Inteligência Competitiva Empresas: Crise nas montadoras agrava insolvência de fornecedores

O aprofundamento da recessão na indústria automobilística está atingindo em cheio a solvência de empresas da cadeia de suprimentos, levando a avanços na inadimplência, concordatas e quebra de fabricantes de autopeças.

Levantamento feito pela Serasa Experian a pedido do Valor mostra que, só em junho, houve crescimento de 32,6% no índice de inadimplência da indústria de componentes automotivos, comparativamente a igual período do ano passado. Isso é mais do que a já expressiva alta de quase 21% dos calotes de toda a indústria brasileira (veja gráfico abaixo). A Serasa faz a conta com base nos registros de cheques devolvidos por falta de fundos, títulos protestados e dívidas em atraso com instituições financeiras ou não financeiras.

No acumulado do primeiro semestre, os apontamentos contra fornecedores das montadoras subiram 11,1%, também acima da taxa média de 9,4% de todos setores da indústria. “Os números indicam que mais empresas estão se tornando inadimplentes em decorrência da crise”, diz Viviane Magalhães, gerente da Serasa no departamento de recuperação de crédito das empresas.

Apenas na região Sudeste, onde estão os maiores polos de produção automotiva do país, o aumento da inadimplência por parte das empresas de autopeças foi de 34% em junho e 13,1% no acumulado dos seis primeiros meses de 2015.

Desde o ano passado, quando tanto as vendas como a produção de veículos entraram em queda livre, 12 fabricantes de autopeças foram à falência, enquanto oito entraram em recuperação judicial. Em 18 meses até junho, 22 empresas desse setor pediram recuperação judicial, já superando o total de 17 pedidos registrados também pela Serasa entre 2012 e 2013.
Os números podem até parecer modestos para o tamanho da crise. Mas, pela falta de perspectiva de recuperação no curto prazo, há quem aposte em “quebradeira” maior ainda neste ano. Um grupo considerável de companhias que não aparece nessas estatísticas está no limiar da recuperação judicial, o último recurso contra a bancarrota, e, sem crédito na praça, já depende dos próprios clientes para financiar o capital de giro.

“Muitas vezes, a recuperação judicial significa a morte porque as montadoras retiram moldes e ferramentas que lhes pertencem quando um fornecedor entra nesse processo. Ou seja, termina de matar a empresa. Por isso, o que tem acontecido é uma ‘recuperação branca’ das companhias em dificuldade, onde elas são acudidas pelos clientes que dependem de suas peças”, afirma o advogado Fernando Zilveti, sócio do escritório especializado em direito empresarial que leva seu sobrenome e que tem visto crescer a demanda por consultoria para reestruturação de fornecedores de peças. Ele diz ter “quatro ou cinco” clientes nessa situação.

Diante da dificuldade em fazer caixa porque as encomendas despencaram – ou porque também são afetadas por atrasos em contas a receber -, com o planejamento de vendas comprometido por paradas de produção inesperadas nas linhas dos clientes e sem acesso a crédito dos bancos devido a seu alto endividamento ou delicada situação financeira, empresas em estágio avançado de insolvência da base da pirâmide de suprimentos buscaram socorro no elo mais forte da cadeia. Montadoras e multinacionais sistemistas tentam dar alguma liquidez a elas antecipando pagamentos e, em casos extremos, chegam até mesmo a comprar matérias-primas – como aço, alumínio e peças plásticas – para a produção dos componentes.

“O que mais me preocupa é a saúde da cadeia. Monitoramos uma lista de fornecedores em risco e ela aumentou em mais de quatro vezes neste ano”, diz Luis Afonso Pasquotto, presidente na América do Sul da fabricante de motores Cummins. Segundo ele, a empresa tem usado o caixa para bancar à vista peças em que teria até 30 dias para pagar. Em menor frequência, a Cummins tem financiado as compras de matérias-primas de seus fornecedores, assim como antecipado compras de insumos em que não teria urgência. “Formamos estoques”, diz Pasquotto.

Luiz Corrallo, presidente da fabricante de sistemas automotivos Delphi, informa que o grupo também fez compras de matérias-primas, como aço e alumínio, a fornecedores de porte até “razoável”. Da mesma forma, tem feito pagamentos à vista de insumos que, numa situação normal, teria até dois meses para pagar. Nesse caso, exige um desconto pelo produto. “Eles não têm capital de giro e também não têm crédito. O que fazer? Mas isso é uma solução de curto prazo”, afirma Corrallo.

Fonte: Eduardo Laguna | Valor, São Paulo

Inteligência Competitiva Varejo: estoque alto adia novas compras

O cenário de desaceleração nas vendas do varejo de bens duráveis, num ritmo acima do esperado pelo mercado, trouxe problemas para as fabricantes do setor.

Segundo redes de varejo ouvidas, as lojas aceleraram as compras de produtos, como eletrônicos e eletrodomésticos, nos primeiros meses do ano, temendo preços mais salgados mais adiante. Aumentos nas tabelas poderiam chegar a 7% entre fevereiro e março, como efeito da valorização do dólar frente ao real.

Varejistas compraram, de forma antecipada, volumes maiores para a venda no segundo trimestre, ampliando os seus estoques entre 5% e 10%, a depender da categoria e da negociação com a marca, segundo apurou o Valor. Mas a demanda caiu rapidamente a partir de março, de forma mais abrupta do que a prevista, e os estoques se mantiveram elevados nas lojas. Novas negociações de compra e venda entre varejistas e a indústria, em volumes maiores, entraram em compasso de espera.

A expectativa é que encomendas em quantidades mais significativas, para ações como a “Black Friday”, retornem a partir de setembro, segundo a direção do Magazine Luiza. “Compramos mais [no começo do ano] porque os preços iriam subir e não se esperava desaceleração tão forte no setor. Agora, estamos trabalhando para reduzir nossos estoques. Nossas compras vão se basear naquilo que está saindo da loja, e na velocidade da demanda”, disse Marcelo Silva, diretor superintendente da rede.

A Via Varejo, formada da união de Casas Bahia e Ponto Frio, também ampliou encomendas meses atrás e sentiu, após isso, uma queda mais forte na demanda, disse Marcelo Rizzi, diretor de relações com investidores. “Fizemos compras estratégicas no começo do ano, com o dólar mais favorável, e financiamos essa compra com prazo maior negociado com fornecedor […] Agora, eles devem fazer novos reajustes no próximos trimestres”, afirmou para analistas.

O executivo não especificou quais reajustes estão, novamente, sendo pedidos pelos fornecedores. Na empresa, o valor em estoques subiu 13,5% – era de R$ 2,44 bilhões em junho de 2014 e atingiu R$ 2,77 milhões neste ano.

Questionado sobre a atual relação com a indústria, num período difícil para o mercado, Líbano Barroso, presidente da Via Varejo, disse que é uma parceria de longo prazo, e aproveitou para dizer que “100% do que a empresa vende é fabricado ou montado no Brasil”, afirmou. “Fornecedor tem impacto com o dólar, mas dólar não está em 100% de sua base de custos”.

A decisão de o varejo antecipar compras no começo do ano, antes dos aumentos de preços, foi sugerida pelos próprios fornecedores, segundo apurou o Valor. Outra rede, a Máquina de Vendas, também sentiu aumento no volume estocado após queda de 13% nas vendas de abril a junho deste ano, apurou o Valor.

Em janeiro, LG, Samsung e Whirlpool estavam negociando aumentos de preços com grandes cadeias do setor, como Casas Bahia, Ponto Frio, Ricardo Eletro e Cybelar, que variavam de 2% a 7%. Boa parte dos aumentos foi repassada. Agora, fabricantes, como LG e Whirlpool, em seus balanços publicados na semana passada, confirmaram queda na demanda no Brasil e na América do Sul e isso afetou resultados.

A coreana LG informou, na quarta-feira, queda na venda de TVs de LCD na América Latina no segundo trimestre em relação ao ano anterior e em relação ao primeiro trimestre de 2015. Também verificou retração nas vendas de eletroportáteis e ar condicionado.

Em outra fabricante, a Whirlpool, dona da Brastemp e Consul, a demanda por produtos no país caiu 12% de abril a junho, disse o comando nos EUA. Em valor vendido, a receita subiu 7,1% no mesmo período. A quantidade vendida cai, mas a receita sobe quando há lançamentos com preços mais elevados ou quando reajustes compensam a retração no volume.

Fonte: Adriana Mattos | Valor, São Paulo, 3/8/2015

Early Warning – Sinais de Mercado: O engenheiro do futuro vai precisar de muita criatividade

Criatividade e arte são termos que não costumam ser associados ao ensino de engenharia. Mas eles são a chave para a formação desses profissionais no futuro. Essa é a opinião de Donald Sadoway, professor do departamento de engenharia e química dos materiais do Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das instituições mais renomadas do mundo no ensino e pesquisa de ciências, engenharia e tecnologia.

Para Sadoway, falta às universidades ensinarem os engenheiros a desenvolverem mais a capacidade de criação. “Identificar o problema é só metade do trabalho. Esse profissional precisa ser capaz de construir algo melhor. É quase como tentar despertar o lado artístico de alguém”, diz.

Em um projeto com alunos do MIT, Sadoway desenvolveu a bateria com metal líquido, uma nova forma de energia renovável que pode ser usada em grande escala. Neste mês, ele virá ao Rio de Janeiro para o ABM Week, evento da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração, onde vai participar de uma discussão sobre o perfil do engenheiro do futuro.

Em tempos em que a palavra da moda é “big data”, Sadoway acha que o ensino de engenharia precisa passar por uma mudança que mova o foco de habilidades analíticas para outras mais “sintéticas”. “Isso significa que precisamos ser melhores em construir coisas ao invés de apenas fazer diagnósticos”, diz. Segundo ele, o modelo de ensino atual é muito reflexivo, dando prioridade a ensinar os estudantes como se analisa componentes de um todo. “A engenharia é uma ciência aplicada e, desse modo, o engenheiro precisa ser um inventor. A ciência deve ser usada a serviço da humanidade”, diz.

Ele reconhece, entretanto, que esse processo não é fácil. “É como ensinar criatividade”, diz. O caminho, para ele, é se dedicar mais a aspectos sociais dentro do ensino de disciplinas técnicas. Do contrário, o resultado são engenheiros eficientes em seu trabalho, mas que não conseguem alcançar os níveis mais altos das corporações. “Se você observar quem vira CEO de uma empresa tecnológica, raramente é um engenheiro. Hoje, não adianta apenas ser capaz de chegar à resposta certa, é preciso convencer os outros da validade da sua resposta”, diz.

O ambiente universitário tem papel crítico nesse processo. “Educar não é apenas dar uma aula, mas proporcionar a vivência no campus para aprender a conviver com outras pessoas”, diz. Sadoway diferencia o estudante de um estudioso, e considera que o período na universidade deve promover a transformação de um em outro. “O estudante quer aprender para passar na prova, o estudioso quer aprender porque está curioso e quer se aprofundar em um assunto”, diz.

No MIT, onde Sadoway está há quase 40 anos, um quarto dos cursos de graduação em engenharia é formado por disciplinas não técnicas – e não apenas temas relacionados a negócios, gestão ou liderança. “São matérias dos departamentos de artes e ciências sociais, ministradas com o mesmo rigor das disciplinas técnicas”, diz.

Nos últimos 15 anos, também houve uma mudança no currículo para dar mais ênfase à comunicação dentro dos tópicos mais tradicionais da engenharia. As exigências das aulas incluem fazer os alunos se expressarem de diversas formas, como apresentações orais ou trabalhos escritos. “Se você quer formar um engenheiro melhor, não deve empurrar mais conteúdo técnico para ele, e sim o expor a disciplinas humanas, para expandir a mente dele”, diz.

Isso ajuda no preparo para a carreira e faz com que esses profissionais se destaquem mesmo em um mercado de trabalho menos aquecido, como o do Brasil atualmente. “A chave é descobrir quais são as suas habilidades transferíveis. Só porque você foi educado como um engenheiro mecânico, não quer dizer que você só pode trabalhar nessa área. O que você aprendeu na faculdade foi a resolver problemas”, enfatiza.

A realização pela qual é mais conhecido, sua pesquisa no desenvolvimento da bateria de metal líquido, é um exemplo que ilustra bem as mudanças que Sadoway defende no ensino de engenharia, como a importância de saber se comunicar bem. Sua apresentação sobre o processo para o site de palestras TED, por exemplo, já foi assistida 1,6 milhão de vezes e rendeu ao professor a inclusão de seu nome na lista das cem pessoas mais influentes do mundo da revista “Time”, em 2012.

Um dos pontos que ele sempre reforça é o fato de ter empregado apenas alunos dos cursos de pós-graduação e doutorado do MIT, e não especialistas da área de baterias. “Tudo o que os especialistas faziam era analisar meus dados, dizer o que havia de errado com eles e que a pesquisa estava fadada ao fracasso”, conta. Faltava dar o salto entre a capacidade de análise e a disposição de construir algo em cima dos dados.

Para o professor, isso pode ser uma lição para empresas que querem desenvolver a inovação internamente. “Não serei arrogante em dizer que não há espaço para especialistas, mas se você está tentando criar algo pela primeira vez, apoiar-se demais na expertise existente pode levar a uma condenação prematura”, enfatiza. O caminho mais indicado por Sadoway é agir como guia e mentor de quem não tem experiência, mostrar o problema e ensiná-los a como pensar nele. “A partir daí, se deixá-los livres para agirem sozinhos, eles poderão fazer milagres”, diz.

Fonte: Letícia Arcoverde | Valor, São Paulo, 3/8/2015

Inteligência Competitiva Empresas: Bradesco compra HSBC no Brasil por US$ 5,2 bi

O Bradesco comprou todo o conglomerado do HSBC no Brasil por US$ 5,2 bilhões, segundo antecipou o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, neste domingo. O anúncio formal foi feito na madrugada desta segunda-feira, em Londres, depois de mais de dois meses de negociações e uma disputa que teve entre os candidatos ao negócio o espanhol Santander e o Itaú Unibanco.

A compra vai permitir ao banco brasileiro ultrapassar a marca de 30 milhões em clientes e cerca de R$ 1,193 trilhão em ativos no País. A operação, portanto, garante que o Bradesco encoste em seu principal concorrente, o Itaú, praticamente eliminando a distância existente desde a fusão com o Unibanco. No fim de março, o Itaú tinha R$ 1,295 trilhão em ativos.

“Para o Bradesco, a aquisição possibilitará ganho de escala e otimização de plataformas, com aumento da cobertura nacional, consolidando a liderança em número de agências em vários Estados, além de reforçar sua presença no segmento de alta renda”, destaca o Bradesco, em fato relevante, assinado por Luiz Carlos Angelotti, diretor executivo e gerente de relações com investidores do banco.

“A aquisição permitirá, também, a expansão de suas operações, com a otimização de oportunidades e aumento da gama e do diferencial dos produtos que são oferecidos no Brasil, especialmente nos mercados de seguros, cartão de crédito e administração de fundos (asset management)”, acrescenta a instituição.


A conclusão da operação depende de aprovações regulatórias. Nesta segunda-feira, o HSBC informou, em relatório que acompanha suas demonstrações financeiras, que espera que a venda da sua unidade brasileira para o Bradesco esteja concluída até o segundo trimestre de 2016, quando será feito o pagamento do negócio.

O HSBC reafirmou que vai manter uma presença modesta no País com um banco de atacado para atender os clientes internacionais. “Esta transação proporciona excelente valor para os acionistas e representa a entrega significativa das ações anunciadas em junho”, destacou o HSBC, em relatório.

Negociação. Segundo reportagem do Financial Times da última sexta-feira, os executivos do HSBC tinham pressa de fechar o negócio antes da divulgação de resultado, para que a instituição financeira pudesse mostrar aos acionistas e analistas a evolução de seu plano estratégico. Nas últimas semanas, executivos do Bradesco estavam em Londres para negociar os detalhes. A demora no anúncio, segundo fontes, chegou a despertar uma possível preocupação em relação à conclusão da venda.

A negociação não foi fácil. O Bradesco, de acordo com fontes, teria sido bem exigente nas condições da aquisição, o que fez com que o HSBC mantivesse o Santander na disputa, caso o acordo com o

Bradesco não fosse bem sucedido. Na semana passada, o presidente do banco espanhol no Brasil, Jesús Zabálza, chegou a dizer que a instituição ainda estava na disputa.

Além da operação de varejo do HSBC, o Bradesco ficará também com a plataforma de atacado, que inclui a área de corporate sales (de derivativos e câmbio). Toda a unidade gera receitas anuais de R$ 1 bilhão, conforme a fonte. O valor a ser pago pelo Bradesco, de US$ 5,2 bilhões, ficou acima das expectativas do mercado que indicavam algo em torno de US$ 4,1 bilhões – já que a filial brasileira vinha registrando prejuízo.

Com a venda, o banco inglês deve estruturar no Brasil uma operação de atacado do zero, usando a mesma licença ou solicitando uma nova para atuar. Executivos do HSBC já foram sondados para a nova operação. Uma pequena lista com nomes de candidatos a ficar no HSBC foi passada para o Bradesco.

Fonte: ALINE BRONZATI – O ESTADO DE S. PAULO – ATUALIZADO ÀS 7H30 DE 3/8/2015, 02 Agosto 2015 | 23h 39

Executivos aprendem a ser mais criativos para enfrentar a crise

Criatividade se aprende na sala de aula? Escolas em Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo garantem que sim. Com um público formado principalmente por gestores de empresas e executivos das áreas de vendas, marketing e comunicação, algumas instituições sentiram aumentar a demanda por cursos sobre o tema no primeiro semestre de 2015. O objetivo dos programas é usar o pensamento criativo para acelerar a inovação em produtos e negócios.

“A criatividade pode ser desenvolvida. A imaginação é o primeiro passo para criar algo novo ou melhorar uma rotina que já existe”, afirma Jean Sigel, cofundador e instrutor da Escola de Criatividade, de Curitiba. Criada em 2009, a instituição oferece palestras e cursos para empresas, como a “Oficina de Criatividade Aplicada aos Negócios”, com duração de oito horas-aula.

De acordo com Sigel, os gestores têm percebido que a inovação acontece mais de forma coletiva do que individual. “A liderança é fundamental durante esse processo, pois vai gerar confiança e influenciar as equipes. Um líder sozinho, porém, não consegue ganhar o jogo”.

Na opinião de Sigel, o alto escalão das organizações precisa estar mais próximo de seus funcionários, pois as melhores ideias já estão nas empresas, à espera de uma oportunidade para aparecer. “Um de nossos principais objetivos é ensinar como otimizar reuniões e usar a comunicação para gerar ambientes mais criativos”, diz.

Mais de 20 corporações já contrataram o curso, desde 2012. A demanda pelo treinamento aumentou cerca de 15% no primeiro semestre de 2015, ante o mesmo período de 2014. “Considerando ser um ano de crise, o número prova a importância do tema para o mundo dos negócios.” A próxima turma está prevista para o final de setembro. A inscrição custa a partir de R$ 120.

No segundo semestre, a Escola de Criatividade prepara novas versões de programas, como o “Líderes Criativos”, feito no modelo de imersão, durante dois ou três dias, e o treinamento “Vendas Criativas”, na categoria “in company”, para ajudar empresas a destravarem as entregas.

Para Silvana Mello, diretora de desenvolvimento de talentos, liderança e engajamento da consultoria de recursos humanos LHH, as propostas de aprendizagem precisam conter elementos que ajudem o aluno a “sair da caixa”. “Os programas devem propiciar liberdade de pensamento e provocar um ‘desconforto’ a fim de encontrar respostas”, diz. Segundo ela, o ensino clássico de transmissão do conhecimento, em que o professor fala e o aluno escuta, não remete ao desenvolvimento do pensamento criativo.

Silvana destaca que as empresas estão buscando executivos com capacidade de gerar soluções disruptivas. “Um profissional de perfil criativo e inovador pode ajudar as organizações a aumentarem a competitividade, por exemplo, em uma linha de produtos ou inventando uma nova forma de atuação.”

Foi pensando nas necessidades das corporações que Clarissa Biolchini, diretora da agência Ana Couto Branding, criou há poucos meses, no Rio de Janeiro, a Laje, que oferece palestras e workshops sobre inovação nos negócios. Os programas duram de 2 a 120 horas. “As atividades são oferecidas para companhias que querem inovar em produtos, serviços e modelos de trabalho”, afirma a diretora.

Na quarta-feira tem início o curso “Inovação”, de 36 horas-aula, com dinâmicas que abordam a identificação de oportunidades e a execução de projetos inovadores. Custa a partir de R$ 850. “Fala-se muito sobre inovação, mas pratica-se pouco ou nada. Para construir marcas e inovar, é preciso de metodologia e disciplina”, enfatiza.

Clécio Luiz Chiamulera, diretor da paranaense Ibema, terceira maior fabricante de papel-cartão do Brasil, se matriculou em uma oficina de criatividade para gestores no ano passado. “Decidi fazer o curso para estimular os funcionários a serem mais criativos e a apresentarem soluções de melhoria no trabalho”, diz o executivo, na época envolvido em um projeto de inovação. “Aprendi que os colaboradores emitem opiniões apenas quando percebem que os chefes não criticam suas ideias, por mais absurdas que pareçam.”

Na Sputnik, braço de educação corporativa da escola Perestroika, cerca de 70% dos alunos trabalham em grandes companhias. A unidade, criada no ano passado, já ofereceu cursos customizados para mais de 50 grupos e 2,5 mil estudantes. Os temas das aulas são variados e incluem futurismo, processos criativos e como fazer apresentações impactantes.

Entre os clientes estão organizações como Facebook, Natura e C&A. “Apresentamos dinâmicas para os alunos resolverem problemas reais nas empresas”, afirma a diretora Andressa González. A escola abrirá novas turmas a partir de agosto.

Fonte: Jacilio Saraiva | Valor, de São Paulo, 27/7/2015

Early Warning – Sinais de Mercado: Para empresas educacionais, estratégia não reduziu qualidade

Além de defender eficiência da gestão, grupos apontam que outros gastos de valorização e qualificação podem não ser contabilizados

SÃO PAULO – As empresas educacionais de capital aberto afirmam que a menor proporção de gastos com professores sobre a receita não representa queda de investimento em qualidade. Além de defender a eficiência da gestão, os grupos apontam que outros gastos de valorização e qualificação podem não ser contabilizados como gasto docente.

A Kroton diz que 97% das instituições do grupo tinham em 2013 Índice Geral de Cursos (IGC), calculado pelo MEC, igual ou superior a 3 – a nota é a mínima exigida. “Os investimentos em qualificação, formação e treinamento de professores não são contabilizados como custo docente, mas certamente impactam positivamente a qualidade”, afirmou o presidente da Kroton, Rodrigo Galindo, por e-mail. “Aumento de eficiência com aumento de qualidade é um atributo das empresas bem geridas.”

O grupo Estácio informou que a redução nos custos está relacionada “a melhorias, principalmente, na gestão do processo de formação de turmas”. “A inferência de que os investimentos nos professores diminuíram não é correta. A Estácio, por exemplo, investe em programas de qualificação docente, por meio de sua Universidade Corporativa”, disse.

Entre as quatro empresas, a Estácio reverte o maior porcentual da receita para remuneração docente: 42%. Com 41%, aparece na sequência a Anima. Em nota, a empresa informou que remunera seus professores com valores superiores ao dos concorrentes e o compromisso com a qualidade se reflete nos seus resultados. “Temos 59% dos cursos com Conceito Preliminar de Cursos (CPC) 4 ou 5.”

A Ser informou que não poderia responder por causa do silêncio exigido pela Comissão de Valores Mobiliários antes da divulgar balanços.

Fontes: JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, PAULO SALDAÑA E RODRIGO BURGARELLI – O ESTADO DE S. PAULO

28 Julho 2015 | 03h 00

Early Warning – Sinais de Mercado: Instituições trocam docentes, reduzem carga e lotam salas

Estudante conta que classes chegam a ter 80 alunos, o que inviabiliza a participação; atividades a distância são reforçadas

SÃO PAULO – A estratégia adotada por algumas instituições de ensino para diminuir gastos com professores passa pela substituição de professores antigos por mais novos, fechamento de salas e redução no número de horas/aula por docente, intensificando as atividades a distância.

Professores e alunos da antiga Uniabc – adquirida pela Anhanguera há quatro anos e desde 2014 parte da Kroton – contam que alunos de semestres diferentes fazem aulas na mesma sala. É uma forma de, ao abrir apenas salas cheias, potencializar o trabalho do professor. “Uma educação que reduz os professores significa falta de prestígio dos docentes e descompromisso com a qualidade?”, diz o professor Nelson Valverde, que leciona na unidade.

Além de diminuir a demanda por docentes, as salas chegam a ter mais 80 alunos. “Isso atrapalha a aula, inviabiliza a participação, não tem nem como tirar uma dúvida”, diz Pedro Virgílio Benaventi, que aos 60 anos cursa Engenharia na Anhanguera.

Sob condição de anonimato, a professora C.S., de 52, conta que as instituições estão demitindo quem ganha mais. “Depois contratam quem está no mestrado. Preferi sair antes”, diz ele, que, após seis anos, pediu demissão semana passada da Anhanguera.

O diretor do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro-SP), Marcelo Marin, diz que algumas instituições têm diminuído carga horária como forma de pressionar a saída. “Eles passam de 4 para 3 aulas por dia, evitam até o adicional noturno. O professor que não aceita é demitido. E muitos topam trabalhar com valores menores.” A Kroton defendeu que a carreira docente é valorizada na empresa e que oscilações de carga horária são naturais.

O Ministério da Educação (MEC) exige que um terço dos professores das instituições seja mestre ou doutor. Enquanto o grupo Anima tem 81% dos professores com título, acima da média do setor privado (65,3%), a Kroton tem 42%.

Como o MEC não fala em mínimo de doutores, prepondera o emprego de mestres. A média de doutores no setor privado é de 18,2% – nas quatro empresas é de 14,4%. Entre as públicas, é de 53,2%.

Fontes: JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, PAULO SALDAÑA E RODRIGO BURGARELLI – O ESTADO DE S. PAULO

28 Julho 2015 | 03h 00

Early Warning – Sinais de Mercado: Receita de universidade privada cresce; peso do gasto com professor cai

Impulsionados por fusões, alta das mensalidades e pela expansão do Fies, grupos reduzem a proporção das verbas os docentes

SÃO PAULO – Apesar de ver nos últimos anos suas receitas dispararem, impulsionadas por fusões, alta nas mensalidades e pela ampliação do Financiamento Estudantil (Fies), os grandes grupos educacionais de ensino superior com ações na bolsa têm direcionado proporção cada vez menor de recursos para a principal matéria-prima: os professores. A remuneração dos docentes em relação à receita líquida passou de 45% em 2010 para 35% no ano passado, na média dessas empresas.

As companhias Kroton (Anhanguera), Anima, Estácio e Ser, que têm capital aberto, tiveram, em média, salto de 201% na receita líquida no período. A bruta, sem desconto de impostos, saltou 233%. Um desempenho considerado extraordinário no País. A maior parte desses recursos foi revertida em lucro aos acionistas.

A Kroton, por exemplo, gastou no ano passado 29% da sua receita com os professores – em 2010, esse porcentual era de 52%. A Ser Educacional manteve esse gasto estável no período e em 2014 gastava 26%.

Os dados foram extraídos dos balanços financeiros e notas explicativas divulgadas ao mercado pelas empresas. As informações foram processadas e analisadas pela consultoria de Oscar Malvessi, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a pedido da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp). A análise abordou as quatro únicas empresas que têm capital aberto e, por isso, são obrigadas a manter a transparência de seus dados.

Como comparação, Malvessi analisou os mesmos critérios de outras duas instituições, cujos dados eram públicos. O gasto com professores no Mackenzie responde por 67% da receita. Na Unicsul, empresa particular de capital fechado, é de 52%. Nas públicas, esse porcentual quase sempre supera 70%.

Questionado, o Sindicato das Mantenedoras (Semesp) informou que, entre 2008 e 2011, o porcentual de gasto com professores estava aumentando nas instituições privadas. Levantamento do Semesp com 2 mil instituições mostra que, desde 2008, a tendência de aumento do gasto. Em 2011, ele representava 40% da receita, em média.

Custo. A queda no gasto com docentes veio a reboque de uma diminuição do custo total dos serviços prestados. Passou de 62% em 2010 para 47% em 2014, na média das empresas.

Autor do estudo, Malvessi indica que, economicamente, os resultados são excelentes. “Houve um contexto de oportunidade que foi muito bem aproveitado pelas empresas. E o Fies foi muito importante, viabilizou o acesso dos alunos. Como contrapartida, veio receita e crescimento”, diz. “Mas a educação merece uma atenção especial das empresas, entidades, do governo e da sociedade. Se não, os interessados no negócio de educação ficam restritos aos ganhos financeiros.”

As quatro empresas concentram 23% de 1,9 milhão de contratos do Fies firmados até o ano passado. Na Kroton, cerca de 60% dos alunos têm Fies. Na Anima são 39%.

Com o avanço do Fies, as empresas passaram a ter repasses garantidos do governo, diminuindo o risco de inadimplência – mesmo cobrando mensalidades maiores. Entre 2010 e 2014, o valor médio das mensalidades no ensino superior privado aumentou 13%, como revelou reportagem do Estado em fevereiro. Já o gasto do governo com o Fies, desde 2011, saltou 647%, enquanto o número de contratos cresceu 374%.

O presidente da Fepesp, Celso Napolitano, diz que há um descompasso entre os lucros e os investimentos com os professores. “Essa grande lucratividade resultou em enxugamento dos gastos com corpo docente, em detrimento das condições do trabalho e da qualidade do ensino”, diz ele. “É um tipo de gestão em termos massificados que, com relação à educação, é arriscada para a qualidade.”

Melhoria. O diretor executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, afirma ser natural que o porcentual de gasto com professores seja menor em empresas maiores. “Isso se deve ao ganho de escala e não à precarização da mão de obra”, diz ele, que defendeu melhoria na qualificação dos docentes no setor privado.

“Quando se tem um volume maior de alunos, obviamente, pode-se otimizar a quantidade de professores. Isso até melhora a qualidade, pois o docente fica exclusivo daquela instituição, uma vez que ela tem turmas e aulas suficientes para preencher todo o tempo.”

As instituições de ensino afirmam que houve investimentos nos docentes e melhoria de qualidade dos cursos. A diretora da Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Educação Superior (Abraes), Elizabeth Guedes, diz que a folha salarial vem aumentando nos últimos anos. “Se ela cresce menos do que a receita, isso se deve a um planejamento cada vez mais eficiente dos recursos utilizados”, diz. “Estamos obtendo resultados e elevando a qualidade acadêmica.” A Abraes representa as empresas de capital aberto, além dos grupos Devry e Laureate.

Após as mudanças no Fies do fim de 2014, houve pressão por parte do setor na negociação salarial dos docentes. A data-base era em março e a definição do reajuste saiu em junho. “Conseguimos a duras penas um aumento real de 0,57%, mas o resto das melhorias na carreira ficou parado”, afirma Napolitano. A Fepesp pretende ainda reivindicar participação de lucro e resultados.

Fontes: JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, PAULO SALDAÑA E RODRIGO BURGARELLI – O ESTADO DE S. PAULO

28 Julho 2015 | 03h 00

Corrupção e capital cívico, por André Lara Resende

A extensão e a profundidade da corrupção no Brasil atual causam perplexidade até aos mais calejados observadores. Sempre fomos complacentes em relação às pequenas transgressões, sempre houve corrupção, aqui como em toda parte, mas é o caso de perguntar: como foi possível chegar a um tal nível de desonestidade institucionalizada? A gravidade da situação paralisa a política e a economia. Ainda não está claro como sairemos da crise e o que virá a seguir. Espera-se que o país mude para melhor, que a exposição da corrupção na vida pública e empresarial, com a condenação dos envolvidos, reduza a corrupção. O fim da impunidade é fundamental para reduzir a criminalidade.

Gary Becker, da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel em economia, foi o primeiro a utilizar o arcabouço conceitual da microeconomia, com agentes racionais que maximizam utilidade, para entender o processo de tomada de decisão em questões não especificamente econômicas. Seus trabalhos pioneiros procuravam explicar a tomada de decisão em relação a questões como quantos anos estudar, qual o melhor momento para se casar e quantos filhos ter. Segundo Becker, todo comportamento humano pode ser entendido como uma avaliação de custos e benefícios. A decisão de cometer um crime depende do que se tem a ganhar, comparado ao custo do castigo ponderado pela probabilidade de ser pego. Se o benefício for maior do que o custo estimado da punição, opta-se pelo crime. Simples assim. O modelo tem enorme apelo, exatamente por ser simples, lógico, e dar sugestões claras sobre a prevenção do crime: deve-se aumentar a probabilidade de que o criminoso seja preso e endurecer as penas.

Feliz ou infelizmente, as coisas não são bem assim. Os avanços da psicologia comportamental demonstram que nossa tomada de decisão é mais complexa, não se restringe a um cálculo de racionalidade econômica. Bastam alguns segundos de reflexão para concluir que ao longo da vida, mesmo durante um único dia, temos inúmeras possibilidades de ser desonestos, com baixíssima probabilidade de ser pegos. Nem por isso somos sistematicamente desonestos. Ao contrário, o padrão do ser humano é ser honesto, respeitar a lei e os códigos de ética da sociedade. A desonestidade, ao menos a desonestidade consciente e deliberada, é a exceção.

Os trabalhos recentes de Dan Ariely, professor da Universidade de Duke, nos EUA, chegam a resultados interessantes e até certo ponto surpreendentes em relação à desonestidade. A partir de experiências, muito engenhosamente formuladas, com diferentes grupos de pessoas, a maioria delas alunos universitários americanos, Ariely conclui que a desonestidade não é uma questão de custos e benefícios. Seus experimentos mostram que não há relação entre o valor do que se tem a ganhar e a desonestidade num grupo. Também não há relação entre a probabilidade de ser pego e a desonestidade. São resultados que contradizem frontalmente a teoria do cálculo racional como fundamento para a opção pela honestidade ou pela desonestidade.

É claro que não se é de todo insensível aos custos e benefícios da desonestidade. Especialmente os desonestos contumazes, aqueles que fazem da desonestidade um meio de vida, levam em conta os riscos associados à atividade. Mas para a maioria das pessoas, que se percebem como honestas, não se trata de um cálculo racional. Estamos todos dispostos a incorrer em pequenas infrações, pequenas desonestidades, desde que as consideremos suficientemente irrelevantes, para não arranhar nossa percepção de que somos honestos. Queremos nos perceber e ser percebidos como pessoas honestas, mas estamos dispostos a transgredir, desde que a transgressão nos permita manter a autoestima.

Há quem escolha não levar vantagem mesmo na ausência de punição para o comportamento incorreto. Referências culturais contam

Os estudos mostram que as pessoas são menos desonestas quando são lembradas das leis ou dos códigos de ética. O grau de desonestidade depende daquilo que é percebido como flagrantemente desonesto, assim como do grau de tolerância em relação à desonestidade. Onde as infrações de trânsito, como estacionar em local proibido, circular pelo acostamento, são comuns e disseminadas, quem as comete não se percebe como desonesto. Por isso mesmo, são mais frequentes.

A propensão a agir incorretamente depende também da nossa capacidade de racionalizar. Se formos capazes de justificar a desonestidade, somos muito mais propensos a agir de forma inapropriada. Isso vale tanto para atos mais corriqueiros de incorreção, como também para os mais graves. Roubos, assaltos, até mesmo assassinatos, podem ser cometidos de forma fria, por pessoas que se consideram honestas, desde que em nome de uma causa. O caso de políticos que roubam para o partido, ou para financiar campanhas eleitorais, nunca para o seu enriquecimento, é exemplar da necessidade de racionalização. Os estudos mostram que, quando a desonestidade pode beneficiar pessoas do nosso grupo, ou até mesmo desconhecidos, a propensão à desonestidade aumenta. Uma vez encontrada a justificativa nobre, a racionalização, é possível ser desonesto e manter a autoestima. É o efeito Robin Hood, mas, uma vez rompida a barreira psicológica, passa-se mais facilmente para a desonestidade aberta. Quando passamos a nos ver como desonestos, perde-se o pudor. Se este for o comportamento disseminado entre nossos pares, tudo se torna ainda mais natural.

Queremos ser honestos, mas a propensão para a desonestidade está em todos nós. Mais do que um cálculo de custos e benefícios, o que nos restringe são os valores de nossa comunidade. Se no meio em que vivemos a incorreção é aceitável, insuficiente para arranhar nossa percepção de que somos honestos, somos mais propensos à desonestidade. Essa é a razão pela qual povos diferentes se comportam de forma diferente, ainda que diante dos mesmos incentivos e riscos em relação a um comportamento questionável.

Uma história curiosa, triste para nós, brasileiros, ilustra bem como há comportamentos distintos diante da certeza da impunidade. Até alguns anos atrás, a lei dava aos diplomatas estrangeiros, lotados nas Nações Unidas, a isenção de pagamento das multas de estacionamento na cidade de Nova York. A cidade, porém, nunca deixou de emitir as multas. Como não precisavam ser pagas, não havia sanção para os diplomatas que estacionassem em locais proibidos. Um estudo mostrou que, ao longo de cinco anos, os diplomatas suecos e canadenses não tiveram multas, os alemães tiveram uma multa per capita, os italianos 15, e os brasileiros 30 multas por diplomata. Se serve de consolo, a média dos diplomatas kuaitianos foi de 246 multas.
A certeza da impunidade não leva todos a ser desonestos. A referência cultural conta. Os diplomatas suecos não são menos racionais do que os brasileiros, mas optam pela correção. Optam por não levar vantagem, mesmo quando não há punição para o comportamento incorreto. Há algo na cultura de certos povos, que se poderia chamar de capital cívico, que faz a diferença. Na definição dos que cunharam o termo, capital cívico é o estoque de crenças e valores que estimulam a cooperação entre as pessoas. Os entusiastas dos mercados não se cansam de defender a importância da competição e da meritocracia, mas os que entendem do riscado sabem que na base de uma economia de mercado, antes de tudo mais, estão a confiança e a cooperação. Vale a pena ouvir o que tem a dizer a respeito Kenneth Arrow, prêmio Nobel de economia. Seus trabalhos, em parceria com Gerard Debreu, formalizaram o chamado modelo de equilíbrio geral, do qual são deduzidos os corolários de eficiência dos mercados competitivos: “Virtualmente toda transação comercial tem em si um elemento de confiança. Pode-se dizer, de forma plausível, que muito do atraso econômico no mundo deve-se à falta de confiança mútua”.

Nas sociedades em que o capital cívico é baixo, impera o que Edward Banfield, que foi professor da Universidade de Harvard, chamou de ” amoralidade de laços familiares” 2. Com base em sua experiência num vilarejo do sul da Itália, Banfield procurou entender as razões do atraso da região. Concluiu que a resposta estava na obsessão com que os habitantes se dedicavam exclusivamente aos interesses de suas famílias. Incapazes de cooperar, até mesmo com os vizinhos, os camponeses restringiam-se ao cultivo de suas pequenas propriedades. Ficavam assim impossibilitados de se beneficiar dos ganhos de produtividade da escala e da cooperação. Esse tipo de comportamento se auto-reforça, pois onde todos desconfiam de todos e só estão preocupados com seus próprios interesses, a desconfiança tem razão de ser. Não se pode superestimar a importância da confiança nas relações econômicas e sociais. A confiança importante para o bom funcionamento da sociedade é a confiança nos desconhecidos. É a confiança naqueles que não conhecemos pessoalmente que permite estabelecer contatos, desenvolver os mercados e a cultura.

Em pesquisas sobre valores e atitudes em diferentes países costuma-se perguntar aos entrevistados se a maioria das pessoas merece confiança ou se, ao contrário, é preciso tomar cuidado ao se relacionar com elas. Mais uma vez o Brasil fica mal na fita. Enquanto na Suécia quase 70% dos entrevistados respondem que os outros são dignos de confiança, no Brasil, menos de 10% consideram que as pessoas são confiáveis. É sempre possível argumentar que os brasileiros confiam menos nos outros porque a Justiça é falha, há menos possibilidade de ser punido e, logo, todos são efetivamente mais propensos a ser desonestos. Haveria assim uma lógica no fato de por aqui se confiar menos nos outros, estaríamos de volta à racionalidade do modelo de Gary Becker.

Acontece que a confiança nos outros, o grau de confiança básica, difusa numa sociedade, não é simples consequência do bom funcionamento da Justiça. Há, com certeza, correlação entre as duas coisas, mas o sentido da causalidade não é claro. Assim como a Justiça eficiente contribui para a confiança, mais confiança leva ao melhor funcionamento da Justiça. A confiança e a propensão a cooperar não decorrem exclusivamente dos mecanismos legais de prevenção e punição da desonestidade. São traços culturais, forjados ao longo da história, reforçados pela experiência de cooperação bem-sucedida. Constituem um ativo de longo prazo, que não se adquire da noite para o dia. Como todo traço cultural, são preconceitos, tanto positivos quanto negativos, que não são facilmente revistos. Um exemplo da longa inércia a ser vencida para a acumulação do capital cívico, da persistência das feridas na confiança entre membros de uma sociedade, para o qual Luigi Zingales chama atenção1, é o fato de que, até hoje, mais de um século e meio depois do fim do tráfico de escravos, há significativas diferenças entre as etnias na África. Aquelas que tiveram pessoas capturadas e traficadas como escravos, muitas vezes por membros de suas próprias tribos, até hoje desconfiam de tudo e todos.

Mais do que cálculos de custos e benefícios, são os valores da comunidade que restringem, ou não, nossa propensão às práticas desonestas

“A construção do capital cívico é um longo percurso. A confiança e a capacidade de colaborar, assim urdidas lentamente no decorrer da história, podem ser muito rapidamente destruídas. Uma vez perdidas, é preciso recomeçar do zero, refazer toda a longa história de acumulação de capital cívico, de confiança e de cooperação. Não é fácil, pois a desconfiança leva à desconfiança, e termina por justificar a falta de confiança. É um círculo vicioso duro de ser rompido. A melhor forma de fazer evoluir o capital cívico é não permitir que se deteriore.

A forma como a população avalia o Estado e suas instituições é uma boa aproximação do capital cívico. Onde o capital cívico é alto, o Estado é visto como um aliado confiável. Onde o capital cívico é baixo, o Estado é percebido como um criador de dificuldades para todos e de vantagens para seus ocupantes. Mais uma vez, o processo é do tipo que se auto-reforça.

Se o Estado é percebido como ocupado por desonestos pautados por seus próprios interesses, os bem intencionados evitam a vida pública, o que termina por dar razão à desconfiança. Dada a visibilidade dos políticos e a necessidade de se lidar cotidianamente com as autoridades, o Estado corrupto é um poderoso fator de erosão do capital cívico. Nada mais corrosivo da confiança e do espírito público do que a exposição diária a um Estado ineficiente e patrimonialista.

Assim como o mau Estado destrói o capital cívico, as boas instituições são imprescindíveis para sua preservação. Os estudos de Ariely sugerem que o grau de desonestidade de uma comunidade tem características parecidas com a de uma infecção. A desonestidade pega e se alastra. Basta que uma única pessoa se comporte de forma flagrantemente desonesta para que o grau de desonestidade de um grupo de alunos universitários, submetidos às suas engenhosas experiências, aumente significativamente.

Se uma única pessoa, um desconhecido, é capaz de aumentar a desonestidade dos demais num grupo de universitários, fica claro que a desonestidade dos governantes tem grande impacto sobre o grau de desonestidade do país. Existe um “efeito demonstração” da desonestidade, sua capacidade de se alastrar e de infeccionar a sociedade como um todo. Esta é a razão pela qual é importante reduzir a frequência dos pequenos atos de transgressão, das pequenas desonestidades aparentemente inofensivas. A política de “tolerância zero” em relação ao pequenos delitos, adotada pela polícia de Nova York, contribuiu para a dramática redução da criminalidade na cidade. Pequenas infrações podem parecer inócuas, mas contribuem para criar o ambiente propício às mais graves.

Anos atrás, quando eu ocupava um cargo público, um político com quem eu tinha relações próximas queixou-se comigo da corrupção de pessoas ligadas à sua área. Sugeri que ele fizesse uma denúncia pública. Disse-me que jamais faria isso, porque o impacto para o descrédito da política seria gravíssimo. Intuitivamente, ele estava dando expressão ao efeito demonstração. É evidente que o argumento era falacioso, uma racionalização para não se sentir compactuando com a corrupção sem incorrer nos custos de denunciar seus pares. A concordar com ele, para evitar a contaminação da sociedade, toda sujeira deveria ser empurrada para debaixo do tapete. Isso não significa que não haja uma contradição a ser resolvida: para reduzir a desonestidade, não se pode esconder a corrupção, mas sua divulgação, através do efeito demonstração, contribui para o aumento da desonestidade.

A impressão de que a desonestidade impera ajuda a racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é

A condenação dos envolvidos na operação Lava-Jato deverá reduzir a percepção de impunidade. De acordo com o modelo de racionalidade da desonestidade, haverá menos pessoas decididas a correr o risco. Para os que já cruzaram a barreira, não há dúvida: pensarão duas vezes antes de retomar as práticas a que estavam habituados. Mas, para a grande maioria da população, para os que prezam a honestidade, que não se baseiam num cálculo racional de custos e benefícios, o efeito demonstração terá um impacto negativo. A impressão de que o governo, os políticos e os empresários são desonestos aumenta a tolerância com a desonestidade no dia a dia. Nas inúmeras pequenas oportunidades em que é possível transgredir sem ser punido haverá maior propensão à desonestidade. A impressão de que a desonestidade impera ajuda na racionalização do comportamento desonesto. Se todos são, ninguém é. Por isso é importante ir até o fim, não deixar a impressão de que só alguns foram punidos, que os mais espertos, como sempre, escaparam.

Infelizmente, ainda assim, não é inequívoco que o capital cívico do país sairá fortalecido da crise. É sempre possível que o impacto negativo do efeito demonstração domine o impacto positivo do fim da impunidade. Essa possibilidade é reforçada por mais um interessante resultado dos estudos de Ariely. Quanto mais cansados, desanimados e deprimidos estamos, mais propensos somos a ser desonestos. A honestidade aumenta a autoestima e a baixa autoestima aumenta a desonestidade. A recessão econômica e a depressão psicológica contribuem para o aumento da desonestidade.

Para que o país saia melhor de tão grave e deprimente surto de desonestidade, para que não passe à infecção generalizada, é importante condenar e punir os culpados. Sem dúvida, mas não basta. É preciso, o quanto antes, sair da crise, expurgar da vida pública os envolvidos, recuperar a economia e dar início a uma nova era. O que exigirá, antes de mais nada, novas e exemplares lideranças, ainda longe de estar evidentes.

(1) L. Zingales, P. Sapienza, L. Zingales, “Civic Capital as the Missing Link”, NBER working paper 15845. Março de 2010. Citado em L. Zingales, “Capitalism for the People: Recapturing the Lost Genius of American Prosperity”, Basic Books, 2012.

(2) E. Banfield, “The Moral Basis of a Backward Society”, The Free Press, 1958

André Lara Resende é economista, publicado no Jornal Valor Econômico, 31/7/2015

Ainda mais essa!!! Os feios estão sumindo das empresas, por Lucy Kellaway, colunista do Financial Times

Divulgação

Há alguns dias, fiz uma palestra para recém-contratados de uma das quatro maiores firmas de contabilidade do mundo. Ao observar a plateia, percebi algo estranho. Entre os 80 rostos que me encaravam, não havia um único feio. Ninguém com a pele marcada pela acne. Ninguém com feições assimétricas desagradáveis. Todos os rostos eram atraentes.

Aquilo não era a Vogue ou a Abercrombie & Fitch. Aquelas pessoas haviam sido contratadas para auditar contas de empresas, uma tarefa que exige um entusiasmo incomum pelos GAAP [Generally Accepted Accounting Principles] – e não as maçãs do rosto salientes. Mesmo assim, aquela sala cheia de contadores tinha um padrão mínimo de aparência que não se encontra em uma grande parte da população.

Esse, contudo, não é um caso isolado. Quando penso em amigos dos meus filhos que conseguiram empregos nas firmas de contabilidade, consultorias, bancos e escritórios de advocacia, percebo que todos apresentam um padrão de beleza acima da média.

Até no rádio, conhecido como refúgio natural dos feios, não consigo lembrar de nenhum. Estou no meio de um processo de produção de um programa de rádio e todos os produtores são bonitos. Até mesmo os técnicos de som – aqueles que lidam com botões – têm boa aparência.

Nós não só banimos os feios da maioria dos trabalhos competitivos, como também banimos a palavra. Ninguém chama uma pessoa de feia, apenas não a contrata. Tentei fazer um teste on-line em que você precisa avaliar se as pessoas são honestas, dominantes e competentes com base em diferenças sutis de suas feições. Descobri que sou tão preconceituosa em relação aos feios quanto qualquer pessoa.

Recrutadores e gestores levam isso em conta e pessoas de boa aparência chegam a ganhar 10% mais que os feios, enquanto os CEOs com fisionomia autoritária comandam as empresas com os maiores lucros. Outros estudos dizem que ser feio às vezes pode ser uma vantagem – se você estiver tentando roubar um banco, é melhor ser um pouco assustador. Também pode ajudar você a ser contratado em detrimento de alguém bonito, mas somente quando o recrutador vê você como um concorrente em potencial para ele. Mas nada disso é animador.

Esses levantamentos não provam que a discriminação aos feios está piorando, mas meus olhos dizem que sim. Isso pode estar ocorrendo em parte porque meus olhos têm 56 anos e, para eles, qualquer um na casa dos 20 parece bonito. Mesmo assim, estive olhando fotos antigas de minha turma de trainees no JP Morgan em 1982 e, embora parecêssemos ridiculamente jovens, nossa aparência não era uniformemente atraente. Havia algumas beldades, mas a maioria tinha uma aparência comum e uns poucos eram bem feinhos.

Outra possível razão de os contadores estarem mais bem apessoados é que o mundo inteiro está ficando mais belo na medida em que fica mais rico e mais obcecado com a aparência. Mesmo assim, se você começar a observar os usuários do metrô de manhã, rapidamente verá que isso não é verdade. Há muita gente feia. Mas onde elas trabalham? Não na City de Londres. Não nas Big Four.

De certo modo, é estranho que estejamos discriminando mais a aparência na era da internet, em que enviamos mensagens de texto para as pessoas, em vez de nos encontrarmos com elas. Mesmo assim, de outras maneiras a internet está piorando as coisas.

Agora mesmo recebi detalhes de uma pessoa que estou entrevistando para algo e fiz o que sempre faço – procurei por ela no Google Images e vi seus olhos grandes e separados e a mandíbula bem delineada. Meus preconceitos apareceram, e ainda nem encontrei o sujeito.

Para combater esse tipo de coisa, a Unilever e a Microsoft estão engajadas em uma experiência no México, onde entrevistam pessoas que ficam por três minutos atrás de um biombo, para que as primeiras impressões não sejam influenciadas pelo rosto dos candidatos. Aposto que com o tempo esse tipo de coisa acabará se difundindo. Enquanto isso, o número de pessoas feias que uma empresa contrata diz muito sobre ela. Se contrata apenas os bonitos, ela não só está sendo desprezível, como está deixando passar um grupo de talentos em potencial — o que significa desempenho inferior pela frente.

Ao pensar no que escrever para esta coluna, comecei a observar atentamente meus colegas, e acho que eles não vão se importar se eu disser que há poucos sinais de discriminação pela aparência no “Financial Times”. Se você fizer uma auditoria das fotografias dos colunistas – que vão dos maravilhosos aos não tão maravilhosos -, acho que você vai concordar que a curva resultante estará dentro da distribuição nacional.

Posso citar outros jornais em que as fotos que acompanham os textos dos colunistas são em média mais bonitas, mas o padrão dos comentários é mais baixo. Os dois fatos certamente não estão dissociados.

Fonte: Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira do Jornal Valor Econômico, 27/7/2015

A britânica Lucy Kellaway é jornalista do “Financial Times”. Na coluna “Banda Executiva”, ela comenta, com bom humor, perspicácia e ironia, diversos assuntos relacionados ao mundo corporativo e à vida executiva como a gestão de pessoas, o dia a dia no escritório e os modismos na área de recursos humanos.

Lucy Kellaway também é autora de livros como “Sense and Nonsense in the Office”, “Who Moved My BlackBerry” e “In Office Hours” e recebeu, em 2006, o prêmio de colunista do ano pelo British Press Awards.

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