As 3 dicas financeiras para enfrentar a crise, por Carol Sandler

Foto: Luiza Ferraz/Divulgação

Planejamento alterado, campanhas adiadas, confinamento em casa e mais trabalho. A pandemia do novo coronavírus obrigou a maioria dos brasileiros a mudar drasticamente sua rotina e fez a fundadora do Finanças Femininas, Carol Sandler, ter dias ainda mais agitados.

A economista e influenciadora digital conta que passou a fazer um volume maior de reuniões (por videoconferência) e a ajudar mais pessoas com sua expertise em finanças devido ao momento incertezas econômicas que vive o País.

Terceira convidada do E-Investidor na série As 3 dicas financeiras para enfrentar a crise, Carol elenca os pontos que considera essenciais para os brasileiros atualmente.

1- Faça um diagnóstico dos seus gastos

Quando estamos com alguma dor, vamos ao médico e ele nos pede uma série de exames. Com as nossas finanças, é a mesma situação. Para conseguirmos ver como montar um plano para atravessar este período de crise, precisamos antes fazer um diagnóstico financeiro.

É fundamental ter dinheiro guardado em reserva.

Para isso, pegue os extratos dos últimos três meses e separe eles em três categorias: essenciais, supérfluos e financeiros (parcelas de dívidas ou dinheiro que conseguiu guardar). Quem não está no vermelho pode usar 50% da renda líquida para essenciais, 30% para supérfluos e 20% para reserva. Mas se você está no vermelho, use 50% para gastos essenciais, 20% para supérfluos e 30% para parcelas de dívidas. Ao comparar o seu cenário atual com este ideal, você pode visualizar onde vem gastando mais e entender como precisa cortar.

2- Renegocie as dívidas

Quem tem um financiamento imobiliário ou de automóvel pode pedir o adiamento das parcelas por 60 dias. Além disso, os maiores bancos poderão prorrogar dívidas de bons pagadores pelo mesmo prazo.

3- Priorize investimentos com liquidez

Neste momento, é fundamental ter dinheiro guardado em reserva. Todas as economias devem ser aplicadas em investimentos de alta liquidez. Fundos DI com taxa zero podem ser muito úteis agora. Se houver uma emergência ou algum imprevisto, você poderá usar esses recursos.

Fonte: e-Investidor, Estadão, LUCAS BALDEZ, lucas.baldez@estadao.com, 27/03/2020, 18:03.

O vírus quebrou em 40 dias a disciplina que investidor construiu em 40 anos

Imagem da Bolsa de Valores de Nova York, em 9 de março de 2020: ritmo vertiginoso de altas e quedas causado pelo coronavírus. (Mark Abramson/ The New York Times)

(James B. Stewart – The New York Times) – É manhã de quinta-feira, 19 de março, 2020. Quatro semanas da explosão do coronavírus. O índice industrial Dow Jones abriu em queda de 700 pontos, após ir abaixo de 20.000 pontos no dia anterior. Diminuiu 30% em um mês, a queda mais acentuada de todos os tempos, ainda pior do que durante a Grande Depressão. A queda foi nauseante.

No entanto, é hora de comprar ações com base em regras que desenvolvi ao longo de décadas de investimento. Para fazer isso, preciso logar na minha conta de corretagem. Quando o fizer, o primeiro número que verei será o atual valor de mercado do meu portfólio. Isolado em uma fazenda na zona rural de Nova York, cercado pelo deserto, não vejo o número há dias.

Não quero olhar agora. Decido que é melhor verificar a previsão do tempo. E depois há e-mails para acompanhar. Uma hora depois, eu não fiz nada. Estou paralisado. 

Possuo ações há quase 40 anos. Vivi, sobrevivi e até prosperei em quatro crashes. Então eu deveria estar preparado. No entanto, olhando para as últimas semanas, reconheço que violei a maioria das minhas regras testadas pelo tempo. Vagando entre otimismo e desespero, à medida que as más notícias aumentavam e minha vida cotidiana diminuía, deixei as emoções influenciarem minhas decisões. Farei de novo esta manhã. 

Uma queda insondável

Comprei pela primeira vez um fundo mútuo de ações durante o verão de 1982, assim que economizei dinheiro suficiente para investir. Meu pai, gerente de vendas da Cadillac para as afiliadas locais de rádio e TV da NBC, acreditava muito no mercado de ações e confiava em mim.  Aconteceu que 1982 foi um ótimo ano para comprar, não que eu tenha percebido na época. Durante anos, desfrutei do reforço positivo de um mercado em constante crescimento. Eu adorava procurar meu fundo mútuo nos jornais.

Nos cinco anos seguintes, o mercado triplicou. Em 19 de outubro de 1987, eu estava visitando meu irmão, que passava um semestre na França. Quando deixei meu hotel em Estrasburgo na manhã seguinte, notei que as primeiras páginas das bancas exibiam manchetes informando que o Dow havia caído “23”. 

Eu me perguntava por que o mercado dos EUA era notícia de primeira página na França. Eu olhei mais de perto e vi os 23 precederem um símbolo de porcentagem. O Dow caiu 508 pontos insondáveis ​​em um dia. Em termos percentuais, foi o pior dia do mercado de ações de todos os tempos.

Senti um forte desejo de recuperar o que restava de minhas modestas economias vendendo. Mas eu estava longe e não tinha escolha a não ser esperar. Quando voltei aos Estados Unidos, o mercado pareceu se estabilizar. Mas a volatilidade logo voltou.

Em uma dessas oscilações, entrei em pânico e vendi todo o meu fundo. Em setembro de 1989, o mercado havia recuperado todas as suas perdas. Eu assisti do lado de fora, esperando em vão por um bom tempo para voltar.  Prometi nunca mais entrar em pânico. Fiz uma regra – nunca vender nas férias – e um corolário: nunca compre nas férias.

Isso me ajudou muito no bull market da década seguinte, alimentado pelo boom da tecnologia. Foi ainda mais impressionante do que nos anos 80. Muitas vezes eu ouvia personal trainers na academia gabando-se de suas ações de tecnologia favoritas. A noção de diversificação era amplamente desconhecida para mim. No início de 2000, quando a bolha tecnológica estourou e a próxima queda ocorreu, eu estava totalmente investido e permaneci assim. Eu assisti enquanto o valor dos meus investimentos diminuía. Parei de olhar para as mesas de ações, o que pelo menos proporcionava algum conforto psicológico. Coloquei minhas declarações mensais em papel no lixo fechado. Mas pelo menos aderi ao meu princípio de 1987: não vendi. 

Após o mercado de baixa de dois anos, refinei minha estratégia. Imaginei que se comprasse sempre que a média do mercado caísse 10% em relação à sua alta anterior – a definição padrão de correção – e depois comprasse um pouco mais após cada queda subsequente de 10%, nunca estaria comprando no topo do ciclo.

Não pensei nisso como o momento do mercado, uma vez que não fiz previsões de onde o mercado estava indo. Minha estratégia era uma variação da prática agora generalizada de reequilíbrio de portfólio – vender algumas classes de ativos e comprar outras para manter uma alocação estável. Eu coloquei esse sistema em prática durante a crise financeira de 2008. Lembro-me de reações chocadas em outubro, quando – com o mercado em queda e outros se gabando de que eles tinham a previsão de sair – eu disse que estava comprando. 

Meu momento não era perfeito. O mercado caiu 10% em cinco ocasiões – então eu tive muitas oportunidades de aumentar minhas posições em ações. O último ocorreu em março de 2009. Em retrospectiva, o primeiro desses 10% de declínio foi um tempo tolo para comprar, já que o mercado caiu mais 40%. Mas colhi os ganhos mesmo com as compras antecipadas durante o bull market que terminou naquele mês. Em 2009, não precisava me preocupar em voltar ao mercado. Eu já estava lá. 

O que é outro susto de vírus?

Houve apenas cinco correções de 10% desde então, e cada uma foi uma oportunidade de compra para mim. Nenhuma foi seguida por um segundo declínio de 10%. A última dessas correções ocorreu no final de 2018. Com o dinheiro acumulado na minha conta, eu me perguntava quando, se alguma vez, teria outra oportunidade. Eu fiquei impaciente. 

Em 19 de fevereiro, o S&P 500 fechou em um recorde. Ninguém parecia ver um mercado em baixa ou recessão no horizonte, mesmo quando múltiplos de ações oscilavam em níveis recordes e um vírus estranho começou a se espalhar. Até uma semana depois.

As ações caíram lentamente no início, depois ganhando força. Em 25 de fevereiro, o S&P 500 havia caído 7,6% em relação ao seu pico.

Do ponto de vista financeiro, não estava preocupado com o vírus. As infecções estavam se estabilizando na China. Houve alguns casos nos Estados Unidos, a maioria em um único lar de idosos no estado de Washington. Todo mundo estava dizendo que tínhamos melhores cuidados médicos, melhor qualidade do ar e meios mais eficazes para impedir a sua propagação do que a China. 

Como investidor, eu vivi muitos sustos de vírus – SARS, MERS, gripe suína, Ebola – e seus estragos não tiveram impacto discernível nas ações dos EUA. Mesmo a devastadora epidemia de aids teve pouco efeito na economia mais ampla ou no mercado em expansão. Então, eu comprei ações (um fundo de índice amplo) em 25 de fevereiro, pulando na minha própria meta de compra de 10%.

Minha ansiedade reprimida e otimismo dominaram minha estratégia disciplinada. Não tomei uma decisão consciente de violá-la. Eu nem sequer pensei nisso na minha pressa de tirar proveito do que presumi que seria uma oportunidade passageira. As ações caíram um pouco mais no dia seguinte. 

Então, em 27 de fevereiro, o S&P caiu quase 5%. Agora, o mercado estava oficialmente em uma correção, a mais rápida de sua história, uma queda de 12% em relação ao pico da semana anterior. O coronavírus se espalhou globalmente, inclusive para os Estados Unidos. Eu percebi que deveria ter esperado. Eu me senti tolo e culpado por violar minhas regras. Jurei não fazê-lo novamente. 

A maior queda desde a segunda-feira negra

Mas como me senti inteligente na segunda-feira seguinte. O S&P subiu quase 5%, em meio a rumores de que o Federal Reserve estava prestes a cortar as taxas de juros. A alta durou pouco. Até o final da semana, a S&P havia apagado os ganhos de segunda-feira. A essa altura eu também estava preocupado, mas não sou especialista em doenças infecciosas. Eu imaginei que as ações tinham precificado os riscos. 

O que eu sabia era que agora eles estavam profundamente envolvidos em uma correção, e então comprei mais. Minha compra pode ter sido prematura na primeira vez, mas agora eu estava de volta aos trilhos, aderindo ao meu manual. Em um momento de crescente incerteza em tantas frentes, senti como se estivesse assumindo o controle do meu destino. Foi a última vez que a compra de ações foi boa, como se eu estivesse aproveitando uma oportunidade fugaz. Logo se tornou uma fonte de profunda ansiedade. 

No primeiro final de semana de março, as manchetes eram sobre a disseminação explosiva do vírus na Itália. Fotos de praças desertas levaram a gravidade da situação. O que parecia uma ameaça distante agora parecia perto de casa. Se isso não bastasse, a Rússia e a Arábia Saudita decidiram iniciar uma guerra de preços do petróleo no momento em que a demanda estava em colapso. Os preços do petróleo despencaram, arrastando todo o setor de energia. 

Eu esperava que fosse uma segunda-feira ruim nos mercados, mas foi ainda pior. Circuit breakers entraram em ação para interromper um dia caótico. A S&P fechou o dia em 7%, a maior queda desde a Segunda-feira Negra em 1987. 

Juntei coragem para olhar para minha conta de corretagem. Fiquei chocado: a parcela das ações caiu muito mais do que as médias do mercado americano. Meu fundo internacional de índices de ações caiu 20% em relação ao pico de fevereiro, e o fundo para mercados emergentes perdeu um quarto de seu valor. Pensei em minha experiência 33 anos antes, quando entrei em pânico nas manchetes de Estrasburgo. Tentei me lembrar de que, além da volatilidade de curto prazo, a trajetória de longo prazo do mercado sempre subiu. Quando o mercado cai, é hora de pensar em comprar mais ações – um tempo que veio muito antes do que eu esperava. 

Wall Street na sexta-feira, 13 de março. Um dos piores dias da história da Bolsa de Nova York. (Lucas Jackson/ Reuters)Na quinta-feira, 12 de março, depois que o presidente Donald Trump proibiu a maioria das viagens aéreas entre os Estados Unidos e a Europa continental e depois que as economias do mundo começaram a fechar, a carnificina no mercado de ações foi ainda pior do que na segunda-feira. 

O S&P caiu 10%, deixando-o 27% abaixo do pico algumas semanas antes. De acordo com minhas próprias regras, era hora de comprar. Eu quase não notei. Eu estava ocupado cancelando férias planejadas na próxima semana para as Ilhas Virgens. Comecei a ponderar a perspectiva de meu próprio isolamento, algo que alguns dias antes parecia impensável. Pior, um amigo na Espanha, um saudável homem de 40 anos que eu acabei de visitar em novembro, ficou gravemente doente com o vírus. Ele estava em coma em um hospital de Madri. Eu estava preocupado com a propagação da doença. Eu não estava pensando no mercado de ações ou no meu patrimônio líquido em rápido declínio.

Recorde de volatilidade

A estátua da Fearless Girl, um dos símbolos de Wall Street. (Angela Weiss/ AFP)

Minha estratégia de negociação não pretende ser rígida, apenas racional. Não importa se faltou um ou dois pontos percentuais aqui ou ali, ou se meu tempo está um pouco fora ou se assuntos mais importantes têm precedência – como eles têm agora. Mais dois amigos me disseram que estão com o vírus.

Ainda assim, durante os dias seguintes, quando refleti sobre a marcha dos eventos durante algumas longas caminhadas por uma estrada rural, reconheci que estava ficando sem desculpas por inação. Eu sabia que deveria comprar novamente, com o S&P permanecendo bem abaixo da minha meta de 20%. Mas as negociações foram mais voláteis do que qualquer coisa que eu já vi. 

A S&P registrou um recorde de sete dias seguidos de oscilações de 4% ou mais. Naquela sexta-feira, 13 de março, as bolsas de valores promoveram um rallie no final da tarde, quando Trump prometeu novas medidas para conter o vírus e fortalecer a economia. O S&P 500 fechou quase exatamente 20% abaixo do seu pico. Ainda não fiz nada. Foi tão bem. 

Na segunda-feira, o mercado entrou em colapso, apagando todos os ganhos de sexta-feira. O Dow caiu abaixo do marco de 20.000 pela primeira vez em três anos. Os mercados caíram 30%. Estava na hora de eu comprar. Tendo pulado a “oportunidade” de compra de 20%, eu sabia que era hora de acelerar. Mas eu não faria isso em um dia em que os mercados estivessem em queda livre. De qualquer forma, voltei a evitar o site da minha corretora. No dia seguinte, o mercado de ações saltou mais alto. Senti uma forte tentação de comprar, tomado pela noção de que o pior poderia ter acabado. 

Preocupava-me que estivesse perdendo o fundo por mais uma vez não agir de acordo com minha estratégia. Mas a janela de 30% havia se fechado e eu me lembrei de que minha regra é nunca comprar em um dia útil. O dia seguinte trouxe boas notícias: novas infecções na China caíram para zero. Mesmo assim, os mercados da manhã afundaram, novamente acionando minha meta de compra de 30%. Desta vez eu estava determinado a agir. E ainda assim eu demorei. Eu verifiquei as notícias, o clima, meus e-mails. Eu disse a mim mesmo que isso era um absurdo. Se eu olhei ou não, o valor do meu portfólio era o que era. Então eu olhei. 

Foi ruim, mas não quase o choque da última vez (talvez porque os declínios percentuais agora sejam traduzidos para valores mais baixos em dólares). Eu ainda tinha bastante dinheiro em mãos, pois os juros e dividendos haviam se acumulado nos últimos anos. Então entrei e comprei. Não direi que me senti eufórico, mas me senti melhor do que em semanas, pelo menos com minhas finanças pessoais. 

Eu reuni a coragem de encarar a verdade, por mais sombria. Eu agi de acordo com um plano. Eu tinha mais dinheiro, se necessário, para o próximo declínio de 10%. Minha confiança renovada sobreviveu à próxima queda, que ocorreu no dia seguinte. 

‘Vergonha, tolice, como você estragou tudo’

Nesta semana, descrevi minhas recentes lutas de investimento para Frank Murtha, sócio-gerente da empresa de consultoria MarketPysch e especialista em finanças comportamentais. Ele disse que nada que eu lhe contei que era incomum, mesmo entre investidores experientes. Minha relutância em olhar para meu portfólio era comum, disse ele. 

“Observar-se com menos dinheiro é doloroso”, disse ele. “Não é apenas que você é mais pobre. Você também se sente envergonhado, tolo, como se tivesse estragado tudo. Uma das coisas mais difíceis é separar o seu dinheiro do seu ego e identidade.” 

Ele me deu crédito por reunir coragem para enfrentar a realidade e depois comprar. “Nada alivia a ansiedade mais do que agir”, disse ele. “Você pode realizar pequenas ações que atendam à necessidade emocional de fazer algo sem colocar suas finanças em risco indevido.” 

As ações são um dos poucos ativos que psicologicamente se tornam mais difíceis de comprar à medida que se tornam mais baratos. “Todas as decisões de compra são reforçadas negativamente”, disse Murtha. 

Até ele perdeu a grande oportunidade de compra em março de 2009. “Eu estava com muito medo”, disse ele. Pelo menos, não cometi o que Murtha considera o erro mais sério, que é vender em um declínio acentuado. “É aí que as pessoas realmente se machucam”, disse ele. 

“Depois de sair, a influência emocional funciona contra você. Ou o mercado cai ainda mais, o que confirma seu medo. Ou aumenta, e você não deseja comprar depois de vender. Então fica cada vez mais longe de você. As pessoas não percebem o quão difícil é voltar. “

O mercado disparou. Não senti euforia. Nada do que vivenciei no passado me preparou para a velocidade desse colapso do mercado. O declínio após o pico das ações em março de 2000 durou até outubro de 2002 – 2 anos e meio. O bear market mais recente, iniciado em 2007, durou 17 meses. 

Ninguém sabe quanto tempo esse mercado em baixa vai durar. Estou ciente disso: durante o mercado de baixa anterior, o S&P nunca caiu mais de 50% em relação ao pico de 2007. Mesmo na Grande Depressão, o pior mercado em baixa de todos os tempos, o S&P caiu 86%. Pequeno conforto, talvez, mas nunca chegou a zero. E após essas quedas acentuadas, o mercado não apenas se recuperou, mas acabou atingindo recordes. 

Esta semana trouxe boas notícias. Meu amigo na Espanha saiu do coma. Os médicos dizem que sua recuperação será lenta, mas estão otimistas. Na terça-feira, o mercado disparou, seguido por mais dois dias de ganhos. Desta vez, não senti euforia. Alguns dos maiores rallies ocorreram no meio dos piores mercados em baixa. Meu próximo objetivo é quando o S&P cair 40% do seu pico. Eu posso estar comprando novamente em breve.

James B. Stewart é colunista do New York Times e autor de nove livros. Em 1988, ele venceu o Prêmio Pulitzer, o mais importante do jornalismo mundial. É professor de negócios do jornalismo na Universidade de Columbia.

Publicado: E-INVESTIDOR, einvestidor@estadao.com. 27/03/2020, 20:32 ( atualizada: 27/03/2020, 21:42 ).

28 cursos gratuitos de educação financeira para fazer na quarentena

Foto: Pixabay

O momento de reclusão devido a crise do novo coronavírus fez diversas empresas e instituições de ensino liberarem conteúdos on-line para ajudar as pessoas durante a quarentena. A iniciativa vem em boa hora e em resposta ao turbilhão no mercado financeiro: pelo menos 28 cursos de finanças estão disponíveis sem custo. 

Relação dos cursos no e- Investidor/Estadão, 27/03/2020, 7:00 ( atualizada: 27/03/2020, 9:42 ).

Em um mês de crise, já são dez empresas do Ibovespa que valem menos no mercado do que no mundo real, por Marcos de Vasconcellos

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Se a boa sabedoria popular ensina que não devemos julgar um livro pela capa, quem entende de investimentos sabe que não se deve avaliar uma ação apenas pelo preço. E, assim como o período de isolamento social é uma boa hora para colocar a leitura em dia, deve servir também para o investidor analisar o real impacto da crise no mercado, indo muito além dos altos e baixos que vemos nos gráficos.

Um ponto chave para entender se uma ação está barata ou cara é reparar o quanto o preço condiz com o que a empresa em questão realmente vale.

Quem faz essa relação consegue notar que um papel a R$ 40 está mais barato do que um a R$ 0,40, quando o primeiro é de uma companhia sólida, que gera valor de verdade, e o segundo, de uma empresa à beira da falência.

Quanto você teria se vendesse todos os seus bens agora e quitasse suas dívidas? Esse seria o seu chamado “valor patrimonial”. E a relação entre esse valor e o preço das ações (que determinam o “valor de mercado”) é levada em conta para definir se um papel está barato, ou seja, custando menos do que vale a empresa “no mundo real”,

Olhando as ações ordinárias da Petrobras (PETR3) hoje, um mês após o começo das grandes quedas do Ibovespa, pode-se concluir que os investidores têm comprado e vendido os papéis por quase metade do que a empresa vale.

O valor de mercado (soma do preço de todas as ações) corresponde a 60% do valor patrimonial (diferença entre todos os seus ativos – bens e direitos – e passivos – obrigações da empresa com terceiros).

Ou seja, se a Petrobras vendesse todos os seus ativos e pagasse todas as suas dívidas, teria mais dinheiro do que se vendesse todas as suas ações.

Vá lá que, além da crise mundial causada pelo coronavírus, a petroleira enfrenta a dura queda no preço do petróleo, cujo barril atingiu, recentemente, o valor mais baixo desde 2003, chegando a ser vendido por US$ 24,52.

Mas ela é só uma entre 10 companhias do Ibovespa cujas ações são vendidas com deságio, ou seja, com valor de mercado abaixo do patrimonial. E seguem negociadas normalmente.

Levando em conta que o Ibovespa engloba 73 ações, ter 10 como possivelmente subvalorizadas é um bom sinalizador do que já pode ser encontrado na xepa do mercado após um mês de crise.

Em meio a tantas incertezas, ninguém arrisca dizer se esse é o fundo do poço ou se esperamos o alçapão se abrir sob nossos pés para comprar mais barato, mas as distorções de preço chamam a atenção de quem fareja boas oportunidades.

Conheça as 10 empresas com preço de mercado abaixo do valor patrimonial:

Ações com preço de mercado abaixo do valor patrimonial
AçãoEmpresaP/VPA
ELET3Eletrobras0,5
ELET6Eletrobras0,5
EMBR3Embraer0,5
GOAU4Metalúrgica Gerdau0,5
USIM5Usiminas0,5
COGN3Kroton Educacional0,6
PETR3Petrobras0,6
PETR4Petrobras0,6
GGBR4Gerdau0,7
BBAS3Banco do Brasil0,8
BRML3BR Malls0,9
CMIG4Cemig0,9
* Valores relativos ao fechamento do dia 26/03/2020
Azul e Gol não são citadas porque seus prejuízos acumulados fazem com que o P/VPA fique negativo, inviabilizando o uso do indicador para análise das companhias.
Fontes: Site Monitor do Mercado e Economatica.


Analistas apontam que, para encontrar um bom lance, não basta olhar as ações com deságio, uma vez que algumas já eram vendidas assim antes dessa crise. A Eletrobras (ELET3), por exemplo, se levarmos em conta a média do último ano, já tinha os papéis valendo 73%% do patrimônio (hoje, estão em míseros 50%).

O ideal é ver também a diferença entre os valores atuais do indicador que relaciona o preço da ação e o valor patrimonial (chamado P/VPA) e a média do último ano.

E a lista das maiores quedas surpreende por dois motivos. Primeiro, porque vai muito além das óbvias empresas relacionadas a turismo e viagens, apesar de ser encabeçada pela CVC.

Segundo, porque mostra o tamanho da discrepância entre o mercado e o “mundo real” no último ano, antes de coronavirus ser uma palavra onipresente em nosso cotidiano.

A Smiles, do programa de milhagem, estava valendo, no mercado, em média, 5,3 vezes o que seu patrimônio. Hoje, em meio a uma crise que impacta diretamente o setor do turismo, vale uma vez e meia.

As ações da Braskem (BRKM5), por sua vez, valiam 4,6 vezes o valor patrimonial da companhia. Agora, a empresa, no mercado, vale praticamente o dobro de seus bens no “mundo real”.

As quedas do indicador P/VPA chegaram a quase 80%.

Entre as que tiveram aumento nesse indicador, chama atenção a rede de farmácias RaiaDrogasil (aumento de 21%). A emrpesa deverá, em pouco tempo, ver refletida em seus balanços a busca desenfreada por álcool gel, vitaminas e remédios.

Ao contrário do álcool gel, no entanto, as ações seguem disponíveis no mercado, esperando quem saiba escolher com base em critérios sólidos e nas suas reais necessidades, e não encher o carrinho em busca de milagres e promoções.

Veja as 10 ações que registraram a maior queda de P/VPA em relação à média do último ano:

10 maiores quedas
AçãoEmpresaP/VPAMédia P/VPA (últimos 252 dias)Variação (%)
CVCB3CVC1,36,32011952191235-79%
SMLS3Smiles1,55,33984063745019-72%
IRBR3IRB Brasil26,68286852589642-70%
BRKM5Braskem2,14,67988047808764-55%
PETR3Petrobras0,61,24342629482071-52%
CIEL3Cielo1,22,42191235059761-50%
EMBR3Embraer0,50,96872509960159-48%
CSNA3CSN11,88585657370518-47%
PETR4Petrobras0,61,12450199203187-47%
COGN3Kroton Educacional0,61,09741035856574-45%
* Valores relativos ao fechamento do dia 26/03/2020
Azul e Gol não são citadas porque seus prejuízos acumulados fazem com que o P/VPA fique negativo, inviabilizando o uso do indicador para análise das companhias.
Fontes: Site Monitor do Mercado e Economatica.

Marcos de Vasconcellos. Jornalista, empreendedor e fundador do site Monitor do Mercado. Publicado na Folha de S.Paulo, 27.mar.2020.

Paraisópolis tenta proteger mais vulneráveis contra coronavírus e miséria

Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem  no campo de futebol da favela para receber doação de sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores

Cercados pelo mar de casas sem reboco, espalhados em metade de um campo de futebol, presidentes e vice-presidentes se reuniram bem no meio da maior favela de São Paulo, na manhã desta quinta-feira (26).
O encontro de líderes tinha um só objetivo: tentar blindar até onde der os cerca de 100 mil moradores de Paraisópolis da inevitável chegada do novo coronavírus.

Eles sabem que não haveria como impedir que a pandemia se espraiasse por ali —já são ao menos cinco os casos de moradores contaminados—, mas entendem também que a comunidade é terreno fértil para a disseminação do vírus, que já causou 77 mortes no país, 20 apenas nesta quinta, e ao menos 2.915 casos registrados.

A carência material de muitos dos moradores faz com que produtos básicos de higiene e comida estejam em falta nas casas de tijolos, e pobreza, aparentes.

Recém-empossados, todos se voluntariaram para o posto. São “presidentes, e vices, de rua” que responderam a um chamado da própria comunidade que dizia: “Caro morador, conforme já noticiado na imprensa, os moradores das favelas brasileiras serão as principais vítimas da pandemia da Covid-19. Os governos (federal, estadual e municipal) até agora não apresentaram NENHUM plano para proteger os habitantes de Paraisópolis. Por isso o G10 das Favelas fará sua parte e solicita o apoio de todos os moradores”.

Ao todo, eles são 420, divididos em 210 duplas. Agora, cada uma delas é responsável por prover o mínimo para pelo menos 50 famílias das vias em que moram. Não há dinheiro para tanto. Contam apenas com a boa vontade daqueles que podem doar —sejam eles de Paraisópolis ou não.

Na manhã desta quinta, no campo de futebol, respeitando a distância mínima de cerca de dois metros entre eles, cada um dos líderes recebeu as primeiras doações.

Em caixas de papelão, veio o mínimo para que as pessoas não se contaminem: 21 barras de sabão e 12 unidades de álcool em gel, itens a serem repartidos entre as, no mínimo, 50 famílias que foram previamente cadastradas. As cestas básicas ainda não chegaram.

Para o fotógrafo Maike Gonçalves, 27, esse número é mais do que o triplo. Morador de um conjunto de prédios da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), ele tem 188 famílias em sua lista.

Começou o dia andando pelos corredores dos edifícios, conversando com proprietários e inquilinos, passou a hora do almoço no campo de futebol recebendo os itens de higiene, e a tarde e o começo da noite distribuindo os itens e atendendo os chamados que não paravam de chegar.

“No prédio tem quem é dono do apartamento e quem paga aluguel, mas, fora dele, nas vielas aqui perto, tem quem não consiga nem pagar para morar”, diz o fotógrafo. “Como nem governo nem prefeitura apareceram para ajudar em nada, as lideranças da quebrada assumiram e fizeram esse planejamento.”

Entre essas famílias que já não têm mais a quem apelar está a do casal Hebert Douglas e Regina Santos Silva, ambos de 24 anos. Pais de uma menina de dois anos e de um menino de um ano, eles têm neste momento sete quilos de arroz e dois quilos de feijão, além de sal e açúcar, para alimentar a todos enquanto durar a quarentena.

Nesta quinta, a família recebeu um pacote com cinco barras de sabão e um tubo de álcool em gel, entregues por Maike. Ainda esperam a chegada da cesta básica

Desempregado há um ano e meio, Hebert vende água nos semáforos da avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, zona sul de São Paulo. Regina é diarista. Sem movimento na cidade, ele não pode trabalhar. Dispensada pela patroa, ela não tem mais renda alguma. Mensalmente, os dois levavam para casa cerca de R$ 900. Pela casa de dois cômodos, pagam R$ 400 de aluguel —mas não mais por muito tempo, porque o proprietário pediu o imóvel e eles precisam sair até o dia 1º de abril.

“No momento, não temos para onde ir. Pensei em mandar minha mulher e as crianças para a casa da família dela na Bahia, mas acho que nem os ônibus estão saindo”, diz Hebert, que está gripado. “Tenho saído de teimoso para catar uns reciclados, carregar entulho e tentar virar alguma coisa.”

O contato com situações como a da família de Hebert e Regina faz parte do cotidiano de Gílson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis.

“Agora mesmo recebi um pedido de ajuda com a foto da geladeira vazia de um morador”, diz Gílson, que lembra que para doar basta acessar a página da União dos Moradores, no Facebook, e mandar uma mensagem. “Vamos responder e indicar como fazer a doação.”

Procurada, a Prefeitura de São Paulo afirma que desde que a reclusão pessoal e os cuidados com a higiene passaram a ser indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde), “passou a utilizar carros de som com alertas de orientação sobre procedimentos de prevenção do coronavírus aos moradores das comunidades paulistanas”.

Em nota, a prefeitura diz que “centenas de bairros de todas as regiões da capital já receberam, e seguirão recebendo os carros de som e orientações do departamento social pelo menos durante a próxima semana. Entre os locais atendidos estão Paraisópolis, Jardim Colombo, Heliópolis, M’Boi Mirim, Capão Redondo, Jardim Ângela, Itaim Paulista, São Mateus e Brasilândia”.

A gestão Bruno Covas (PSDB) também afirma que publicou o decreto 59.301, do dia 24 deste mês, que permite a realização de doações. Os interessados podem apresentar proposta de doação ou comodato, pelo email doacoes@prefeitura.sp.gov.br.

Fontes: Emilio Sant’Anna e Vanessa Gonçalves, Folha de S.Paulo, 27.mar.2020.

Não adianta jogar dinheiro de helicóptero, se continuar cobrando imposto, diz dono da Riachuelo

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O empresário Flávio Rocha (Riachuelo) Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Não cai do céu O empresário Flávio Rocha (Riachuelo), que passou o último ano defendendo uma reforma tributária capaz de desonerar a folha de pagamento com base no resgate de um tributo sobre movimentação financeira, viu seu sonho murchar diante do coronavírus, mas não desistiu do objetivo. Afeito a analogias, ele diz que “não adianta jogar dinheiro de helicóptero, se continuar com o aspirador de dinheiro ligado, ou seja, a arrecadação de impostos, principalmente os incidentes sobre a folha”.

Bem maior Rocha, que pouco se manifestou nos últimos dias no debate sobre a eficácia do confinamento para frear o coronavírus, avalia que é tudo um “falso dilema”. Para ele, alguns de seus colegas empresários que recentemente atacaram a quarentena acabaram sendo mal interpretados.

A vida é… “Ou são vidas ou é a economia. Não se trata disso. O bem maior é a vida. Não são só vidas do coronavírus. São vidas que serão perdidas com desemprego, desalento, violência, que serão mais numerosas”, afirma ele.

…feita de escolhas Rocha faz comparações entre as mortes provocadas por H1N1 ou por acidentes de carro com aquelas que o novo coronavírus vem causando.

Cinto de segurança “Poderíamos ter evitado mortes proibindo o automóvel, com um impacto muito menor do que desligar toda a economia: bastaria desligar os veículos. Pouparia 10 mil vezes mais vidas do que o coronavírus”, diz ele.

Paralisação Na semana passada, a Riachuelo suspendeu as atividades de lojas e fábricas da marca.

“Há maneiras de não parar a economia sem colocar a população em risco. A recessão resultante de se tirar a economia da tomada vai gerar muito mais mortes

Flávio Rocha, presidente do conselho de administração da Riachuelo no Painel S.A., joana.cunha@grupofolha.com.br, Folha de S.Paulo, 27/3/2020.

Coronavírus: o desespero de pequenos empresários forçados a fechar as portas

A manicure Rose da Silva não poderá atendeu em seu salão; a Prefeitura determinou que todos os comércios da capital fiquem fechados a partir desta sexta-feira (20) até o dia 5 de abril. As exceções são padarias, farmácias, postos de combustíveis, restaurantes, supermercados e feiras livres
A manicure Rose da Silva não poderá atendeu em seu salão; a Prefeitura determinou que todos os comércios da capital fiquem fechados a partir desta sexta-feira (20) até o dia 5 de abril. As exceções são padarias, farmácias, postos de combustíveis, restaurantes, supermercados e feiras livres – BBC News Brasil

Há um ano e meio, Yuri Bennesby realizou o sonho que alimentava desde que começou a trabalhar como cozinheiro uma década atrás: ter seu próprio negócio.

Ele vendeu sua casa e usou todo o dinheiro para abrir uma hamburgueria na Vila Madalena, bairro nobre de São Paulo. Hoje, Bennesby teme ser forçado a abandonar seu “projeto de vida” por causa da crise gerada pelo novo coronavírus.

“Foi uma rasteira. Apostei tudo nesse negócio e agora estou a ponto de desistir. É dolorido”, ele diz à BBC News Brasil, com a voz embargada.

Como muitos pequenos empresários, Bennesby depende das vendas do dia a dia para fechar as contas no fim do mês.

Obrigados a suspender as atividades para frear o avanço da Covid-19, muitos agora se veem diante de um dilema: fechar o negócio ou contrair dívidas para arcar com as despesas que terão durante a quarentena.

Em São Paulo, um decreto do governador João Doria (PSDB-SP) obrigou serviços não essenciais a fechar as portas por 15 dias, entre os dias 24 de março ai dia 7 de abril.

Bennesby e vários outros empresários entrevistados pela BBC News Brasil disseram ter fundos para sobreviver nesse período, desde que as atividades retornem ao normal logo depois.

Porém, há o temor de que a quarentena seja prorrogada ou de que o movimento de clientes continue fraco mesmo após o fim do isolamento obrigatório, o que acabaria sufocando os negócios.

MAIORIA DOS EMPREGOS NO SETOR PRIVADO

O impacto da pandemia entre pequenas empresas poderá ter amplas consequências para a economia nacional. Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), micro e pequenas empresas respondem por 52% dos empregos com carteira assinada no setor privado no Brasil.

São consideradas pequenas, no setor de serviços e comércio, firmas com até 49 funcionários.

Um escritório de contabilidade no centro de São Paulo disse à BBC News Brasil que, desde a última terça-feira, foi procurado por 30 empresas que buscavam serviços para demitir funcionários, reduzir honorários ou adiantar férias.

Segundo o escritório, os pedidos de cortes drásticos dos últimos dias equivalem à demanda que eles costumam atender ao longo de um ano inteiro.

Na mesma Vila Madalena onde Yuri Bennesby abriu sua hamburgueria, pequenos empresários têm compartilhado em um grupo de WhatsApp suas angústias em relação à crise.

“Grandes empresas vão sentir o baque, mas não vão falir. Eu vou à falência, sinto muito!”, diz a mensagem enviada por uma comerciante local.

Dono de uma cervejaria artesanal, Hector Aguilera diz que a crise provocará “um tsunami horroroso” no bairro. “A maioria dos pequenos restaurantes não vai sobreviver”, prevê.

Ele conta que comerciantes que já decidiram fechar as portas estão usando o grupo para vender móveis a lojas vizinhas.

COMÉRCIO NA PERIFERIA

Na periferia de São Paulo, alguns comerciantes têm adotado estratégias para driblar a quarentena e conseguir obter algum dinheiro.

É o caso de uma manicure que abriu um salão de beleza no Itaim Paulista, extremo leste da cidade, há quatro meses.

Após a ordem do governo, ela fechou as portas, mas por conta do desespero ainda tem recebido clientes com hora marcada. Mesmo assim, afirma que a procura tem sido insuficiente para pagar o aluguel do espaço.

“Eu pensei em fechar definitivamente, mas eu tenho dívidas para pagar. Estamos fazendo uma reforma em casa e fizemos dívidas”, afirma.

A comerciante diz ter poucas esperanças de que o negócio, localizado em uma das regiões mais pobres da cidade, sobreviva à crise causada pelo coronavírus.

“Eu vou atender até quando eu puder”, diz.

ALTERNATIVAS PARA SOBREVIVER

Ao mesmo tempo em que calculam os prejuízos com a crise, vários pequenos empresários buscam formas de se manter.

Na Vila Madalena, uma doceria se aliou a uma hamburgueria para oferecer combos de seus produtos em aplicativos de entrega.

Na Vila Mariana, zona sul, o Astronauta Café fez uma vaquinha online para arrecadar dinheiro e manter a empresa aberta, mas fornecerá o produto aos clientes só após a crise.

As opções vão de um café com pão na chapa por R$ 10 a um pacote de café mais uma ecobag por R$ 50. A meta era arrecadar R$ 2.000, mas, até o fim da tarde desta quinta-feira (26/02), o valor já ultrapassava R$ 7.000.

Gerson Higuchi, dono do restaurante Apple Wood Steaks Bar, no Jardim Anália Franco, área nobre da zona leste de São Paulo, diz que seu faturamento despencou 67%.

Para cortar custos, permitiu que seus funcionários tirassem todo o banco de horas acumulados até o fim da crise, cancelou o serviço de vallet e desligou a câmara congelada do espaço.

Como vários restaurantes, Higuchi reestruturou o negócio para atender apenas por delivery.

“Não adianta dizer que é na crise que vou ganhar dinheiro. É hora de se ajudar. Se todo mundo se apoiar, a gente supera esse momento. Eu só quero sobreviver”, afirma.

Para o coordenador do MBA de marketing digital da FGV e mestre em administração pelo Ibmec Andre Miceli, o momento exigirá calma e criatividade dos comerciantes.

“Vai ter gente que vai quebrar. Vamos viver um momento confuso, mas existem oportunidades que se apresentam. Restaurantes vão usar serviços de entrega, lojas migrarão para o comércio eletrônico. Alguém vai sustentar o consumo durante esse isolamento, e o pequeno comerciante precisa pensar como ele vai aproveitar esse espaço”, afirmou.

AJUDA DO GOVERNO

Porém, muitos pequenos empresários afirmam que têm margem limitada de ação, e que a sobrevivência de muitos negócios dependerá da ajuda do governo.

Em entrevista à BBC News Brasil, o presidente da Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), Nabil Sahyoun, afirmou que deve levar diversas propostas aos governos federal, estadual e aos próprios lojistas para que não ocorram demissões durante a crise.

“Vamos solicitar recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador —ligado ao Ministério do Trabalho Emprego. O melhor momento para usar esse fundo é hoje. Tem toda a legitimidade agora para mexer nessa verba para bancar o salário desses funcionários parados. Se a gente não tiver ajuda para mantê-los, não vai ter saída a não ser demitir”, afirmou Sahyoun.

Ele diz que nos próximos dias fará uma reunião com lojistas para discutir medidas para que os próprios shoppings ajudem a reduzir custos.

Uma delas é congelar o fundo de promoções e reduzir o condomínio pago pelos comerciantes.

“Teremos uma redução dos custos com energia, funcionários e promoções, como na Páscoa. Neste ano, a data não será da família porque não poderemos colocar avós e netos juntos e isso vai causar uma queda drástica nas vendas. Agora, temos que nos concentrar para voltarmos fortes depois da crise para minimizar os impactos”, afirmou Sahyoun.

AÇÕES JÁ ANUNCIADAS

Astronauta Café, localizado na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, criou uma estratégia de 'compre agora e consuma depois'

Entre as medidas já divulgadas pelo governo para ajudar empresários durante a crise estão a possibilidade de antecipação de férias individuais e concessão de férias coletivas; a antecipação de feriados; a prorrogação do pagamento de dívidas e a ampliação do uso de banco de horas.

O pacote anunciado pelo governo permite também que as empresas adiem, em três meses, o pagamento do Simples Nacional e o depósito do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) dos trabalhadores.

Segundo um levantamento do Observatório de Política Fiscal do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), feito pelo economista Manoel Pires, as iniciativas anunciadas até agora somam cerca de 4% do PIB do país.

Na Alemanha, os gastos do governo para enfrentar a crise do coronavírus atingiram 37% do PIB, na Espanha e no Reino Unido, 17%, e nos EUA, 6,3%, segundo o levantamento da FGV.

Dono de um bar na Vila Madalena, Henrique Dutra Vaz diz que as ações anunciadas pelo governo são “irrisórias” e apenas “postergam os problemas”.

Ele afirma que adiar o recolhimento de impostos, por exemplo, não traz alívios, “pois a refeição que eu não vendi hoje, não venderei amanhã”.

“Vamos ter de ser muito criativos para sobreviver só com essas medidas”, afirma.

Fontes: Felipe Souza e João Fellet, Folha de S.Paulo| BBC NEWS BRASIL, 27/3/2020.

Bancos elevam juros e restringem negociação com a crise do coronavírus

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A Febraban, entidade que representa os bancos, anunciou, no dia 16 de março, que as cinco maiores instituições financeiras do país estavam abertas para discutir a prorrogação, por 60 dias, dos vencimentos de dívidas de empresas.

Nem uma quinzena se passou, e o que se ouve nas empresas que buscam negociar com os bancos é exatamente o oposto —não importa o setor, o porte do negócio ou o cargo do interlocutor.

A nota da Febraban destacava que a prioridade dos bancos era apoiar especialmente micro e pequenas empresas, proteger o emprego e a renda, numa eventual crise provocada pela epidemia de coronavírus no Brasil.

O texto até destacava que os bancos associados estavam “sensíveis ao momento de preocupação dos brasileiros com a doença provocada pelo novo coronavírus e vêm discutindo propostas para amenizar os efeitos negativos dessa pandemia no emprego e na renda”.

Representantes de entidades do setor privado, altos executivos de grandes empresas, proprietários de médios e pequenos negócios contaram à Folha, muitos na condição de não terem o nome revelado, que os maiores bancos elevaram os juros em todas as operações.

Capital de giro, antecipação de recebíveis e até de empréstimo de longo prazo, que já estavam em negociação havia tempos e prestes a serem liberados, tiveram as taxas de juros elevadas de uma semana para outra. Há casos em que as taxas dobraram e até triplicaram.

Setores mais atingidos tiveram o crédito cancelado.

Roriz Coelho, vice-presidente da Fiesp, federação das industrias de São Paulo, resume um pouco a situação. Para exemplificar, conta que uma grande empresa triplo A (jargão que define um negócio como seguro, com baixíssimo risco de calote) tinha acesso a juro de 6% ao ano.

Agora, explica ele, essa empresa paga juros de 12% e ainda tem que apresentar uma série de garantias adicionais.

Roriz questiona em particular o fato de os bancos não estarem oferecendo recursos liberados pelo BC (Banco Central) justamente para dar alívio às empresas.

O BC vem liberando os chamados depósitos compulsórios (parcela de depósitos que, por determinação do BC, são retidas pelos bancos para reduzir o dinheiro em circulação). Foram liberados mais de R$ 200 bilhões desde fevereiro.

“Eu acho que esse dinheiro, de uma forma ou de outra, tem que chegar às empresas, ou vai empoçar nos bancos, que estão fazendo mais exigências. Precisa haver garantia de que esse dinheiro irá para ajudar na folha de pagamento, no capital de giro —o dinheiro precisa ser carimbado”, diz.

Entre executivos de grandes empresas, a percepção é que que os bancos esperam uma posição do BC ou do Tesouro Nacional sobre quem vai assumir o risco de crédito.

Também há queixas sobre a inércia do Ministério da Fazenda em relação à questão. O ideal, dizem, é que o governo já tivesse um pacote de apoio financeiro, com taxas subsidiadas, via bancos públicos.

Os mais afetados até agora são os donos de restaurantes e bares, que relatam dificuldades para prorrogar parcelas de financiamentos.

Em São Paulo, o setor é um dos mais atingidos pela suspensão dos serviços não essenciais decretada pelo governo de São Paulo. Muitos fecharam as portas, outros optaram pelo delivery, mas alegam que a operação não cobre os custos do negócio.

A situação levou entidades e movimentos ligados à gastronomia a enviar uma carta a instituições bancárias nesta quinta-feira (26). O documento, segundo Paulo Solmucci, diretor da Abrasel (Associação Nacional de Restaurantes), também foi entregue ao governador João Doria.

“O que está acontecendo com as empresas quando vão renegociar é que os bancos estão aumentando significativamente as taxas de juros. A carta foi elaborada nessa situação”, afirma Solmucci.

Há cinco dias, quando o empresário Edrey Momo, sócio da Tasca da Esquina e da Padaria da Esquina, em São Paulo, foi tentar renegociar parcelas de empréstimos com os bancos Safra e Santander, recebeu a notícia de que poderia contar com uma prorrogação de três meses —mas sem a garantia de que as taxas de juros seriam as mesmas.

“Tenho 30 anos de negócio e demorei para construir uma boa avaliação e ter boas taxas. Agora a gente vê isso desmoronar em um momento de crise”, diz.

Outro empresário que relata problemas com banco é Bruno Bocchese, proprietário dos bares Fel, Cama de Gato e Mandíbula, no centro de São Paulo, e cliente no Itaú.

“Depois do anúncio da Febraban fui procurar minha gerente, e o que ela informou é que eles não poderiam postergar, mas sim fazer um refinanciamento, com mais juros em cima do valor do empréstimo”, diz.

Hugo Delgado, dono da Taquería La Sabrosa, perto da avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que conseguiu com seu banco, Bradesco, o respiro de três meses para começar a pagar o empréstimo, mas a surpresa “foi perceber que as parcelas estavam 5% mais caras do que as anteriores. Isso depois de uma dura conversa, porque os valores eram maiores”, diz.

“Sabemos que precisamos ter um sistema bancário saudável. Mas agora todos estão apertando o cinto, e o que queremos entender é se o banco está disposto de abrir mão de parte de sua lucratividade para absorver o impacto da crise com a gente, que somos parceiros”, diz.

Outras associações relatam os mesmos problemas: juros caros, prazos menores e exigência de mais garantias para conseguir crédito.

Segundo o assessor econômico da Fecomercio (Federação do Comércio de Bens e Serviços) Guilherme Dietze, o problema reflete não uma falta de liquidez do sistema financeiro —muitos bancos alegam que há falta de dinheiro para encarecer ou limitar a operação—, mas sim a fluidez com a qual esses recursos chegam à ponta tomadora de crédito.

“Os recursos estão empoçados nos bancos porque eles sabem o risco de desemprego e da possível incapacidade das empresas em honrar seus compromissos. O risco de inadimplência faz com que haja restrições maiores no sistema bancário”, afirmou.
Segundo o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Fernando Pimentel, além da dificuldade de crédito nos bancos, os associados também relatam discricionariedade entre os setores.

“Os bancos estão diferenciando os segmentos e dando preferência para aqueles que estão funcionando efetivamente, como os de alimentos e bebidas. Para os setores cuja expectativa é de queda de consumo e imprevisibilidade de retorno, os ratings [notas dadas pela capacidade de pagamento] setoriais estão caindo. Isso é normal em uma economia regular, mas estamos vivendo uma economia de guerra”, afirmou o executivo.

Pimentel afirma que a Abit também já apresentou ao governo federal a necessidade de que o setor tenha um seguro de crédito.

“Ele seria bancado pelo Tesouro mesmo, para que as operações consigam fluir aos custos vigentes, que já não eram baratos”, disse.

OUTRO LADO

Em nota, a Febraban afirmou que a decisão de conceder crédito, assim como a taxa de juros que será cobrada e o prazo de pagamento, varia de um banco para o outro de acordo com a metodologia de cada um deles e para a avaliação de risco de cada operação.

Também em nota, o Itaú Unibanco disse que “está cumprindo rigorosamente o compromisso assumido de atender a pedidos de prorrogação, por 60 dias, dos vencimentos de dívidas de Clientes Pessoas Físicas e Micro e Pequenas Empresas para os contratos vigentes em dia e limitados aos valores já utilizados”.

Ressalta ainda que, caso se concretize o adiamento, “as taxas de juros permanecem as mesmas do contrato original e o cliente evita atrasar seus pagamentos e sofrer com incidência de multas e encargos adicionais”.

O banco esclarece que, “em alguns casos, o valor da parcela do cliente pode aumentar em função de IOF e da aplicação dos juros do contrato original sobre a carência adicional.” O banco afirma que “em nenhum momento haverá aumento nas taxas de juros ou cobranças adicionais pela operação”.

Também em nota, o Bradesco disse que “está à disposição para prorrogar por 60 dias as prestações de financiamento de seus clientes. A taxa de juros inicialmente contratada será mantida e haverá a cobrança proporcional dos juros, considerando a carência solicitada, para o período restante da operação”.

O banco disse ainda que “podem prorrogar o financiamento, por até 60 dias, todos os clientes que estiverem em dia com os seus pagamentos”.

O Banco Safra disse que não comentaria o assunto.

Fontes: Isabela Bolzani, Marília Miragaia, Ivan Martínez-Vargas, Folha de S.Paulo, 27.mar.2020