Inteligência Competitiva Empresas: França, um osso duro de roer para a Netflix

Regis Filho/Valor

 Reed Hastings, diretor-presidente da Netflix, foi retratado na capa de uma revista francesa sob o título “O Ogro. Foto:Regis Filho/Valor

Quando executivos da cúpula da Netflix chegaram a Paris este ano para ajudar a preparar uma expansão da companhia na Europa, eles foram recebidos com uma carta aberta de um grupo de produtores de cinema franceses alertando para “uma implosão de nosso modelo cultural”.

A resposta da Netflix foi uma ofensiva charmosa. Em uma série de reuniões com autoridades do governo francês, os executivos disseram que pretendiam injetar dezenas de milhões de euros na França com a comercialização dos serviços da Netflix, acordos para a exibição de filmes franceses mais antigos e programas de TV e, eventualmente, a realização de uma produção original, além de séries de TV rodadas em francês, afirmam pessoas que participaram das reuniões. Segundo essas fontes, a mensagem deles foi: “Vejam bem, não somos o demônio.”

Enquanto se prepara para uma das maiores expansões internacionais de sua história, com o início neste mês do serviço em seis países da Europa ocidental, a Netflix enfrenta um revés provocado pelas gigantes da internet dos Estados Unidos.

O mercado único do continente europeu e o uso intenso da internet fez dele, na última década, um ímã para companhias de tecnologia dos Estados Unidos como o Google e a Amazon.com. Mas enquanto o peso das companhias americanas aumenta, as autoridades reguladoras, políticos e empresas domésticas da Europa cada vez mais se voltam contra elas, por causa de questões como privacidade, impostos e leis de competição.

Há muita coisa em risco para a Netflix, que está apostando muito na expansão internacional com vistas a atingir centenas de milhões de lares com conexão de banda larga para arcar com os crescentes custos de criação de conteúdo. As perdas com streaming internacional deverão quase triplicar no terceiro trimestre (previsão de US$ 42 milhões) em relação ao segundo. É no terceiro trimestre que a Netflix começará a operar na Alemanha, França, Áustria, Suíça, Bélgica e Luxemburgo.

A Netflix alega ter estabelecido uma cabeça de ponte na Europa nos últimos dois anos e meio, ganhando popularidade no Reino Unido, na Holanda e em países nórdicos. Mas ao entrar mais fundo na Europa continental, ela agora precisa lidar com as mesmas preocupações sobre privacidade e impostos direcionadas a muitas companhias americanas que operam no continente.

A reação tem sido mais intensa na França, onde os consumidores adoram os sanduíches do McDonald’s e os programas de TV americanos, mas os políticos lamentam a influência crescente da cultura e das empresas americanas. Neste verão europeu, uma revista francesa colocou o diretor-presidente da Netflix, Reed Hastings, em sua capa, com a manchete: “O Ogro”.

Para aliviar as tensões na Europa continental, a companhia vem perseguindo até agora uma estratégia de engajamento. Há mais de nove meses vem se reunindo com autoridades reguladoras, autoridades que cuidam da privacidade e outros formuladores de políticas da região. A Netflix iniciou discussões de licenciamento com uma série de produtores e sindicatos que controlam direitos autorais. Em junho, transportou um contingente de jornalistas da França, Alemanha e Bélgica para sua sede em Los Gatos, na Califórnia, para entrevistas e passeios pela companhia.

Em junho, também mudou para uma nova sede europeia em Amsterdã. Novas contratações ampliaram o escritório – que é recheado de imagens dos programas que oferece ao público – para mais de uma dezena de pessoas, incluindo o conselheiro-geral David Hyman, que levou sua família para passar um ano na Europa.

“Todos os mercados do mundo têm suas nuances”, diz um porta-voz da Netflix. “Nosso desafio é ser uma grande companhia globalizada que entenda de fato as nuances de cada mercado e faça um excelente trabalho para os consumidores em todas as partes do mundo.”

A França tem sido um osso duro de roer. O país mantém um dos maiores sistemas do mundo (fiscalizado pelo governo) para a promoção cinematográfica e a produção de TV, obrigando os canais de TV e as companhias de mídia a investir em conteúdo doméstico e a pagar impostos culturais – obrigações que frequentemente somam mais de 10% da receita total.

Mas o sistema está cada vez mais ameaçado. Mais canais e opções de visualização na internet estão reduzindo as receitas dos canais tradicionais de TV, reduzindo os recursos disponíveis para o sistema. Canais domésticos como o Canal Plus, da Vivendi, estão indignados por serem forçados a aderir a um sistema ao qual os concorrentes estrangeiros não aderem.

A Netflix deixou claro desde a sua primeira reunião na França que pretende ter sua base fora do país, evitando assim os impostos sobre a cultura franceses. Na Europa, a transmissão para outro país é legal, desde que se tenha licenças para os conteúdos domésticos. “Tentamos convencê-los a se estabelecer na França, mas não pudemos fazer muita coisa”, disse uma autoridade do governo francês.

Um instrumento que o governo francês tentou usar é o chamado púlpito da intimidação, a pressão pública por meio da imprensa. O então ministro da Cultura da França Aurélie Filipeetti disse na imprensa que a Netflix não poderia ser um “passageiro clandestino”, alegando que ela deveria se submeter às regras francesas.

A companhia respondeu com reuniões para resolver o que classificou de concepções erradas. Executivos disseram que a Netflix vem ajudando a formar audiência para os conteúdos domésticos. Eles também disseram às autoridades que a companhia iria aderir voluntariamente à chamada cronologia do cinema francês, que diz que serviços como o Netflix somente podem exibir os filmes três anos após a estreia nos cinemas – uma concessão fácil para uma empresa que tem a maior parte de seu acervo em filmes antigos. No terceiro trimestre, a Netflix começou a se aproximar de produtores franceses com a intenção de também produzir localmente programas de TV.

“Eles entenderam que era algo que precisavam fazer para seduzir o mercado francês”, diz o produtor Pascal Breton, cuja companhia vai produzir para a Netflix uma série policial em oito episódios, “Marseille”, ambientada nesta cidade portuária francesa. Rodar em inglês “nem chegou a ser discutido”, afirma Breton.

Autoridades francesas afirmam não estar desistindo de buscar meios para encorajar companhias como a Netflix a se instalarem no país. Uma ideia é usar a neutralidade da internet como uma alavanca, oferecendo a uma operadora como a Netflix, que exige muita amplitude de banda, acesso preferencial em troca de financiamentos culturais domésticos. Mas a nova ministra da Cultura da França, Fleur Pellerin, disse em uma entrevista radiofônica recente que não há sentido em condenar companhias como a Netflix.

Por enquanto, a batalha comercial está de pé. A Maxdome, da Alemanha, controlada pela ProSiebenSat.1 Media, comprou na semana passada os direitos de exibição de vários programas americanos, incluindo a série “Californication”, do canal Showtime.

Na França, o Canal Plus, que tem 500 mil assinantes para um concorrente da Netflix chamado CanalPlay, diz que está iniciando uma função de visualização off-line para o serviço e reforçando seu acervo de programas de TV e filmes franceses para enfatizar suas raízes domésticas.

“Estamos realizando um grande número de melhorias”, diz Rodolphe Belmer, o executivo número 2 do Canal Plus. “Não é produzindo apenas um programa para a TV que de repente você se torna francês.”

Fonte: Sam Schechner | The Wall Street Journal/Valor Econômico, 12/9/2014

Inteligência Competitiva Empresas – Educação: Setor de ensino perde do Ibovespa

Num movimento atípico para um setor acostumado a constantes altas, as ações das companhias de ensino superior acumulam perdas superiores à desvalorização do Ibovespa neste mês.

Os papéis da Estácio já caíram 17,83% em setembro, até ontem. Ações da Kroton acumulam queda de 13,13%; a Ser Educacional sofre queda de 9% e a Anima é cotada com desvalorização de 7,71%. A menos impactada até o momento é a Abril Educação, que atua no ensino básico. Suas ações caíram 1,84%, E o Ibovespa tem queda de 7,29% (ver gráfico).

Segundo analistas e consultores que acompanham o setor, uma combinação de fatores explica esse desempenho atípico. Entre eles, o mais citado é a eleição do próximo presidente da República e suas possíveis consequências. Há incerteza, por exemplo, em relação ao futuro dos programas de incentivo à educação (ProUni e Fies). Investidores também realocam seus recursos para ativos que podem ter valorização em um cenário de um novo presidente. Além disso, o censo do Ministério da Educação mostrou queda no número de novas matrículas e de alunos formados. E algumas empresas de ensino superior também mostraram desempenho abaixo do esperado no vestibular do meio do ano.

Ontem, especialistas consideravam um elemento adicional. O banco Morgan Stanley divulgou relatório estimando um aumento na taxa de inadimplência dos contratos de Fies, financiamento estudantil, de 10%, em 2012, para 25% em 2017. Segundo os analistas do banco, Javier Martínez de Olcoz Cerdan e Thiago Bortoluci, a perda anual estimada é de R$ 6 bilhões a partir de 2018 e os recursos do fundo garantidor do Fies serão insuficientes para cobrir esse déficit.

O relatório do Morgan Stanley é visto com ressalvas. O Semesp, sindicato das instituições privadas de ensino superior, classificou o relatório como “alarmante e exagerado”. O diretor-executivo da entidade, Rodrigo Capelato, questiona o índice de inadimplência de 10% citado pelo banco. “Acho esse número estranho porque ainda o número de alunos pagando o financiamento hoje ainda é baixo”, disse Capelato, observando que é de 7% a taxa de inadimplência referente ao pagamento de mensalidades.

Os primeiros beneficiários do Fies, ampliado em 2010, começam a pagar o empréstimo em meados de 2015. Após a formatura, o aluno tem carência de 18 meses e pode parcelar a dívida em até 12 anos. Os dois analistas observam que a economia tende a não gerar novos empregos suficientes para absorver os estudantes que estarão saindo das faculdades.

O maior questionamento do mercado diz respeito à projeção de inadimplência do Morgan, de 25%. “O relatório não explica como chegaram neste número”, disse uma fonte do setor.

No começo do mês, o Morgan Stanley produziu outro relatório informando que Marina Silva, candidata ao Planalto pelo (PSB), defende a ampliação do Fies e ProUni, mas, segundo o banco, ela deu indicações de que poderia intervir nos programas.

Outro fator que estaria empurrando para baixo as ações de educação é a migração para papéis que vinham operando em baixa no atual governo e podem ter ganhos a partir de 2015 como os da Petrobras ou de empresas de energia. “Os investidores ganharam muito com educação e pode estar havendo uma rotação de portfólio para papéis de estatais ou de setores regulados”, disse uma fonte. O analista da Brasil Plural, Rubem Couto, lembra que, em setembro de 2013, as ações de educação também caíram devido à oferta inicial de ações da BB Seguridade que atraiu muitos investidores.

E, ao contrário do que era esperado, o censo do MEC mostrando desacelaração em volume de novas matrículas e alunos formados em 2013, após dez anos de crescimento, não impactou tanto as ações das empresas do setor. “O censo do MEC mostrou que o setor como um todo não está tão bem. Mas as empresas de capital aberto conseguiram bons desempenhos em 2013 e no começo deste ano. Mantemos nossa recomendação de compra e não pretendemos reduzir o preço-alvo do papel”, afirmou outro analista.

Procurado pelo Valor, o Morgan Stanley informou que o analista Javier Martínez de Olcoz Cerdan não estava disponível para entrevistas nesta semana.

Fonte: Beth Koike | Valor, 23/9/2014

Inteligência Competitiva – Early Warning: ONU pede novas ações para combater a mudança climática

DivulgaçãoSÃO PAULO  –  Estimulados pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) a dar um novo rumo à luta contra o aquecimento global, os líderes mundiais se comprometeram a fazer contribuições bilionárias para cuidar melhor do planeta.

Na cúpula de um dia, realizada durante a Assembleia Geral da ONU, os países estabeleceram o prazo de 2030 para acabar com o desmatamento, embora tenham surgido sérias dúvidas sobre a possibilidade de cumprir esse objetivo quando o Brasil disse que não iria participar. As florestas são importantes porque absorvem o principal gás do efeito estufa, o dióxido de carbono. Estados Unidos, Canadá e União Europeia assinaram uma declaração para eliminar completamente o desmatamento até 2030.

“Hoje temos de guiar o mundo para uma nova direção”, disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, em seu discurso inaugural. “A mudança climática é a questão definidora de nossa época. Está definindo o nosso presente. Nossa resposta vai definir o nosso futuro.”

Até o meio da manhã, os líderes mundiais haviam prometido um total de US$ 5 bilhões para tornar o mundo mais sustentável, o que pode exigir a redução da combustão de carvão, petróleo e gás, e evitar a destruição das florestas.

UE antecipa metas

A União Europeia ofereceu uma das propostas concretas – com objetivos específicos para depois de 2020 -, segundo a qual seus membros devem reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2030, em comparação com os níveis de 1997. Além disso, as energias renováveis devem corresponder a para 27% da matriz energética do bloco, e os países devem aumentar a eficiência de energia em 30%.

O anúncio surpreendeu os participantes, já que as nações não são obrigadas a oferecer novas metas de redução de gases de efeito estufa para depois de 2020 antes do primeiro trimestre de 2015. Além disso, não havia expectativas de que os europeus assumissem um novo compromisso durante a conferência, uma vez que as preocupações com segurança energética e crescimento econômico estão no topo da lista de preocupações dos 28 países-membros.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, sublinhou que todos esses objetivos podem ser alcançados sem prejudicar as economias locais. Ele acrescentou que, nos próximos sete anos, a UE irá fornecer 3 bilhões de euros para ajudar as nações em desenvolvimento a se tornarem mais sustentáveis. Isso, segundo Barroso, vai alavancar entre 15 bilhões e 30 bilhões de euros em empréstimos e investimento de capital, para preencher lacunas em infraestrutura de energia para fornecer luz para escolas, residências e hospitais de forma sustentável.

“Enfrentar a mudança climática não é uma responsabilidade apenas dos governos. Essa tarefa somente será bem sucedida em uma verdadeira coalizão de todas as partes interessadas, líderes empresariais, instituições financeiras e sociedade civil”, afirmou Barroso. “É essencial que elevemos já a ambição para o corte de emissões pré-2020”, acrescentou.

A UE vai ainda proporcionar um total de US$ 18 bilhões em doações climática a outros países durante os próximos sete anos. O presidente da Comissão Europeia disse que US$ 2,6 bilhões desse total serão alavancados para levantar um adicional de 50 bilhões de euros de investimentos do setor privado.

“Em linha com nossas ambições, estamos ‘integrando’ a ação climática em todas as nossas políticas. Nossa meta é gastar 20% do orçamento geral da UE 2014-2010 em ações climáticas. Isso vai somar até 180 bilhões de euros em investimentos dentro e fora da UE até 2020”, afirmou Barroso.

Outras promessas

Enquanto isso, a França prometeu US$ 1 bilhão e a Coreia do Sul, US$ 100 milhões. Outros, como o Chile, prometeram redução das emissões de gases até 2020.

Ban Ki-Moon, o ator Leonardo DiCaprio, o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore e Rajendra K. Pachauri, que chefiou o painel de cientistas agraciados com o Prêmio Nobel que estudou a questão, advertiram que o tempo urge. Para 2020, o secretário da ONU disse que o mundo precisa reduzir a emissão de gases para evitar a escalada do aquecimento.

Al Gore afirmou que a tecnologia existe para enfrentar a mudança climática. “O que falta é vontade política, que é um recurso renovável.”

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, aproveitou a oportunidade para criticar as “potências poluentes” por terem causado “um mal de dimensões planetárias” e depois quererem fugir de suas responsabilidades.

O ministro do Meio Ambiente do Peru, Manuel Pulgar Vidal, presidente das negociações previstas para o final deste ano em Lima, disse em entrevista à Associated Press que a única maneira de ter resultado neste debate “é unificar todas as vozes”. Mas ele acrescentou que as divisões permanecem em questões-chave.

Fonte: Valor, com Associated Press,

Previsões da McKinsey para os próximos 50 anos são inúteis, por Lucy Kellaway, Financial Times

Será que a McKinsey existirá daqui a 50 anos? Fui tomada por essa dúvida após ler um artigo na revista da consultoria relatando o que os empresários estarão pensando no próximo meio século. A “McKinsey Quarterly” completou 50 anos e optou por comemorar a data com um grande artigo baseado nos muitos anos de pesquisas feitas pelas mentes mais afiadas da companhia.

Como o resultado não é muito incisivo, permita-me resumi-lo: segundo os consultores, o futuro será muito grande e, infelizmente, o passado não será um bom guia para ele. Ou, conforme eles colocam: “[um futuro] com uma maior descontinuidade e volatilidade, com os gráficos de longo prazo não mais apontando para uma trajetória ascendente suave, o desaparecimento de pressupostos antigos e a subversão de modelos de negócios aparentemente poderosos”.

Mais especificamente, três tendências vão moldar esse futuro volátil, descontínuo e subvertido. A primeira é a tecnologia. Seu crescimento será exponencial e haverá “avanços turbinados na conectividade”. A segunda tendência é que o crescimento dos mercados emergentes terá prosseguimento e muitas cidades grandes surgirão em lugares dos quais mal ouvimos falar. Finalmente, no mundo inteiro todos estão ficando mais velhos.

A banalidade disso é espantosa. Essas não são tendências do futuro, e sim do presente; se uma coisa é verdade sobre o futuro distante é que ele tende a não ser regulado pelas mesmas coisas que nos regulam hoje.

Mas espere: há mais. Essas tendências terão “implicações extraordinárias para os líderes globais”, alerta a revista, antes de especificar: “É provável que diferentes regiões, países e indivíduos se deparem com destinos diferentes, dependendo da força e da flexibilidade de suas instituições e políticas”.

Eu seria mais enfática que isso. É certo que alguns países e povos vão se sair melhor do que outros, como sempre foi e sempre será. Quanto à tecnologia, a McKinsey diz que ela vai moldar as empresas “de maneiras inimagináveis”. Isso possui a vantagem de estar correto. Mas tem a desvantagem de ser uma desculpa vergonhosa se você imagina que é seu dever imaginar esses caminhos – e nos contar quais são eles.

A conclusão disso tudo? “Mudar é difícil” – uma declaração tão óbvia que chega a ser espantoso o fato de os autores sentirem a necessidade de apoiá-la com referências a “cientistas sociais e economias comportamentais”.

Há várias coisas que podem ser ditas sobre esse exercício lamentável de futilidade. Primeiro, 50 anos é um período absurdamente longo para se prever alguma coisa.

Contadores, que como um todo são bem mais sensíveis que os consultores de gestão, geralmente não olham para além de um ano quando estabelecem se uma empresa é uma preocupação. Faço parte de um conselho em que às vezes fazemos planejamento para os próximos cinco anos – que é um exercício bem prazeroso, além de ser útil jogar com as várias coisas que podem acontecer -, mas todos sempre tomam isso com cautela.

Segundo, conforme observou meu colega Tim Hartford, um dos motivos de as previsões serem tão inúteis é que elas não são na verdade previsões. São exercícios de marketing. Olhando assim, o artigo da McKinsey parece bem menos idiota. “O estrategista do futuro precisa compreender um mundo em que as ofertas poderão variar… necessitando de abordagens cada vez mais diversificadas. Tudo isso recompensa a agilidade: tanto para ‘ampliar o quadro’ no desenvolvimento de uma estratégia global coerente, quanto para ‘reduzir o quadro’ em segmentos de mercado ou produtos extremamente granulados”. Em outras palavras, os executivos-chefes devem pegar o telefone e contratar logo a McKinsey.

Minha própria previsão é bem diferente. Daqui a 50 anos, a McKinsey não existirá mais. Isso está baseado em três tendências parecidas com as detectadas pela firma. Se a atividade econômica se transferir para cidades novas e distantes, essas são exatamente as partes do mundo onde os consultores ocidentais tendem a não florescer.

A tendência seguinte é que os executivos fiquem mais espertos ao lidar com esse mundo complexo, e assim eles serão mais capazes de resolver seus próprios problemas. Um dos motivos do florescimento dos consultores de gestão é que os executivos-chefes olham para seus subalternos medíocres e terceirizam o trabalho para cérebros mais capazes. Se os talentos internos melhorarem, eles vão parar de fazer isso.

Mas o mais importante é o efeito da tecnologia. Tudo que os consultores fazem para analisar os mercados pode ser feito por qualquer pessoa com uma conexão com a internet. As duas coisas em que as pessoas sempre serão melhores que as máquinas é motivar os outros e ter ideias originais. Mesmo assim, em nenhum desses dois pontos os consultores parecem se sair bem. As consultorias de estratégia não fazem muita coisa em termos de motivação. E quanto à originalidade, se o melhor que a McKinsey pode fazer após anos de estudo é dizer que a tecnologia, a globalização e o envelhecimento estarão presentes nos próximos 50 anos, um robô poderia fazer isso em um instante.

Lucy Kellaway é colunista do “Financial Times”. Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira do Jornal Valor Econômico, 22/9/2014.

Inteligência Competitiva Empresas: Apple diz ter vendido mais de 10 milhões do novo iPhone em 3 dias

Divulgação

NOVA YORK  –  A Apple informou hoje que vendeu mais de 10 milhões de unidades dos modelos iPhone 6 e 6 Plus nos três primeiros dias em que esses celulares foram colocados à venda. Segundo a empresa, esse é um recorde para um lançamento dos telefones da marca.

Um ano atrás, a Apple disse ter vendido 9 milhões dos modelos lançados naquele momento, os iPhones 5C e 5S.

O iPhone está disponível nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, França, Alemanha, Hong Kong, Japão, Porto Rico, Cingapura e Reino Unido. Será vendido em mais 20 países a partir de 26 de setembro e outros mais no fim do ano.

O diretor-executivo da Apple, Tim Cook, disse que a demanda por estes celulares superou as expectativas da companhia. Além das telas maiores, os novos modelos têm processamento mais rápido e um chip wireless para fazer pagamentos com cartão de crédito.

Nos Estados Unidos, os novos celulares custam a partir de US$ 199, na opção conjugada a um contrato de serviço de dois anos com alguma operadora de telefonia celular.

Fonte: Associated Press/Valor, 22/9/2014. Foto: Divulgação

Inteligência Competitiva – Sinais de Mercado: A cinefilia na era da internet

O que têm em comum o fechamento da videolocadora da esquina de casa, em São Paulo, e o lançamento nos EUA daquela que será a última edição do mais popular dicionário de filmes do planeta? Ambos os modelos de negócio foram transformados em cinzas pela internet.

Localizada em Higienópolis, a HM Home Video já fazia parte do cotidiano do bairro quando cheguei, no começo dos anos 2000, em dois movimentados endereços, de um total de quatro lojas da rede. A matriz, que eu frequentava, reunia cerca de 15 mil títulos, apostando tanto nos últimos grandes lançamentos dos estúdios hollywoodianos quanto numa coleção de clássicos, filmes de arte, documentários e títulos nacionais. O único similar paulistano é agora a 2001 Video.

O fechamento da segunda locadora do bairro, há seis meses, já acendera o sinal amarelo. Um mês atrás, uma placa de “Passa-se o ponto” jogava a toalha. “Mantivemos aberto muito além do limite”, me disse um dos sócios, Hermínio Paschoal Filho, em meio à liquidação de cópias que levou compradores a esvaziar num par de dias as estantes preenchidas durante 27 anos.

Em 2007, o fim das atividades em lojas físicas da sucursal brasileira da gigante americana Blockbuster, o que no final do ano passado repetiu-se nos EUA, foi o primeiro grande símbolo do fim de uma era. Uma nova forma de consumo impôs-se rapidamente no mercado, por meio de operadoras de “streaming” digital de filmes como a Netflix e a multiplicação dos canais de TV por assinatura e suas crescentes plataformas digitais.

No fecho de uma crônica na “Folha”, em 18 de agosto, Leão Serva foi certeiro em destacar uma dimensão para além da cinematográfica do fechamento das locadoras: “Como será a vida sem locadoras, esse espaço público de afeto que se esvai”? Seu texto lembrou-me um comentário de Fernando Gabeira num de seus primeiros livros após a volta ao Brasil, quando indagava quem faria, no balanço da repressão e do exílio, o inventário dos afetos perdidos, dos encontros, beijos e abraços para sempre inviabilizados.

Nas metrópoles contemporâneas, com a esfera do trabalho invadindo ininterruptamente o cotidiano privado por meio da vida 24 horas on-line dos “smartphones” e “tablets”, somado, no caso brasileiro, à violência urbana disseminada, videolocadoras e livrarias representam oásis de sociabilização. Reencontros casuais e interações com desconhecidos quebram a rigidez das agendas e dos restritos círculos de amigos, familiares e colegas de trabalho. Com a progressiva desativação desses pontos de encontro, impera o enclausuramento em torno do novo totem: as grandes e pequenas telas frente às quais nos isolamos dentro de casa.

Do ponto de vista da cultura cinematográfica, sem temer soar como um dinossauro reclamão, tampouco sou otimista frente à aparentemente avassaladora oferta on-line. Creio que perdemos, tanto em diversidade quanto em qualidade.

Nem mesmo a Netflix americana, que desembarcou na França nesta semana, apresenta um cardápio minimamente comparável ao de uma videolocadora antenada com o público mais cinéfilo. Não apenas por razões legais, éticas e estéticas, o acervo on-line de cópias piratas tampouco representa uma alternativa. Além disso, por melhor que seja a conexão com a internet e mais avançado o home theater, tenho dúvidas de que a curto prazo teremos por aqui uma experiência como espectador tecnicamente próxima à hoje possível com as cópias em blu-ray.

Deve-se também à internet a extinção do “Movie Guide” anual, do crítico americano Leonard Maltin. Aquela que será a última edição, com 1.632 páginas e cerca de 16 mil resenhas breves, acaba de ser lançada nos EUA. A primeira edição data de 1969, quando Maltin contava apenas 18 anos. Em 1978, seu dicionário de filmes tornou-se bienal e, em 1986, um evento editorial a cada começo de outono americano.

“Uma geração inteira cresceu acostumada a buscar informação em seus celulares ou computadores”, explicou Maltin em entrevista a Pete Hammond, um dos tradicionais colaboradores do guia, publicada sintomaticamente no site “Deadline Hollywood”. “Não são esses os consumidores potenciais de livros físicos de referência. Nossas vendas declinaram radicalmente nos últimos anos.”

Nada que surpreenda, com a facilidade de pesquisas on-line em sites especializados como o IMDb, gerais como Wikipedia e numa infinita blogosfera. Maltin já adiantou que não incluirá o “Movie Guide” nessa onda, pois seu estilo de “resenhas e informações concentradas” foi desenvolvido para o formato livro. “A internet tem um imperativo diferente e regras distintas.”

São mais sutis as as razões para lastimar-se o fim do “Movie Guide”. Como espectador cotidiano e crítico profissional, eu preferiria continuar combinando os dois modelos de pesquisa, somando a hierarquização subjetiva do guia de papel à multiplicidade informativa da internet. E perde-se on-line uma vantagem colateral: a leitura aleatória, com o correr dos olhos pela mesma página impressa, dos verbetes para outros filmes que não aquele pesquisado.

Uma última razão, reconheço de pronto, é eminentemente pessoal: a bibliofilia. Sou fascinado pela fisicalidade do objeto livro, pelo contato tátil com o papel, pelo ritual da virada de páginas. As videolocadoras podem estar condenadas, mas espero que se cumpra uma profecia do crítico americano Harold Bloom: “A aura que envolve o livro impresso jamais desaparecerá”.

Amir Labaki é diretor-fundador do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários.

E-mail: labaki@etudoverdade.com.br

Site do festival: www.etudoverdade.com.br

Publicado no Jornal Valor Econômico, 19/09/2014

Inteligência Competitiva Sinais de Mercado: Editores buscam escritores fora do “centro”

“Latitudes” é a coleção de e-books que estreou recentemente para apresentar a ficção brasileira de fora dos grandes centros. De escritores pouco conhecidos, alguns ainda inéditos, os títulos chegam aos leitores em formato digital, adquiridos via e-galáxia para todas as plataformas.

O novo selo “busca superar barreiras geográficas, distâncias, complicações da logística de distribuição de livros físicos, apostando no crescimento evidente da leitura digital no Brasil e no mundo, para trazer à luz a literatura de grande qualidade produzida por todo o país, longe dos holofotes mais potentes”. As editoras são Mirna Queiroz, à frente da Mombak, que edita a revista “Pessoa”, de literatura lusófona; e a escritora Maria Valéria Rezende, santista radicada em João Pessoa, do recente “Quarenta Dias” (Objetiva), convidada para a curadoria.

Os cinco primeiros escolhidos sairão em sequência: “Aqui as Noites São Mais Longas”, de Geraldo Maciel, “A Paixão Insone”, de Ronaldo Monte, “O Beijo de Deus”, de Dôra Limeira, “Já não Há Golfinhos no Tejo”, de Joana Belarmino, “Palavras Que Devoram Lágrimas”, de Beto Menezes. Três são da Paraíba, um de Alagoas, outro de Pernambuco.

O que caracteriza esses novos textos está longe de poder ser chamado, como no passado, de “regionalista”. Como explica a curadora, a velha etiqueta hoje é redutora. As temáticas e os estilos são dos mais variados e abertos. “A diferença está no talento de cada autor, matizado por um ponto de vista próprio que absorve, certamente, muita coisa do contexto em que vive e por isso mesmo revela um Brasil mais amplo e em acelerada transformação, para o bem ou para o mal. Outra diferença, a meu ver importantíssima, é que voltamos a poder apreciar a imensa riqueza de nossa língua, que corre o risco de ficar esquecida e só se recupera ‘ouvindo’ outros modos de dizer que não apenas o que impera numa ou outra região restrita.”

Não foi difícil encontrar os talentos que iria incluir na estreia. “Num primeiro momento, nem tive de me esforçar”, conta Maria Valéria. “Tenho inúmeros amigos aqui pelas redondezas, ou mais além, que considero escritores excepcionais, e tinha a certeza de que guardavam originais valiosos nas gavetas, porque escrevem constantemente, por gosto e necessidade interior. Vários com belos livros publicados apenas em pequenas tiragens locais, já esgotados e pouco conhecidos fora de suas regiões, pelas razões que podemos facilmente imaginar, dado que a ampla distribuição do livro de papel e a divulgação pela dita ‘grande imprensa’ ou ‘nacional’ é quase inacessível para o que se produz e edita fora do suposto centro do país.”

Se por ora inclui gente de suas redondezas, a curadora informa que não será uma coleção só de escritores do Nordeste. A pesquisa em outras regiões já começou. Como diz, “o melhor de tudo é ver confirmada a minha intuição de que a literatura brasileira pode ser muito mais ampla do que se crê”.

Na Mombak, Mirna anuncia que já se desenha para 2015 uma coleção com escritoras contemporâneas de língua portuguesa. “Achamos que elas também não têm recebido o destaque que merecem.” Esse tipo de projeto não requer investimentos vultuosos, explica a editora, para quem o papel de uma iniciativa independente como a sua é “arriscar, parir o diferente, o desconhecido.”

Para a literatura brasileira, ainda na busca por leitores em meio à dificuldade de circular, os selos digitais são a mais nova – e potencialmente próspera – possibilidade de edição.

Antes do “Latitudes”, esse território vinha sendo conquistado nos últimos meses pelo selo Formas Breves, comandado por Tiago Ferro, da e-galáxia – a mesma que faz a distribuição do “Latitudes” -, com curadoria de Carlos Henrique Schroeder, catarinense que está lançando “As Fantasias Eletivas” (Record). No Formas Breves, privilegia-se o conto: um por semana, ao preço de R$ 1,99. Alternam-se os mais importantes e os jovens estreantes brasileiros.

“A expectativa era dar espaço para bons contistas, iniciantes ou experientes. A repercussão superou as expectativas”, comemora Ferro. “Vários títulos figuraram entre os mais vendidos da Apple Store na categoria ficção e literatura, ao lado de nomes como John Green e E.L. James. Um feito para contistas nacionais”, completa. “Averrós”, de José Luiz Passos, pernambucano radicado nos EUA, é o mais vendido, seguido por “Onde um Bicho Cabe”, do paulista Nuno Ramos, e “Lígia”, do jovem autor carioca Victor Heringer. Estreantes chegaram a vender mais do que em um lançamento tradicional.

Sem tiragem estipulada, os títulos estão sempre à disposição. “É importante mencionar que como os livros não esgotam e estão sempre a alguns cliques de distância dos leitores, acontece muito de alguém comprar o último conto lançado e voltar até o primeiro para comprar a coleção completa”, conta o editor. “Essa agilidade de acesso só é possível no formato digital.”

Ferro acredita que há uma nova dinâmica surgindo para a literatura nos meios digitais. “Uma série de restrições ‘impostas’ pelo modelo impresso somem: não há o problemático cálculo de tiragem que tanto interfere no preço de capa do livro; os custos de produção são muito baixos, já que não há gráfica, distribuição e armazenagem; jovens autores são distribuídos nas melhores lojas, e seus livros são um link tanto quanto os maiores best-sellers; o número de páginas não é mais um grande limitador: é possível publicar um único conto de 10 páginas ou uma coleção de 7 volumes de 500 páginas cada um, ambos por preços acessíveis”.

Como lembra, quando se fala em formato digital e jovens autores, há que considerar o papel das redes sociais para a divulgação. “Sem elas, o livro de um jovem autor seria um link perdido nos algoritmos do Google. Não é mais. As possibilidades de produção e acesso são muito estimulantes para autores e leitores.” De tão entusiasmado com o resultado, a e-galáxia lança novo selo em breve, “Jota”, de jovens e autores consagrados, com curadoria de Noemi Jaffe, escritora e crítica literária. Como prévia, ela lançou na Bienal do Livro de São Paulo seu novo livro de contos, o e-book “Comum de Dois” – diálogos, entre melancólicos e engraçados, de um casal.

Fonte: Joselia Aguiar | Valor, de São Paulo

Inteligência Competitiva – Early Warning: Conteúdo que transforma (2), entrevista com Stephen Engelberg, editor-chefe do “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos

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Engelberg: “Acho que estamos caminhando para um futuro no qual haverá uma mistura de jornalismo pago pela publicidade e modelos como o nosso. Vencerá quem tiver o melhor conteúdo”. Foto: AP

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com Stephen Engelberg, editor-chefe do “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos.

Valor: Qual é o segredo para ganhar tantos prêmios em tão poucos anos de vida?

Stephen Engelberg: Dar tempo, dinheiro e poder aos repórteres para decidir sobre os assuntos que querem investigar. Sabemos que boas reportagens exigem tempo de investigação, e isso pode demorar dias, meses ou anos. Um dos nossos Pulitzers foi ganho com a reportagem de Sheri Fink, que, também sendo médica com Ph.D., utilizou seus conhecimentos e contatos durante mais de um ano para investigar a história ["Escolhas mortais no Hospital Memorial", sobre as decisões que muitos médicos tiveram que tomar sobre quem viveria ou não durante o furacão Katrina em 2009].

“Não temos a pretensão de reinventar o jornalismo, mas humildemente dizemos que somos parte dessa resposta”

Valor: Qual é o salário dos seus jornalistas?

Engelberg: Temos diferentes níveis, desde US$ 40 mil, US$ 50 mil por ano, até US$ 180 mil, US$ 190 mil para os profissionais mais experientes.

Valor: Como funciona o modelo de negócio?

Engelberg: Basicamente, temos cerca de três mil doadores, que pagam desde US$ 5 até milhões de dólares anualmente. No início, recebemos US$ 10 milhões anuais da Sandler Foundation, mas agora estamos diminuindo essa dependência. Arrecadar dinheiro demanda muito tempo e muito esforço, mas o nosso sucesso ajuda nessa arrecadação. Temos também de tomar cuidado com as doações, pois não aceitamos que os doadores interfiram no nosso conteúdo. O certo é que gastamos US$ 0,85 do que recebemos naquilo que interessa: jornalismo de qualidade. Empresas tradicionais de mídia gastam somente US$ 0,15 em jornalismo.

Valor: O jornalismo do futuro será uma atividade sem fins lucrativos?

Engelberg: Acho que estamos caminhando para um futuro no qual haverá uma mistura de jornalismo pago pela publicidade, e nesse ponto espero que o “The New York Times” continue fazendo o sucesso que sempre fez, e modelos como o nosso e ainda muitos outros. A competição é muito maior hoje do que quando comecei no jornalismo. E isso é ótimo. Vencerá quem tiver o melhor conteúdo.

Valor: Mas as redes sociais não estão matando o jornalismo?

Engelberg: Veja o exemplo do Buzz Feed, que está fazendo um tremendo sucesso com a sua audiência on-line e está utilizando este dinheiro para investir em reportagens investigativas. Veja também o exemplo da Al-Jazeera, que está investindo milhões de dólares para conquistar a audiência americana. O futuro vai ser um pouco disso tudo, e isso é ótimo para a nossa democracia.

Valor: Como o senhor mede o sucesso do “ProPublica”?

Engelberg: Sem dúvida não é pelo dinheiro que ganhamos ou pelo tamanho da nossa audiência, mas sim pelas mudanças que ajudamos a promover na sociedade. É o chamado jornalismo comprometido com as mudanças. No entanto, não fazemos campanhas, apenas reportagens. Temos leitores de todos os tipos, mas principalmente gente educada que exige maior nível de aprofundamento nas questões que levantamos.

Valor: Qual é a sua reportagem favorita no “ProPublica”?

Engelberg: Não tenho favoritismo entre os filhos gerados aqui, mas tenho orgulho que muitos deles ajudaram a corrigir falhas no sistema americano de saúde, como nos casos de pagamentos das empresas farmacêuticas aos médicos ou na reportagem sobre os riscos associados ao remédio Tylenol.

Valor: Parte do sucesso de vocês se deve à intensa utilização de bancos de dados.

Engelberg: Sim, utilizamos parte da nossa equipe para coletar dados que hoje em dia estão disponíveis na internet, mas pouca gente tem paciência de coletá-los e ordená-los em uma forma que seja palatável para o grande público.

Valor: Vocês estariam reinventando o jornalismo?

Engelberg: Não temos a pretensão de reinventar o jornalismo, mas humildemente dizemos que, sem dúvida, somos parte dessa resposta.

Fonte: Pedro Augusto Leite Costa | Para o Valor, de Seattle

Inteligência Competitiva – Early Warning: Conteúdo que transforma

AP

Editores Engelberg (sentado à esq.), e Scott Klein (à dir.), em reunião com a equipe do premiado jornal eletrônico “ProPublica”: reportagens que incomodam governos, corporações e lobistas. Foto: AP

Ainda não é imprensa do povo, pelo povo ou para o povo, como o presidente americano Abraham Lincoln se referiu à democracia no discurso de Gettysburg, ante um país destroçado pela Guerra Civil. Ou nem tão radical quanto o mundo idealizado por Karl Marx, para quem a primeira liberdade de imprensa consiste em não ser uma indústria. Mas o “ProPublica”, jornal eletrônico sem fins lucrativos que dá poder (e dinheiro) a duas dúzias de repórteres, não só incomoda governos, corporações e lobistas, como também revigora a própria mídia.

Desde 2008, quando começou a operar em Nova York com uma dotação inicial de US$ 10 milhões da Sandler Foundation, já ganhou dezenas de prêmios, inclusive dois Pulitzers, fez os leitores se arrepiarem com as histórias do furacão Katrina, estancou a prática de corromper médicos com presentes na indústria farmacêutica e pôs gente na cadeia com revelações sobre Wall Street. Foram os primeiros prêmios dessa importância a ser dados a um jornal que, como se diz aqui, não corta árvores para informar pessoas. Recentemente, o “ProPublica” anunciou que chegou a 90 parcerias na imprensa tradicional, a começar pelo maior de todos os jornais, o “New York Times”.

Segredo do sucesso? “Dar poder aos repórteres para decidir quanto tempo [e outros recursos] será necessário para investigar uma boa história”, diz Stephen Engelberg, o editor-chefe que fez carreira como repórter investigativo do “Times” (veja entrevista na pág. 26). “Mas o fundamental é que os nossos parâmetros de sucesso não são medidos pela audiência ou pela lucratividade e, sim, pelas transformações na sociedade que ajudamos a promover por meio da informação”, ressalta.

A receita com a publicidade nos jornais americanos é apenas 46% do que era há sete anos (embora o faturamento on-line esteja aumentando)

A onda do chamado conteúdo transformador, ou consequente, como se dizia nos anos 70, longe das celebridades e outras aberrações, já atinge pelo menos 170 jornais sem fins lucrativos nos Estados Unidos, geralmente financiados por organizações que não querem deixar o jornalismo morrer: o Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, a MacArthur Foundation, o Pew Research Center, a Ford Foundation e a Carnegie Corporation of New York, entre outras. “Não somos a solução para o futuro do jornalismo tradicional, que está sobre um tremendo estresse, mas apenas uma parte do que se tornará esse setor no futuro”, afirma Engelberg.

Organizações sem fins lucrativos na mídia americana remontam a 1846, quando foi fundada uma das maiores agências de notícias do mundo, a Associated Press, hoje com 3 mil jornalistas e 243 escritórios em 96 países. Há também outros exemplos de sucesso, como um dos melhores jornais americanos, “The Christian Science Monitor” ou a revista “Consumer Reports”, a bíblia da defesa do consumidor, o jornal de esquerda “Mother Jones” ou a PBS ou a NPR, as emissoras públicas de TV e rádio dos Estados Unidos, que funcionam basicamente com as doações da audiência. Apesar de sucesso, o jornalismo filantrópico ainda representa apenas 1% do faturamento da mídia no país.

O que se discute agora, no entanto, é se esse formato acabará se tornando majoritário no jornalismo americano, em que a publicidade caiu 49% nos últimos cinco anos, o que motivou a demissão de boa parte dos quase 100 mil jornalistas que atuavam no país, segundo a Newspaper Association of America. Um levantamento do Pew Research Center analisou as finanças, o tráfego on-line e a audiência entre 18 jornais sem fins lucrativos e descobriu que o faturamento está aumentando, os modelos de negócio estão se diversificando e a audiência está começando a crescer.

A receita com a publicidade nos jornais americanos é apenas 46% do que era há sete anos (embora o faturamento on-line esteja aumentando exponencialmente, com ênfase em mobilidade), os 150 mil jornalistas americanos foram reduzidos a 53 mil – o menor nível desde 1978 – e, segundo o Pew, os jornais estão perdendo leitores não somente por causa das redes sociais, mas pela baixa qualidade. A publicidade é ainda a grande fonte de receita (69%), enquanto crescem os meios pagos pela própria audiência (24%) e os meios filantrópicos ou investimentos de capitalistas de risco (1%).

Mais de 15% dos adultos americanos hoje consultam mídia sociais para se informar sobre praticamente tudo. E, mais ainda, segundo o American Press Institute, 69% acessam notícias em celular ou tablet. Ou seja, a solução (até agora, pois pode ainda mudar) é misturar a geração de notícias, mídias sociais e mobilidade em uma só plataforma, como tenta o jornal “The New York Times” em seu novo serviço, o NYT Now. Como compara o articulista da revista “Wired” Frank Rose, os smartphones estão trazendo uma era dourada para o jornalismo. “Se você andasse de metrô em Nova York há alguns anos, veria que os passageiros competiam na arte de dobrar os jornais várias vezes, de forma que não incomodassem outros passageiros. O jornal ficava do tamanho de um tablet – é o que estamos vendo hoje com a leitura de notícias nos celulares.”

Como indústria, a produção de notícias nos Estados Unidos gera US$ 65 bilhões por ano, segundo uma pesquisa do Pew Research Center. O mesmo instituto chama a atenção para a escala: só o Google, que afetou boa parte indústria jornalística com o Google News, gera US$ 58 bilhões ao ano. O setor tecnológico hoje tem tanto dinheiro que praticamente está transformando o meio (tablets, celulares e games, por exemplo) em mensagem. Daí a explosão de negócios, como a compra do “Washington Post” pelo bilionário Jeff Bezos, da Amazon, ou dos investimentos de outro bilionário, Pierre Omidyar, fundador da Ebay, no First Look Media, ou ainda a compra do “News Republic” por um terceiro bilionário, Chris Hughes, cofundador do Facebook.

Fonte: Pedro Augusto Leite Costa | Valor, de Seattle

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Líderes precisam de paranoia produtiva

A receita para as empresas conseguirem sucesso e perenidade no mundo instável atual passa por encontrar um líder que tenha uma “paranoia produtiva” e busque um crescimento com estabilidade. A avaliação é do professor de Morten Hansen, da Universidade da Califórnia, coautor, com o professor Jim Collins, do livro “Vencedoras por Opção” (Great by Choice).

“Os executivos precisam ser paranoicos no sentido de estarem supervigilantes em relação ao que está acontecendo ao seu redor, não apenas dentro da empresa”, diz. Mas essa paranoia precisa se traduzir em ações efetivas para as companhias. “Ele precisa saber o que fazer para se proteger ou reagir a todos os perigos à sua volta”, diz.

Hansen apresentou suas ideias no encontro de governança da Previ deste ano. No livro, os professores estudaram companhias para entender quais os caminhos daquelas que conseguiram sucesso mesmo em ambientes de crise.

O mundo dos negócios hoje, afirma Hansen, é muito turbulento, cheio de mudanças, com cada vez mais novos competidores e novas tecnologias. Mas isso não equivale dizer que as companhias precisam mudar na mesma velocidade. “Mudanças radicais são uma receita perigosa. As companhias que melhor se saíram souberam combinar crescimento com estabilidade e inovação”, diz.

Querer crescer rápido demais, para ele é um erro. “As empresas se arriscam, e tornam-se muito agressivas. Os vencedores, em setores complexos, tendem as ser aqueles mais pacientes e preparados tanto para o melhor cenário quanto para aquele com mais dificuldades”, diz. Isso não significa deixar de crescer, mas buscar um ritmo adequado para tanto.

Para Hansen, a experiência diz que promover executivos de dentro da companhia para o cargo de presidente tem sido boa opção. “Eles têm uma performance melhor, pois já conhecem a empresa. No entanto, aquele que for promovido tem que trazer para o dia a dia ideias novas”, afirma.

Fonte: Ana Paula Ragazzi | Valor, Rio, 19/9/2014

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