. Certo, eles são eficazes, mas adormecem.

Valor: A senhora diz que existe uma revolta contra os medicamentos..

Élisabeth: Adultos com problemas mentais começam a contestar a cura totalmente química.  Existem hoje “mad prides” [orgulho da loucura], como no modelo da “gay pride” [orgulho gay], onde doentes mentais dizem que não querem mais tomar remédios.

Valor: Freud quis universalizar suas pesquisas sobre o indivíduo no livro “O Mal-Estar da Civilização” (1930), uma de suas principais obras. Qual é a mensagem política nessa publicação?

Élisabeth: A principal teoria de Freud, não apenas neste livro, é que a pulsão de morte, a tendência de o homem a se destruir existe tanto interiormente, quando ele descobre que certos pacientes não querem se curar, quanto coletivamente, ou seja, que a humanidade fabricou algo para satisfazer seu desejo de morte, que existe ao lado do desejo de viver. Essa é a tese central. Ele diz que a única maneira de lutar contra essa tendência da humanidade de desejar sua própria morte é a civilização e a cultura. É apenas a civilização que pode lutar contra a barbárie. É uma teoria universal. O indivíduo não escapa de seu desejo de autodestruição, mas para escapar existe a lei, a civilização.

Valor: Qual é o legado de Freud? Ele nos deu instrumentos para compreender o mundo de hoje?

Élisabeth: É uma grande revolução, ao lado das realizadas por Charles Darwin [1809-1882] e Karl Marx [1818-1883]. É difícil pensar que temos um inconsciente, um psiquismo complicado. Freud contribuiu com isso. É imprescindível e vai além do interesse terapêutico da metodologia.  No cotidiano, usamos termos como lapso, inconsciente. A ideia de que as pessoas têm um inconsciente é amplamente difundida. O debate em torno de Freud, Darwin, Marx e Albert Einstein [1879-1955] é permanente. Meu livro foi traduzido na China, embora não existam psicanalistas no país. Por quê? Porque Freud é um  grande pensador.

Fonte: Daniela Fernandes | Para o Valor, de Paris

Psicanálise: Civilização em estresse permanente

Steffen Kugler/Picture-alliance/DPA/APPainel com palavras (em alemão) centrais para a teoria psicanalítica, como “desejo” e “histeria”, em mostra sobre Sigmund Freud, no Jewish Museum, em Berlim

Dick Cavett, o entrevistador, pergunta para Woody Allen: “Como você sabe se a psicanálise te ajudou? Quando você decide que terminou?” Era 1971 e o cineasta americano ainda não tinha feito clássicos como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” nem se tornado uma espécie de garoto-propaganda informal da teoria/prática terapêutica criada por Sigmund Freud (1856-1939). “Não sei se você realmente termina. Sei que certas características minhas estão diferentes de quando eu comecei. Eu tinha 22 anos e agora tenho 35. Então tenho idade – e isso é algo”, responde Allen no talk-show, em seu habitual tom zombeteiro que busca disfarçar, mas nem tanto, temas graves.

Neste começo de século XXI, em que homens, profissões, produtos e formas de pensamento enfrentam o risco constante de se tornar obsoletos, a psicanálise, uma das grandes criações do século XX, pode parecer uma prática excêntrica ou anacrônica, como ouvir discos de vinil e usar máquina de escrever. Freud vai se juntando a nomes como Karl Marx (1818-1883) na galeria dos pensadores que são demonizados em ondas revisionistas. Entre os defensores está a francesa Élisabeth Roudinesco, autora de uma nova biografia de Freud.

Enquanto rapidez, performance e resultados mensuráveis são buscados constantemente no cenário contemporâneo, a psicanálise caminha em um ritmo particular. Seus detratores costumam recitar três críticas: ela não tem eficácia comprovada, seria um método caro e tem duração longa. Nos EUA, foi moda entre os anos 40 e 60 ao ser confundida com uma terapia da felicidade e teve entusiastas como Alfred Hitchcock (1899-1980) e Leonard Nimoy (1931-2015).

Hoje, naquele país, pouco se questiona se a psicanálise é ciência ou filosofia, posição intermediária que lhe confere lugar peculiar na produção de conhecimento do Ocidente. Enquanto a psicologia vai se tornando mais científica, a psiquiatria, mais biológica, e a neurociência faz o mapeamento do cérebro, a psicanálise vem sendo estudada nos departamentos de letras das faculdades americanas. Nessa interpretação, ela é um modo de entender a construção da história pessoal do indivíduo. No Brasil, mantém proximidade com departamentos de psicologia.

“Sofremos no mundo moderno, mas persistimos porque há algo na psicanálise que tem a ver com o que chamamos de verdade”, afirma Daniel Delouya, diretor do conselho científico da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi). “Como há essa ligação com o inconsciente, sempre vai ter ataque à psicanálise. E é bom que tenha porque isso mostra que algo existe ali para ser negado.”

A questão foge aos ditames do pragmatismo. O mesmo paciente Woody Allen daquela entrevista com Dick Cavett teve, 37 anos mais tarde, outra opinião. “As pessoas me dizem: ‘Você fez psicanálise durante tanto tempo, mas é tão neurótico e acabou se casando com uma garota muito mais nova. Você não gosta de passar sob túneis, não gosta de ficar perto do ralo na hora do banho'”, disse o diretor de cinema à revista “New York” em 2008. “Mas eu digo que tive uma vida muito produtiva. Trabalhei duro e nunca caí em depressão. Não tenho certeza de que poderia ter conseguido tudo isso sem a psicanálise. Dizem que é apenas uma muleta. E eu diria que sim, é uma muleta e o que preciso nesta altura da vida é uma muleta.” No sistema binário do “funciona ou não funciona?”, a psicanálise promove um curto-circuito.

“A sociedade contemporânea espera que os indivíduos sejam performáticos, que não tenham falhas”, diz Joel Birman

Na era da performance, muletas soam como sinônimo de lentidão e, portanto, fracasso. Remédios, terapias alternativas, práticas esotéricas ou mesmo a religião prometem curas definitivas e soluções mais rápidas e eficazes ao sofrimento. Muletas, vale lembrar, dão apoio para que se possa viver com uma falta, algo que nunca poderá ser restituído. “Todos querem resolver seus problemas, mas de forma rápida. A noção de felicidade é de que tudo que você quer vai acontecer”, diz Ana Paula Terra Machado, diretora do conselho profissional da Febrapsi. E, diferentemente dos “coachs” dos dias atuais, o psicanalista clássico nunca vai dar conselhos para seu paciente. “O ser humano sofre, essa é a questão.”

A psicanálise, no entanto, não é uma técnica para alcançar a resignação. Na clínica, o modelo tradicional propõe que o paciente, durante sessões de 50 minutos, se deite no divã ou se sente numa poltrona. O analisado deve falar o que lhe vier à mente, sem restrições morais ou de raciocínio lógico. Os pensamentos seguem o fluxo livre das associações feitas pelo paciente. Por isso, nos seus primórdios, chegou a ser chamada de “a cura pela fala”. Lembranças de infância, questões sexuais, comportamentos de resistência e a transferência de sentimentos (afetuosos, agressivos etc.) dirigidos ao analista são alguns dos elementos que serão contextualizados. O analista vai ouvir, sem julgar, e cumprir o compromisso de que tudo dito ali será confidencial. Tentará identificar as origens de comportamentos repetitivos e os desejos inconscientes do paciente, por exemplo. Pela afirmação, hoje mais aceita, de que a sexualidade está presente já na primeira infância, a psicanálise foi tachada de “degenerada” e “pansexualista”.

“A psicanálise é um método de trabalho, uma visão do funcionamento mental, uma ferramenta intelectual para entender o ser humano e, eventualmente, cuidar do seu sofrimento”, diz o psicanalista Renato Mezan, autor de “Os Troncos e os Ramos” (Companhia das Letras). “Mas não se trata da panaceia universal. A psicanálise pergunta: ‘Em que medida você contribui para a confusão de sua própria vida?’.”

É justamente nos momentos em que mais se torna uma experiência à margem que a psicanálise reencontra sua vocação original e tem mais a dizer à sociedade. Judeu não religioso, Freud desde o início viveu experiência de exílio. Na ânsia por afastar o estigma de “ciência judaica” conferido à psicanálise, fez de um psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung (1875-1961), seu “príncipe herdeiro” – a posterior ruptura seria traumática para ambos.

“As ideias de Freud chocavam porque falavam de sexualidade ou porque eram consideradas meio taradas, pornografia científica”, diz Mezan. Médico por formação, Freud se especializou em neurologia e intrigavam-no os numerosos casos de histeria por volta da década de 1880. Ao estudar na França com o então renomado psiquiatra Jean-Martin Charcot (1825-1893), Freud testemunhou demonstrações de hipnose em histéricas, provando que a doença tinha causas psíquicas, mas não orgânicas. Segundo o “establishment” médico, se não havia causa orgânica, tudo não passava de simulação de mulheres que buscavam atenção. A histeria, uma neurose que se traduz em sintomas corporais (paralisias, dificuldade da fala etc.), ainda não possuía a conotação de adjetivo corriqueiro e vulgar dos dias atuais.

DivulgaçãoWoody Allen fez terapia durante mais de 30 anos e, em filmes como “Manhattan” (1979), ajudou a popularizar a psicanálise
“A grande sacada de Freud foi fazer a pergunta: ‘Onde está isso?’ Se a pessoa não se lembra, não é consciente. Se não é consciente, é inconsciente. Mas como pode haver algo na mente que é inconsciente? Não havia teoria para isso. E foi para responder a essa simples pergunta que se desenvolveu toda a psicanálise.” A divisão da vida psíquica entre inconsciente, pré-consciente e consciente constitui a chamada “primeira tópica”, um modelo topológico hipotético da mente, sem um correspondente físico.

Durante mais de dez anos, Freud foi colhendo casos na clínica e tateando as bases para a sua teoria. O encontro com o médico Joseph Breuer (1842-1925), com quem publicou o livro “Estudos sobre Histeria” (1895), foi fundamental. “Nele já aparecem questões como a repressão: a noção de que ideias inconscientes são inconscientes porque foram bloqueadas por um mecanismo defensivo, para evitar a irrupção de angústia, porque eram pensamentos repudiados pela moral ou pelo próprio paciente”, afirma Mezan. “O peso da sexualidade nos sintomas vão se mostrando enormes.”

Na estrutura pensada por Freud que explica o funcionamento do aparelho psíquico, o “id” é a parte profunda, primária, da psique, habitada por desejos inconscientes e material reprimido. O superego age como um vigilante consciencioso, uma instância moral surgida a partir da absorção das normas sociais. O ego constitui a parte externa dessa estrutura, que mostramos no mundo “real” e que tenta achar um lugar entre o “princípio do prazer” e o “princípio de realidade”.

Muito já foi escrito sobre a influência do ambiente cultural na criação de Freud. Para o psicólogo Bruno Bettelheim (1903-1990), de “A Psicanálise dos Contos de Fada”, o cenário hedonista da decadência do Império Austro-Húngaro teria contribuído para um “surto” de histeria no fim do século XIX. Ao mesmo tempo, visões positivistas eram incorporados pela ciência. Ao tratar de temas não tangíveis, como os sonhos, Freud estava ao mesmo tempo ouvindo pessoas e o espírito de época.

Portanto, para os críticos, uma teoria tão colada ao seu tempo não teria mais validade, percepção refutada por psicanalistas de diferentes vertentes. “Existem elementos no nosso funcionamento psíquico, mental, que são permanentes, próprios da espécie humana”, diz Mezan. “Todo ser humano precisa andar em duas pernas, aprender a falar, crescer e se tornar autônomo dos pais. Ele tem memórias, passa por traumas, nada disso muda de acordo com as culturas e épocas. Isso é universal.”

A histeria de ontem deu lugar à “epidemia” de depressão de hoje. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 400 milhões de pessoas no mundo sofrem da doença. As mulheres são as mais afetadas e o leque de sintomas é amplo. “Depressão é caracterizada por tristeza, perda de interesse ou prazer, sentimentos de culpa ou baixa autoestima, distúrbios no sono ou no apetite, cansaço e fraca concentração. Enfermos podem também ter múltiplas queixas físicas sem causa aparente”, diz comunicado de 2014.

A psicanálise é um método possível de tratamento entre vários. “O sofrimento humano é oriundo de três fontes: do nosso próprio corpo, quando estamos com problemas de saúde; da natureza, como catástrofes; e o terceiro, da relação entre as pessoas”, diz Ana Paula. “São sofrimentos do dia a dia, desde questões pequenas até guerras. Não existe remédio específico para a questão do desejo e da culpa.” Segundo a OMS, a depressão é uma das principais causas de incapacitação no mundo.

A psicanálise é indicada para certos tipos de questões, para neuróticos e “borderliners” (fronteiriços), além de ser ferramenta para momentos de crise pessoal, em que a pessoa “perde o chão”. No seu auge nos EUA, era procurada por pessoas em busca de autoconhecimento, contribuindo para a imagem depreciativa de que psicanálise é apenas passatempo intelectual das classes mais abastadas.

Assim como na Viena de Freud, a psicanálise ainda se apresenta como uma espécie de ombudsman do mundo. Um famoso diagnóstico de Freud sobre a sociedade e o conflito entre libido, repressão e obrigações impostas pela nossa vida em comunidade, “O Mal-Estar na Civilização” (1930) foi escrito às vésperas do colapso da Bolsa de Nova York, em 1929, e ultrapassou as barreiras da psicanálise para se tornar leitura essencial da área de humanas.

“Somos ancorados na escuta clínica privada. Mas quando escutamos o paciente, escutamos sua localização na cultura”, afirma Daniel Delouya. Uma hipótese para entender enfermidades atuais está no tema do 25º Congresso Brasileiro de Psicanálise, que ocorre entre 28 e 31 de outubro em São Paulo (“Sonho/Ato: A Representação e Seus Limites”). O homem contemporâneo, nessa visão, perdeu a capacidade de sonhar, em sentido mais amplo do verbo, e não há mais prelúdio para o ato.

DivulgaçãoTom Cruise e Nicole Kidman em “De Olhos Bem Fechados” (1999), filme baseado em livro do austríaco Arthur Schnitzler, contemporâneo admirado por Freud
O tema remonta a um livro central da psicanálise, “A Interpretação dos Sonhos” (1900). Nele, Freud afirma que os sonhos não são atividades aleatórias, sem significado, da mente. Sua devida interpretação “é a via real que leva ao conhecimento das atividades inconscientes da mente”. Dessa forma, os sonhos são expressões de manifestações de desejos, que são reprimidos por deformações, daí o caráter absurdo das imagens oníricas.

“A sociedade contemporânea espera que os indivíduos sejam performáticos, que não tenham falhas ou dúvidas. É como se cada pessoa fosse uma microempresa cuja marca somos nós mesmos. O lugar do sonho, da utopia ou da dúvida não pode existir”, afirma o psicanalista Joel Birman, autor do livro “O Sujeito na Contemporaneidade – Espaço, Dor e Desalento na Atualidade” (ed. Civilização Brasileira), vencedor do Prêmio Jabuti na categoria psicologia e psicanálise.

O autor utiliza a expressão “empresário de si mesmo”, do filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), para mostrar como instâncias coletivas atuam sobre a subjetividade individual. “O neoliberalismo não é apenas um modo de produção econômica. É também uma forma de constituição dos laços sociais”, diz Birman. “O indivíduo performático, ’empresário de si mesmo’, é o pivô dessa construção. As gerações jovens são obrigadas a se adaptar à mutabilidade das exigências do mercado de trabalho. Não se identificam com o trabalho, mas com o imperativo de trabalhar.”

Se a lógica da cultura atual é ser rápido, sucinto, poderíamos reduzir esta reportagem à seguinte constatação: o homem contemporâneo pensa menos e age mais. E isso não é algo necessariamente bom, uma vez que os custos surgem na forma de sintomas. Questões que não são novas surgem, também, de forma reforçada, acelerada. Narcisismo, “drogadição” (não apenas drogas ilícitas, mas também remédios), violência, extremismo, misticismo, nostalgia do passado etc. Para Birman, vivemos num estado de estresse permanente.

Daniel Delouya usa o termo “excitação infinita” para definir a condição imposta ao homem contemporâneo. Como exemplo, cita crianças que ficam agitadas no momento de dormir ou pessoas que, no fim de semana, não relaxam, pois buscam tornar o descanso também um momento de produção. “Hoje, a psiquiatria é o maior agenciador de psicotrópicos no mundo. Antidepressivos, ansiolíticos, reguladores de sono acalmam, baixam o tônus, mas não mudam a estrutura das pessoas. Os remédios são a expressão dessa modernidade que exige que, para você ser incluído nela, é preciso lidar com um desafio maior.”

Mas, diferentemente de tempos passados, hoje há um diálogo maior entre psiquiatras e psicanalistas. Em muitos casos, os dois profissionais podem ser acionados ao mesmo tempo. “Uma pessoa que está numa situação de depressão profunda, que não consegue sair da cama, precisa tomar um medicamento”, diz Renato Mezan. Ele não deixa, no entanto, de notar uma curiosa similaridade entre os tempos atuais e os dias pré-psicanálise, quando a medicina deixava de lado o psíquico. “Nós voltamos a esse tempo. Acreditar que toda doença tem causa exclusivamente orgânica é obscurantismo, é como acreditar em bruxaria e ETs”, continua. “A vida humana é mais do que reações químicas.”

O caráter sensacionalista de irrupções de violência, como as perpetradas pelo Estado Islâmico ou a morte de 150 pessoas na queda de um avião nos Alpes franceses causada por um piloto no começo do ano, podem tornar tentadora a suposição simplista de que a civilização testemunha um lento e gradual retorno à barbárie. Um olhar psicanalítico poderia ver também a manifestação da cultura do ato se sobrepondo à elaboração e à reflexão.

Para Pedro de Santi, psicanalista e professor da PUC-SP e da ESPM, o sujeito contemporâneo tem sua representação no personagem central do filme “Clube da Luta” (1999). Ele não tem nome, não consegue dormir e busca experiências intensas para aplacar um vazio interior. Joel Birman, em seu livro, prefere citar o personagem de Tom Cruise em “De Olhos Bem Fechados” (1999), um médico que, atordoado por uma confissão erótica da mulher, passa por experiências pautadas pelo sexo e pela morte. “É a função do sonhar para a existência humana que está sempre em questão nesta narrativa”, escreve.

KeystonePictures USA/Zumapress.comNova biografia de Sigmund Freud, o criador da psicanálise, busca derrubar “lendas”, como uma relação extraconjugal com a cunhada ou o abuso da sobrinha
“Estamos vivendo em uma lógica da sobrevivência”, diz De Santi. “Existe uma dinâmica chamada ‘cultura do narcisismo’, que é uma cultura de excesso, diante do excesso de informação. Todo o universo freudiano clássico do sonho é desenhado em cima da falta. É a partir dessa falta que se gera uma série de fantasias e sonhos, justamente para restituir a situação anterior perdida.” Em sua concepção, vive-se um ambiente de “excesso de vazio”.

A produção artística de uma época é, de certa forma, também um sintoma, manifestação de temas caros a um momento específico. O interesse de Freud em áreas como literatura e artes costuma ser utilizado pelos seus críticos como prova de que a psicanálise não tem nada de científico. O próprio vocabulário da psicanálise é permeado por personagens da mitologia (Édipo, Narciso) e Freud “atendeu” a figuras históricas, como Leonardo da Vinci (1452-1519), a quem dedicou um texto analítico que tem como ponto de partida uma lembrança de infância do autor de “Mona Lisa”.

A cultura dá pistas de enfermidades. Em debate na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho, o crítico de cinema da “Folha de S. Paulo” Inácio Araujo disse que literatura é o que menos se via no evento, dada a abundância de historiadores, cientistas e economistas. “O essencial da ficção nunca foi o verossímil, mas a verdade. Nisso ela é muito parecida com o sonho. O que ocorre nos sonhos quase nunca é ‘coerente’ ou respeita a unidade psicológica do personagem. Mas aquilo nos atinge realmente. Sentimos ali uma verdade incontornável”, diz Araujo ao Valor. “O esforço de interpretar o mundo, de conhecê-lo, de responder a ele pela ficção está um tanto abafado. Talvez pela indústria cultural, talvez porque os melhores talentos se deslocaram para outras áreas.”

Justamente porque anda na contramão, a psicanálise pode dar sua contribuição – ainda que os profissionais associados à International Psychoanalytical Association, criada em 1910 por Freud para dar legitimidade e continuidade aos seus discípulos, possam parecer poucos. São 12.700 membros oficiais e 4.700 em processo de formação, em 63 países. No Brasil, são 2.064 associados. Se nos EUA e na França a psicanálise enfrenta tempos difíceis, ela também se expande por territórios além do Ocidente, como a China e a Índia.

A espinhosa questão da formação do psicanalista estava presente desde os tempos de Freud e tanto lá como agora são vários os profissionais que não passam pelos critérios da IPA. Não é necessária formação médica para exercer a psicanálise – o grande nome da psicanálise crítico à IPA é o francês Jacques Lacan (1901-1981). Na tabela de ocupações do contribuinte do Imposto de Renda no Brasil, psicólogos e psicanalistas dividem o mesmo código. Neste ano, 98.636 pessoas no país se declararam como tais. O recém-lançado livro “Manifesto pela Psicanálise” (ed. Civilização Brasileira), de Erik Porge, Franck Chaumon, Guy Lérès, Michel Plon, Pierre Bruno e Sophie Aouillé, discorre sobre as fragmentações e dogmas que enfraqueceram a psicanálise. O consenso é de que a formação não deve passar pela supervisão do Estado, mas ser regulamentada pelas próprias entidades.

Como a psicanálise fala sobre o caráter limitador apresentado pela realidade, ela não pode ignorar o presente e louvar os velhos tempos. Como atender, por exemplo, à população mais jovem, que sofre os sintomas da contemporaneidade, mas já nasceu nela? “Não posso conversar com essa população e dizer que as pessoas não podem ser competitivas porque é nesse meio corporativo, que exige performance, que elas vão entrar”, diz a psicanalista Andréa Carvalho, uma das organizadoras do livro em dois volumes “Psicanálise Entrevista” (ed. Estação Liberdade), que reúne entrevistas com alguns dos principais teóricos atuais da psicanálise mundial.

“Como analista, vou tentar introduzir algo que está muito perdido hoje em dia: o conflito”, explica Andréa, que integra equipe do programa da Fundação Getulio Vargas que oferece suporte aos seus alunos de graduação. “A psicanálise tem uma função, num certo sentido subversivo, de trazer novamente toda a erotização do sujeito, que está perdida neste mundo atual.”

Dos primórdios da psicanálise, um cenário inimaginável atualmente é a configuração da prática clínica. Nos tempos de Freud, o analisado fazia sessões seis vezes por semana. Nos dias atuais, ter à disposição 50 minutos durante uma vez por semana para simplesmente falar sobre o que lhe vier à cabeça (mas sendo ouvido), longe da agitação do lado de fora do consultório, pode chocar os “empresários de si mesmos”. Na cultura do ato, a reflexão é uma subversão.

Fonte: Bruno Yutaka Saito/Valor Econômico,28/8/2015

Livro: Em “Devagar e Simples”, Lara Resende esmiúça PIB e gigantismo estatal

14006_g“Devagar e Simples – Economia, Estado e Vida Contemporânea”, do economista André Lara Resende, chega em boa hora no péssimo momento que o Brasil atravessa.

Examinado no contexto atual, de tentativa de recriação da CPMF para financiar o Estado e de queda de 1,9% do PIB no segundo trimestre, os ensaios e os artigos do autor ajudam a colocar as coisas em perspectiva. E a pensar no médio e longo prazos, para a frente e um pouco para trás.

Formado em economia pela PUC-RJ e doutor pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), Lara Resende tem grande experiência nos setores privado, como banqueiro, e público.

Ao lado de economistas destacados de sua geração, foi um dos arquitetos dos planos Cruzado (1986) e Real (1994). No governo FHC, chegou à presidência do BNDES, de onde saiu no escândalo do grampo das privatizações.

“Devagar e Simples” é uma compilação de 13 artigos escritos em momentos diferentes. Os dois primeiros se encaixam perfeitamente em nosso drama atual de economia em forte recessão. Outros mais à frente, na discussão premente sobre a necessidade de um ajuste fiscal profundo, do tamanho do Estado e de suas funções.

Lara Resende começa com uma arqueologia do PIB. Conta como ao final da Grande Depressão, no início dos anos 1930, o presidente Franklin Roosevelt encarregou Simon Kuznets, depois vencedor do Nobel, de criar indicadores confiáveis para medir o pulso da economia. Foi a origem do sistema de Contas Nacionais, usado até hoje pela maioria dos países e que tem o PIB como principal índice.

O autor fornece a detalhada explicação daquilo em que consiste afinal o PIB, de como sua medição vem sendo aperfeiçoada ao longo dos anos e como se dá com abstrações, de seus defeitos e virtudes.

“Símbolo de sucesso ou insucesso, utilizado para comparar países (…) motivo de orgulho ou vergonha nacional, o PIB transformou-se em entidade ubíqua (onipresente).”

Mais à frente, lembrando a trajetória de países desenvolvidos, tenta desmistificar a necessidade de altas taxas de crescimento contínuas. “Não são surtos milagrosos, mas a força da estabilidade, associada ao poder das taxas compostas, que leva à alta da renda e ao desenvolvimento.”

Fato que nos obriga a olhar para a ciclotimia brasileira. Sob Lula, crescemos 4% em média. Com Dilma, caímos a 2,1%. Agora, mergulhamos em forte recessão.

Mas, mesmo com o crescimento menor de Dilma 1, indicadores mostram que o processo de melhora na distribuição da renda (apoiado em mais de uma década de crescimento razoável) continuou virtuoso até o final de 2013. No período, a renda média cresceu 58%, favorecendo sobretudo os mais pobres.

REALIDADE BRASILEIRA

Em outro artigo, mais para o final do livro, Lara Resende faz “três interpretações distintas” da realidade brasileira: 1) a dos que se sentem aprisionados pela agenda econômica norte-americana do chamado “Consenso de Washington”; 2) a dos neodesenvolvimentistas, que acabaram mal no governo Dilma 1 e; 3) a do que chama de “reformismo modernizador”.

Nesta última, o autor trata de nosso grande drama de fundo desde sempre, e sobretudo agora: a necessidade de uma reforma fiscal com as vertentes tributária, previdenciária e trabalhista.

Mais à frente, complementa o rol de mudanças com indagações sobre a eficiência dos Estados (lembrando que o brasileiro já se apropria de 40% da renda). “O gigantismo desvia sua atenção para si mesmo (…) Passa a se preocupar primordialmente consigo mesmo e com a defesa de seus próprios interesses.”

Além dos artigos econômicos, o livro surpreende com a aparição de temas existenciais, filosóficos e psicanalíticos, como no ensaio “Em busca do heroísmo genuíno”.

Com profundidade e erudição, o autor traz o corolário de filósofos e pensadores sobre o sentido da existência com ou sem Deus. Busca que, em nossa modernidade, quase sempre desemboca na filosofia do absurdo de Albert Camus (1913-1960). Lara Resende sugere suportar e aceitar as contradições e contingência humanas. “E preservar a capacidade de se deslumbrar e não temer o desconhecido.”

DEVAGAR E SIMPLES
AUTOR André Lara Resende
EDITORA Companhia das Letras (216 págs.)
PREÇO R$ 44,90 /eBook R$ 30,90
CLASSIFICAÇÃO ótimo

Fonte: FERNANDO CANZIAN, FOLHA DE S.PAULO, SÃO PAULO, 29/8/2015

Líderes mulheres devem ser bonitas, aponta estudo

Fernando Vergara/AP

SÃO PAULO  –  Em julho deste ano, durante uma sessão de perguntas e respostas no Facebook, a ex-secretária de Estado americana e pré-candidata à presidência dos EUA Hillary Clinton recebeu uma pergunta sobre sua aparência. A funcionária da rede social Libby Brittain perguntou a Hillary se ela sentia pagar um “imposto de maquiagem e cabelo” — o tempo e o dinheiro extra que ela, como mulher em posição de liderança e de exposição pública, gastaria diariamente para manter a boa aparência. “Amém, irmã”, respondeu Hillary, adicionando que sabia exatamente do que Libby falava. “É um desafio diário”, escreveu.

Hillary e Libby não estão erradas em considerar essa cobrança uma atividade diária, ao menos de acordo com um estudo global sobre liderança, realizado pela empresa de comunicação Ketchum. Os dados mostram que, embora mulheres sejam vistas como donas de mais atributos importantes para a liderança do que homens, elas ainda são mais exigidas em relação à aparência.

A pesquisa falou com mais de 6 mil pessoas em 12 mercados, entre eles o Brasil, com a intenção de avaliar a expectativa da população geral quanto a lideranças de empresas, governo e terceiro setor.

Questionados sobre as qualidades mais importantes para que uma pessoa assuma uma posição de liderança, os brasileiros listaram ter inteligência, ser alguém agradável, ser amigável e ter carisma e senso de humor. Para eles, tanto líderes homens quanto mulheres precisam reunir todas essas características — embora um número um pouco maior ache que “ser amigável” é mais relevante para mulheres. Já os traços “charme” e “boa aparência” foram considerados importantes para mulheres por um número maior de pessoas.

Para 43% dos respondentes, é importante para uma mulher ter boa aparência se ela quiser ser líder, enquanto 31% pensam o mesmo de homens. Mais de um terço (35%) acha que mulheres líderes precisam ter charme, enquanto só 22% consideram o mesmo de homens. Na média global, essa diferença é ainda mais pronunciada — só 23% acham que homens líderes precisam ter boa aparência, enquanto 38% acham o mesmo de mulheres.

Na opinião de Silvia Fazio, presidente da Women in Leadership in Latin America (Will), organização não-governamental que discute a presença de mulheres em posições de liderança, há uma cobrança maior para mulheres adotarem uma certa aparência — e esta vem de diversos lados, como dos colegas, do mercado ou da opinião pública. “Infelizmente a aparência hoje é importante para todos, mas a mulher tem que estar sempre impecável, enquanto o homem não sente uma pressão tão grande”, diz. Para Silvia, a cobrança não é exclusividade do mercado de trabalho — que reflete a pressão por padrões de beleza enfrentada por mulheres no geral — mas em um ambiente profissional pode aparecer, por exemplo, em “boicotes velados”, como a pessoa deixar de ser convidada para reuniões com clientes importantes.

De acordo com a pesquisa, as mulheres foram consideradas pelos respondentes brasileiros mais capazes de ter quatro dos cinco atributos mais importantes de um líder efetivo: ter uma comunicação transparente, admitir erros, respeitar a cultura e a história da organização onde atuam e liderar com base em valores claros. Já conseguir resolver crises e assuntos controversos com mais calma e confiança foi uma habilidade atribuída aos líderes homens com mais frequência.

“Quando se faz a análise em relação a qual gênero tem mais atributos de uma liderança efetiva, a mulher atende bem às expectativas”, diz Mônica Brissac, diretora de atendimento da Ketchum no Brasil. No entanto, quando os respondentes foram questionados sobre qual líder seria mais capaz de assumir o papel durante os desafios econômicos e sociais dos próximos cinco anos, mais pessoas preferiram um líder homem neste ano do que no passado (aumento de 43% para 51%). Embora no Brasil o número fique equilibrado — 49% escolheram líderes mulheres — no mundo essa diferença é maior, com 61% preferindo homens. Os mesmos respondentes, globalmente, consideram que mulheres são mais capazes de terem três dos cinco atributos considerados mais importantes para liderança: comunicação transparente, admitir erros e conseguir tirar o melhor da equipe.

Segundo os responsáveis pela pesquisa, os números refletem a percepção de que o homem é uma liderança melhor para momentos de crise por ser considerado mais capaz de lidar com estratégias de curto prazo. “Em um momento global complicado, as pessoas acreditam que o homem tem mais a visão de resolver problemas imediatos”, diz Christiano Bianco, gerente de contas da Ketchum.

Fonte: Letícia Arcoverde | Valor, 28/8/2015. Foto: Fernando Vergara/AP

Revista Inteligência Competitiva classificada no Portal de Periódicos CAPES/MEC

É com muita honra e orgulho que informo aos nossos autores, autoras, professores, pesquisadores, profissionais, interessados e estudantes de graduação e pós-graduação que a Revista Inteligência Competitiva está classificada no Portal de Periódicos CAPES/MEC, para a área de Administração, Ciências Contábeis e Turismo.

O Portal de Periódicos atende às demandas dos setores acadêmico, produtivo e governamental e propicia o aumento da produção científica nacional e o crescimento da inserção científica brasileira no exterior. É, portanto, uma ferramenta fundamental às atribuições da Capes de fomento, avaliação e regulação dos cursos de Pós-Graduação e desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil.

A Revista Inteligência Competitiva tem como proposta ser um veículo acadêmico para a produção na área de Inteligência Competitiva, Competição e Competitividade. Está aberta a professores, pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação para a divulgação de artigos científicos, ensaios e estudos de caso didáticos, cujos temas sejam de interesse à Inteligência Competitiva, Competição, Competitividade tais como:

– Estratégia e Inteligência Competitiva
– Campos e Armas da Competição – CAC
– Análise da Cadeia de Valor
– Análise de Cenários
– Criação e implantação de Programas de Inteligência de Classe Mundial
– Fontes de Inteligência e Técnicas de Coleta
– Inteligência Tecnológica
– Pontos Cegos (Competitive Blindspots)
– War Game

O Portal de Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), é uma biblioteca virtual que reúne e disponibiliza a instituições de ensino e pesquisa no Brasil o melhor da produção científica internacional.

Prof.Dr.Alfredo Passos, Editor-Chefe 

Lava-Jato não inibe jovens de escolher Petrobras e Odebrecht

http://www.valor.com.br/sites/default/files/imagecache/media_library_560/gn/15/08/

Propina, suborno, corrupção, sobrepreço, pixuleco, lavagem de dinheiro. Nem mesmo a deflagração da Operação Lava-Jato e a consequente ligação desses termos com a Petrobras e a Odebrecht fizeram com que ambas perdessem o status de “empresas dos sonhos” dos jovens. Elas ocupam, respectivamente, a segunda e terceira colocação desse pódio, atrás apenas do campeão Google (veja quadro).

Os dados são de uma pesquisa realizada no primeiro trimestre pela Nextview People com 67.896 respondentes de todas as regiões do Brasil, sendo que 84% têm entre 17 e 24 anos e 16%, entre 25 e 26 anos.

Na opinião de Danilca Galdini, diretora da Nextview People e responsável pelo estudo, os jovens fazem uma diferenciação clara entre as empresas e seus executivos, o que explica a atração que eles ainda sentem por grandes companhias envolvidas em escândalos, como Petrobras e Odebrecht. “A justificativa para a escolha é baseada, principalmente, nas oportunidades de desenvolvimento profissional não só internamente, mas também pensando na carreira como um todo. Além disso, fatores como inovação e desafios constantes têm grande peso”, afirma.

Vale ressaltar que a Odebrecht garantiu a boa colocação no ranking em grande parte pelos votos conseguidos no Nordeste e no Centro-Oeste, onde tem forte presença. Já outras empresas foram bastante citadas em determinadas regiões do país, mas não tiveram força suficiente para entrar na lista final. Foram os casos de Volvo e O Boticário, no Sul; de P&G, Banco do Brasil e Natura, no Norte; e Unilever, no Sudeste.

De acordo com Danilca, ainda que tenha resistido à Operação Lava-Jato, a Odebrecht já perdeu parte da credibilidade perante os jovens. Seu futuro como “empresa dos sonhos”, assim como o da Petrobras, vai depender das ações tomadas daqui pra frente em relação à transparência e ajustes de conduta. “Esse é um público que cada vez mais cobra coerência das organizações e está atento a valores como ética, sustentabilidade e responsabilidade social, além do respeito aos funcionários e consumidores.”

Neste ano, apenas 52% dos jovens entrevistados disseram ter uma empresa dos sonhos, ante 58% da pesquisa de 2014. Para Danilca, essa queda se intensifica entre o público no início da faculdade e está relacionada não apenas ao momento conturbado do país, mas também a uma certa desilusão e desinformação a respeito do mundo corporativo.

O campeão do ranking novamente foi o Google, que continua exercendo fascínio sobre os jovens. A novidade, segundo Danilca, é que a empresa antes era muito citada em razão de seu espaço físico divertido e moderno. Agora, fatores como flexibilidade, possibilidades de carreira e a qualidade dos produtos e dos serviços aparecem com mais força.

Na opinião de Daniel Borges, gerente de recrutamento para a América Latina da companhia, a busca constante pela inovação e a estrutura pouco hierarquizada, que são parte importante da cultura do Google, representam o desejo de muitos profissionais, independentemente da idade. “Incentivamos um ambiente aberto e inclusivo, no qual as pessoas possam se desenvolver diariamente e ser constantemente desafiadas”, afirma.

De acordo com Borges, a filosofia de gestão de pessoas do Google preza que todos os funcionários se sintam apoiados em momentos significativos de suas vidas. Na prática, isso pode ser traduzido em subsídios para cursos de formação pessoal e profissional ou até em licenças-maternidade e paternidade estendidas, além de ajuda para gastos com o bebê nos três primeiros meses de idade.

A Nestlé é outra que sempre tem lugar garantido entre as “empresas dos sonhos” dos jovens e, neste ano, manteve a sétima colocação no ranking. O gerente executivo de desenvolvimento, treinamento e recrutamento, Gilberto Rigolon, afirma que a multinacional alia quase cem anos de tradição no país com um espírito jovem. Atualmente, 40% dos funcionários têm menos de 30 anos de idade, o que inclui 35 trainees, 525 estagiários e cerca de 900 aprendizes. No processo seletivo de trainees do ano passado, foram 18.047 inscritos para 12 vagas.

“Um grande diferencial nosso é o acompanhamento desses jovens. Fazemos avaliações periódicas, discutimos objetivos, competências e comportamentos. Tudo isso é registrado formalmente para melhorar o processo de meritocracia, definir promoções e garantir que todos consigam aprender e tenham oportunidades”, diz.

Rigolon reconhece que não é fácil lidar com essa geração, que quer ciclos mais rápidos de desenvolvimento e reconhecimento, mas sem perder qualidade de vida. Para que tudo funcione, o executivo ressalta que é fundamental investir em uma comunicação clara e alinhar as expectativas entre empresa e profissional. “Desse modo, o processo se torna mais assertivo, englobando também a aderência em relação à cultura corporativa e criando uma parceria duradoura”, diz.

Fonte: Rafael Sigollo | Valor, São Paulo, 26/8/2015

Crise não afeta planos de campeãs (Valor) para 2016

Crise, desafios. As duas palavras que já se tornaram uma espécie de lugar comum em qualquer conversa sobre cenário econômico não ofuscam o ânimo da maior parte das empresas vencedoras do “Valor 1000” com os negócios em 2016. O prêmio foi entregue ontem à noite, no hotel Unique, em São Paulo, às empresas de melhor desempenho em 25 setores da economia

Quase todas as vencedoras afirmam que não alteraram as perspectivas de longo prazo e pretendem manter os planos de investimento e de crescimento, alguns na casa dos dois dígitos “Reconhecemos a crise que nos cerca, mas decidimos não participar dela”, disse o vice-presidente jurídico e de assuntos corporativos da Ambev, Pedro de Abreu Mariani. No primeiro semestre de 2015, a Ambev investiu aproximadamente R$ 1,4 bilhão no Brasil, disse. “Até o fim do ano, a previsão é que os investimentos cheguem ao nível de 2014, quando investimos o montante recorde de R$ 3,1 bilhões no país.”

A expectativa para 2016 também é positiva na CCR. Para Renato Vale, diretor-presidente da empresa, o governo adotou as medidas que podem restabelecer a confiança dos investidores ao lançar a segunda etapa do Programa de Investimento em Logística (PIL), com novas concessões em áreas cruciais da infraestrutura.

A projeção de crescimento da Bayer para 2016 também mostra otimismo e “se mantém na casa dos dois dígitos”, afirma Theo van der Loo, presidente do grupo no país. “Em 2015, também teremos crescimento positivo. No ano passado, o Brasil manteve-se como o quarto maior mercado para a Bayer em todo o mundo, o que reforça a importância e o potencial do país.” A Atlas Schindler, que fechou 2014 com lucro bruto de R$ 617 milhões, com alta de 7,8% em relação a 2013, pretende manter o ritmo, diz André Inserra, presidente da empresa. “Vamos tentar manter a curva ascendente, mesmo com a retração da economia e da construção civil.”

A Tigre prevê manter em 2016 o faturamento dentro da média dos últimos cinco anos e emprego e investimentos “em linha com 2015”, diz Otto von Sothen, presidente da empresa. “Todos os setores estão precisando fazer ajustes no curto prazo, assim como a Tigre, mas nos pautamos por uma visão de longo prazo. Atuamos no Brasil há 74 anos e vivenciamos outros momentos de baixo desempenho da economia. Acreditamos que é um ciclo e apostamos no crescimento e melhora dos indicadores.”

A Queiroz Galvão Exploração e Produção (QGEP) prevê manter em 2016 o faturamento deste ano, o que, segundo Lincoln Guardado, presidente da empresa, mostra “falta de perspectiva de crescimento econômico”. A intenção, de acordo com o executivo, é que, em dólar, os investimentos fiquem em linha com os de 2015, em decorrência da continuidade dos projetos em implantação, que têm desdobramentos no longo prazo.

A Mascarenhas Barbosa Roscoe (MBR) projeta um 2016 mais fraco, devido à redução da atividade econômica. “Haverá queda expressiva no faturamento e redução do emprego”, afirmou o presidente Luiz Fernando Pires. A empresa, disse, tem diversificado investimentos nos mercados interno e externo e mantido “bastante liquidez”.

Outra empresa que prevê queda de produção e faturamento em 2016 é a Supermix, do setor de materiais de construção. A produção deve encolher entre 10% e 15%. “Como temos grande contingente de pessoas ligadas à produção, é provável que tenhamos uma redução, de cerca de 10%, no número de funcionários”, diz o presidente da Supermix, Edison Dias Filho.

Presidente de uma das maiores tradings de açúcar do mundo, a ED&FMan, Carlos Guimarães afirmou que não projeta crescimento para a empresa em 2016. O faturamento deve ficar estável, assim como os investimentos. “Nenhuma mudança está prevista também para os postos de trabalho. O programa de redução de custos já foi feito.” Para ele, o cenário brasileiro está muito volátil, sem grandes possibilidades de definições importantes no curto prazo.

A Samarco projeta manter, em 2016, o faturamento deste ano. Não há perspectiva de novo aumento da capacidade produtiva, nem ganhos significativos em relação ao preço, segundo o diretor financeiro e de suprimentos da Samarco, Eduardo Bahia. Ele ressalta que o setor de mineração vive, mundialmente, cenário de baixa de preços, o que afeta o faturamento. Os programas de excelência operacional geraram economia de R$ 1 bilhão nos últimos cinco anos, disse, e o número de funcionários não deve sofrer alterações.

A Baterias Moura, do setor de autopeças, colocou o pé no freio em investimentos em 2015 e deve manter esse ritmo de retração em 2016. O diretor financeiro da companhia, Tiago Tasso, afirmou que a empresa deve ter neste ano crescimento real próximo de zero e uma leve recuperação, de 3% a 4% em termos reais, em 2016. “Para 2016, está difícil fazer previsões, mas um número conservador e realista é crescer de 3% a 4%, a depender do comportamento da indústria automobilística.”

Fonte: Valor, 25/8/2015

Desemprego na Grande São Paulo atinge maior nível em seis anos

SÃO PAULO  –  A taxa de desemprego na região metropolitana de São Paulo aumentou de 13,2% em junho para 13,7% em julho, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada pela Fundação Seade e pelo Dieese.

Foi a sexta alta mensal consecutiva. De acordo com a Seade, essa sequência é incomum para o período. É a maior taxa para o mês desde 2009, quando alcançou 14,8%. Em julho do ano passado, o desemprego na região era de 11,4%.

No município de São Paulo, o desemprego subiu de 13,5% para 13,8%, enquanto nos demais municípios da Grande São Paulo houve aumento de 12,8% para 13,6%. Na região do ABC foi registrada queda, de 13% para 12,7%.

Em julho, o contingente de desempregados foi estimado em 1,514 milhão de pessoas na região metropolitana paulista, 47 mil a mais do que em junho. São 9,535 milhões de pessoas empregadas na região. Esse resultado decorreu da eliminação de 109 mil vagas (-1,1%), atenuada pela saída de pessoas do mercado de trabalho. A População Economicamente Ativa (PEA) caiu 62 mil (-0,6%). A taxa de participação reduziu-se de 62,9% para 62,5% no período.

Quanto aos setores econômicos, em termos absolutos, a maior queda no emprego ocorreu nos serviços, com a eliminação de 73 mil vagas (-1,3%). Proporcionalmente, a construção civil liderou a lista com a eliminação de 6,3% das vagas do setor na região, o que significou a demissão de 46 mil pessoas. A indústria de transformação demitiu 17 mil, reduzindo seu contingente de empregados em 1,1% em julho.

Houve pequeno aumento no comércio e reparação de veículos (0,5%, ou geração de 9 mil postos de trabalho).

No setor privado, reduziu-se o número de empregados com com carteira de trabalho assinada (-2,2%) e elevou-se o dos sem carteira (2,8%). Diminuíram os contingentes de autônomos (-1,8%) e dos ocupados nas demais posições (-2,4%) e aumentou o de empregados domésticos (3,9%), em julho em relação a junho.

Renda

Quanto à renda, houve queda real tanto no que se refere ao mês anterior quanto sobre o mesmo período do ano passado. O dado refere-se a junho porque na PED as informações de rendimento são sempre as do mês anterior.

Entre maio e junho de 2015, o rendimento médio real dos ocupados caiu 1,5% e, o dos assalariados, recuou 0,4%, passando a R$ 1.928 e R$ 1.953, respectivamente. Na comparação com junho do ano passado, a queda foi de 6% para os ocupados e de 5% para os assalariados. Entre os trabalhadores sem carteira, o recuo ante 2014 foi de 10,7%. Quem tem carteira assinada viu o rendimento cair 5,5% no período.

Com o aumento do desemprego e a queda da renda, a massa de rendimento dos ocupados caiu 1,8% em junho ante maio, em termos reais, e recuou 6,3% ante o mesmo mês no ano passado.

Fonte: Valor, 26/8/2015

Empresas sofrem de efeito iguana: Saiba o que é e como evitar

Fonte: Mundo do Marketing. Para assistir clique aqui

Inteligência Competitiva: Varejo tenta reagir à crise de confiança dos consumidores

Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, disse que todos na rede viraram vendedores

Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, disse que todos na rede viraram vendedores

Para grandes varejistas, a apatia dos clientes está travando mais as vendas do que o crédito escasso

A falta de confiança do consumidor está gerando efeitos mais negativos ao desempenho do varejo do que a trava no crédito. “O consumo não acabou, o que acabou foi a confiança do consumidor”, afirmou ontem a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV) e do Magazine Luiza, a 3ª maior varejista do eletroeletrônicos e móveis do País.

Luiza Helena e a nata dos varejistas brasileiros participaram, ontem, em São Paulo, do 1º Latam Retail Show, realizado pelo Grupo GS&, que quer reproduzir no País o mesmo formato do maior evento do varejo dos Estados Unidos, a NRF. Os empresários mostraram como estão tentando virar o jogo do desânimo nas vendas.

No Magazine Luiza, por exemplo, todos os funcionários da empresa assumiram o papel de vendedores. “Se não vender, vamos ter de demitir gente”, disse a presidente da rede. Além disso, ela contou que reduziu em 30% os custos de expansão. “Temos de fazer mais com menos.” Neste ano, a rede varejista vai abrir 30 lojas, um número maior do que o do ano passado, porque a empresa comprou 15 pontos de venda. Essas aquisições foram resultado de uma determinação do Conselho de Administração de Defesa Econômica (Cade) após a fusão da Casas Bahia com o Ponto Frio.

Marcílio Pousada, presidente da Raia Drogasil disse que o maior varejista do mercado hoje é o “aluga-se”. Ele se referiu à grande quantidade de placas de imóveis vagos para locação. Essa maior facilidade para encontrar pontos de venda por um preço menor do que no passado recente vai facilitar, segundo o executivo, os planos da companhia de abrir 130 lojas este ano, além de um centro de distribuição em Recife (PE).

O presidente do Walmart Brasil, Guilherme Loureiro, disse que os supermercados têm sofrido com a queda de vendas em volume e redução do número de visitas dos consumidores às lojas. “Uma coisa que vemos é que o salário do trabalhador não dura todo o mês, portanto temos visto uma concentração das vendas nos primeiros dias do mês.” Esse comportamento tem sido negativo para as vendas no formato tradicional de hipermercados.

Crédito. Marcos Gouvêa de Souza, diretor geral da GS&MD, disse que o crédito está mais complicado por causa do aumento da taxa de juros e do maior rigor na concessão. Mas ele observou que se for eliminado o crédito imobiliário, hoje as famílias brasileiras estão menos endividadas em relação há um ano. Isso abriria, na sua avaliação, uma perspectiva para o varejo. Ele destacou, no entanto, que a falta de confiança do consumidor tem sido predominante. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, o Índice de Confiança do Consumidor recuou em julho para o menor patamar da série histórica e caiu 23,1% em relação ao mesmo período do ano passado.

“A reversão dessa queda na confiança só vai acontecer quando se criarem fatos novos ou quando forem concluídas algumas coisas que estão acontecendo no País”, disse Gouvêa.

Luiza Helena concordou com Gouvêa em relação ao peso da falta de confiança atrapalhando os negócios do varejo. Mas ela lembrou também que o crédito está travado, especialmente para as pequenas e médias empresas. Segundo Luiza Helena, existem recursos no Banco do Brasil e na Caixa, mas eles não estão chegando aos lojistas. Ela admitiu que uma parte da falta de fluidez no crédito é de responsabilidade das entidades do próprio varejo que deveriam mostrar os caminhos para desobstruir o fluxo, a fim de que os recursos circulassem.

Na Guararapes, controladora da Lojas Riachuelo, por exemplo, a necessidade de melhorar o investimento em capital de giro fez a empresa ajustar seu negócio de crédito ao consumidor. Flávio Rocha, presidente da Riachuelo, afirmou que a rede vinha num ritmo acelerado de conversão dos cartões de crédito próprios para os “bandeirados”. “Apesar dessa transição ser uma operação financeira rentável, é demandante de capital, então reduzimos esse ritmo de conversão visando preservar o caixa.”

Na Telhanorte, revenda de materiais de construção, dois terços das vendas são financiadas, contou o presidente da empresa, Manoel Corrêa. Para preservar o caixa, a empresa adequou os prazos nas vendas sem juros e manteve o plano mais longo, de 24 prestações, mas com juros. “Essa equação é fundamental para a gestão de caixa.”

Fontes: MÁRCIA DE CHIARA, DAYANNE SOUSA – O ESTADO DE S.PAULO, 25 Agosto 2015 | 04h 02. Foto: Divulgação

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