“Economics – The User’s Guide”, de Ha-Joon Chang: para entender a vida sem falsas exatidões

Claudio Belli/Valor

Chang: nem só governo nem só mercado, mas uma síntese mais convincente. Foto: Claudio Belli/Valor

A guerra de guerrilha de Ha-Joon Chang contra a ortodoxia do livre mercado continua. Por um período excessivamente longo, argumenta o economista sul-coreano, a opinião pública foi desestimulada de se envolver com seu tema – e, em consequência disso, de participar de algumas das discussões mais importantes da nossa era. Atualmente, se você não for bom em matemática e ciências, escreve ele em “Economics: The User’s Guide”, não conseguirá entender a literatura econômica. É hora de nós, que estávamos de fora, nos envolvermos também.

O que tranquiliza, de acordo com Chang, é que, para entender a economia mundial por meio de seu livro, a pessoa não precisa ter mais do que nível médio de escolaridade. É uma boa notícia para mim, porque estou destreinado: já faz dez anos que estudei economia na faculdade. A primeira parte é um apanhado histórico de tirar o fôlego, a segunda uma convocação às armas sobre como aplicar a economia no mundo real empregando exemplos simples, do dia a dia. Trata-se de um livro brilhante, embora às vezes aborrecido. Os termos-chave aparecem em negrito – centenas e centenas deles – e resumos em itálico despontam a cada poucos parágrafos.

De maneira apropriada, para um livro inspirado no antiquado espírito do autoaprimoramento, “Economics: The User’s Guide” é publicado no Reino Unido pelo selo Pelican, originalmente fundado na década de 1930 para dar acesso a um público leitor de massa a obras inteligentes de não ficção.

Mas Chang também tem a particularidade de ser um dos poucos economistas contemporâneos interessados em revitalizar o espírito antiquado da economia política. Ele critica o fato de a economia ter mudado a partir de “estudo da gestão política da economia” para se tornar uma disciplina que, ao longo das últimas poucas décadas, se apresenta como ciência exata.

Em outros trechos, ele esquematiza as principais escolas do pensamento econômico, traçando todo tipo de conexões entre elas. Para ressaltar essa iniciativa, oferece uma série de “coquetéis feitos de duas a quatro escolas diferentes”. Alguns desses coquetéis, escreve Chang, são “como um “Bloody Mary” com muito molho Tabasco, em vista das discordâncias. Alguns outros…podem ter o gosto de um “Planter’s Punch”, com diferentes sabores se complementando mutuamente.”

Eles vêm, além disso, com uma advertência: “Em hipótese nenhuma beba só um dos ingredientes”, escreve Chang, coisa passível de “conduzir à falta de visão, à arrogância e a uma possível morte cerebral”. Exageros à parte, o recado é um apelo a que seus colegas tomem um pileque e adotem um enfoque mais pluralista. É divertido.

Chang prioriza medidas de redução da desigualdade, mas está longe de ser anticapitalista. Ele não é muito explícito, mas argumenta que os formuladores de políticas públicas terão que reconhecer, cada vez mais, que tanto os governos quanto os mercados são falíveis, e terão que fazer uma síntese dos dois.

* A exemplo de seu livro anterior, “23 Things They Don’t Tell You About Capitalism” (2010), (“23 Coisas que Não nos Contaram Sobre o Capitalismo”, Cultrix, 368 pags.), as referências à cultura de massa são abundantes. O filme “Django Livre” é usado para explicar o conceito de “preferências adaptativas”, e o “alucinante” “Matrix” para explicar a “falsa consciência”.

A leveza de abordagem de Chang torna muito fáceis de ler assuntos muitas vezes áridos. Ele critica o superdesenvolvimento do setor financeiro, ridicularizando modelos complicados (e falidos, ao que se revelou) que de alguma forma calcularam que “a probabilidade de acontecer realmente o que aconteceu em 2008 era equivalente a ganhar na loteria 21 ou 22 vezes consecutivas”. A crise de 2008 é mencionada inúmeras vezes, para comprovar a tese de Chang de que especialistas nem sempre são os que sabem mais das coisas.

Apesar dos muitos pontos altos, o livro às vezes dá a impressão de tratar superficialmente assuntos importantes. E, apesar de toda a insistência de Chang de que seu objetivo é “mostrar ao leitor como pensar, e não o que pensar, sobre economia”, boa parte dele se assemelha a um manifesto. Ele frequentemente distribui golpes duros e sua linguagem é tendenciosa: economistas do livre mercado “se enchem de lirismo” enquanto “‘fatos’ econômicos” aparecem encerrados em citações.

Mesmo assim, ele faz o suficiente para despertar seu interesse, sem satisfazê-lo totalmente, o que é uma coisa muito boa. (Tradução de Rachel Warszawski)

“Economics – The User’s Guide”

Ha-Joon Chang. Editora: Bloomsbury. 384 pags. US$ 30,00

Fonte: John Sunyer | Financial Times/Valor, 26/8/2014

Quando nem tudo são só números: Psicologia Econômica

Leonardo Rodrigues/Valor

Vera Rita, psicóloga econômica, busca linguagem ideal para atingir investidor. Foto: Leonardo Rodrigues/Valor

Impulso para gastar todo mundo já teve um dia. E para poupar? Com base no entendimento de que esse sentimento também é possível, a Nationwide Building Society, uma instituição financeira do Reino Unido, criou em junho deste ano o Impulse Saver. O aplicativo para celular permite que o cliente transfira dinheiro de sua conta corrente para a conta de investimentos a qualquer momento de forma muito simples, em segundos, sem sequer fazer login. Há opções de valores predefinidos muito baixos, a partir de 1,25 libra, o equivalente a cerca de R$ 4. O investidor assiste imediatamente às moedinhas, virtualmente, entrarem em um cofre em forma de porquinho.

O Impulse Saver foi criado com base em estudos comportamentais encomendados pela Nationwide. As pesquisas sugeriram que as naturezas instantânea e recompensadora do aplicativo criariam gatilhos que encorajariam e reforçariam a poupança. O exemplo foi citado pela professora Vera Rita de Mello Ferreira, doutora em Psicologia Social e autora do livro “A Cabeça do Investidor”, no primeiro Encontro Brasileiro de Economia e Finanças Comportamentais. O evento, organizado pelo Núcleo de Finanças Comportamentais (NFC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), reuniu especialistas no tema na semana passada.

Desde que o termo psicologia econômica foi usado pela primeira vez, em 1881, pelo pensador francês Gabriel Tarde, passando pelo reconhecimento da importância do tema com a entrega do Nobel de Economia ao psicólogo Daniel Kahneman em 2002, o impacto de processos cognitivos e emocionais sobre a tomada de decisão foi discutido à exaustão na academia. Como, entretanto, transformar tantos estudos em práticas para ajudar as pessoas a tomarem decisões sobre seu dinheiro?

“Tem-se buscado nos últimos anos formas de aplicar esses conhecimentos. O que antes era papo de pesquisadores acadêmicos começou a ir para o mundo real”, diz Vera Rita, referindo-se tanto às iniciativas lá fora como aqui. No Brasil, um exemplo é o Núcleo de Estudos Comportamentais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), criado em abril último para subsidiar políticas educacionais da autarquia, do qual ela faz parte.

A psicologia econômica também ganhou espaço no material didático de Ensino Médio da Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef). Os estudantes deparam-se nos livros com quadros vermelhos que alertam para ciladas envolvendo decisões econômicas. O tema integra ainda a capacitação de técnicos e conciliadores do Procon no programa de apoio ao superendividado. Uma das metas da psicologia econômica, segundo Vera Rita, é que as pessoas tomem decisões econômicas mais favoráveis a si mesmas. E, por isso, é natural que ela colabore cada vez mais com iniciativas que envolvam proteção e defesa do consumidor.

Dentre as ferramentas para que a educação financeira ajude na blindagem de vieses, Vera Rita diz acreditar no chamado “crowdsourcing”, em que o conteúdo é desenvolvido de forma cooperativa, como ocorre na enciclopédia virtual Wikipédia. A professora sugere a criação de um ambiente em que investidores compartilhem situações em que estavam propensos a tomar uma atitude enviesada e que contem como as estratégias usadas no momento, ainda que simples como uma conversa com outras pessoas, evitaram as armadilhas. “Seria uma coleção de antídotos”, diz Vera Rita.

Na hora de se comunicar com o investidor, os estudos apontam que ele tem fome de coerência, conforto cognitivo, diz Vera Rita. Por isso, a regra é informar em doses, em linguagem acessível e adaptada para cada segmento, seja por região, tribo ou idade. “E a informação tem que ser entregue no momento em que a pessoa está buscando: quando vai casar, ter filho, comprar um imóvel ou se preparar para a aposentadoria”, diz.

Vera Rita afirma ter no momento duas obsessões. Uma é tentar transformar informações complexas necessárias ao investidor em “check list”, já que listas costumam atrair a atenção. A outra é fazer vídeos de educação financeira nos moldes “Porta dos Fundos”, canal de humor capitaneado pelo comediante Fábio Porchat que tem grande alcance na internet.

Foi na tentativa de incorporar as finanças comportamentais à pratica que o Itaú criou seu primeiro vídeo que realmente caiu nas graças da rede. Recebeu 2 milhões de acessos na internet, enquanto os de mais sucesso da casa costumam ter cerca de 200 mil visitas. O enredo era um modelo criado e patenteado pelo Itaú para ajudar o investidor a decidir quanto precisava poupar para a aposentadoria. Batizada de 1, 3, 6, 9, a regra de bolso ensina que, para uma velhice tranquila, é preciso ter acumulado um ano de renda até os 35 anos de idade, três anos até os 45, seis anos até os 55 e nove anos até os 65. No vídeo, em cada uma dessas etapas, eram despejadas bolas de sorvete em um liquidificador, que, no fim das contas, batia um milk-shake.

A criação da metodologia, fruto de um estudo de sete meses, teve como base o comportamento do investidor. “Para a maior parte das pessoas, a decisão mais importante não é onde investir, mas quanto. Conversar sobre hábitos de poupar é mais relevante”, diz Martin Iglesias, superintendente de produtos de investimento do Itaú Unibanco, que teve a colaboração de Daniel Kahneman em sua dissertação de mestrado. “A análise do comportamento avançou demais, mas, quando pensamos no que de fato está incorporado no dia a dia, talvez seja pouco”, afirma.

Iglesias defende que é preciso criar produtos, serviços e abordagens que realmente ajudem as pessoas a poupar. Experiências americanas podem ser replicadas, sugere, ao citar o programa “Keep the change”, ou Fique com o troco, do Bank of America. Para quem opta pelo programa, todas as compras no cartão têm o valor arredondado, sendo que o complemento vai para a poupança. Ao comprar um sanduíche de US$ 5,25, por exemplo, US$ 0,75 são automaticamente investidos. “Esse produto tem quase 15 anos e ninguém conseguiu replicar. Nós já tentamos, mas é muito difícil”, diz.

Educar o cliente ou criar ferramentas para forçá-lo a poupar divide os especialistas em finanças comportamentais. “A educação financeira leva muito tempo e às vezes uma solução de curto prazo é mais eficiente”, defende Bernardo Fonseca Nunes, que cursa o Ph.D na Universidade de Stirling. Ele exemplifica com o programa de aplicação automática em fundos de pensão, que se tornou prática nos últimos anos no Reino Unido e na Nova Zelândia.

O plano parte do entendimento de que as pessoas tendem a evitar ou procrastinar escolhas complexas. Em vez de esperar uma atitude dos funcionários, a própria empresa faz suas inscrições, de tal forma que a pessoa precisa manifestar-se apenas se não tiver interesse no programa. Estudo do governo britânico para avaliar os resultados da política nos primeiros seis meses de aplicação, com 42 empresas, mostrou um aumento da participação dos empregados em fundos de pensão de 61% para 83%.

A educação financeira tem sua importância, mas vem depois da atitude, explica Nunes, para incentivar o investidor a destinar mais recursos para a previdência.

No Brasil, o arcabouço das finanças comportamentais foi transformado recentemente em processo de avaliação do perfil do investidor pela Guide Investimentos. Em uma parceria entre academia e mercado, Jean Sigrist, sócio da plataforma, discutiu o modelo com William Eid, à frente do NEC, da FGV. A principal referência foi o teórico das finanças comportamentais Michael Pompian.

Como a intenção era criar uma experiência agradável ao investidor, a Guide construiu um processo de abertura de conta automático, sem necessidade de envio de documentos. O tempo economizado com o cadastro, diz Sigrist, foi usado para conhecer o investidor, por meio de um questionário psicológico, e construir um portfólio que fizesse sentido. Não era uma boa ação, mas uma visão de negócio. “É muito difícil você criar uma vantagem competitiva hoje através do produto, que pode ser replicado no dia seguinte. Tem que fazer isso pela experiência do cliente”, considera.

Para quem ainda pensa que a educação sobre produtos financeiros joga contra a indústria, um estudo também no âmbito das finanças comportamentais, realizada pela pesquisadora Frederike Budiner, mestre pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aponta para o contrário. Um experimento com 90 pessoas indicou que, quanto maior a quantidade de informação sobre crédito oferecida ao cliente, maior a tendência de ele optar por tomar os recursos. Provavelmente, concluiu Frederike, a transparência cria uma relação de confiança que propicia a realização do contrato. Vale para o crédito. Por que não para os investimentos?

Fonte: Luciana Seabra | Valor Econômico, 26/08/2014 às 05h00

Inteligência Competitiva Educação: Kroton é a ‘empresa de Valor’ do ano

Ana Paula Paiva / Valor

Galindo, da Kroton, diz que o grande desafio hoje é construir uma nova cultura. Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Com mais de 1 milhão de alunos e valor de mercado superior a R$ 26 bilhões, a Kroton é uma companhia de superlativos. Em junho, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e os acionistas aprovaram a fusão com a Anhanguera, criando o maior grupo de ensino superior do mundo, considerando o volume de matrículas e o valor de mercado. A receita líquida estimada da nova companhia para este ano é de R$ 4,7 bilhões.

Antes da fusão, a Kroton já apresentava números avantajados. Entre 2011 e 2013, o lucro líquido da empresa saltou de R$ 37 milhões para R$ 516 milhões. Neste ano, o lucro da nova companhia deve ultrapassar a casa de R$ 1 bilhão. A boa performance também é percebida pelos investidores. Entre janeiro e agosto, o papel da Kroton acumula uma valorização de 70,7% – percentual bem acima dos 14,3% de alta do Ibovespa.

Diante de tais números, a Kroton estreia no “Valor 1000″ com o pé direito. Em 14 edições do anuário, essa é a primeira vez que o setor de educação passa a integrar uma das 26 categorias premiadas. Além de ser contemplada como a maior e melhor no setor de educação, a Kroton foi eleita a melhor entre mil companhias e, portanto, leva o título de “Empresa de Valor.”

O desempenho da Kroton é explicado por uma combinação de boa gestão – comprovada pela sua margem operacional, que chega a ser 20 pontos percentuais acima de seus concorrentes – com fatores externos. O governo criou uma série de incentivos para o ensino superior privado como o ProUni (programa de bolsa para alunos carentes em troca de isenção tributária), Fies (financiamento estudantil com juros subsidiados) e o Pronatec (bolsa para cursos técnicos). Nos últimos quatro anos, foram assinados mais de 1,6 milhão de contratos de Fies.

Na Kroton, cerca de 60% dos alunos de graduação presencial estudam com o financiamento. Porém, a performance da empresa não é explicada só pelos programas do governo, uma vez que metade do negócio da companhia vem de ensino a distância, segmento que não é beneficiado pelos programas.

Originária do cursinho mineiro de pré-vestibular Pitágoras – criado na década de 1960 pelo o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e outros sócios – a Kroton é uma companhia resultante de várias aquisições e fusões. A primeira compra relevante foi o Iuni, grupo de ensino fundado pela família Galindo, em 2010. Nos dois anos seguintes, a Kroton fez uma importante aposta ao adquirir duas instituições de ensino a distância por R$ 1,8 bilhão. Essas transações, com valores recordes para a época, foram recebidas com desconfiança. Porém, a eficiência operacional e a capacidade de integrar rapidamente os negócios nortearam a companhia. Não à toa, o sentimento predominante na atual fusão é muito mais de otimismo do que desconfiança.

“Acredito que a integração será totalmente concluída em dezembro de 2015. Estou confortável com esse prazo porque as negociações com o Cade levaram um ano e neste período pudemos conhecer a fundo a operação”, disse Rodrigo Galindo, presidente da Kroton. Apesar da magnitude da Anhanguera, a estimava é que as sinergias, de cerca de R$ 300 milhões por ano, comecem a ser capturadas daqui 12 a 18 meses. Trata-se do mesmo prazo da integração da Unopar, universidade de ensino a distância comprada em 2011.

“Hoje, o grande desafio é cultural. Em uma operação dessa magnitude é necessário construir uma nova cultura. Mas estou feliz porque não há arrogância ou resistência entre os executivos”, destacou.

Galindo foi na contramão de muitos grupos que buscavam o maior número de alunos possível em detrimento da qualidade do ensino. O executivo lembra que há cerca de cinco anos os investidores o questionavam sobre a viabilidade ter ao mesmo tempo escala e um ensino de qualidade. Na última classificação do MEC, 80% dos cursos da Kroton receberam notas entre 3 e 5 (de um ranking que vai de 1 a 5). Mesmo percentual alcançado pelas universidades federais. Para atingir esse patamar, todos os alunos da Kroton fazem cursos de nivelamento de matemática, biológica e linguagem nos dois primeiros anos. As aulas são ministradas a distância de acordo com o nível de conhecimento do aluno.

O crescimento baseado em volume era o caminho mais fácil, tendo em vista a grande demanda reprimida de brasileiros sem diploma de ensino superior. Até hoje estima-se que haja um contingente de 12 milhões a 15 milhões de pessoas, com idade entre 24 a 35 anos, que pararam de estudar no ensino médio. Porém, com o aumento da concorrência e mensalidades a patamares muito semelhantes nos últimos anos, a qualidade do ensino virou um diferencial. Além disso, o Fies só é válido para cursos com nota mínima 3. Trocando em miúdos: hoje, os interesses econômicos e acadêmicos precisam caminhar juntos.

Fonte: Beth Koike, Valor Econômico, 26/8/2014

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: Marketing busca novo perfil executivo

Para ganhar mercado e impulsionar as vendas em um momento de estagnação econômica, as empresas buscam reforçar a área de marketing com executivos mais qualificados e capazes de conduzir as mudanças exigidas nas estratégias corporativas.

De acordo com Rodrigo Vianna, diretor-executivo da Talenses, existem muitas substituições na área – na comparação entre os períodos de março a dezembro de 2013 e de janeiro a julho de 2014, a consultoria registrou um aumento de 30% na demanda por posições de marketing. “As verbas, mais restritas, são aplicadas em campanhas de comunicação on-line. As empresas, desse modo, querem executivos que dominem o meio digital, e nem todos incorporaram esse conhecimento às suas realidades”, diz.

Outra tendência apontada pelo diretor da Talenses é a de maior atenção à comunicação no ponto de venda. A diversificação de competências, antes mais ligadas às mídias tradicionais, favorece profissionais com perfil mais generalista, em detrimento do especialista.

Tem sido identificado também o redimensionamento de cargos tanto em âmbito nacional como englobando diferentes países. “Para alinhar estratégias, há posições em marketing e vendas que respondem por toda a América Latina, o que inclui as América do Sul e Central e o México”, diz. O mesmo acontece na Europa e na Ásia-Pacífico.

Dentro do território brasileiro, a regionalização abre possibilidades de atuar à frente de mercados como o do Nordeste. As empresas têm percebido que é necessário aumentar os esforços para “falar a língua” de contingentes populacionais de características tão diversas. Há quatro ou cinco anos não existia essa chance de alocação, segundo Vianna. “Um projeto assim, de longo prazo, pesa até mais que o salário para o profissional de marketing. É preciso considerar o valor que um desafio como esse traz para a carreira.”

Os executivos brasileiros da área têm sido bem cotados para assumir vagas de liderança na América Latina. Na avaliação de Eliane Figueiredo, diretora da consultoria em recursos humanos Projeto RH, sendo o Brasil a principal economia da região, é aqui que já estão os profissionais com mais bagagem e conhecimento. “O perfil do país também ajuda, uma vez que reúne mercados bastante diversificados”, diz.

Na Jaguar Land Rover, fabricante britânica de veículos de luxo, o brasileiro Gabriel Patini, de 30 anos, passou a ser, no começo deste mês, diretor de marketing e produtos para a América Latina. Ele chega da Rússia, onde desde 2012 ocupava cargo semelhante na região – antes, passara dois anos na matriz, na Inglaterra. Patini começou na companhia em 2004 e já havia sido gestor da área de marketing no Brasil entre 2009 e 2010. Nesse retorno, sua missão é promover o crescimento das marcas Jaguar e Land Rover e trabalhar estratégias de produto para uma nova fábrica da empresa, que deverá ser inaugurada em 2016 em Itatiaia (RJ).

Na opinião do executivo, o mercado brasileiro tem se desenvolvido rapidamente e está cada vez mais parecido com os da América do Norte e da Europa. “É a vanguarda dentro da América Latina. Em relação ao nosso negócio, trata-se de um país promissor, e que vai crescer bastante no longo prazo”, ressalta.

Sobre suas incumbências como profissional de marketing hoje, Patini afirma que não é possível ser somente reativo. “É fundamental adaptar alguns produtos e criar outros para aproveitar as oportunidades e maximizar o valor da companhia”. VanDyck Silveira, CEO de educação executiva e aprendizado corporativo da IE Business School, concorda: “Saímos do ‘querer vender e persuadir’ para o ‘querer se relacionar’.”

É justamente para a ampliação de competências que Maximiliano Tozzini Bavaresco, sócio-fundador da Sonne, consultoria especializada em “branding”, chama a atenção. Para ele, tem acontecido uma extrapolação daquilo que o marketing vinha tratando nos últimos 20 anos. “A disciplina caminhou para um modelo de negócio ligado à publicidade e propaganda, inclusive na cabeça das pessoas”, afirma. Agora, cresce a preocupação com aspectos como pesquisa de mercado, design e gestão da marca.

Em relação a esse último enfoque, Bavaresco menciona o exemplo da P&G, que recentemente aboliu o termo marketing de suas nomenclaturas de cargo, substituindo-o por marca – um diretor de marketing, por exemplo, agora é diretor de marca. O objetivo é promover uma integração maior entre as diversas facetas que compõem o perfil da área.

Nesse contexto, buscam-se profissionais que tenham condições de dar uma visibilidade diferente ao negócio em função de posicionamento e concorrência, de acordo com Paulo Alvarenga, sócio-diretor da consultoria Crescimentum, que oferece coaching para executivos. A necessidade desse tipo de mudança se deve às dificuldades econômicas do mercado e também a uma quantidade expressiva de fusões e aquisições entre empresas, as quais em geral demandam redefinições de estratégias de produto em novas frentes de atuação.

“O momento pede um comportamento mais agressivo, ousado, assertivo e focado em resultado. Um profissional que trabalhe em equipe, tire todo mundo da zona de conforto, tenha competência para a gestão de pessoas e seja responsável por alinhar a estratégia a uma visão de futuro”, enfatiza. Ou, na percepção de Bavaresco, que case “o micro da ação tática pontual com o macro do conceito da marca”.

Um dos componentes desse conjunto de atribuições é a definição do preço. Essa variável mais tática vinha sendo esquecida, segundo Riccardo Morici, professor de marketing do MBA da Fundação Instituto de Administração (FIA) e consultor sênior da Progressus, especializada em marketing e vendas. “Algumas empresas começam a dar mais valor ao assunto. Elas adotam uma precificação dinâmica em função dos movimentos da concorrência.” O consumidor brasileiro, na opinião de Morici, está mais racional e sensível ao custo-benefício daquilo que adquire – maneira de agir mais próxima do padrão europeu e do americano.

As companhias, por sua vez, exercem uma pressão maior por resultados de curto prazo, e o marketing é uma área muito cobrada por estar intimamente ligada à demanda. “Sua visão, no entanto, deve ir além das necessidades do consumidor. É preciso entender para onde o negócio caminha.”

As empresas estão sendo mais precavidas na hora de contratar executivos da área e, de acordo com Bavaresco, da Sonne, às vezes optam até por quem não possui uma formação específica em marketing “Muitos dos profissionais têm ‘background’ em outras disciplinas, como matemática e engenharia de produção.” Sinal de que a qualificação requerida ultrapassa as fronteiras do campo mercadológico.

Fonte: Edson Valente | Valor Econômico, 20/08/2014 às 05h00

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: Recuo na construção civil deve ser o maior desde 1996

Se o movimento de queda e recuperação dos investimentos no Produto Interno Bruto (PIB), de 2012 para 2013, foi marcado pelos aportes em caminhões, neste ano o problema está também na construção civil. Segundo o Monitor do PIB, relatório do Ibre/FGV, houve perdas intensas na indústria da construção (-9,1%) e na indústria de transformação (-7,6%), na comparação do segundo trimestre com igual período de 2013.

“A construção é muito importante para os investimentos, e o setor de máquinas e equipamentos é o que mais sofre na transformação”, ressalta o economista Claudio Considera, responsável pelo Monitor do PIB e que já esteve à frente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE.

Na queda de 5,9% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) projetada pela LCA Consultores para o ano, a construção civil terá recuo de 3,7% e os bens de capital, onde são classificados os caminhões, de 7,4%. Embora a queda na construção seja menor, será a maior desde 1996, segundo Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria.

Em janeiro de 2012, começou a valer o novo padrão de motores a diesel para caminhões, o chamado euro-5. Menos poluentes, esses motores são também mais caros. Então, o empresário que pôde antecipou a compra de caminhões para 2011, para conseguir os preços mais em conta dos motores antigos.

O resultado: os investimentos em caminhões despencaram em 2012. No ano seguinte, subiram fortemente, em parte porque a base de comparação com o ano anterior era fraca. Agora, esse efeito não existe mais e, mesmo assim, os investimentos estão caindo.

 

Fonte: VINICIUS NEDER, IDIANA TOMAZELLI – O ESTADO DE S. PAULO, 16 Agosto 2014 | 22h 55

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: Por que o preço da prostituição está caindo

Pesquisa com 190 mil perfis de profissionais em 12 países aponta as razões da queda do valor recebido pelas trabalhadoras de uma das mais antigas profissões do mundo

Em 2006, o preço médio de uma hora de sexo era de US$ 340, mas em 2014 caiu para US$ 260.

 

A revista The Economist analisou 190.000 perfis de trabalhadoras do sexo em websites em que clientes postam comentários. Os dados abrangem 84 cidades de 12 países, o maior número delas nos Estados Unidos e o restante  em grandes cidades de países ricos. De acordo com a análise, o preço de uma hora de sexo com uma prostituta caiu drasticamente nos últimos anos. Em 2006, o preço médio era de US$ 340, mas em 2014 caiu para US$ 260.

A taxa horária de uma prostituta depende de diversos fatores, incluindo os serviços oferecidos e as características físicas da proponente. Aquelas que se aproximam mais da versão estereotipada da beleza ocidental – magras, cabelos loiros e fartos seios – são as que ganham mais.  As que oferecem serviços de nicho, como, por exemplo,  aceitar fazer sexo com dois clientes ao mesmo tempo, também auferem mais. E a localização é importante.  As prostitutas de San Francisco, onde o custo de vida é alto, cobram mais do que aquelas de cidades mais baratas, como Praga.

A queda dos preços pode ser atribuída em parte à crise financeira de 2007-2008. Mesmo em lugares em que os efeitos da crise foram menores, caso de Londres, o setor foi afetado. Em cidades como Cleveland, Ohio, onde o desemprego chegou a 12,5% em 2010, os preços despencaram.

A migração é um outro fator que contribuiu para a redução dos valores. Em grandes cidades como Londres, com um intenso fluxo de imigrantes (mais pobres) os valores cobrados também caíram.

Outros lugares, como Noruega, onde anteriormente as prostitutas locais tentaram estabelecer um “michê” similar, o número crescente de trabalhadoras do sexo tornou difícil manter um controle não oficial de preços. Esse  aumento no número de pessoas que vendem sexo online – caso em que é possível manter o anonimato –  também contribuiu para fazer crescer a oferta local.

Por outro lado, mudanças verificadas dentro da sociedade também podem ter reduzido a demanda. Sexo casual e adúltero são encontrados com mais facilidade hoje do que no passado. O sexo antes do casamento foi aceito e o divórcio é mais fácil, sugerindo que menos homens casados ou solteiros frustrados procuram prostitutas.

As trabalhadoras do sexo queixam-se de que estão ganhando menos do que antes. Mas sua renda não caiu tão exorbitantemente como poderia sugerir o declínio dos preços. Com a mudança em termos de propaganda e coordenação da venda de sexo online,  as prostitutas dependem menos de intermediários, como bordeis e agências, gigolôs, cafetinas. O que indica que elas  ficam com a maior parte da  renda auferida.

Mas vender sexo online implica novas demandas.  Os clientes contatam as prostitutas por meio de websites, e-mail, Facebook e Twitter. Alguns sites permitem que elas informem os clientes onde podem ser encontradas, mas para isto elas precisam atualizar com frequência o seu status, o que consome tempo, de modo que algumas acabam pagando uma pessoa para fazer esse trabalho.

Para as trabalhadoras do sexo, como para todo mundo, tempo realmente é dinheiro.

© 2014 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Terezinha Martino, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Fonte: THE ECONOMIST.COM – O ESTADO DE S. PAULO, 20 Agosto 2014 | 07h 00

Inteligência Competitiva – Recursos Humanos Agências de Comunicação: Perder executivos operacionais é mais arriscado para agências

Apesar de ser a estrela do seriado “Mad Men”, Don Draper não seria a maior perda que sua agência de publicidade poderia sofrer. Seria a saída da “office manager” Joan Holloway, grande conhecedora dos processos internos da empresa, que mais prejudicaria o futuro da organização – aumentando, inclusive, o risco de a agência fechar as portas.

O exemplo resume os resultados de um estudo de autoria dos professores Sekou Bermiss, da McCombs School of Business, da Universidade do Texas, e Johann Peter Murmann, da Australian Business School, sobre o impacto da saída de executivos na sobrevivência de empresas. A série sobre publicitários americanos dos anos 1960, produzida pelo canal AMC e transmitida no Brasil pela HBO, é usada por Sekou, inclusive, nas suas apresentações sobre a pesquisa. “Há várias cenas que mostram que, no momento em que Don Draper e outros sócios quiseram abrir uma nova agência, eles precisaram de Joan para ajudá-los a entender quais materiais e informações da antiga empresa seriam necessários para tornar a nova empreitada viável.”

Os autores da pesquisa analisaram dados da mobilidade de executivos em agências de publicidade da cidade de Nova York entre os anos de 1924 e 1996. No total, tiveram acesso aos dados de mais de cem mil profissionais da área, que passaram por um total de 3.288 agências.

Os professores analisaram o vaivém de profissionais no mercado publicitário para avaliar o impacto que a perda de executivos teve no futuro das agências e identificar quais profissionais foram mais facilmente substituídos. O estudo mostrou que, de fato, a retenção de executivos influencia fortemente a sobrevivência das agências – aquelas que perderam profissionais do alto escalão apresentaram duas vezes mais chance de falir do que as outras. Além disso, agências que perderam CEOs para concorrentes tinham mais chance de falir do que aquelas nas quais o CEO continuou na empresa ou a trocou por um emprego em outro setor.

A extensão do impacto da saída dos executivos dependeu, no entanto, do tipo de trabalho realizado dentro da agência. Aqueles com funções voltadas para os processos internos da empresa, como profissionais responsáveis por operações, RH e finanças, se mostraram mais difíceis de substituir do que aqueles com posições menos operacionais, como executivos de conta ou diretores criativos. “Foi surpreendente ver que profissionais considerados ‘a cara’ da organização não causaram o maior prejuízo ao deixar a empresa, e sim aqueles que muitas vezes possuem status considerados inferiores”, diz Sekou.

As agências que perderam executivos de posições administrativas ou de produção tiveram cerca de 60% mais chance de falir do que aquelas que não sofreram com uma movimentação desse tipo. Já as que perderam executivos criativos tiveram apenas 8% mais chance de falir do que as que não o fizeram. A perda de altos executivos de mídia ou contas também não teve efeito significativo nas chances de uma empresa afundar.

Para Sekou, os resultados indicam que profissionais que conhecem profundamente as características e peculiaridades do negócio acabam sendo mais difíceis de substituir. “Esse conhecimento funcional não impacta apenas suas carreiras, mas seu valor para a empresa.”

Fonte: Letícia Arcoverde | Valor Econômico, 21/8/2014

Dave Ulrich: Transformar ideias em ações é desafio para gestores

SÃO PAULO  –  A maioria dos líderes empresariais de hoje é muito bem preparada e sabe o que precisa fazer. São executivos que estudam nas mais renomadas escolas de negócios, passam por diversos treinamentos, por avaliações de desempenho, por sessões de coaching e de feedback 360º. Mas, mesmo assim, têm uma enorme dificuldade em transformar a teoria em prática, as ideias em ações.

Essa é a opinião de Dave Ulrich, professor, escritor, consultor e cofundador do RBL Group, e considerado um dos mais influentes pensadores de administração do mundo. Ele esteve, quinta-feira, na 40º edição do Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas (Conarh), em São Paulo, onde conduziu palestra sobre o que chama de “liderança sustentável”.

Segundo Ulrich, é muito comum ouvir gestores falando sobre a importância de satisfazer clientes, consumidores e engajar funcionários. Quase sempre, porém, eles não reservam tempo significativo em suas agendas para fazer isso. “Os líderes precisam estar sempre atentos. São eles que criam — e, mesmo que não queiram, replicam — os valores de uma organização”, diz. “Quando cometem erros, por exemplo, eles precisam admitir, se desculpar e aprender com isso”, completa.

Para ajudar os gestores a mudar e a melhorar seu desempenho, Ulrich foca em sete pontos-chave: simplicidade, tempo, responsabilidade, recursos, acompanhamento, aperfeiçoamento e emoção. “Torne mais simples os processos complexos e defina prioridades. Coloque-as no seu calendário, assuma a responsabilidade e garanta os recursos necessários para que as coisas aconteçam. A partir daí, avalie o impacto dessas ações e implemente as melhorias necessárias. O que sustenta tudo isso, no entanto, é a paixão pelo que está sendo feito”, afirma.

Fonte: Rafael Sigollo, Valor Econômico, 22/8/2014

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: Os três tipos de desemprego

Sejam quais forem as causas, os governos precisam compreender o desemprego estrutural: crescimento é suficiente para conseguir trabalho para todos

AP
Fila de desempregados nos EUA: crise estrutural

Durante a recente retração da economia, a taxa de desemprego nos Estados Unidos saltou de 4,4% para 10%. O crescimento econômico de lá para cá se recuperou. Mas o desemprego ainda está longe dos níveis de antes da crise. A taxa nos EUA, 6,2%, ainda está 40% acima do que estava em fins de 2006. Economistas estão recorrendo ao espectro do desemprego “estrutural” para explicar este enigma. O que é isso?

Os economistas com frequência se referem a três tipos de desemprego: “friccional”, “cíclico” e “estrutural”.

Economistas desalmados não costumam se importar com os dois primeiros, que se referem a pessoas que mudam de um emprego para outro e às que são temporariamente dispensadas durante uma recessão.

O terceiro tipo se refere a pessoas que são excluídas – talvez permanentemente – do mercado de trabalho. No jargão econômico, desemprego estrutural tem a ver com a discrepância entre o número de pessoas que estão procurando emprego e o número de empregos disponíveis.

Isto é uma má notícia tanto para os que sofrem com ela como para a sociedade em que vivem. Pessoas sem trabalho por longos períodos tendem a ter a saúde pior do que a média. Os estruturalmente desempregados tampem pressionam os orçamentos da seguridade social.

O desemprego estrutural em economias avançadas vem aumentando há décadas à medida que setores como mineração e produção manufatureira encolhem. Na Grã-Bretanha, entre 1984 e 1992, o emprego na mineração de carvão caiu 77% e na siderurgia, 72%. Comunidades que foram construídas em torno de uma única atividade profissional foram devastadas.

Muitas pessoas afetadas só tinham experiência num emprego de alta e específica especialização. Elas não tinham as habilidades ou atributos necessários para se dar bem em muitos empregos no setor de serviços (como trabalhar num call center ou restaurante). Com isso, ficaram estruturalmente desempregadas.

Um problema diferente pode estar afligindo as economias avançadas hoje. A retração foi realmente terrível e durou anos. Muitas pessoas desistiram de procurar emprego e se retiraram da força de trabalho. Nos EUA, o número destes “trabalhadores desanimados” saltou de 370 mil em 2007 para 1,2 milhão em 2010 (hoje ele é o dobro de seu nível de 2007).

Dos desempregados há mais de um ano, a probabilidade é que apenas um terço encontre trabalho, como os desempregados a menos de seis meses: os empregadores acreditam que os desempregados em períodos mais curtos de tempo são mais motivados e especializados. Portanto, o desemprego prolongado pode se transformar em desemprego estrutural.

Mas o desemprego estrutural não é um simples produto de crises econômicas. Karl Marx (que se considerava um economista) se referia a “um exército industrial de reserva”. Marx defendia que o capitalismo dependia de haver pessoas sem trabalho.

A existência dos desempregados asseguraria que os trabalhadores ficassem assustados demais para pleitear aumentos salariais. Os capitalistas dependiam do desemprego para manter baixos seus custos. Marx exagerou, mas a maioria dos economistas aceitaria que um certo nível de desemprego é inevitável: uma tentativa de alcançar o pleno emprego provocaria uma inflação salarial em massa.

Sejam quais forem as suas causas, os governos precisam compreender o desemprego estrutural. O crescimento econômico em si não será suficiente para conseguir trabalho para todos. Reformas no lado da oferta, com o treinamento de mão de obra (conhecido pelos especialistas como “políticas ativas para o mercado de trabalho”) também são necessárias.

© 2014 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Celso Paciornik, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Fonte: THE ECONOMIST – O ESTADO DE S. PAULO, 21 Agosto 2014 | 10h 08

Será que os economistas são capazes de conquistar corações e convencer mentes? Estudo indica que eles conseguem influenciar pouco no debate político

LONDRES – Antes vistos como nobres profissionais, cada vez mais os economistas mudam sua embalagem para o consumo público. A ascensão do jornalismo de dados ajudou a catapultar os praticantes da mais deprimente das ciências ao domínio público. Entretanto, a lacuna entre o pensamento dos economistas e a opinião pública costuma ser grande. Será que os economistas são capazes de conquistar corações e convencer mentes? Ou será que a ciência econômica é usada apenas para reforçar crenças preexistentes?

Um novo estudo de cientistas políticos da Universidade Duke indica que os economistas podem influenciar a opinião pública, mas somente nos assuntos técnicos. Eles se mostram menos eficazes em se tratando de temas que suscitam debate político. Os autores investigaram como o público enxerga os economistas enquanto grupo, bem como a opinião do público em relação a temas de políticas públicas em relação aos quais os economistas chegaram a um consenso (desde a imigração até o padrão ouro). Eles então compararam o quanto tomar conhecimento do “consenso entre os especialistas” mudava a opinião do público em relação aos temas e à profissão como um todo.

E como se saiu a mais deprimente das profissões? Primeiro, a má notícia. Apesar do consenso entre os especialistas, a maioria dos entrevistados (excluídos os indecisos) discordou dos economistas em relação a cada um dos temas. Apenas 59% dos participantes disseram confiar nos economistas em se tratando de “questões de política econômica” e, para a maioria, essa confiança era tênue. Embora essa desconfiança seja relativamente generalizada entre a maioria dos grupos demográficos, os autores descobriram que os participantes de direita apresentavam propensão significativamente menor de confiar nos economistas.

Mas houve descobertas positivas. Ao serem informados da opinião consensual entre os economistas, os participantes se mostraram mais dispostos a concordar com eles. Entretanto, a dimensão desse efeito variava de acordo com a política econômica em questão. O público se mostrou mais propenso a concordar com os economistas quando indagados a respeito de questões técnicas, como o padrão ouro ou as previsões para a arrecadação fiscal. Mas, nas questões que levam forte carga política, como o comércio com a China ou os méritos da imigração, a probabilidade de o consenso entre os economistas alterar a opinião do público foi bem menor. Como se isso não bastasse, ao serem informados que suas opiniões não condiziam com a posição defendida pela maioria dos economistas, a confiança do público nos especialistas da área diminuiu significativamente. Isso não ocorreu no caso das questões mais técnicas: mesmo quando discordavam dos economistas, a opinião dos participantes em relação a eles não mudou. Parece que em se tratando dos temas mais polêmicos, o público usa os economistas para confirmar preconceitos, perdendo a fé nesses especialistas quando contrariado.

Se os economistas quiserem ter sucesso na tentativa de influenciar e até melhorar as políticas públicas, é fundamental convencer o público. Como os economistas podem oferecer conselhos melhores? Confinar a si mesmos aos conselhos tecnocráticos é algo improvável e pouco útil. São muitas as questões inerentemente políticas a respeito das quais os economistas têm conselhos valiosos a dar. Mas, talvez se os conselhos forem formulados de maneira mais técnica, medindo os benefícios da imigração, por exemplo, em vez de simplesmente defendê-la, os economistas possam garantir que seus conselhos sejam mais eficazes na arena pública.

© 2014 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Fonte: Z.G. – THE ECONOMIST, 24 Agosto 2014 | 07h 00, Publicado em O Estado de S. Paulo.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.858 outros seguidores