O desenvolvimentismo é o nacionalismo econômico bem pensado

Defensor do nacionalismo econômico, Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor emérito da Fundação  Getúlio Vargas (FGV-SP), dedica-se atualmente à pesquisa teórica sobre o novo-desenvolvimentismo  – estratégia baseada no controle da taxa de câmbio como forma de garantir a  competitividade da indústria nacional no cenário da globalização.
É dele o artigo de abertura do dossiê  “Novo-Desenvolvimentismo” da edição 75 da revista “Estudos Avançados”, que será  lançada no dia 29 de agosto, quarta-feira, às 17h, no IEA, ocasião em que ele  fará uma exposição sobre o tema.
Nesta  entrevista à jornalista Flávia Dourado, do IEA, o ex-ministro dos governos José  Sarney e Fernando Henrique Cardoso esclarece as principais diretrizes da  estratégia novo-desenvolvimentista, enfatizando a importância do Estado na  criação de oportunidades de investimento e a necessidade de uma coalizão de  classes nacionalista, que mobilize empresários, burocracia pública e  trabalhadores em torno do desenvolvimentismo.

O senhor defende que, para  o Brasil atingir o nível de desenvolvimento dos países ricos, é preciso adotar  a estratégia novo-desenvolvimentista, de caráter nacionalista. Quais as  principais características dessa estratégia e as principais diferenças em  relação à ortodoxia convencional, ligada ao neoliberalismo?

Os países em desenvolvimento têm duas estratégias possíveis: a desenvolvimentista  ou a liberal-dependente. A única que é compatível com o catching up ou alcançamento é a desenvolvimentista. É uma  estratégia que está baseada em uma coalisão de classes voltada para o  desenvolvimento, é nacionalista, atribui um papel estratégico ao Estado, e  procura criar oportunidades de investimentos lucrativos para os empresários. Enquanto  coalizão de classes, busca associar empresários, burocracia pública e  trabalhadores, e se opõe à coalisão liberal-dependente formada por capitalistas  rentistas, financistas e interesses estrangeiros ou o Ocidente. Seu  nacionalismo é exclusivamente econômico: em síntese, o desenvolvimentismo é o  nacionalismo econômico bem pensado. Ao atribuir um papel estratégico ao Estado,  entende que ele deve realizar uma política macroeconômica e uma política  industrial que estimule os empresários a investir, ao mesmo tempo em que se  responsabiliza por cerca de 20% dos investimentos totais; e também que o Estado  deve ter um papel central no oferecimento dos grandes serviços sociais e  científicos que constituem um Estado Democrático Social.

O senhor afirma que a macroeconomia  estruturalista do desenvolvimento, teoria que está por trás do  novo-desenvolvimentismo, coloca a taxa de câmbio no centro da teoria do  desenvolvimento econômico. Na prática, o que isso significa? Como uma política  cambial ativa pode beneficiar a economia brasileira?

Deixada ao sabor do  mercado, a taxa de câmbio nos países em desenvolvimento  tende a se sobreapreciar crônica e ciclicamente. O caráter cíclico dessa  sobreapreciação significa que o país vai de crise em crise de balanço de  pagamentos, de sudden stop em sudden stop: na crise há uma violenta  depreciação, e, em seguida, a contínua apreciação causada pela doença holandesa*  e pelas entradas excessivas de capitais, que levam o país ao déficit em conta  corrente, a uma bolha de crédito, a uma dívida externa elevada, e, afinal, a uma  nova crise. As entradas são excessivas porque, se um país tem doença holandesa,  para neutralizá-la ele deve apresentar superávit, não déficit em conta  corrente; e porque os empréstimos e investimentos diretos antes aumentam o  consumo do que o investimento, já que geralmente existe uma elevada taxa de substituição da poupança interna pela  externa.

O caráter crônico significa  que, em consequência do ciclo, a taxa de câmbio permanece quase o tempo  todo apreciada, abaixo da taxa de câmbio de equilíbrio industrial,  e assim desconecta as empresas industriais da demanda externa ao mesmo tempo  que facilita as importações e a ocupação do mercado interno por empresas  estrangeiras.

Dado isto, o governo  brasileiro não pode deixar a taxa de câmbio livre; que ele deve  controlá-la, administrá-la, ainda que no quadro de um câmbio flutuante. Como  ele tem uma política de responsabilidade fiscal e deve limitar o déficit  público, ele deve ter uma política de responsabilidade cambial e limitar os  déficits em conta corrente se não apresentar superávit em conta corrente.

Mas não haveria uma restrição  externa ao desenvolvimento econômico – uma carência permanente de dólares – que  só poderia ser solucionada através do recurso à poupança externa? De fato, para  países muito pobres, que apenas exportam commodities e importam bens  manufaturados, as elasticidades-renda das importações e das exportações podem  causar alguma carência de divisas fortes. Mas isto desaparece na medida em que  o país passa a exportar manufaturados. E, em qualquer estágio do  desenvolvimento, a falta de dólares explica-se muito mais pela incapacidade dos  governos de neutralizar a tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio, administrando-a, e pela violência das  pressões contra esta administração por parte da coalizão liberal-dependente.

Que aspectos do contexto atual da  economia brasileira e de outros países da América Latina fazem necessária a  adoção de uma nova estratégia de desenvolvimento? Por que o “velho” desenvolvimentismo  não serve mais?

Por isso é necessária uma estratégia de competição. Por que o  antigo desenvolvimentismo está superado? Porque o Brasil está em um estágio  mais avançado de desenvolvimento do que estava nos anos 1950, e porque  competimos hoje no quadro da globalização.

O novo-desenvolvimentismo  é uma estratégia ligada à esquerda? A emergência da esquerda e do nacionalismo  econômico na América Latina favorece a adoção do novo-desenvolvimentismo?

Sem dúvida. Mas não basta que um governante e sua equipe sejam  desenvolvimentistas; é preciso que haja um pacto político que os apoie, é  preciso que eles sejam tecnicamente competentes e que evitem o populismo fiscal  e cambial. Quanto mais pobre é um país, mais difícil é que essas condições  estejam presentes. Esta é a forma por excelência através da qual hoje se  expressa o círculo vicioso da pobreza.

No caso do Brasil, a condução da  política econômica tem sido favorável ao novo-desenvolvimentismo? Essa estratégia já está em  curso no Brasil ou em algum outro país?

O novo desenvolvimentismo está em curso nos países asiáticos dinâmicos:  na Indonésia, na Malásia, na Índia e na China. A Argentina vem procurando  caminhar nessa linha, mas enfrenta enorme oposição da coalisão  liberal-dependente que nesse país é poderosa internamente. E seus governantes  têm cometidos alguns erros que arriscam o êxito do projeto. No Brasil, no  segundo termo do governo Lula, tivemos um ensaio de novo desenvolvimentismo; o  governo Dilma Rousseff é claramente novo desenvolvimentista.

Quais as implicações do  novo-desenvolvimentismo na vida das pessoas? Por opor-se aos dogmas do neoliberalismo,  trata-se de uma estratégia mais sintonizada com os princípios da inclusão  social e da distribuição de renda?

Em sua Constituição de 1988 os brasileiros definiram seus grandes  objetivos e valores. Querem construir uma sociedade democrática onde haja  bem-estar econômico e uma razoável justiça social. Para isto, o Estado  brasileiro – que é o instrumento por excelência de ação coletiva da Nação –  deve ser, enquanto realizamos o alcançamento, um Estado desenvolvimentista, e, ao mesmo tempo, deve ser um Estado Democrático Social. Há alguma  contradição entre os dois objetivos, mas eles não são excludentes, e  compromissos bem administrados politicamente podem permitir sua  compatibilização.

Como o novo-desenvolvimentismo se  insere no contexto de crise econômica atual? A crise contribui ou atrapalha ou  torna mais ou menos urgente o estabelecimento dessa estratégia?

A crise atual é uma grande crise do capitalismo rentista e da coalizão  neoliberal que tomou conta de grande parte do mundo a partir dos Estados Unidos  e do Reino Unido desde o início dos anos 1980. Ela é, naturalmente, um  obstáculo ao desenvolvimentismo brasileiro na medida em que limita a demanda  externa para suas exportações; mas é também uma oportunidade, porque torna mais  fácil a consolidação de um pacto e de uma estratégia desenvolvimentista no  Brasil.

Um dos aspectos do  novo-desenvolvimentismo é a importância de uma política cambial que neutralize  a doença holandesa e favoreça o progresso técnico e a inovação tecnológica nas  indústrias brasileiras. A ciência e a tecnologia ainda são um gargalo no  desenvolvimento industrial brasileiro?

O lado da oferta, e, em especial, o da educação e o da ciência e  tecnologia, são sempre fundamentais. Mas desenvolver essas áreas é uma tarefa  de todos os dias, e seus resultados se concretizam apenas no longo prazo. O  Brasil poderia fazer mais, mas tem realizado grandes esforços nesses campos. A  macroeconomia estruturalista do desenvolvimento apenas salienta o lado da  demanda, porque aqui uma taxa de juros decente, de nível internacional, e uma  taxa de câmbio competitiva, no equilíbrio industrial, são coisas que poderiam  ser realizadas em prazo bem mais curto, mas são áreas em que o Brasil tem  caminhado pouco.

Fonte: Revista Estudos Avançados, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo

*  Nota da Redação: A “doença holandesa” é uma expressão utilizada para definir a relação entre a  exportação de recursos naturais e o declínio do setor industrial de um país. De  acordo com a definição, a exportação elevada de commodities por um país leva à  valorização de sua moeda, tornando seus produtos industrializados menos  competitivos em relação aos produtos importados, processo que conduz à  desindustrialização.

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