É difícil imaginar um samurai de origem ocidental. Mas, se os guerreiros do período feudal serviam aos imperadores do Japão, na indústria globalizada de hoje é fácil entender por que o presidente de uma empresa como a Toyota recorre a um americano para nomeá-lo seu fiel conselheiro.
Há dois anos, diante do baque que a marca sofreu depois de um gigantesco recall, Akio Toyoda, presidente da montadora, pediu para que Mark Hogan, com 31 anos de carreira na General Motors, integrasse o conselho da companhia. Toyoda acabara de reformular a equipe de diretores, depois que a exposição de falhas de qualidade nos automóveis arranhou a imagem da empresa.
Esta semana Hogan foi enviado para o Brasil com nova missão: acompanhar tudo o que envolve a operação brasileira, dos cuidados com qualidade de manufatura a projeções econômicas do país.
Não é à toa que o ex-funcionário da General Motors recebeu a tarefa neste momento. Hogan presidiu a filial brasileira da GM de 1992 a 1997. Deixou o país pouco antes da inauguração da fábrica de Gravataí (SP), um projeto da sua gestão, que serviu para ampliar a produção ao mesmo tempo em que reforçou a presença da montadora americana no segmento dos carros populares, com o lançamento do Celta.
O momento é igualmente importante para a Toyota, que estreia no mercado de carros populares com a inauguração de uma nova fábrica, em Sorocaba (SP) no dia 9.
O clima é de guerra: pela primeira vez desde que a indústria automobilística se instalou no Brasil, na década de 50, quatro fabricantes – Volkswagen, Fiat, General Motors e Ford – veem seu império de carros populares ameaçado. Não apenas pela Toyota. Outra marca asiática, a coreana Hyundai, está na fase de conclusão de uma fábrica em Piracicaba (SP), a 100 quilômetros do empreendimento que a Toyota ergueu em Sorocaba, às margens da rodovia Castello Branco. No caso da Hyundai, a briga incluirá uma versão com motor 1.0 do HB, um automóvel que os coreanos desenvolveram especialmente para o mercado brasileiro.
A questão do motor 1.0 chegou a ser discutida pela equipe de engenharia da Toyota com a direção local da empresa. Mas, apesar da vantagem de um IPI menor para o esse motor, prevaleceu a decisão de não investir nesse tipo de motorização. “Nossas pesquisas com clientes indicaram que o brasileiro aceita o carro 1.0, mas não necessariamente gosta dele”, afirma o vice-presidente da Toyota Mercosul, Luiz Carlos Andrade Jr.
O Etios, nome do carro Toyota que chega no mercado brasileiro com motores 1.3 e 1.5 – montados no Brasil com componentes trazidos do Japão – e versões hatch e sedã, vai tentar roubar fatias de mercado de carros como o Gol e Palio.
Quando se instalou no Brasil, há mais de cinco décadas, a Toyota produzia apenas um jipe, o modelo Bandeirante, em São Bernardo do Campo (SP). Nos últimos 14 anos, a montadora dedicou-se à fabricação da linha Corolla, em Indaiatuba (SP).
A terceira fábrica, em Sorocaba, é um marco para a empresa, pois a coloca na disputa do segmento compacto, que corresponde a 65% das vendas de automóveis no país.
A contagem mundial de vendas da companhia também depende do sucesso da nova empreitada no Brasil. Elaborado pelo presidente, o chamado “Plano de visão global”, aposta também na ascensão da marca em regiões emergentes a expectativa de a companhia retomar a liderança mundial na venda de veículos, roubada da GM apenas no ano que precedeu o Tsunami.
Além do projeto de Sorocaba, que absorveu investimento de US$ 600 milhões, a Toyota anunciou recentemente a construção de novas fábricas na Tailândia e Indonésia. As vendas de veículos fora dos países desenvolvidos representam hoje 40% das mais de 8 milhões de unidades previstas para este ano. O objetivo de Toyoda é chegar a 50% até 2015.
“A Toyota voltará à liderança já este ano”, afirma Hogan. Segundo ele, a montadora japonesa é a mais sólida financeiramente para enfrentar a crise que se agravou na Europa. Para o executivo, que hoje também trabalha como consultor em Michigan, pesa também em favor da empresa o esforço pessoal de um presidente “que tem a história da companhia no sangue”. “Acho que Akio é hoje um dos herdeiros mais comprometidos no mundo corporativo”, diz Hogan.
Neto do fundador da Toyota, Akio Toyoda é contemporâneo de Hogan. O executivo japonês nasceu em 1956 e o americano em 1951. Eles se aproximaram quando Hogan foi escalado pela GM para trabalhar na Nummi, uma antiga joint venture entre as duas montadoras. Tornaram-se amigos próximos. É por isso que a vinda de Hogan ao Brasil é como se os olhos do presidente da companhia estivessem por aqui.
Ontem de manhã o americano já se envolveu na missão que recebeu do executivo japonês. Ele foi a Sorocaba para dirigir o Etios, o novo compacto, que leva mesmo nome do carro que começou a ser produzido também na Índia. “O modelo brasileiro é mais robusto”, diz Hogan. Ele conta que relatará a Toyoda “as impressões pessoais” de cada detalhe que envolve a qualidade do produto fabricado no Brasil. Antes de participar da festa de inauguração, na próxima semana, Hogan também avaliará a linha do Corolla, em Indaiatuba.
Se sobrar tempo, Hogan pretende visitar os amigos da escola de samba Portela, na qual desfilou até o carnaval de 2001. Apesar da distância do sambódromo carioca, ele diz que não deixou de praticar o tamborim com o qual tocava na bateria da escola. Afinal, todo guerreiro tem direito a se divertir de vez em quando.