Mídias digitais nos EUA devem superar as tradicionais em publicidade

NOVA YORK  –  Com menos de uma década de existência, smartphones e tablets vão arrecadar mais dinheiro de anunciantes neste ano do que as centenárias indústrias de jornal impresso e rádio, uma mostra de quão rapidamente a tecnologia está transformando os hábitos de mídia.

Mas, dada a quantidade de tempo que os americanos gastam em seus dispositivos móveis, os gastos com anúncios digitais poderiam ser muito maiores, uma indicação de que o mercado permanece com incertezas sobre a eficácia do meio.

A empresa de pesquisa eMarketer estima que os gastos com publicidade móvel, que inclui smartphones e tablets, subirão 83% em 2014, para quase US$ 18 bilhões. Os jornais vão atrair cerca de US$ 17 bilhões, enquanto as rádios trarão US$ 15,5 bilhões.

“À medida que mais olhos se voltam para o digital, os dólares começam a segui-los”, diz Cathy Boyle, analista de dispositivos móveis da eMarketer.

Ainda assim, o desequilíbrio permanece gritante. Os adultos americanos passam atualmente quase um quarto do seu tempo destinado à mídia em dispositivos móveis, segundo estimativas do eMarketer. Mas com todo o crescimento previsto para este ano, a participação dos móveis no mercado anunciante ficará em 9,8%. Por outro lado, os adultos americanos gastam apenas 2% do seu tempo de mídia lendo jornais, mas os impressos têm uma fatia de 10% do mercado global, estima o eMarketer.

A resiliência do impresso reflete a preferência do mercado por aquilo que ele conhece, segundo anal istas do setor, além do impacto que ele ainda exerce entre certos varejistas e bens de luxo.

Dow Jones Newswires/Valor Econômico, 22/7/2014

Classe média cresce e deve superar pobres no Nordeste

A classe média está ultrapassando o total de pobres e vulneráveis na única região do país em que ela ainda não era maioria. No Nordeste, segundo levantamento da consultoria Plano CDE com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, a classe C conta com 23,9 milhões de pessoas e há outros 23,7 milhões entre a D e E. Apesar de o primeiro grupo ser ligeiramente maior, ambos representam 45% da população.

Com essa estrutura, a pirâmide de renda da região, semelhante à do Brasil em 2004 – quando tanto a classe C quanto a D e E representavam cerca de 42% do total -, encontra mais espaço para o desenvolvimento social e uma consequente expansão do consumo, pondera Luciana Aguiar, sócia-diretora da consultoria. No Sudeste, por exemplo, 54% estão na classe média e 17% na baixa renda.

O Nordeste assistiu à diminuição significativa de sua população pobre nos últimos dez anos. Entre 2001 e 2012, o ganho de renda das famílias, mais expressivo entre as classes D e E, reduziu a participação da chamada base da pirâmide de 66% para 45% dos nordestinos. A tendência de crescimento real da renda entre os domicílios mais pobres da região indica que esse movimento deve continuar nos próximos anos.

O país passou por uma dinâmica semelhante, mas a “virada” aconteceu antes. Os dados da Pnad de 2012 apontam que pouco mais de 50% dos brasileiros fazem parte da classe média. Há outros 25% na classe baixa e 21% de ricos.

Para Luciana, a tendência de aumento nos rendimentos mais forte entre as famílias de baixa renda deve se sustentar na região nos próximos anos, garantida pela manutenção de políticas de distribuição de renda como o Bolsa Família e pelo forte investimento governamental e privado nos polos industriais – Pecém no Ceará e Suape em Pernambuco, por exemplo. O ritmo, contudo, deve ser influenciado pela desaceleração da atividade no último ano e perder fôlego, ressalva.

Em outra frente, a economia da região pode ser impulsionada pela composição atual da estrutura etária. “O Nordeste ainda vai passar pelo bônus demográfico”, ressalta Luciana, referindo-se à participação dos jovens de 15 a 29 anos na população local, de 26%. Esse vetor, porém, está condicionado ao processo de qualificação profissional da classe média e dos pobres e vulneráveis na região. “Sem uma preparação para competir por um bom emprego, eles podem perder a oportunidade”, avalia.

Um dos achados mais importantes da pesquisa da Plano CDE trata do empreendedorismo individual no Nordeste. Segundo os números da Pnad, metade da classe média é formada por informais ou trabalhadores por conta própria. Essa característica explica, por exemplo, o sucesso do segmento porta a porta – que também resolve a dificuldade de distribuição e penetração que o varejo tem entre as classes de menor renda – e pode virar oportunidade de negócio para as empresas interessadas em investir na região. “Elas podem ganhar muito se virem o consumidor também como parceiro de negócios”, defende.

Além dos exemplos das marcas de cosméticos, Luciana lembra a iniciativa mais recente da Danone, que anunciou expansão da venda porta a porta de iogurte – que vinha sendo testada desde 2011 na Bahia – para outros Estados da região. Em entrevista ao Valor no fim de 2013, a diretora de sustentabilidade, Adriana Matarazzo, afirmou que as 300 mulheres capacitadas em Salvador durante o projeto conseguiam vender, juntas, em média 40 toneladas de iogurte por mês, ou 400 mil unidades.

Fonte: Camilla Veras Mota , Valor Econômico, 21/7/2014

 

Inteligência Competitiva Empresas: Copa piora cenário para balanços no 2º trimestre

As dificuldades encontradas pelo Brasil dentro de campo na Copa do Mundo devem se repetir fora dele nos resultados das empresas abertas, que começam a ser divulgados hoje. O menor número de dias úteis por conta do Mundial tende a complicar ainda mais o desafio de driblar o cenário de atividade fraca e inflação pressionada. “Em momentos de economia menos combalida, o segundo trimestre é mais forte que o primeiro, mas neste ano isso não deve acontecer”, afirma Karina Freitas, da corretora Concórdia.

A queda de 2,67% na cotação do dólar no trimestre deve trazer algum alívio, já que as dívidas em moeda estrangeira são corrigidas pela cotação da divisa americana e a diferença será contabilizada como receita financeira. O efeito tende a ser relevante na comparação anual, já que, entre abril e junho do ano passado, o dólar se valorizou 10% em relação ao real, com impacto negativo sobre o lucro.

Do lado operacional, no entanto, a expectativa é de resultados mais fracos. Mesmo as exportadoras, que vinham se destacando em relação às empresas mais voltadas ao mercado doméstico, tiveram um trimestre mais difícil. Analistas também apontam que iniciativas para gerar eficiência, via cortes de custos ou venda de ativos, também tendem a perder fôlego. “O movimento começou há mais de um ano e hoje há muito menos gordura para queimar”, avalia Karina.

Nesse cenário, a lista dos setores que devem mostrar resultados fracos supera aqueles que devem ter passado por um bom trimestre. A expectativa positiva se concentra em setores com receitas indexadas à inflação, como o de energia elétrica e de empresas de educação. Para o restante da economia, as previsões mais positivas têm se focado muito mais na execução de estratégias que preservem valor em momentos mais delicados da economia do que numa tendência de recuperação geral.

É o caso do varejo têxtil. Entre analistas, é consenso que o setor será um dos mais prejudicados pela redução da atividade gerada pela Copa do Mundo. No entanto, a maior parte deles aposta em bons resultados da Renner, com crescimento de cerca de 6% a 8% nas vendas “mesmas lojas”, abertas há mais de um ano, por conta da coleção acertada de inverno, além de ganhos de margens gerados por redução de custos. Na outra ponta, a expectativa é de queda para o indicador “mesmas lojas” de Hering e Lojas Marisa.

A expectativa é melhor para empresas de itens considerados essenciais, como Pão de Açúcar e Lojas Americanas, que sofrem menos com a desaceleração do consumo. Além disso, o efeito calendário da Páscoa, que caiu em abril neste ano, deve melhorar os resultados na comparação anual. Na avaliação do HSBC, essas empresas estão ainda entre as poucas do segmento que devem ser beneficiadas pela Copa do Mundo, com aumento da venda de cervejas, itens temáticos e produtos de churrasco.

Prévia operacional divulgada pelo Pão de Açúcar mostra que a receita do grupo cresceu 13,4% no segundo trimestre frente a um ano antes, para R$ 15,2 bilhões. O número foi impulsionado principalmente pela área alimentar, que viu avanço de 14,5% no faturamento líquido. Já as vendas da Via Varejo, dona da Casas Bahia e do Ponto Frio, cresceram 8%, sinalizando uma expectativa de expansão mais moderada desse segmento. A previsão é que as varejistas de eletroeletrônicos tenham margens mais apertadas, já que as vendas de televisores, que costumam aumentar durante a Copa, foram piores que o esperado, o que levou a promoções para queima de estoque.

A queda na atividade industrial, provocada em boa parte por conta do Mundial de seleções, também piorou o cenário para as siderúrgicas. Além da queda na demanda por conta do tombo de mais de 12% nas vendas de automóveis no trimestre, o câmbio mais forte fez com que reajustes de preço anunciados no início do ano não vingassem totalmente, explicam analistas.

Victor Penna, do BB Investimentos, afirma que, apesar de tradicionalmente o segundo trimestre ser o melhor de todo o ano, em 2014 não há sinais que apontem para melhora nos volumes de venda em relação aos três primeiros meses. “Está cada vez mais difícil para as companhias reajustarem os preços, ainda mais com o volume de importados aumentando”, explica. Só em junho, as compras de aço estrangeiro cresceram 34,6% frente a maio. Com isso, alguns analistas já temem que as siderúrgicas tenham que dar descontos a seus clientes para não perdê-los.

Expectativa positiva é concentrada em setores com receitas atreladas à inflação, como educação e elétricas

A expectativa é um pouco mais positiva para a Gerdau, cujas receitas geradas na América do Norte respondem por cerca de 30% do total. Para o Credit Suisse, a recuperação do negócio nos Estados Unidos deve melhorar as margens no trimestre. A previsão de analistas é que o crescimento chegue a dois dígitos no volume de aço vendido por lá.

Já para Usiminas, a contínua eficiência na gestão da companhia pode continuar ajudando. Porém, os especialistas alertam para um fôlego cada vez menor na eficácia dos cortes de custos, especialmente por conta da ociosidade das fábricas causada pela baixa demanda. Num cenário de tempestade perfeita, até mesmo a divisão de minério de ferro da mineira e da concorrente CSN deve vir pior, com queda de preços e alta nos custos com carvão.

Para o setor industrial, a perspectiva também não é animadora. A queda na venda de automóveis e bens duráveis e a redução da atividade das fábricas complicaram ainda mais a vida de fabricantes de autopeças e bens de capital. “Essas empresas vêm conseguindo fazer um bom trabalho de ganhos de margens, mas a tendência é que isso comece a perder fôlego”, diz o analistas Danilo de Julio, da Concórdia.

A Randon, de implementos rodoviários, informou que sua receita caiu 10,6% em junho sobre um ano antes, para R$ 302,3 milhões. Para a Fundição Tupy, a equipe de analistas do J. Safra estima recuo de 2% no faturamento, para R$ 780 milhões, com margens afetadas negativamente pelo volume ruim. “O desempenho fraco do mercado doméstico deve ofuscar as melhoras no mercado internacional”, afirmaram os analistas do banco em relatório enviado a clientes.

Sem novos reajustes dos combustíveis, a também Petrobras deve continuar a sentir a pressão de sua área de abastecimento. Com a alta do dólar frente do real na comparação anual e o avanço de 7,1% no preço do petróleo Brent, a defasagem da gasolina e do diesel em relação aos preços internacionais deve continuar a pesar sobre o resultado operacional da estatal, que absorve essa diferença.

Além disso, a comparação anual deve ser prejudicada pela venda de ativos na África para o banco BTG Pactual, que engordou o balanço do segundo trimestre de 2013 em quase R$ 2 bilhões. Do lado positivo, o segundo trimestre foi o primeiro em muito tempo no qual a companhia conseguiu acelerar o crescimento de sua produção de petróleo – o que pode se traduzir em receitas mais elevadas. Entre abril e junho, a média foi de 1,97 milhão de barris diários de petróleo e gás natural liquefeito (GNL) extraídos no Brasil, 2,1% a mais do que nos mesmos meses de 2013.

Entre os poucos destaques positivos da temporada, o setor de energia elétrica deve voltar a repetir o bom desempenho do começo do ano. Além de ter as receitas indexadas à inflação, o preço elevado da energia no mercado de curto prazo deve voltar a favorecer o balanço das geradoras, afirma Karina, da Concórdia.

Fonte: Natalia Viri e Renato Rostás, Valor Econômico, 21/7/2014

O livro de negócios favorito de Bill Gates (por Bill Gates, especial para o The Wall Street Journal)

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John Keatley for The Wall Street Journal

Bill Gates lê uma cópia de “Business Adventures”, de John Brooks, que ele ganhou de Warren Buffett em 1991

Não muito depois de ter conhecido Warren Buffett em 1991, pedi-lhe que me recomendasse seu livro favorito sobre negócios. Ele não hesitou: “É ‘Business Adventures’, de John Brooks. Vou te mandar meu exemplar”. Fiquei intrigado: nunca havia ouvido falar de “Business Adventures” nem de John Brooks.

Hoje, mais de 20 anos depois de Warren tê-lo emprestado para mim — e mais de 40 anos depois de lançado —, “Business Adventures” continua sendo o melhor livro de negócios que já li. E John Brooks continua sendo meu escritor favorito de negócios (e Warren, se você estiver lendo, ainda estou com seu exemplar).

Os mais céticos podem perguntar-se como esta coleção fora de catálogo de artigos dos anos 1960 da revista “The New Yorker” poderia ter algo a dizer sobre os negócios de hoje. Afinal, em 1966, quando Brooks fez um perfil da Xerox, a copiadora mais avançada da empresa pesava 295 quilos, custava US$ 27,5 mil, precisava de um operador em tempo integral e vinha com um extintor, por sua tendência a sobreaquecer. Muito mudou deste então.

Certamente, muitas das características das empresas mudaram. Mas os fundamentos, não. A profunda percepção de Brooks sobre as empresas é tão relevante hoje quanto era na época. Em termos de longevidade, “Business Adventures” compara-se a “The Intelligent Investor”, de Benjamin Graham, lançado em 1949, que Warren diz ser o melhor livro sobre investimentos que já leu.

Brooks cresceu em Nova Jersey durante a Depressão, cursou a Princeton University (onde dividiu quarto com George Shultz, que viria a ser secretário de Estado) e, depois de servir na Segunda Guerra Mundial, voltou-se para o jornalismo, com sonhos de tornar-se romancista. Além de seu trabalho na revista, publicou um punhado de livros, alguns dos quais ainda estão no catálogo. Morreu em 1993.

Como o jornalista Michael Lewis escreveu em prefácio a outro livro de Brooks, “The Go-Go Years”, mesmo quando ele entendia algo errado, “pelo menos entendia errado de uma forma interessante”. Diferentemente de muitos dos escritores de negócios de hoje, Brooks não resume seu trabalho a explicações simplistas para o sucesso ou a lições do tipo “como fazer”. (Quantas vezes você leu que alguma empresa está decolando porque oferece almoço grátis a seus funcionários?). Você não vai achar listinhas em seu trabalho. Brooks escrevia longos artigos que enquadravam um assunto, o exploravam em profundidade, introduziam alguns poucos personagens e mostravam como eles haviam se saído em suas atividades.

No artigo “The Impacted philosophers”, por exemplo, ele usa um caso de manipulação de preços na General Electric GE +0.15% para explorar as falhas de comunicação — às vezes, intencional — que ocorrem para cima ou para baixo na escala hierárquica de uma empresa. Foi, escreve, “uma pane na comunicação intramuros tão drástica que fazia a Torre de Babel parecer um triunfo do bom entendimento organizacional”.

Em “The Fate of the Edsel”, Brooks refuta as explicações mais difundidas para o emblemático carro da Ford que acabou se tornando um fracasso histórico. Aconteceu, não por que o carro foi testado excessivamente em pesquisas de opinião, mas porque executivos da Ford apenas fingiram agir com base no que diziam as pesquisas. “Embora o Edsel supostamente devesse ter sido anunciado e promovido de outras formas, com base nas preferências mostradas nas pesquisas, usaram-se métodos de venda antiquados que não funcionavam, mais intuitivos do que científicos”. Certamente, também não ajudou em nada o fato de os primeiros modelos terem sido “entregues com vazamentos de óleo, capôs que ficavam presos, porta-malas que não abriam e botões que não se conseguia pressionar nem com um martelo”.

Uma das histórias mais instrutivas contadas por Brooks está no artigo “Xerox Xerox Xerox Xerox” (só o título já merecia estar no Salão da Fama do jornalismo). O exemplo da Xerox deveria ser estudado por todos no setor de tecnologia. Começando no início dos anos 1970, a empresa investiu pesadamente em P & D sem relação com copiadoras, incluindo pesquisas que resultariam na criação das redes Ethernet e da primeira interface gráfica para o usuário (o visual que se conhece hoje como Windows ou OS X).

Mas, como os executivos da Xerox não acharam que essas ideias se adequavam a seu negócio principal, optaram por não torná-las produtos negociáveis. Outros entraram em cena e foram ao mercado com produtos baseados nas pesquisas que a Xerox havia feito. Tanto a Microsoft MSFT -0.01% como a Apple, por exemplo, foram buscar ideias no trabalho da Xerox com interfaces gráficas para o usuário.

Sei que não sou o único a ver essa decisão como um erro por parte da Xerox. Eu, certamente, estava determinado a evitar coisas assim na Microsoft. Insisti muito para garantir que continuássemos pensando grande a respeito das oportunidades que criávamos em nossas pesquisas em áreas como o reconhecimento de voz e visão computacional. Muitos outros jornalistas escreveram sobre a Xerox, mas o artigo de Brooks conta uma parte importante dos primórdios da empresa. Ele mostra como foi erigida com uma mentalidade original e fora do convencional, o que torna ainda mais surpreendente que, com seu amadurecimento, a Xerox tenha deixado passar ideias pouco convencionais desenvolvidas por seus pesquisadores.

Brooks também era um contador de histórias magistral. Ele podia criar um texto daqueles que não se consegue largar, como “The Last Great Corner”, sobre o homem que fundou a rede de supermercados Piggly Wiggly e sua tentativa de combater os investidores que tentavam vender a descoberto as ações de sua empresa. Eu mal podia esperar para ver como ele havia se saído (não leia agora, se não quiser saber: ele não se saiu nada bem). Outras vezes, pode-se até imaginar Brooks dando risadas enquanto conta alguma história absurda. Há uma passagem, em “The Fate of the Edsel”, em que um relações-públicas da Ford organiza um desfile de moda para as esposas de jornalistas. Quem apresentava o evento era um homem fantasiado de mulher, o que pode parecer avançado hoje, mas era escandaloso para uma grande empresa dos Estados Unidos em 1957. Brooks comenta, em tom de brincadeira, que as mulheres dos repórteres “conseguiram dar a seus maridos um ou dois parágrafos extras para as histórias que publicaram”.

O trabalho de Brooks é um grande lembrete de que as regras para administrar uma empresa forte e para criar valor não mudaram. Para começar, há um fator humano essencial em cada empreendimento. Não importa se você tem um produto e planos de produção e de marketing perfeitos; ainda vai precisar das pessoas certas, para comandar e levar adiante esses planos.

Essa é uma lição que se pode aprender rapidamente nos negócios e fui lembrado delas em cada passo de minha carreira, primeiro na Microsoft e agora na fundação. Que pessoas você vai apoiar? Suas capacidades são adequadas para suas funções? Elas têm o coeficiente de inteligência e a e inteligência emocional para serem bem-sucedidas? Warren é famoso por sua abordagem na Berkshire Hathaway, BRKB -0.12% em que compra ótimas empresas, comandadas por gerentes brilhantes e, então, lhes deixa caminho livre.

“Business Adventures” é um livro que trata tanto de pontos fortes e fracos dos líderes em circunstâncias difíceis quanto de questões específicas de uma ou outra empresa. O trabalho de Brooks trata, na verdade, da natureza humana e é por isso que resistiu ao teste da passagem do tempo.

(Tradução de Sabino Ahumada)

Bill Gates é copresidente da Fundação Bill e Melinda Gates e cofundador da Microsoft

Publicado no Valor Econômico

Inteligência Competitiva: Indústria da beleza cresce 11%

A Copa do Mundo no Brasil foi ruim para a indústria de beleza em geral, que registrou queda nas vendas em maio e junho, período que antecedeu o torneio. “O que vendeu foi só cerveja, picanha e carvão”, brinca João Carlos Basilio, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec). Apesar do efeito negativo, o faturamento da indústria cresceu 11% no primeiro semestre, uma alta real de 5,5% em relação a igual período do ano passado.

“Diante do quadro que se apresenta, podemos dizer que estamos nos safando bem”, disse o presidente da associação, João Carlos Basilio, ao citar as quedas apresentadas recentemente por outros setores industriais, como o automobilístico e o de máquinas. A desaceleração do crédito, fator que prejudica a indústria de bens duráveis, de certa forma beneficia setores como o de cosméticos, que tem preços menores. Cerca de 2,5 mil empresas atuam no Brasil, e as maiores são Natura, Unilever, Boticário, P&G, Avon e L’Oréal.

A indústria de beleza elevou em 5,2% os investimentos neste ano, com R$ 14,1 bilhões aplicados em marca, ativos e pesquisa e desenvolvimento. Atualmente, diversas empresas inauguraram ou estão construindo fábricas para suportar o volume de vendas que continua crescendo. Até abril, a alta foi de 7% em relação ao primeiro quadrimestre de 2013.

O segundo semestre é historicamente melhor para o setor, mas não deve apresentar grande mudança. A Abihpec estima que o faturamento das fábricas alcance R$ 42,6 bilhões este ano, com alta de 11,8% ante 2013.

A venda de produtos ao consumidor vai ultrapassar a marca de R$ 100 bilhões no ano, após atingir R$ 91,6 bilhões em 2013. Para proteger suas participações de mercado, as indústrias estão mais agressivas. A demanda por produtos do setor é estimulada com aumento de investimentos em marketing, promoções e lançamentos, segundo Basilio. “O mercado está cheio de promoções em todos os canais”, disse. A estratégia deve acarretar perda de margem para as empresas. “Faz parte do jogo. É um mercado muito grande, em que 1% de ‘market share’ representa R$ 1 bilhão, por isso requer muita atenção de todas as empresas”, afirmou o executivo.

A valorização do real em 2014 trouxe alívio à balança comercial do setor, que está em déficit desde 2009, chegando a US$ 412 milhões no ano passado. No primeiro semestre, as importações do setor caíram 12%, enquanto as exportações subiram 1%.

Fonte: Adriana Meyge, Valor Econômico, 11/7/2014 

Inteligência Competitiva Tendências: Futebol também se assiste no cinema

A decisão das distribuidoras de cinema de antecipar lançamentos e fazer promoções durante a Copa do Mundo não só funcionou como também assegurou movimento expressivo durante o período. Muitas das 127 salas de cinema em todo Brasil exibiram também jogos do mundial. Como resultado, as 32 distribuidoras tiveram aumento de público de 25% em relação a junho do ano passado – 15,9 milhões de espectadores – e expansão de 32% na renda, para R$ 197 milhões.

Embora positiva, a iniciativa pode fazer com que o setor encerre o ano com recuo de 20% em renda e público. Em 2013 os cinemas tiveram 150 milhões de espectadores e receita de R$ 1,7 bilhão. O alerta é Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B, portal especializado no mercado de cinema no Brasil.

Para Almeida, com a antecipação de lançamentos no mês passado, julho deve ser mais fraco de expectadores, igualando-se ao movimento do mês anterior – 15 milhões. Se confirmado, o volume representará recuo de 28% em relação a julho de 2013, quando as redes alcançaram 21 milhões de espectadores. Isto porque o período, no ano passado, coincidiu com férias escolares.

Neste ano, devido ao torneio, muitas escolas anteciparam as férias para junho, o que na prática pode levar à redução do público infantil e adolescente nas salas de cinema neste mês.

A rede United Cinemas International (UCI), com sede no Reino Unido e presente em vários países, foi uma das empresas que teve bom movimento em junho. Sem mencionar dados de faturamento, a diretora de marketing da rede no Brasil, Monica Portella, disse que a UCI teve alta de 14,5% de público em junho, na comparação com igual mês do ano passado. São 192 salas no país.

Contudo, Monica disse que o público foi menor nos dias de jogos do Brasil. “Até mesmo porque os cinemas abrem mais tarde e tem menos sessões”, disse. O que ajudou a UCI e outras redes foi a exibição dos jogos da seleção brasileira.

“Este foi o primeiro ano que as redes de cinema exibiram os jogos da Copa ao vivo. Já tínhamos experiência em exibir jogos de futebol e futebol americano, nas decisões da UEFA Champions League [Liga dos Campeões da Europa de futebol] e do Super Bowl [decisão do principal campeonato de futebol americano nos EUA]. Em ambos registramos boa demanda de ingressos, o que se repetiu com a Copa”, afirmou, sem citar números.

A gerente de marketing do Kinoplex, Patricia Cotta, também teve experiência positiva em junho, tanto com os filmes em cartaz, quanto nas salas que exibiram partidas do mundial.

“O movimento durante a Copa foi excelente. Como muitas escolas entraram de férias em junho, os números foram muito bons. Em nossa rede, até 25 de junho tivemos público 15% maior do que igual período de 2013″, afirmou.

Segundo a gerente, o preço do ingresso não mudou, mas foram feitas promoções em vários cinemas, como dias em que todo o público pagou meia entrada, ou às segundas-feiras, quando os ingressos custaram R$ 9 (inteira) e R$ 4,50 (meia entrada).

A empresa responsável pela transmissão dos jogos da Copa para os cinemas é a Cinelive. O gerente-executivo da empresa, Laudson Diniz, disse que o resultado foi positivo, considerando que foi a primeira vez que as salas exibiram o mundial. A companhia estava em negociação com a Fifa desde 2010, mas a aprovação só veio uma semana antes da estreia da Copa de 2014.

“Nosso planejamento técnico já estava pronto, mas o tempo de divulgação faz a diferença e interfere no resultado final. Esse foi nosso maior gargalo”, explicou. Ainda assim, Diniz afirmou que a exibição do jogo de abertura do mundial, dia 12 de junho, foi a maior bilheteria do dia, na comparação com a programação normal dos cinemas.

A Cinelive exibiu 25 jogos em até 127 salas no Brasil. Só os cinemas da região Norte ficaram fora da programação. Segundo Diniz, em dias de jogos do Brasil o público foi muito bom e se aproximou, em volume, da média obtida quando é transmitida a Champions Legue. “Nesses dias chegamos a um público de 10 mil pessoas, 70% da ocupação”, disse Diniz.

Nos outros jogos o movimento foi menor. O gerente ainda não tem os números fechados, mas estima que a lotação foi de 25%. O percentual, segundo Diniz, é a média ocupacional do cinema. “Se levar em conta todos os dias de operação dos cinemas, chega-se à média de 25%”, afirmou. A Cinelive ainda não calculou o faturamento do período.

Fonte: Elisa Soares e Alessandra Saraiva | Valor Econômico, Rio, 15/7/2014

Inteligência Competitiva Empresas 2: Microsoft já ajustou operação no Brasil

Andrew Harrer/Bloomberg

A Microsoft anunciou na quinta-feira um plano de reestruturação para integrar as operações da fabricante finlandesa de celulares Nokia, que envolverá a demissão de até 18 mil empregados no próximo ano, dos quais 12,5 mil serão da Nokia. A reestruturação terá um custo entre US$ 1,1 bilhão e US$ 1,6 bilhão durante os próximos quatro trimestres. Fontes próximas à companhia disseram que a subsidiária brasileira será pouco afetada pela mudança.

Uma fonte do mercado familiarizada com a operação no Brasil, disse que o impacto em território brasileiro será mínimo. A Microsoft está desde 1989 no país. A unidade é atualmente uma das dez maiores operações da softwares no mundo, segundo a própria companhia.

A Microsoft anunciou a compra da Nokia em setembro de 2013, por US$ 7,18 bilhões. Desde então, trabalhou no Brasil para integrar os negócios. A aquisição levou a Microsoft a atingir uma receita anual no país de aproximadamente US$ 2 bilhões, mais que o dobro da receita que a gigante de software teria no país sem a Nokia.

Quando anunciou a aquisição, a Microsoft tinha no Brasil 800 funcionários e a Nokia, 2 mil empregados. Atualmente, de acordo com a Microsoft, as operações combinadas somam 1,2 mil funcionários. Parte dos empregados estão na fábrica da Nokia em Manaus, onde são produzidos 17 tipos de aparelhos, entre smartphones e aparelhos mais simples. A Microsoft também mantém no país desde 2011 um acordo com a Flextronics para produzir o videogame Xbox 360 – a Microsoft possui outra unidade fabril do console na China.

Nos últimos anos, a companhia investiu no Brasil para ampliar sua participação de mercado. Em 2011, a Microsoft inaugurou no país um centro de dados para a oferta de serviços pela internet, no modelo conhecido como computação em nuvem. Em 2012, investiu R$ 200 milhões em atividades de pesquisa e desenvolvimento, e apoio a empresas iniciantes.

Procurada, a Microsoft não quis comentar o assunto no Brasil. Informou apenas em comunicado que a reestruturação “reforça os planos da companhia para simplificar operações e alinhar a aquisição do negócio de dispositivos e serviços da Nokia à estratégia global da corporação”.

Bruno Tasco, analista da consultoria Frost & Sullivan, observou que a Microsoft apresentava uma estrutura inchada e a redução de custos ajudará a companhia na competição com Apple e Samsung na área de smartphones.

Fonte: Cibelle Bouças | Valor Econômico, 18/7/2014. Foto: Andrew Harrer/Bloomberg

Inteligência Competitiva Empresas 1: Microsoft vai demitir até 18 mil funcionários com integração com Nokia

SÃO PAULO  –  A Microsoft anunciou ontem um plano de reestruturação que será colocado em prática para integrar as operações da fabricante finlandesa de celulares Nokia. Como resultado das medidas, a companhia estima que deverá demitir até 18 mil funcionários durante o próximo ano.

A empresa americana de tecnologia disse em comunicado que cerca de 12,5 mil empregados serão dispensados por conta das sinergias e do alinhamentos estratégico das atividades da produtora de aparelhos móveis. A ação trará economia de custos ao grupo.

A reestruturação custará entre US$ 1,1 bilhão e US$ 1,6 bilhão durante os próximos quatro trimestres. Desse total, despesas de US$ 750 milhões a US$ 800 milhões seriam trabalhistas, enquanto entre US$ 350 milhões e US 800 milhões viriam de baixa contábil de ativos.

O anúncio foi feito ontem aos funcionários da Microsoft por meio de e-mail assinado pelo presidente da companhia, Satya Nadella, a todos os empregados. Segundo o texto, os primeiros 13 mil empregados a deixar o grupo serão notificados nos próximos seis meses.

“Vamos oferecer auxílio a todos afetados por essas mudanças, como ajuda na transição de empregos em várias localidades. Todos podem esperar ser tratados com o respeito que merecem pelas contribuições a esta companhia”, disse o executivo na mensagem. “Essas decisões são difíceis, mas necessárias.”

A Microsoft espera concluir o processo de reestruturação que vai resultar nas demissões até junho do ano que vem. A expectativa é que Nadella dê maiores informações sobre as medidas durante a teleconferência que vai explicar o resultado do segundo trimestre deste ano, no dia 22.

Fonte: Renato Rostás | Valor, 17/7/2014

O pensamento e a influência de Michel Foucault na Flip – 2014

Houve um choque no meio acadêmico e literário quando o filósofo francês Michel Foucault morreu em Paris em 25 de junho de 1984, aos 57 anos. Desaparecia repentinamente um dos teóricos mais inovadores da Europa – e um intelectual público militante ainda capaz de agitar opiniões. Neste ano se celebram os 30 anos da “má influência” de Foucault nas ciências humanas, na política e no comportamento sexual. Ele quebrou o tabu de enxergar o homem como centro do saber, denunciou as estratégias de vigilância do micropoder, defendeu causas intoleráveis ao Ocidente como o regime totalitário dos aiatolás no Irã e demonstrou que a mania atual de falar sobre a sexualidade revelava a culpa da sociedade em relação ao tema.

Sua obra é hoje estudada como clássica e sua personalidade transgressiva é considerada tanto um exemplo de liberdade como um estorvo para os intelectuais conservadores. O que sobrou hoje de Foucault tem sido tema de publicações e simpósios no mundo inteiro e será discutido no dia 31 na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com a presença dos escritores Silviano Santiago, brasileiro, e Mathieu Lindon, francês. Este último lança o livro “O Que Amar Quer Dizer” (CosacNaify, 284 páginas, R$ 39,00) sobre sua relação com Foucault “Eu ainda frequentava o apartamento dele quando soube que havia morrido”, diz Lindon, de 58 anos. “Eu perdia meu pai. Ali acabou a minha juventude.”

As circunstâncias da morte de Foucault causaram estranheza – e não apenas em seus amigos. Ele morreu em decorrência da aids, no início da arrancada de uma epidemia que na época era chamada de “câncer gay”. Como os médicos ainda não dispunham de informações sobre a aids, tratavam os pacientes como se fossem vítimas de uma praga que poderia se espalhar sabe-se lá por que meios de contaminação. Assim, Foucault foi isolado em um quarto esterilizado do hospital de Pitié-Salpêtrière – a mesma instituição que ele considerava repressiva e que estudou em livros sobre os métodos de vigilância e internação psiquiátrica, como “O Nascimento da Clínica” (1963) e “História da Loucura na Idade Clássica” (1964). Como na ilustração de uma aula de Foucault sobre os métodos de confinamento dos pacientes, os médicos e enfermeiras que cuidavam dele se vestiam com trajes e capacetes usados para evitar contágio. Durante os 22 dias em que permaneceu internado, foi proibido de conversar com amigos e até de ver televisão. Seu amigo Gilles Deleuze foi barrado no saguão do hospital. Foucault era fã do tenista Joe McEnroe e queria assistir à final do torneio de Roland-Garros, mas a instalação de um aparelho de TV no quarto foi vetada. Nem mesmo o seu companheiro de 24 anos, Daniel Defert, pôde conversar com ele.

Foi uma agonia típica da cultura das celebridades que se iniciava. Centenas de jornalistas, professores e curiosos se aglomeravam na calçada do hospital. Ali mesmo começaram a proliferar os boatos e as maledicências em torno do comportamento nada convencional de Foucault, gay militante, adepto do sadomasoquismo e protetor de um grupo de jovens discípulos, todos drogados e homossexuais.

Por causa dos preconceitos da época, a posteridade imediata de Foucault se revelou ambivalente. Se sua obra se tornou clássica e passou a ser republicada e estudada em todas as universidades (é hoje o autor mais citado em ciências humanas), sua reputação foi questionada e enxovalhada. A vida sexual de Foucault ainda serve como argumento para desqualificar sua obra. O mais recente é o do peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, que desancou o pensamento de Foucault no seu ensaio “A Civilização do Espetáculo” (2012). “A teoria de Foucault é baseada, entre outras coisas, nas incursões que ele fazia nos clubes e saunas gays de San Francisco”, disse-me Llosa em entrevista. “Não é possível dar crédito a esse tipo de transgressão.”

Mesmo assim, apesar de detratores proeminentes, a personalidade de Foucault tem sido reabilitada como símbolo da diversidade, da liberdade de pensamento e do combate à Aids e ao preconceito pela doença. A revisão aconteceu por iniciativa de Daniel Defert e de alguns dos rapazes que Foucault acolhia e hospedava no seu apartamento, na rua de Vaugirard, no centro de Paris, e se tornaram posteriormente autores de sucesso, como Hervé Guibert e Mathieu Lindon, e professores influentes. Herdeiro universal do testamento de Foucault num tempo em que a união homossexual não possuía garantias legais, Defert usou parte da herança para fundar, em 1989, em homenagem ao companheiro, a Aides, organização pioneira de proteção aos portadores do vírus da aids e seus parceiros.

Ele ficou com o apartamento da rua de Vaugirard e a guarda do arquivo de Foucault, com a recomendação de que não publicasse obras póstumas. O arquivo compreende 90 caixas com 37 mil folhas. Foi mais fardo que prêmio. Defert teve de vender o seu apartamento para se mudar para o que pertencia a Foucault e se viu atolado em dívidas ao fisco francês. Viu-se obrigado a usar os tesouros proibidos do arquivo. “Foi um dilema para mim”, diz. “Mas tomei coragem para publicar as séries de cursos no Collège de France, que Michel ministrou a partir de 1970.” Em 2012, Defert começou a negociar a cessão do arquivo para a Biblioteca Nacional da França, em troca de renúncia fiscal. Os dois textos mais cobiçados do acervo são o manuscrito do quarto e último volume do projeto “A História da Sexualidade”, intitulado “Aveux de la chair” (Confissões da carne), que Foucault revisou na cama do hospital, e 29 cadernos de seu diário que cobre quatro décadas de pesquisas. Segundo seu protegido Mathieu Lindon, Foucault não assumiu que tinha aids, até porque não teve tempo para isso. “Foi apanhado de surpresa”, afirma. “Mas a aids virou tema central da cultura a partir da repercussão da morte dele.”

O drama de seus últimos dias ajuda a compreender o que moveu as suas ideias. No apartamento da rua de Vaugirard, Lindon e amigos adoravam a genenorisade de Foucault – que os deixava usar o apartamento à vontade – e se espantavam como, já cinquentão, era capaz de aguentar sessões contínuas de LSD no “recanto Mahler”, um espaço reservado para as viagens lisérgicas, dotado de divãs e toca-discos que tocava sem parar as sinfonias de Gustav Mahler, compositor favorito de Foucault. “Éramos quase meninos e ele nos mantinha à distância das suas práticas sadomasoquistas”, afirma. “Dizia que éramos imberbes para frequentar clubes desse tipo. Ele aproveitava os convites de palestras no exterior para frequentar esses clubes.” Foi numa dessas viagens, conta Lindon, que Foucault foi contaminado pela aids, numa felação que praticou em uma sauna em San Francisco. “Não sabíamos do risco que corríamos e sou feliz por ter sido um dos poucos de minha geração a ter escapado da aids”, diz.

Foucault achava que a promiscuidade sexual era parte da vida. Mas tratava seus pupilos com um jeito paternal, do mesmo modo que Sócrates fazia com seus discípulos. “Ele corrigia nossos textos e dava dicas para falar em público”, lembra Lindon. “Mas não gostava que frequentássemos seus cursos abertos no Collège de France. Era bondoso, sorridente e até capaz de dizer tolices.”

É curioso como um cidadão de costumes tão aparentemente desregrados tenha sido capaz de escrever obra equilibrada e fundamental. “Michel não sacrificou a vida à obra nem a obra à vida”, afirma Lindon. “Ambas avançaram de mãos dadas. Sua vida agitada fazia parte de sua agitação intelectual”. Para Lindon, a lição que deixou ao século XIXI vai além da vontade de fornecer rigor às ciências humanas: “Foucault mostrou que a única forma viver bem é viver mudando.”

Fonte: Luís Antônio Giron | Valor, São Paulo, 18/7/2014

Inteligência Competitiva livros: e-books e a leitura digital

Enquanto o governo decide se concede aos e-books as mesmas isenções tributárias dadas ao livro de papel e resolve se os aparelhos de leitura de livros digitais devem ou não receber o mesmo incentivo, as obras virtuais são cercadas por outra discussão: como os editores chegam a seus valores e por que há tanta discrepância entre eles? Enquanto grandes editoras optam por praticar uma política de preços padronizada, ainda que haja exceções, pequenas editoras chegam ao mercado com o objetivo de trabalhar com o livro digital a um valor reduzido.

A política de editoras como a Companhia das Letras e a Record é clara: o livro digital custa aproximadamente 30% menos do que sua versão física. Essa redução corresponde à economia das empresas ao eliminar do processo editorial o papel, a gráfica e a logística de distribuição. “O grande trabalho editorial não muda tanto. Precisamos encontrar os melhores autores, textos, lapidá-los e alcançar os leitores. Às vezes esse trabalho até cresce pela especificidade dos formatos”, diz Fabio Uehara, supervisor da área digital da Companhia das Letras, editora que verte para e-book 90% dos seus lançamentos. Já Sergio Machado, presidente do Grupo Record, aponta que a baixa escala de vendas ainda é problema: “Para um editor, o livro digital representa o mesmo trabalho, mas com vendas bastante baixas, que ainda não trazem valores significativos”.

Por outro lado, editoras que trabalham apenas com livros virtuais possuem política diferente na hora de formar o preço de seus produtos. Sem precisar se preocupar com os custos que envolvem uma obra feita em papel, as atenções se voltam para outros fatores. “A questão para a gente é ganhar o leitor por impulso. É difícil você decidir fazer o download de algo caro na internet. Você tem de olhar, comprar e pronto”, diz Schneider Carpeggiani, editor da Cesárea, cujos primeiros títulos lançados foram “Polaróides – E Negativos das Mesmas Imagens”, de Adelaide Ivánova (R$ 7,00) e “Aspades ETs Etc”, de Fernando Monteiro (R$ 6,50). “Talvez a diferença no preço tenha relação ao trabalho maior que tivemos com o ‘Polaróides’, que não existia antes. Nesse momento inicial de editoras independentes de e-books no Brasil, o mais importante é dizer que existimos. É dizer que somos possíveis.”

Editora que segue caminho semelhante é a e-galáxia. “Para chegar ao preço de uma obra, levamos em conta o investimento feito, a projeção de vendas e as expectativas de lucro. Assim como no impresso, os livros devem passar por edição, revisão, projeto gráfico, paginação e, conforme a estratégia, marketing e assessoria de imprensa”, afirma o editor Tiago Ferro, que aponta outros dois fatores a favor do e-book. “O livro digital nunca esgota e as redes sociais fazem a diferença para novas formas de divulgação. Cada autor passa a ter relação direta com seus leitores, e a obra está a apenas alguns cliques deles.”

É da e-galáxia o selo Formas Breves, comandado pelo escritor Carlos Henrique Schroeder, que publica semanalmente contos de autores como José Luiz Passos, Elvira Vigna e Nuno Ramos. Com média de 16 páginas, esses textos custam R$ 1,99. “É algo simbólico, para mostrar a viabilidade de uma coleção de contos portátil. Trabalhamos com o preço fixo para que o único juízo seja realmente o de valor literário, não o mercadológico, pois nossa intenção sempre foi defender e difundir o conto”, diz Schroeder. Pelo visto, o projeto vem dando bons resultados. Os contos da Formas Breves já apareceram nove vezes dentre as dez obras mais vendidas da loja virtual da Apple.

Algumas grandes editoras também têm iniciativas semelhantes. A própria Companhia possui o selo Breve Companhia, exclusivamente digital, com títulos entre R$ 1,99 e R$ 5,99, e já fez a experiência de lançar uma obra de forma seriada exclusivamente no formato virtual: “Por Que Você É Minha”, de Beth Kery, foi dividida em oito partes, cada uma ao preço de R$ 2,99. A editora também possui a “Trilogia dos Guardiões”, de L.M. Martins, lançada exclusivamente em e-book a R$ 9,99 cada título.

Esses preços mais acessíveis, se não trazem cifras que sustentem um grande grupo editorial, podem ser uma estratégia para a divulgação. “É interessante e, se conseguir atingir uma quantidade grande de pessoas, o livro pode ter uma boa recepção e detonar um favorável processo de boca a boca. Dependendo da maneira que essas editoras trabalham, os custos são bastante baixos. Então, se o objetivo for mais a divulgação da obra, não vejo por que não possam sobreviver com isso. É um jogo de tostões, medido em valores pequenos. Mas não é uma estratégia vantajosa para uma editora grande, com custos altos”, diz Machado.

Uehara e Machado garantem que na Companhia e na Record os escritores recebem o mesmo valor tanto pelo livro físico quanto pelo digital vendidos. O selo Formas Breves prevê 20% das vendas dos contos para os autores – “o dobro do que paga uma editora convencional em royalties de livros físicos”, diz Schroeder. Já a política da Cesárea é mais agressiva: 50% das vendas vão para o autor e os outros 50% para editora.

As livrarias também têm interesse direto na questão. Na Cultura, as vendas de e-books correspondem a 5% do total de comércio de livros e cada cliente costuma gastar cerca de R$ 25,00 nas compras de obras virtuais. “O preço está de acordo com o que tem de qualidade para se ler, e o leitor identifica isso. Temos títulos baratos e eles não estão entre os mais vendidos”, diz Jonas Antonio Ferreira, diretor de negócios digitais da livraria. “Chegamos a notar que, quando há um grande lançamento, o livro digital corresponde a até 40% das vendas que ocorrem pela internet.”

Fonte: Rodrigo Casarin | Valor, São Paulo, 18/7/2014

 

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