As dificuldades no aprendizado são muitas. Segundo professores de português consultados pela Folha, um estrangeiro de língua espanhola leva ao menos seis meses para começar a se comunicar plenamente em português. Entre os falantes do inglês, o tempo sobe para um ano; entre os de origem oriental, para um ano e meio.
Esse tempo não é garantia de que a comunicação se dê sem tropeços.
Há dois anos no Brasil, desde então tendo aulas de português três vezes por semana, Dolmaya ainda pede ao assistente que traduza os e-mails de trabalho que envia. “Não é só uma questão de passar do inglês para o português, mas de escrever com o jeitinho certo”, explica.
O canadense perdeu uma reunião por uma confusão de interpretação. O cliente havia dito: “Te encontro lá no escritório”. Ele entendeu que o “lá” se referia ao escritório do interlocutor. O cliente acabou na sala de Dolmaya. E Dolmaya, na do cliente.
Mesmo entre os gringos das classes com níveis mais avançadas, ainda é comum ouvir um “minha amigo” ou “mao” (sem o som nasal marcado pelo til). “O português é muito nasal. Palavras como ‘vão’, ‘mão’ ou ‘cão’ são de pronúncia difícil para o estrangeiro”, explica Graça Paiva, coordenadora do curso de português do Cel-Lep.
A dificuldade na pronúncia costuma ser pior para os falantes do espanhol, devido à proximidade das duas línguas. “Nunca sei se estou falando português ou espanhol”, brinca o mexicano Marcilio Maclean, 21.
“Além disso, quase tudo no português tem masculino e feminino, plural e singular. E os verbos irregulares, como ‘ser’ e ‘estar’ são de uso muito frequente”, conta Graça.
“Quando passamos a dar aulas para estrangeiros, percebemos detalhes que não percebíamos na nossa língua”, diz a professora de português Maria Teresa Bianco, que dá aula para executivos de grandes empresas. Certa vez, um aluno a questionou: “O que vocês fariam sem o verbo ficar?”. “Como falante nativa, jamais tinha percebido o uso exagerado da palavra.” No dicionário Houaiss, “ficar” tem 28 acepções.
Fontes: MARÍA MARTÍN e TALITA BEDINELLI, Folha de S.Paulo – Cotidiano, 5/8/2012